sábado, 31 de março de 2012

Uma pausa para a saudade













Foto: Teresa Pinheiro



Hoje deixamos de publicar os artigos de Osmar Rodrigues Cruz, porque essa é uma semana especial. Dia 2 de abril Osmar completaria 88 anos e dia 7 de abril faz 5 anos que ele nos deixou. Para marcarmos as datas escolhemos trechos de nosso livro, o início do primeiro capítulo, mais propriamente, onde ele narra como seu gosto pelo teatro iniciou-se.

“Durante minha adolescência morávamos numa casa na Lins, onde havia um vasto quintal. Freqüentávamos muito o teatro, meu pai era um apaixonado por teatro, principalmente por Leopoldo Fróes, que morreu em 1932. Comecei a freqüentar teatro em 1934 em Campinas, meu pai ia trabalhar lá, minha mãe, meu irmão e eu ficávamos hospedados na casa de amigos e à noite íamos ao teatro Municipal assistir à Companhia Miramar com Emílio Russo e Norma de Andrade, foi lá que assisti a inúmeras peças e a estréia de Renata Fronzi, que tinha 15 anos, numa peça de César Fronzi.
Era uma peça por noite e foi lá que também assisti a Manhãs de Sol de Oduvaldo Vianna, Retalho de Dario Niccodemi. Todas as peças que fiz depois, Manhãs de Sol no Teatro Popular do Sesi e o Retalho antes, no Centro Acadêmico, foram peças que marcaram muito meu gosto pelo teatro.”
(...)
“Antes de 1938, fiz uma experiência de teatro, havíamos mudado para uma casa grande na Lins de Vasconcelos, que tinha uma enorme garagem e meu pai não tinha carro. Então, de tanto ver e gostar de teatro, resolvi fazer um teatrinho na garagem, cobrávamos palito de fósforo de ingresso, enchemos uma caixa de sapato de palitos de fósforo! Fazia peças improvisadas, a mais pura commedia dell’arte - escolhíamos o assunto, decidíamos quem ia fazer o quê. Eram assuntos do cotidiano: o marido chega e não tem comida pronta, a mulher que está passando roupa, arrumávamos um velho ferro de passar roupa. E assim foi durante algum tempo. Como minha mãe havia morrido, ficávamos com uma empregada, meu pai trabalhava, precisava sustentar os vagabundos em casa! O que acontecia? A empregada ia embora, porque elas iam trabalhar lá em casa, para casar com meu pai, era essa a intenção. Como meu pai não queria casar com elas, elas iam embora! Assim foi com duas ou três. Então, minha avó ia lá, cuidar da casa e da gente, ela era forte, morreu com 95 anos. Ela não queria a criançada dentro de casa, os meninos subiam na árvore para pegar ameixa e ela ficava louca da vida! Quando ela ia lá em casa, tinha de parar o teatro. Ela falava com meu pai e ele pedia para nós, afinal ela ia lá cuidar da gente. Quando arrumava outra empregada e ela tinha certa idade, era ótimo, pois ela não tinha a menor intenção de casar com meu pai, por isso continuávamos a fazer teatro sossegados. Tinha um estrado velho de cama patente de casal na garagem e então colocávamos um tapume em cima e pregávamos uma cortina de parede a parede que funcionava bem, não era a “americana”, não era a do Arquimedes Ribeiro, mas funcionava bem!
Aí começou tudo, eu queria ser ator, não sabia ainda, pois não havia diretor, havia ensaiador. Eu não fazia peça que eu assistia, era teatro de improviso, a molecada se divertia, gritava. Tudo era feito por instinto, era como a commedia dell’arte, porém sem conhecê-la e cada dia uma história, três ou quatro meninos representando. Mas a vida foi mudando, os meninos da vizinhança cresceram e eu, lógico, junto, não tanto, mas junto e continuando a assistir teatro.”

