sábado, 27 de outubro de 2012

Osmar Cruz e seu Teatro de Arte

Como a narrativa de Osmar em seu livro é muito saborosa, escolhemos como ilustração de hoje o trecho a seguir:

(...) Foi o Carlo Giaccheri quem me convidou para fazer teatro na televisão, não havia teatro ainda, porque a televisão estava começando, eles fizeram uma transmissão externa de “Ralé” do Gorki, mas não faziam teatro na Tupy. Então ele me convidou para fazer teatro ao vivo, o Giaccheri me perguntou quem mais poderia ir e eu indiquei o Antunes, ele fazia numa semana e eu na outra. Eu queria que o teatro se chamasse “Pequeno Teatro de Arte”, mas o Costa Lima que era o diretor geral achou que a palavra “pequeno” era muito ruim, então ele pôs Osmar Cruz e seu teatro de arte. Foi uma experiência muito boa, estávamos começando a fazer teatro, éramos amadores, foi o primeiro dinheiro que eu ganhei com o teatro. O dinheiro é importante, porque nos estimula a profissionalizar. Havia muitas peças a serem escolhidas, mas tinha que se pagar direto autoral e a televisão não ia pagar para ir ao ar apenas por um dia.  Escolhi peças que já tinham sido feitas, entre elas O Imbecil de Pirandello, porque alguém já tinha feito e pago os direitos. Nós ensaiávamos no Centro Acadêmico, estavam o Ítalo Cincini, Nelson Coelho, Aycilma Caldas, outros atores que eu não lembro agora e também o Fábio Sabag, hoje produtor de televisão. Antes de serem levadas ao ar as peças escolhidas, era lido um comentário que constava de uma pequena biografia do autor e uma rápida visão do significado da peça.  Foi um sucesso enorme. A transmissão nesse tempo era feita ao vivo, não havia vídeo tape estávamos em 1951 e não havia televisão em todos os lugares, então a fim de promover os transmissores, a indústria de televisores cedia aos bares um aparelho onde as pessoas se concentravam para assistir. Fiz um repertório e um orçamento de quatro peças, eram dois meses, mas quando a transmissão acabou ficou todo mundo parado, porque a peça “O imbecil” é realmente uma peça empolgante. O tema é simplérrimo mas o Pirandello é genial. É a história de um editor de jornal, que manda chamar uma pessoa que ele conhecia e que estava doente para morrer; então ele chega para ela e diz: - “você vai morrer mesmo, eu te dou um dinheiro e você mata fulano”, que era um inimigo político dele. A peça gira em torno do diálogo dos dois, é muito interessante, eu contando não é, mas a peça é muito interessante. Eu tive o prazer de trabalhar com o Cassiano Gabus Mendes, Heitor de Andrade, Luiz Galon, Renato Galon, foi o primeiro teatro feito ao vivo na TV. Foi um sucesso.

CRÍTICA - DIÁRIO DE SÃO PAULO – 07/11/1951

Tele-Teatro das Segundas-feiras

A PRF3-TV, estação de TV das rádios Tupi – Difusora, inaugurou, Segunda-feira última, com êxito absoluto o seu “Tele-Teatro das Segundas-feiras” apresentando a peça “O imbecil” de Pirandello, na interpretação de “Osmar Cruz e seu teatro de arte”. Caprichosamente dirigida e apresentando valores artísticos de relevo, “O imbecil” conseguiu pleno êxito, agradando a um número bastante grande de tele-assistentes que aguardavam a iniciativa da televisão “associada”. Para a próxima Segunda-feira está programada a peça o “Urso” de Anton Tchecov, na interpretação do Centro de Estudos Cinematográficos sob a direção de José Alves Antunes Filho, cenografia de Carlos Giaccheri e produção de TV de Cassiano Mendes e Heitor de Andrade.

