sábado, 24 de março de 2012

Teatro Universitário











Centro Acadêmico Álvares Penteado


ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 21/05/1950
Teatro Universitário
Há em nossa capital, com vida permanente, apenas o Teatro Universitário do C.A. Horácio Berlinck. Possui esse teatro cinco anos de vida oficial. É um exemplo que deveria ser seguido por todos os Centros Acadêmicos ou Faculdades de São Paulo. Exemplo podemos tirar também das Universidades Norte-Americanas, onde em cada uma delas existe um grupo teatral permanente. Isso para não sairmos da América. Um grupo de teatro universitário tem a vantagem de congregar, distrair e ilustrar os acadêmicos, dando aos que tomam parte na interpretação um desenvolvimento nas atitudes, nos gestos e na conversação tornando-os mais aptos para a luta diária.
Como o esporte sadio faz parte da vida acadêmica, também o teatro é uma necessidade. Um para o físico, outro para o intelecto.
Desde a vinda do Teatro do Estudante do Brasil para São Paulo, que Paschoal Carlos Magno, seu diretor, deu novo impulso aos jovens estudantes paulistas, e a partir daquela época o gosto aumentou; entretanto nenhum grupo novo surgiu. Pelo contrário, o Grupo Universitário de Teatro desapareceu juntamente com outros grupos amadores, dando origem ao Teatro Brasileiro de Comédia. E, assim, somente o Teatro Universitário do C. A. Horácio Berlinck permaneceu na vida teatral amadorista. Porém, há meses atrás surgiu na Escola de Jornalismo um grupo de teatro dirigido pelo Prof. Georges Readers. Logo após, o Teatro Experimental do Negro, tendo a frente Geraldo Santos, seu incansável diretor que no próximo mês encenará “Todos os filhos de Deus têm asas” de O’Neill. Mas a notícia mais auspiciosa foi a de que a Escola Politécnica, por intermédio de seu Grêmio, fundou também seu grupo de teatro e irá dar um espetáculo em agosto, sob a direção de João Ernesto Coelho Neto. Por fim, alunos da Faculdade de Filosofia também resolveram organizar um grupo de teatro e tivemos imenso prazer em receber a notícia desses moços que desejam, além de estudar filosofia, dedicar-se um pouco ao estudo do teatro.
Parece que 1950 está dando sorte ao Teatro Universitário, pois apenas há um ano atrás somente o do Horácio Berlinck trabalhava nesse sentido, apesar das dificuldades financeiras por que sempre passou e que neste ano pretende apresentar em junho “As mulheres não querem almas”, de Paulo Gonçalves, o inesquecível comediógrafo paulista que tão cedo nos deixou. Nesse espetáculo será feita uma homenagem a esse inigualável escritor e poeta. Para a segunda metade do ano uma peça estrangeira. Nessa época, então com todos os grupos acima mencionados e mais alguns outros poderá ser realizado o 1º Festival Amador, com a participação de cada um, apresentando durante alguns dias suas peças.
Esse programa, não tão difícil de realizar, poderá falhar se a boa vontade e a dedicação de seus componentes não souberem trabalhar com interesse e afinco.
Aos jovens estudantes deve ser dado todo apoio, principalmente das pessoas que a isso for possível, pois sem dinheiro, difícil é realizar qualquer coisa, principalmente teatro.
Se tudo isso sair de acordo com os planos que nos divulgam, brevemente em São Paulo haverá uma vida teatral estudantil digna da “capital artística” do país. Aqui vai, portanto, nossos votos de progresso e bastante sorte aos jovens amantes do teatro. Um dia, num futuro próximo, poderão colher os frutos do seu trabalho vendo que no meio universitário o teatro já não será tão desconhecido como ainda hoje o é. À luta pois!