in CRUZ, Osmar Rodrigues Cruz e CRUZ, Eugenia Rodrigues Cruz - OSMAR RODRIGUES CRUZ – UMA VIDA NO TEATRO, São Paulo, Hucitec, 2001

sábado, 24 de março de 2012

Teatro Universitário











Centro Acadêmico Álvares Penteado


ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 21/05/1950
Teatro Universitário
Há em nossa capital, com vida permanente, apenas o Teatro Universitário do C.A. Horácio Berlinck. Possui esse teatro cinco anos de vida oficial. É um exemplo que deveria ser seguido por todos os Centros Acadêmicos ou Faculdades de São Paulo. Exemplo podemos tirar também das Universidades Norte-Americanas, onde em cada uma delas existe um grupo teatral permanente. Isso para não sairmos da América. Um grupo de teatro universitário tem a vantagem de congregar, distrair e ilustrar os acadêmicos, dando aos que tomam parte na interpretação um desenvolvimento nas atitudes, nos gestos e na conversação tornando-os mais aptos para a luta diária.
Como o esporte sadio faz parte da vida acadêmica, também o teatro é uma necessidade. Um para o físico, outro para o intelecto.
Desde a vinda do Teatro do Estudante do Brasil para São Paulo, que Paschoal Carlos Magno, seu diretor, deu novo impulso aos jovens estudantes paulistas, e a partir daquela época o gosto aumentou; entretanto nenhum grupo novo surgiu. Pelo contrário, o Grupo Universitário de Teatro desapareceu juntamente com outros grupos amadores, dando origem ao Teatro Brasileiro de Comédia. E, assim, somente o Teatro Universitário do C. A. Horácio Berlinck permaneceu na vida teatral amadorista. Porém, há meses atrás surgiu na Escola de Jornalismo um grupo de teatro dirigido pelo Prof. Georges Readers. Logo após, o Teatro Experimental do Negro, tendo a frente Geraldo Santos, seu incansável diretor que no próximo mês encenará “Todos os filhos de Deus têm asas” de O’Neill. Mas a notícia mais auspiciosa foi a de que a Escola Politécnica, por intermédio de seu Grêmio, fundou também seu grupo de teatro e irá dar um espetáculo em agosto, sob a direção de João Ernesto Coelho Neto. Por fim, alunos da Faculdade de Filosofia também resolveram organizar um grupo de teatro e tivemos imenso prazer em receber a notícia desses moços que desejam, além de estudar filosofia, dedicar-se um pouco ao estudo do teatro.
Parece que 1950 está dando sorte ao Teatro Universitário, pois apenas há um ano atrás somente o do Horácio Berlinck trabalhava nesse sentido, apesar das dificuldades financeiras por que sempre passou e que neste ano pretende apresentar em junho “As mulheres não querem almas”, de Paulo Gonçalves, o inesquecível comediógrafo paulista que tão cedo nos deixou. Nesse espetáculo será feita uma homenagem a esse inigualável escritor e poeta. Para a segunda metade do ano uma peça estrangeira. Nessa época, então com todos os grupos acima mencionados e mais alguns outros poderá ser realizado o 1º Festival Amador, com a participação de cada um, apresentando durante alguns dias suas peças.
Esse programa, não tão difícil de realizar, poderá falhar se a boa vontade e a dedicação de seus componentes não souberem trabalhar com interesse e afinco.
Aos jovens estudantes deve ser dado todo apoio, principalmente das pessoas que a isso for possível, pois sem dinheiro, difícil é realizar qualquer coisa, principalmente teatro.
Se tudo isso sair de acordo com os planos que nos divulgam, brevemente em São Paulo haverá uma vida teatral estudantil digna da “capital artística” do país. Aqui vai, portanto, nossos votos de progresso e bastante sorte aos jovens amantes do teatro. Um dia, num futuro próximo, poderão colher os frutos do seu trabalho vendo que no meio universitário o teatro já não será tão desconhecido como ainda hoje o é. À luta pois!