- Eu precisava de uma outra peça que fosse de domínio público, então escolhi uma que eu acho muito bonita, o autor é muito bom, é Uma Tragédia Florentina do Oscar Wilde. Fizemos a peça com trajes e adereços da Casa Teatral, a peça é de época, passa-se no Renascimento. Foi muito interessante, não era “O imbecil”, lógico, mas a nossa sorte foi estrear com “O imbecil”, porque  ficou marcada como uma coisa boa ou seja, “Osmar Cruz e seu teatro de arte só faz coisa boa”. Só que a “Tragédia Florentina” não foi tão boa assim, mas deu “para quebrar o galho”. Eu fiz do Alfred Musset, Uma porta deve estar aberta ou fechada, é um diálogo entre dois personagens que se separam. Como os atores vinham do amadorismo ensaiavam pelo telefone, eles ”batiam” texto para decorar por telefone, eu fiz dois ensaios,  marquei num sábado e domingo, e foi ao ar na segunda-feira. Tínhamos 15 dias para preparar a peça, enquanto o Antunes preparava a dele eu preparava a minha. O Antunes estreou com “O urso” de Tchecov, com o Manoel Carlos no papel do urso, hoje ele escreve novela. Mas, “Uma  porta deve estar aberta ou fechada”, quando eu vi no “swit” realmente achei muito chata embora os cortes tivessem sido feitos pelo Cassiano Gabus Mendes. Depois montei o Traído Imaginário que é o “Sganarello” do Molière, essa fez sucesso. Eu fiz também um Gil Vicente, Quem tem farelos. Fazer televisão nessa época era uma tourada, porque era ao vivo. Eu só fui gravar na Excelsior, quando o Armando Bogus arranjou um “tape”. Mas, “Quem tem farelos” era uma peça muito interessante que é o embrião da “Farsa de Inês Pereira”, é muito engraçada, muito boa. Nós não tivemos tempo suficiente para adaptar a peça, ela foi feita numa linguagem mais ou menos arcaica. Já o “Traído Imaginário” não, por isso funcionou. O ator que fazia o “Sganarello”, trabalhava no Maria Della Costa, ele tinha ganho um concurso – Um galã para Maria Della Costa - era o Alberto Maduar. Ele custava um pouco para decorar e na peça tinha um monólogo que fala da suspeita que a mulher o engana. A peça tem esse bonito monólogo, muito bem, o Alberto Maduar entra em cena para dizer o monólogo e... pára, fica olhando, o Cassiano fala para mim: - “ xiii... acho que esse não vai” e fala para o câmera, “passa a câmera pelo cenário”, nisso o Maduar saiu de cena e deram a fala para ele. Ele voltou, foi falar... esqueceu de novo. E fez isso duas vezes! Aí eu falei, "tamo roubado...”. Mas eu acho que o público nem percebeu, porque a câmera ficou em detalhes no cenário, que era do Carlo Giaccheri e era muito bonito. Com o “Sganarello” eu encerrei minha carreira na Tupy, porque esse teatro que a gente fazia começou a dar “cosquinhas” no pessoal da televisão, eles já estavam se preparando para fazer o “Hamlet” com o Lima Duarte e não houve interesse de nos manter lá. Eu só fui fazer televisão mais tarde, quase dez anos depois na TV Excelsior. O Antunes Filho era assistente de produção da Bibi Ferreira que era a produtora do Teatro Brastemp e quem dirigia era o próprio Antunes, mas como ele não dava conta da programação, pois toda a semana era apresentada uma peça diferente, ele me convidou para dirigir, fiz com a Irina Greco e o Armando Bogus “O menino de Ouro” de Clifford Odets, que foi um sucesso! Foi muito bonito, foi muito bom.