domingo, 18 de março de 2012

Crítica
















ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 16/04/1950
Acerca de “No fundo do poço”
Muito se tem escrito ultimamente sobre a peça de Helena Silveira “No fundo do poço”. Uns a favor, outros contra. Entretanto, poucos foram os que, além do comentário ao texto, se estenderam e analisaram a encenação. O diretor da peça, Graça Melo, além dos cortes que fez devido a censura, modificou outras partes, mas com a presença da escritora, conforme ficou esclarecido no dia dos debates realizados no teatro. Mesmo aquele dia os comentários feitos foram quase que dedicados ao texto e poucos à encenação. Muitos cavalheiros conhecedores pretensos do teatro, acham que uma crítica teatral, baseia-se somente no texto; que o autor é a suprema pessoa do teatro. Isso é bastante interessante pois, se o ator não o representar e o diretor não a colocar em cena, a peça ficaria no papel e bem guardada numa estante. Desde que se escreva uma peça para ser representada o autor na representação é obrigado a dividir a autoria com o ator e o diretor.
Este é o caso de “No fundo do poço”. Helena Silveira concordou com os cortes e a interpretação do diretor-ator. Daí é absurdo vir alguém e dizer que a peça deve ser levada de outra maneira, porque a intenção da autora não foi seguida.
Nos debates sobre a peça surgiu algo assim, mas Graça Melo soube explicar e mesmo esclarecer muitos pontos que para os leigos eram desconhecidos.
Outro ponto de ataque à direção que surgiu foi a interpretação da parte em que Júlio recorda o passado. Ouvimos e lemos nos poucos comentários à encenação, que a interpretação expressionista estava em desacordo com o texto. Muitos acharam que o cenário da memória está dentro da escola, ou melhor, tendência expressionista e que essa escola já passou e não tem razão de ser, como se arte fosse uma espécie de moda onde as vestimentas passam da época.
Em primeiro lugar estão todos enganados defendendo a teoria de que o autor deve ser respeitado; os nossos amigos erram, pois a própria autora diz na descrição do cenário: “O cenário é concebido expressionisticamente para dar impressão de incúria e pobreza”. Aí está, o próprio ambiente expressionista da peça é marcado pela autora, não sendo pois, uma interpretação livre do diretor.
Outro ponto é sobre a memorização de Júlio, que Graça Melo interpreta à expressionista, talvez para mais salientar o realismo da cena atual com a sua consciência. Com a sua mente de assassino prestes a ser descoberto, atordoado pela polícia ele evoca as cenas que reconstituem a preparação para o ato que praticou. No estado de completa perturbação mental ele só poderia lembrar-se dos fatos retorcendo-os, devido ao seu estado nervoso. Muito bem. Como apresentar isso no palco? Cremos que somente a tendência expressionista nos auxiliaria, somente ela contém os elementos estéticos próprios para a situação. Isso não quer dizer que toda a encenação seja expressionista, apenas as cenas de recordação e que não chegam à totalidade da peça, pois com elas estão entrelaçadas as cenas realistas em igual quantidade. Seria erro usar o expressionismo, em parte, hoje que ele não é mais novidade? Não. Claro que não! O que significa uma corrente dentro do vasto campo da arte, o que interessa é que a obra tenha elementos de arte se foi concebida dentro dos moldes clássicos, modernos, não importa. Arte é uma só. Os meios de expressão é que variam. A pintura moderna não está voltada às antigas pinturas clássicas, como pesquisa? E por isso deixa de ser arte? Não. Apenas hoje usamos métodos diferentes. Assim é o Teatro, não importa a escola em que se apresente, o que vale é se é ou não Teatro. E parece que não resta dúvida que a encenação de Graça Melo é uma obra de arte. Os nossos amigos, na certa, se a encenação pertencesse a um estrangeiro não discordariam da interpretação, mesmo errada, talvez. Mas como o diretor e a autora são nossos patrícios tudo está errado.
Vamos deixar de resolver nossos problemas em fórmulas estrangeiras, vamos incentivar a nossa produção artística. Não nos faltam valores para isso. Falta-nos apenas incentivo, por isso aqui vai um velho ditado àqueles que não compreendem o esforço e a intenção dos que querem produzir: “Muito faz quem não atrapalha”.