domingo, 18 de março de 2012

Crítica
















ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 16/04/1950
Acerca de “No fundo do poço”
Muito se tem escrito ultimamente sobre a peça de Helena Silveira “No fundo do poço”. Uns a favor, outros contra. Entretanto, poucos foram os que, além do comentário ao texto, se estenderam e analisaram a encenação. O diretor da peça, Graça Melo, além dos cortes que fez devido a censura, modificou outras partes, mas com a presença da escritora, conforme ficou esclarecido no dia dos debates realizados no teatro. Mesmo aquele dia os comentários feitos foram quase que dedicados ao texto e poucos à encenação. Muitos cavalheiros conhecedores pretensos do teatro, acham que uma crítica teatral, baseia-se somente no texto; que o autor é a suprema pessoa do teatro. Isso é bastante interessante pois, se o ator não o representar e o diretor não a colocar em cena, a peça ficaria no papel e bem guardada numa estante. Desde que se escreva uma peça para ser representada o autor na representação é obrigado a dividir a autoria com o ator e o diretor.
Este é o caso de “No fundo do poço”. Helena Silveira concordou com os cortes e a interpretação do diretor-ator. Daí é absurdo vir alguém e dizer que a peça deve ser levada de outra maneira, porque a intenção da autora não foi seguida.
Nos debates sobre a peça surgiu algo assim, mas Graça Melo soube explicar e mesmo esclarecer muitos pontos que para os leigos eram desconhecidos.
Outro ponto de ataque à direção que surgiu foi a interpretação da parte em que Júlio recorda o passado. Ouvimos e lemos nos poucos comentários à encenação, que a interpretação expressionista estava em desacordo com o texto. Muitos acharam que o cenário da memória está dentro da escola, ou melhor, tendência expressionista e que essa escola já passou e não tem razão de ser, como se arte fosse uma espécie de moda onde as vestimentas passam da época.
Em primeiro lugar estão todos enganados defendendo a teoria de que o autor deve ser respeitado; os nossos amigos erram, pois a própria autora diz na descrição do cenário: “O cenário é concebido expressionisticamente para dar impressão de incúria e pobreza”. Aí está, o próprio ambiente expressionista da peça é marcado pela autora, não sendo pois, uma interpretação livre do diretor.
Outro ponto é sobre a memorização de Júlio, que Graça Melo interpreta à expressionista, talvez para mais salientar o realismo da cena atual com a sua consciência. Com a sua mente de assassino prestes a ser descoberto, atordoado pela polícia ele evoca as cenas que reconstituem a preparação para o ato que praticou. No estado de completa perturbação mental ele só poderia lembrar-se dos fatos retorcendo-os, devido ao seu estado nervoso. Muito bem. Como apresentar isso no palco? Cremos que somente a tendência expressionista nos auxiliaria, somente ela contém os elementos estéticos próprios para a situação. Isso não quer dizer que toda a encenação seja expressionista, apenas as cenas de recordação e que não chegam à totalidade da peça, pois com elas estão entrelaçadas as cenas realistas em igual quantidade. Seria erro usar o expressionismo, em parte, hoje que ele não é mais novidade? Não. Claro que não! O que significa uma corrente dentro do vasto campo da arte, o que interessa é que a obra tenha elementos de arte se foi concebida dentro dos moldes clássicos, modernos, não importa. Arte é uma só. Os meios de expressão é que variam. A pintura moderna não está voltada às antigas pinturas clássicas, como pesquisa? E por isso deixa de ser arte? Não. Apenas hoje usamos métodos diferentes. Assim é o Teatro, não importa a escola em que se apresente, o que vale é se é ou não Teatro. E parece que não resta dúvida que a encenação de Graça Melo é uma obra de arte. Os nossos amigos, na certa, se a encenação pertencesse a um estrangeiro não discordariam da interpretação, mesmo errada, talvez. Mas como o diretor e a autora são nossos patrícios tudo está errado.
Vamos deixar de resolver nossos problemas em fórmulas estrangeiras, vamos incentivar a nossa produção artística. Não nos faltam valores para isso. Falta-nos apenas incentivo, por isso aqui vai um velho ditado àqueles que não compreendem o esforço e a intenção dos que querem produzir: “Muito faz quem não atrapalha”. 