CRÍTICA - ÚLTIMA HORA - COLUNA SHOW BUSINESS POR MORACI DO VAL - 19/12/1962
Fuga à rotina
“O Campeão” de Clifford Odets, apresentado pelo teatro do 9 na noite de sábado, desculpa a emissora das inúmeras vacuidades que vem apresentando em seus últimos teleteatros. Foi uma fuga da rotina, num espetáculo muito bem cuidado. Otimamente interpretado e com um dos melhores textos do teatro norte-americano na fase dos trinta: “Golden Boy”. Nele temos o Odets dos bons tempos, quando ainda não tinha naufragado no “american way of life” não pensava em escrever roteiros para Elvis Presley e fazia uma severa crítica  à  “teoria do sucesso” e à “vida impressa em dólares”. “Golden Boy” ou “O Campeão”, como se chamou na tradução de Elizabeth Kander, é a peça em que critica com maior felicidade o “american way of life”, como processo arrasador das possibilidades autênticas do homem. Bonaparte, “O Campeão”, é levada por essa obrigatória luta pelo sucesso, a trocar sua verdadeira aspiração, a música, o violino, pelo boxe. Com a fúria proveniente dessa frustração, atinge o auge no pugilismo, carreira que detesta e se vê obrigado a seguir. No momento em que alcança o título, matando no ringue seu adversário, adquire a consciência e quer voltar para música. Impossível: a terrível luta pelo sucesso aniquilara suas possibilidades para a música. Já não tem mãos para o violino. Fábula terrível. O espetáculo do 9, sob direção de Osmar Cruz, esteve à altura do texto, lamentando-se apenas o corte da cena final. Mutilação condenável e que quase põe a perder o espetáculo. Culpa da emissora que, em lugar de reduzir os comerciais, preferiu cortar a peça. No elenco, um excelente trabalho, Armando Bogus vivendo o “Golden Boy”, seguido de perto por Irina Greco, em “Lorna”, Edney Giovenazzi, em “Fuzelli” e Jairo Arco e Flexa, no papel de “Moody”.

- Só teve um problema, o Bogus arrumou na Tupy, um pedaço de vídeo tape para gravar a peça, nessa época já tinha vídeo tape e nós estávamos gravando, quando chegou no último quadro da peça acabou o vídeo tape. Não pudemos gravar o final original, fizemos um final em que os dois morrem num desastre de automóvel. Depois do Menino de ouro, fiz A pequena da província que ficou bonito, essa foi direitinho, com o Bogus, a Irina, Felipe Carone, Jairo Arco e Flexa, Ednei Giovenazzi, agradou muito, é uma história de amor e eu gostei muito de fazer. Mais tarde recebi um convite de Tatiana Belink e do Júlio Gouveia diretores do TESP (Teatro Escola de São Paulo) para dirigir uma novela na Excelsior, graças ao dois teleteatros que eu tinha feito. A novela chamava-se Sozinho no mundo, no recém-lançado “Telespetáculos Elgin” com atores do TESP e atores convidados como o protagonista Jairo Arco e Flexa e Nize Silva. Era uma novela que já era gravada. Era sobre o nazismo. A ação se dá no apartamento de um casal cujo marido é um brasileiro, adido cultural em Paris e ela parisiense, eles têm um filhinho. A casa deles é invadida pelos soldados nazistas e o filhinho é separado dos pais, que vão procurá-lo depois da guerra. Quando chegou no 15o capítulo mudou a direção da TV Excelsior, entraram o José Bonifácio Sobrinho e o Edson Leite, como eles iam reformar tudo a novela teve de acabar, a Tatiana escreveu um final, quebraram o contrato com o patrocinador, foi um negócio de louco! Eu fui encontrar isso tudo, depois no Sesi, essa prepotência, esse autoritarismo. Por aí parou a minha aventura na televisão, depois disso eu não fiz mais nada. Mas não deixou de ser uma experiência interessante, porque eu fui o primeiro a fazer teatro em televisão. Quem sabia disso era o Dionísio Azevedo que no seu depoimento por ocasião da comemoração dos 30 anos do TPS, fala isso: - “Osmar Cruz gosta tanto de teatro, que foi o primeiro a fazer teatro em televisão”. O Galon também. (ORC)

(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

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sábado, 20 de outubro de 2012