domingo, 11 de março de 2012

Teatro Amador













Elenco de "O Badejo" com o diretor Osmar Rodrigues Cruz


ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 22/01/1950
Teatro Amador
Vamos hoje discorrer sobre o teatro amador e estudantil, bem como sobre a sua influência e contribuição ao desenvolvimento do teatro nacional e em particular o teatro paulista.
Em todo o mundo são os grupos de amadores que apresentam às platéias de sua terra espetáculos que, por seu alto grau de cultura, muitas vezes não podem ser levados por companhias profissionais por não serem obras de bilheteria, mas cujo valor artístico é respeitável. São sempre os grupos de teatro amador que fornecem a maioria dos atores  e técnicos aos elencos profissionais. Isso se passa tanto aqui como em outras terras. Sendo o teatro uma arte quase que inteiramente prática, o amadorismo é a oficina onde se pratica essa nobre arte. Quantos atores e diretores não surgiram da obscuridade do teatro amador? Stanislawski foi amador na arte cênica durante muitos anos, somente quando fundou o “Teatro de Arte” é que se tornou profissional, mas seu gênio já era o do eterno pesquisador desde o começo da sua vida no palco. Um homem como ele pode ser considerado um gênio da arte dramática, pois seus ensinamentos são seguidos em todo o mundo desde os Estados Unidos até a Rússia seu país de origem. Muitos outros atores, e a lista seria enorme, saíram do teatrinho da sociedade estudantil. Em nosso país a maioria de nossos atores e atrizes foi amador. É o Teatro do Estudante do Brasil que tem sido o maior celeiro de jovens inclinados ao palco. Graças a Paschoal Carlos Magno um grande número de jovens vem servindo o Teatro Brasileiro. Pelo Brasil afora, em cada cidade surge um teatro de estudante com uma vontade enorme de trabalhar e progredir, de poder contribuir para a cena nacional com um pouco de dedicação e esforço.
São Paulo atualmente está pobre de teatro amador, somente o Teatro Universitário do C. A. “Horácio Berlinck”, e o Teatro do Estudante de São Paulo, que recém fundado irá apresentar-se em março com a peça “Nossa Cidade”, e ainda o Corpo Cênico Bancário que tem apresentado aos seus elementos de classe peças nacionais, o que não deixa de ser uma contribuição.
Portanto, apenas três teatros amadores lutam em São Paulo. Aqui, onde devia haver mais de uma dúzia de grupos.
Qual a causa, perguntam? Não se pode responder que ela seja uma só, não. Mas a principal é a falta de apoio quer por parte oficial como particular. O Teatro do Estudante de São Paulo não se apresentou ainda porque a entidade que está patrocinando – União Estadual dos Estudantes – ainda não lhe pôde fornecer os recursos financeiros; por outro lado o próprio grupo não encontra eco em parte alguma. Entretanto, o seu espetáculo é uma novidade para São Paulo, pois nunca a peça de Thorton Wilder foi representada em português para nós. Ali estão mais de trinta jovens esperando um dia poderem apresentar-se ao seu público.
Por que algumas pessoas que possuem dinheiro não auxiliam numa causa dessa? Isso não tem resposta porque ela reside na boca de cada um. No entanto, quantos benefícios não poderiam os grupos amadores oferecer à nossa pobre capital artística!
Em todas as capitais os teatros dos estudantes lutam com o mesmo problema, mas sempre, quando não é o prefeito é o secretário, e às vezes o próprio governador, ou mesmo particulares que auxiliam o grupo. Haja vista o Teatro do Estudante do Paraná, que excursionou por todas as cidades vizinhas representando “Os Espectros” de Ibsen. O mesmo poderia ser feito aqui em São Paulo; cada grupo daria um espetáculo nas cidades próximas, onde nunca se viu uma companhia profissional, justamente porque não há público suficiente para mantê-la. Mas, o amadorismo, dirigindo-se para lá, teria possibilidade de formar esse público. Quantas pessoas no interior do Paraná hoje já sabem o que é um espetáculo e quem foi Ibsen. Mas aqui, quando o Teatro Universitário do C. A. “Horácio Berlinck” representou os “Espectros” os “snobes” e os “entendidos” não apoiaram e muito menos estimularam. Todavia, quantos paulistas não poderiam conhecer Ibsen e ver um espetáculo moderno. Para isso levariam prospectos e fariam apresentação do espetáculo para que a platéia compreendesse a obra do dramaturgo norueguês. Isso deveria ser feito e ainda deve ser feito. Uma missão de cultura está nas mãos dos jovens amadores e estudantes para ser cumprida, mas antes de tudo, senhores, o vosso apoio deve ser dado. A chama do progresso está sempre com os moços, deles é que parte o grito de vanguarda, a sua missão deve merecer o aplauso geral, porque muito precisa o teatro nacional de renovação, e somente a mocidade poderá fornecer essa mudança.