Revista do Teatro Amador

 
COLUNA TEATRO - DIÁRIO DE SÃO PAULO - POR NICANOR MIRANDA - 03/09/1955
“Revista do Teatro Amador”
Elevado é o número de amadores em nosso Estado. Raro é o município que não conta com um grupo de pessoas que gostam de teatro e que realizam, pelo menos de longe em longe, um espetáculo. As dificuldades que a maioria dos amadores encontram para satisfazer a sua inclinação e vocação dramática não são pequenas e nem poucas. As mais efetivas, talvez consistam em dois fatos notórios; não conhecerem peças que se prestem aos seus espetáculos e não terem meios de encontrar ou adquirir as que servem. A bibliografia nacional, segundo Lopes Gonçalves que está procedendo um levantamento de tudo que existe, anda pela casa das dez mil peças. Evidentemente nessa dezena de milhares existe muito bagaço e pouco suco. Mas o que sobra muitas vezes não é fácil de encontrar no mercado livreiro. Quanto às estrangeiras, os amadores são geralmente criaturas atemorizadas com o bicho papão da SBAT, que não tem a mínima condescendência para com os amadores e nem procura ajudá-los desta ou daquela maneira. Faltam-lhes ainda encenadores, faltam-lhes cenógrafos... para auxiliá-los com eficiência nas realizações de seus espetáculos. A bem dizer, falta-lhes quase tudo, exceto boa vontade e paixão pelo teatro.
Diante de tais obstáculos, nada melhor poderiam eles ter feito do que se congregarem, reunirem-se em uma associação que cuide de seus interesses. Tal medida já foi posta em prática com a fundação da Federação Paulista de Amadores Teatrais, sob os auspícios da Associação Brasileira de Críticos Teatrais de São Paulo. Os resultados não demoraram a aparecer. Graças a Federação, os amadores já realizaram um festival e um congresso. No momento preparam outros dois para o mês vindouro. Além disso, instituíram um interessante concurso de crítica anual, do qual não podem participar, é óbvio, os profissionais militantes na imprensa paulistana.
Mais uma bela iniciativa acabam de tomar, recentemente, editando a “Revista do Teatro Amador”, cujo primeiro número foi publicado no mês de agosto findo. A revista é modesta e despretensiosa, mas o seu objetivo capital é inteligente e merece ser elogiado: “O teatro amador em nossa terra e particularmente em São Paulo, embora a sua evolução marcante, não possui um núcleo que irradie a arte de representar, propagando-se e realçando-a. Assim sendo, as sociedades, pelos seus grupos teatrais, encontram-se individualizadas e seus trabalhos não têm a repercussão requerida, por não serem divulgados. Portanto, fazia-se mister que um porta-voz unisse os elos que encerram as coisas teatrais, formando assim a cadeia sólida e coesa para demonstrar e evidenciar o valor da arte cênica”.
A missão dos amadores não é somente difundir o gosto pela arte dramática nas camadas populares. É também uma missão educativa, de mérito indiscutível, tão explícita que dispensa esclarecimentos. Que não arrefeçam em seu entusiasmo, que não desistam de lutar contra todo e qualquer empecilho que lhes surja no meio da jornada. Assim agindo, não tardará o tempo em que os amadores paulistas serão, além de rico celeiro do teatro profissional, idealistas dignos de admiração e respeitáveis cultores de uma arte milenária que apaixona cada vez mais os homens dos cinco continentes.

(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

domingo, 14 de outubro de 2012

Volta à cronologia.


Prêmio Arlequim Melhor Diretor
CRÍTICA -  JORNAL O TEMPO - COLUNA PALCO - POR ATHOS ABRAMO - 09/12/1954