domingo, 4 de março de 2012

Algo sobre o teatro











Encenação da peça "As Mulheres não querem Almas" (1950) 


ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 18/12/1949
Algo sobre o teatro
Na falta de verdadeiros espetáculos para começar, passamos a escrever algo sobre teatro; alguns rudimentos sobre o que vem a ser o ato teatral, qual a sua situação verdadeira. Enfim, o que é a representação de uma peça e quais os seus responsáveis.
Não vamos aqui escrever sobre história do teatro, literatura dramática, arte de representar, direção, etc.; para tanto seria necessário escrever muitos capítulos. Somente pretendemos dar uma ideia do que é a arte do teatro em sua essência, quais os elementos que a formam e que respondem pela sua execução.
Veremos, inicialmente, o que vem a ser teatro: na generalidade, teatro é o lugar onde se passa determinado fato que provoca o interesse geral. Está aí a simples definição do fato a que se dá o nome de teatro. Mas, vamos ver o que é arte teatral. É o espetáculo onde se representa um determinado fato, criado pela imaginação do homem, ao público em geral.
Talvez não possamos reunir nessa definição o que vem a ser essa complexa arte, tão cheia de minúcias como a própria vida. Entretanto, ela define o que é o ato representativo, isto é o espetáculo como arte criadora. Para deixar mais clara nossa ideia daremos dois exemplos que hão de distinguir bem essas duas definições: as crianças quando brincam de “fazer de conta” estão praticando inconscientemente um ato teatral onde a representação é o principal objetivo. Estão “fazendo de conta” que cada um deles é um personagem da história de sua imaginação. Vejamos agora, quando o espetáculo apesar de estar no palco, não é arte teatral, isto é, não possui a essência da arte dramática: no palco estão vários acrobatas, ginastas, mágicos e etc., nenhum deles faz parte de alguma representação, estão apenas mostrando ao público as suas habilidades próprias, sua própria pessoa e não outras, fruto da imaginação criadora de um autor dramático.
Assim, já podemos ter uma simples ideia do que é a arte cênica.
Veremos, agora, quais são os principais criadores dessa arte. Toda ela depende de três fatores iniciais: o autor, o ator, e o diretor. Neles estão contidas todas as inúmeras partículas  de uma encenação, desde o texto até a representação dada ao público. Para a formação desses elementos, há necessidade, é claro, que cada um possua uma preparação no que diz respeito à cultura geral e artística.
O autor é a fonte de onde surge o argumento escrito, o texto, composto dentro das leis da literatura dramática, onde uma determinada ação é transformada em diálogos, dando origem a vários caracteres, com a sua própria constituição sem apresentar semelhança um para com o outro. O enredo deve iniciar por uma apresentação de tipos, depois o choque entre eles que vem a ser o desenvolvimento da história, e, finalmente, o desfecho. Essas considerações, em simples palavras são a fórmula da criação do texto dramático. Assim, conforme a ação, pode-se denominar de tragédia, comédia, farsa, etc.
A seguir temos o ator ou atores; esses têm a seu cargo a transposição para cena dos caracteres escritos pelo autor. É o ator um indivíduo preciso do teatro. É ele que contém em si todos os elementos da expressão corporal na arte dramática, é o único dos três – autor, ator, diretor – que mais diretamente está em contato com o público, servindo de meio entre os outros dois.
Finalmente é o diretor de cena, ou encenador, outro responsável pela arte do teatro. Desde a Grécia, onde surgiu o teatro, é ele um precioso e indispensável elemento da representação. É a mão que coloca, regula e apara a exteriorização de uma peça. Captando a idéia impressa pelo autor no texto, ele controla o trabalho do ator e cria todo aquele universo de som, movimento e luz que é a encenação. Ainda estuda a cenografia, a indumentária, as luzes, a música e a dança , com a colaboração de seus auxiliares. Estuda ele, enfim, a interpretação que dará à obra do autor, colocando em cena a peça sem modificar o seu conteúdo, podendo, entretanto, usar a forma que lhe parecer melhor para expressar a sua concepção e a do escritor, para que o público compreenda a ideia principal. Homem de intuição e cultura artística é o diretor o eixo que controla o espetáculo.
Aqui estão, simples palavras, explicando fatores que para alguns estudiosos nada representa, mas, para outros servirão como esclarecimentos de algo sobre o teatro. Principalmente agora que para o bem de nossa gente ele começa a ter mais adeptos e trabalhadores, o que somente poderá trazer benefícios à nossa cultura.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Teatro de Ideias e de Emoções