Festival de Teatro Amador III

A representação de “As guerras do Alecrim e da Manjerona”, pelo Grêmio da Caixa Econômica Federal, constitui uma das mais importantes manifestações do Festival, não somente pelo que significa, no plano cultural, a exumação dessa peça do nosso teatro clássico, como ainda pela inteligência com que foi encenada e pelo êxito positivo alcançado pelo espetáculo. Embora dentro da modéstia que o amadorismo comporta, o tratamento dado pelo diretor, Osmar Rodrigues Cruz, foi dos mais eficazes e válidos teatralmente falando, e poderá servir como ponto de referência  para futuras edições.  Sabe-se quais dificuldades Antônio José da Silva acarreta para uma representação integral, no texto e na cenografia. Essas dificuldades foram resolvidas com brilho, ao adotar-se um esquema cenográfico de interiores muitos simples e sóbrios, e de exteriores supridos por cortinas pintadas, ou melhor, desenhadas. O efeitos de tais cortinas, de autoria de Francisco Giaccheri, foi dos mais genuinamente teatrais e sua aplicação, assim como certos expedientes de mudança direta de cenários, executados pelos próprios atores em cena, juntamente à viva mobilidade da recitação, revelaram o bom e adequado aproveitamento da recente lição proporcionada  pelo “Picollo Teatro” de Milão em “Arlequim servo de dois amos” e em “Júlio César”. A direção de Osmar Rodrigues Cruz foi uma das mais seguras acontecidas no Festival, e caracterizou-se pela atenção dada ao aspecto filológico da peça, enfrentando não somente sem escamoteações, mas mesmo com apaixonada competência. O espetáculo foi dirigido no sentido de atingir-se a maior leveza e rapidez de recitação possível em elementos não afeitos às representações diárias como são os amadores, e isso foi conseguido, apesar de algumas falhas do elenco. Deste temos a assinalar primeiramente, a ótima dicção de Carlos Henrique Silva, no papel de Semicúpio. Dotado das necessárias agilidade e mobilidade físicas, agindo numa marcação sempre segura e viva, esse amador foi uma revelação. Prejudica-o muito um leve defeito de dicção, defeito que impede infelizmente seja ele considerado como um dos melhores atores da comédia do Festival. Mesmo assim, tenho uma grande fé no futuro desse rapaz, cuja mocidade, resistência e energia recitativas a justificam plenamente. Tudo dependerá, no entanto, da eliminação de seu defeito de pronúncia. Cora Gurjão Cotrim, no papel de Sevadilha, foi por sua vez digna “partner” de tal Semicúpio. Muito jovem, dotada de um físico adequado e de uma voz da mais cristalina musicalidade, e senhora de uma dicção perfeita, também essa moça poderá representar uma esperança, no caso em que puder estudar  e corrigir-se de certa instabilidade e precipitação no jogo cênico. Joaquim Mário Sonetti, no papel de Lancelote; Maria Quadros Malta, no papel de Dona Cloris; Moisés Leiner no de Tibúrcio, foram os outros elementos que tiveram atuação correta e realmente muito eficaz nas cenas cômicas. Ao grupo todo do Grêmio da Caixa Econômica Federal vai um caloroso aplauso pela coragem demonstrada em levar para a cena a trabalhosa e talvez envelhecida, mas genial peça do Judeu. E uma exortação a continuar nesse caminho: o da exumação de nosso pequeno mas tão significativo repertório clássico.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)       

domingo, 24 de junho de 2012

Nelson Rodrigues em São Paulo




Mais uma vez interrompemos nossa cronologia de postagens para abordar um assunto de extrema relevância.


Foto Silvestre Silva

Nelson e todo elenco da peça


Já não nos causa estranheza o fato da memória de nosso país ser totalmente ignorada. Ignorantes que somos como resultado, também, do esquecimento, do sepultamento, até da incineração de fatos e seus documentos.
Papéis velhos, amarelados, registros em computador que devem ser deletados, enfim nossa memória e aqueles que pertenceram à ela, não estando na mídia estão condenados ao banimento de nossa realidade.
Por tais motivos, não estamos surpresos com o que vem acontecendo esse mês no Sesi São Paulo, mas sim indignados com o descaso. 
Foi iniciada uma homenagem aos Cem anos de Nelson Rodrigues e simplesmente não consideraram que:
1.      Em 1979 o Teatro Popular do SESI (na mesma sala de hoje) sob a direção de Osmar Rodrigues Cruz encenou a peça teatral A Falecida de Nelson Rodrigues com cenário de Flávio Império registrados nos livros:  de Renina Katz e Amélia Hamburger Flávio Império (Edusp - 1999) e Imagens do Teatro Paulista (Imprensa Oficial do Estado – 1985).
2.      A protagonista foi a atriz Nize Silva (viúva de Osmar Rodrigues Cruz). Que não foi sequer cogitada (nem mesmo convidada) para fazer parte  do “evento que reuniu as atrizes que encenaram peças de Nelson Rodrigues” de segunda-feira (14) sob a curadoria de Rui Castro, incluindo outras que jamais encenaram peça do autor homenageado.
3.      Nelson Rodrigues veio especialmente à São Paulo para assistir ao espetáculo onde foi homenageado com um coquetel e teceu todos os elogios ao espetáculo e, principalmente à atuação impecável de Nize Silva. Registrado em livro do autor, crítico e professor emérito da USP Sábato Magaldi Nelson Rodrigues: Dramaturgias e Encenações (Perspectiva -1987). Como também na biografia de Osmar Rodrigues Cruz em co-autoria com a Profa. Dra. Eugenia Rodrigues Cruz Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro (Hucitec – 2002).
4.      Sendo o curador da mostra uma pessoa supostamente esclarecida, muito nos estranha o esquecimento e a ignorância dos fatos acima, uma vez que eles também constam dos jornais da época e por óbvio deveriam, no mínimo, terem sido convidados a fazerem parte do evento, já que vossa atuação à época deveria fazer parte da memória, inclusive da casa onde ocorre o evento (Teatro do Sesi).
5.      Todas as informações possíveis encontram-se agregadas no Instituto Osmar Rodrigues Cruz, criado formalmente em 2009, bem como no arquivo pessoal de Nize Silva.
(Trecho do email envido ao Sesi pela Dra. Daniella Löw, que não obteve resposta.)




Nize Silva, ao fundo Osmar, e Nelson após o espetáculo

Foto Silvestre Silva

Nize Silva,  Osmar (em segundo plano) e Nelson na plateia após o espetáculo.




“Quando escolhi a A Falecida, Nelson e eu começamos a nos telefonar. Expliquei que as peças encenadas no Sesi têm público enorme vindo das camadas sociais mais baixas da população. Ele ficou entusiasmado, principalmente quando soube que o teatro tinha mais de quatrocentos lugares, acabou autorizando a montagem e quando anunciou no Rio que sua peça seria encenada aqui em São Paulo pelo TPS, soltou mais uma das suas frases: “A falecida não vai morrer nunca!” Reclamou também que a peça ainda não tinha sido levada como ele queria e de todas as montagens feitas a que mais gostou foi a do Antunes Filho, e que mal podia esperar para assistir a nossa. Prometeu vir a São Paulo para a estreia e sentar-se na primeira fila, esperando, desta vez, ver o seu texto bem representado, porque confiava na minha direção. Ele não vinha a São Paulo há muito tempo, mas queria conhecer o meu trabalho, o teatro que não cobrava ingressos e que tinha como público o povo.
(...)
O Sábato Magaldi sugeriu que o Sesi trouxesse o Nelson para São Paulo e ele veio a convite com sua esposa, a irmã, uma enfermeira que ficaram hospedados no Caesar Park. Fazia muito frio aqui em São Paulo, estávamos em pleno inverno, o que é uma verdadeira tortura para quem vem do Rio, e o Nelson não estava muito bem de saúde, estava tomando um monte de remédios!
Á noite fizemos uma apresentação só para ele, que se sentou na terceira fila. Antes de começar eu disse a ele: “Agora Nelson, é com você”. Só fiquei sabendo sua opinião ao final da peça, porque fundi os dois atos da peça em um, portanto não havia intervalo. Ao final ele se levantou e disse: “Parabéns, senhor Cecil B. de Mille”, e continuou fazendo elogios à encenação, aos atores e até gostou da inclusão do cenário. Na noite seguinte estreamos oficialmente, ele voltou a asssistir e participou do coquetel oferecido aos convidados.
(...)
As tiradas do Nelson são inesquecíveis. Na estreia ele fez questão de subir ao palco para cumprimentar os atores, porém, quando de volta à plateia, o contra-regra já havia tirado a escada e ele teve de descer a altura aproximada de uns cinquenta centímetros, apoiado em algumas pessoas olhou para baixo, deu o passo e disse: “Que abiiiiiismo...!”
(in Osmar Rodrigues Cruz – Uma Vida no Teatro – Hucitec 2001, pags 253 a 255)