Elenco da primeira direção de Osmar Rodrigues Cruz
"Adeus Mocidade" - Teatro Universitário


ARTIGO – “CLAN” – 05/1948
Teatro de Ideias e de Emoções
Ao estudarmos a arte dramática através dos tempos, verificamos que sempre houve em Teatro, a ideia e a emoção. O teatro de ideias é aquele em que o autor faz transparecer um motivo social, moral ou religioso. Tanto na comédia como na tragédia, e a ideia de apresentar o seu ponto de vista sobre determinado fato da vida. Os grandes dramaturgos que desde a Grécia até os nossos dias têm baseado suas peças num tema ideológico, não faziam o que hoje chamamos Teatro espetáculo.
Gino Saviotti chega a dizer no seu “Paradoxo sobre o Teatro” que Ibsen, De Curel, Shaw e Pirandello mataram o Teatro pois suas peças não visam somente a arte, mas sim, um meio para difundir suas ideias. Apesar desses homens terem seus nomes ligados à história da dramaturgia, são considerados, assim como por Saviotti, como literatos, mas nunca dramaturgos.
Por essas sugestões podemos verificar algo sobre esse Teatro. Nós que sabemos o valor daqueles escritores, podemos nos surpreender ao ver tão grandes nomes rejeitados pela Arte Dramática. Entretanto o que o mestre do Conservatório de Lisboa quer dizer é que o “Teatro é somente emoção, que o palco não é tribuna”. Num espetáculo deve existir unicamente o caráter teatral, nada mais.
Após essas deduções nós entramos no setor emocional do Teatro. Na arte o importante é a emoção; pois bem, sendo o Teatro, Arte, forçosamente ele será o reativo para despertar essa emoção. Exemplos temos aqui mesmo, no Brasil com Nelson Rodrigues, nos Estados Unidos com Eugene O’Neill.
Perguntamos qual dos dois deixa de ser Teatro? Tudo depende do ponto de vista em que o leitor compreende o Teatro.
Para nós o Teatro de ideias quase sempre não parece um grande espetáculo do ponto de vista da encenação, exceto em algumas peças. Existem peças que somente contém troca de ideias de problemas sociais ou morais. Para exemplificar podemos citar Joracy Camargo que faz de suas peças, conferências, característica da escola seguida por ele.
Já em Pirandello, que ironiza várias situações sociais e morais, o seu Teatro não deixa de ser ideológico, mas possui bastante teatralidade o mesmo acontecendo com Shaw. O Teatro pode ter um fundo social, mas que não perturbe o seu conteúdo teatral. Talvez por isso é que os encenadores não apreciem tanto esse teatro onde basta um bom ensaiador que cuide da unidade e equilíbrio cênico, não havendo necessidade de um diretor que, além do texto, cuide da parte do espetáculo.
Já o Teatro emocional é aquele em que o encenador prepara o espetáculo em que ele é parte integrante, formando o trio que Bragaglia tanto citou: AUTOR, ATOR, e DIRETOR. No Teatro de emoção, os três são indispensáveis porque os três formam o espetáculo. Nessa escola teatral não existe nada que provoque uma determinada emoção no espectador, nada que o faça sair do teatro aprendendo qualquer coisa, mas que somente a sua sensibilidade saia satisfeita. Ele poderá discutir sobre a teatralidade do espetáculo, mas nunca como nas peças de Ibsen em que se discute se o problema apresentado pelo dramaturgo norueguês é certo ou não. Por isso Shakespeare foi o autor mais procurado pelos encenadores modernos, porque suas peças não possuem indicações de cenários e remarcas, somente texto. Nele o encenador inspira-se e constrói o espetáculo. Podemos discutir os personagens do dramaturgo inglês, mas nunca o teor social ou moral de suas peças. Hamlet, Macbeth, Othelo, Romeu e Julieta, são caracteres humanos, nunca símbolos sociais ou morais, mas símbolos dos sentimentos humanos: a vingança, o ódio, o ciúme, o amor.
Nós adotamos o Teatro emocional mas em absoluto combatemos o outro. Nunca poderíamos dizer que Ibsen não foi um dramaturgo genial. Ibsen teve a sua época deixando um grande nome na história.
Hoje o Teatro é espetáculo, é conjunto, é orientação. É Jean Louis Barrault na França, Bragaglia na Itália, Gordon Craig na Inglaterra, Max Rheinhardt nos Estados Unidos, e Stanislawski na Rússia. O Teatro com esses nomes voltou a ser novamente o espetáculo de Arte. Esses homens fizeram pelo Teatro o que Beethoven pela Música e Picasso pela pintura, quebraram a forma até então usada e iniciaram uma época que servirá de marco para o Teatro do futuro.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Jornalista Osmar Cruz