Foto Silvestre Silva

Trechos de crítica – Jornal da Tarde – por Sábato Magaldi – 26/07/1979
O teatro de Nelson Rodrigues, no melhor estilo. Admirável.
(...) A Falecida é, sem dúvida, a melhor encenação de Osmar Cruz.
(...) O Teatro Popular do Sesi mostrou, em primeiro lugar, um painel histórico da dramaturgia brasileira, e se volta agora para a produção contemporânea. Não houve propósito, deliberadamente didático, mas um profundo amor pelo teatro nacional, de quer, aliás, Osmar Cruz é um dos poucos e reais conhecedores. (...)
(...) Nize Silva tem o seu melhor trabalho em Zulmira. Ela funde as ideias de frustação, de misticismo, de terror em face do desconhecido e de inexorável fatalidade. A “falecida” é uma das personagens que definem com maior clareza o universo feminino de Nelson Rodrigues e Nize Silva a encarna sem deixar de lado um componente. A boa e poderosa voz vai se dosando aos poucos com os acessos de tosse, até o desenlace. Nize compreendeu plenamente a responsabilidade que lhe foi atribuída.
(...)
                                                        Foto Silvestre Silva
Nize relembra em seu Facebook que ao chegar em casa com Osmar, todos os dias pontualmente Nelson Rodrigues telefonava do Rio para falar com Osmar e com ela. E sempre ao final da conversa de como correra o ensaio, ele falava: “Nize, minha Musa, não esqueça do patético!”

domingo, 17 de junho de 2012

"As Mulheres não querem Almas" - 1950















REFERÊNCIAS SOBRE A PEÇA “AS MULHERES NÃO QUEREM ALMAS” - 1950
Temporada no Teatro Municipal
Foi para nós um prazer quando as possibilidades financeiras do nosso “Teatro Universitário” nos permitiram encenar uma peça de Paulo Gonçalves, o autor que, para nós, é  um dos maiores dramaturgos do Brasil. Em todo o seu teatro a poesia é o que predomina, e, sem nunca ter feito teatro burguês, ou melhor de ambiente burguês, Paulo Gonçalves moldou sua obra dramática  com um cunho de poesia romântica. Se para sua época ele foi um vanguardista, sua obra hoje não envelheceu, pois os seus personagens, não são pessoas ou tipos de uma época, mas sim, símbolos do sentimento humano. E não é esse o verdadeiro teatro? Sem dúvida. Todo autor dramático que explorar o sentimento do homem e não os seus atos burgueses, tais como os seus vícios, costumes e hábitos é um escritor que não morrerá. E assim é Paulo Gonçalves.
Talvez essa peça que dirigimos não seja a melhor do seu repertório, pois “Núpcias de D. João Tenório” e “Comédia do Coração” têm mais valor literário e mesmo dramático. Entretanto, “As mulheres não querem almas” é a mais romântica, adaptando-se mais ao estilo dos moços e, devido ao seu enredo pode ser mais compreendida pelas nossas platéias. Isso não quer dizer que essa peça seja inferior às outras. Todo o teatro de Paulo Gonçalves é belo e de grande valor; cada uma de suas peças abrange uma faceta diferente da vida emocional, e “As mulheres  não querem almas” é uma delas.
Não iremos justificar a encenação, porque a fizemos baseados exclusivamente no texto, sem lhe cortar uma fala ou rubrica. Era nossa intenção dar a peça um ambiente de fantasia, tanto nos cenários como no estilo de representação, porém teríamos com isso um trabalho muito mais longo, pois todos os atores teriam que estudar uma mímica exclusiva para a peça, com uma movimentação quase de “ballet”. Achamos melhor, ainda uma vez, ouvir Paulo Gonçalves, “mesclando” a representação, onde “a fantasia se mistura à realidade, não se sabendo onde principia uma e onde termina a outra”. Por isso é que em certos momentos a representação é realista e, em outros trechos, predominam a fantasia e a estilização.
Não será essa a verdadeira fórmula da obra dramática de Paulo Gonçalves? Fantasia e realidade?
Os cenários e as músicas serão os dois elementos que irão caracterizar a época, isto é, um carnaval carioca de muitos anos atrás, onde o amor, a ambição, a velhacaria, enfim, a volúpia de todos os personagens estão colocados num baile de terça-feira carnavalesca.
Diz o prólogo que a peça foi “um sonho que o autor sonhou num carnaval carioca”, e de fato no texto ele soube fixar esse sonho, não no que ele tem de material e vulgar, mas no que ele possui de humano, de sentimento e de poesia. A idéia principal de Paulo Gonçalves é evidenciar a inconstância feminina, resolve a intriga da melhor maneira: escolhe a última noite de carnaval e coloca três tipos femininos, de temperamento diferente, amados por um boneco sentimental que as deseja uma após outra; ao mesmo tempo que cada uma delas deseja outros homens. Mas, ao demonstrar essa inconstância, ele se perde completamente no personagem mascarado que é uma interrogação constante. E todo aquele amor que Paulo Gonçalves sentia pelas mulheres que amou saiu nas frases desse personagem.
Achamos que além da ideia central estabelecida pelo autor há o amor incompreendido, o amor sincero e outro, que não consegue seu intento e vê frustadas todas as tentativas para obter o amor velhaco e interesseiro, e é justamente nesses trechos que a realidade poética toma conta do texto.
Já nas cenas em que o velhaco e interesseiro predomina, aparece em grande evidência o grotesco. Disso resulta o ambiente de fantasia e realidade impregnadas na peça: Sonho e vida real. Para isso usamos luzes e cores, músicas e um ambiente amplo, onde cada cor tem sua função e cada música é uma recordação de carnavais que já se foram.
Muita coisa poderíamos ainda explicar, mas o melhor é ver o espetáculo. Ele dirá o que pretendemos, pelo menos é a nossa intenção .
Assim, desde o prólogo até o último foco de luz. Há um objetivo na peça: Interpretar Paulo Gonçalves e com isso prestar-lhe uma simples, mas sincera homenagem. (ORC)