ARTIGO - Jornal “CLAN” – 09/04/1948
Teatro de Vanguarda
- Que é Teatro de Vanguarda? É aquele que apresenta sempre uma maneira nova em suas realizações. É o teatro que está sempre pesquisando ambiente, formas e estilo. Esta pesquisa não é somente em relação à apresentação do espetáculo, mas desde o autor até um simples foco de luz. Este é então o Teatro de Vanguarda.
O único autor a fazer esse gênero no Brasil é Nelson Rodrigues. Com “Vestido de Noiva” e por último, “Anjo Negro” ele conseguirá, com o decorrer dos anos, fazer com que o público aprecie as peças de Vanguarda, isto sem deixar de lado a direção cênica que Ziembinski dá as suas peças. Esse grande mestre de teatro é no momento, o diretor mais procurado, haja vista que a Sra. Morineau o convidou para dirigir a tragédia grega “Medéia”, com que estreará proximamente.
Nós, somente o ano passado, após três anos de luta no “Teatro Universitário” do Centro, resolvemos iniciar um Teatro de Vanguarda. Mas, faltava-nos a peça. Enfim, resolvemos encenar “Os Espectros”, de Ibsen, tragédia violenta e de grandes dificuldades de interpretações. Demos a esta peça um tratamento novo. Conservamos somente o texto, deixando todas as remarcas, quer de cenários, quer de movimentos cênicos. E procuramos fazer de “Os Espectros” um espetáculo de Vanguarda, mas não este teatro para uma pequena elite, não. Foi para o grande público. O nosso intuito surtiu resultado. Toda a platéia gostou e compreendeu. Isto feito, ficamos satisfeitos. Estamos para reprisar esta tragédia, e aqueles que não a assistiram poderão apreciar e ver mais ou menos o que vem a ser Teatro de Vanguarda. Iniciamos, há poucos dias, a encenação de uma nova peça escrita para o nosso Teatro, por Alair Sá do Valle, intitulada “Os Miseráveis também têm alma”. Peça nossa, feita por nós e será apresentada por nós. Esse será um verdadeiro espetáculo de Vanguarda. Desde o texto até o cenário, tudo será pesquisa no campo teatral. Esperamos que o nosso objetivo seja compreendido e não ridicularizado por pessoas que, presas ao teatro de três paredes com teto, se julgam os sabidões em arte teatral, mas nunca procuraram fazer um pouco por esta arte, que tanto difere do cinema, mas que estava quase morta por eles, tudo por causa desses “profundos conhecedores”, que nunca saíram do campo em que começaram. Assim é que o “Teatro do Estudante do Brasil”, o primeiro reformador do teatro no Brasil, que tanto tem feito, graças ao arrojo e conhecimento de Paschoal Carlos Magno, conseguiu encenar “Hamlet” de Shakespeare, “A Castro” de Antônio Ferreira e proximamente, “Antígona” de Sófocles. Quem consegue levar por amadores três grandes peças como essas só pode merecer o carinho e o aplauso do Brasil todo. Apesar disso ele foi atacado por Procópio Ferreira, o ator que conseguiu vencer enquanto o teatro era privilégio de meia dúzia de atores-diretores que nada de novo davam ao público, muito menos teatro. Mas Paschoal Carlos Magno quebrou essa norma, tornou-se um marco vanguardista no teatro brasileiro, e seu nome será um apoio a todos aqueles que desejarem fazer teatro de verdade. Todo brasileiro deve render-lhe homenagem pela grande obra cultural e artística iniciada por esse animador do teatro. Esses que acham que o teatro é uma tribuna onde devemos pregar a moral, fazendo da sala de espetáculo uma sala de aula, que colocaram o teatro na posição em que até a pouco ele se encontrava, o teatro não é isso, mas sim uma arte. Nós nunca procuramos numa peça de música uma lição de moral, muito menos num quadro de pintura. Interessa-nos somente a estética, a plástica da obra de arte, assim é o teatro, arte como é, em si todas as características, usando e reunindo todas as outras, mas nunca se confundindo. Teatro é somente teatro, quem o faz, baseando-se noutra espécie de arte, não faz teatro, mas sim ajuda a matar o mesmo. Por isso é que no século passado, até o início deste, caiu muito, porque o chamado drama burguês, fez do teatro, literatura, usando o palco para discutir idéias, quando o palco é para se apresentar teatralmente um espetáculo de arte em que somente a sensibilidade poética vibre. Nós ainda não fomos compreendidos, porque, talvez, uma cultura mais aperfeiçoada nos facilitaria a apresentar nossas ideias. Ou quem sabe se a falta da mesma seja geral...
Enfim, continuaremos a fazer teatro “teatral”, aquele que visa somente proporcionar ao público uma sensação nova que possa queimar suas emoções, o suficiente para poder viver no mundo de hoje, onde somente a ambição domina os cérebros dos homens.