domingo, 10 de junho de 2012

Nossa Cidade

























CRÍTICA O ESTADO DE SÃO PAULO – COLUNA PALCOS E CIRCOS – POR DÉCIO DE ALMEIDA PRADO - 19/10/1951
“Nossa Cidade”
A peça de Thorton Wilder apresentada no Teatro de Cultura Artística pelo “Grupo Teatral Politécnico”, com o seu arzinho modesto de quem não quer nada, é das apostas mais ousadas e mais bem sucedidas do teatro moderno. Não é brincadeira  escrever sobre os assuntos mais graves e por isso mesmo menos originais, que interessam ao homem – o amor, a vida, a morte – sem cair no pedantismo nem na trivialidade. Pois eis o que  consegue esta peça em que são estudadas com sensibilidade e graça coisas tão fugidias como as relações cotidianas entre pai e filho, marido e mulher.
“Nossa cidade” retrata apenas o infinitamente pequeno, mas acha sempre jeito de dar a entender que, afinal de contas, é este infinitamente pequeno que mais importa à humanidade. Visto em escala cósmica – Siriús é o planeta indicado – talvez o pequeno universo das nossas preocupações diárias pareça incrivelmente fútil. Mas haverá alguém tão insensato a ponto de se imaginar habitante de Siriús e não de “Grover’s Corners”, pacata cidadezinha norte-americana, tanto mais expressiva quanto mais vulgar?
Também como técnica, “Nossa cidade” é uma pequena obra-prima de engenho. Cada pormenor, em si insignificante, recebe um curioso e estranho sentido quando integrado no quadro geral da peça. Assim – para citar somente dois casos – as informações sábias do professor universitário, tão alheias, tão longínquas, podem muito bem significar a frialdade, a inumanidade de todo um tipo de conhecimento científico, como o simples vício de ler constantemente jornal em casa se transforma discretamente num traço a mais dessa profunda indiferença humana, com que atravessamos a vida.
Bertrand Russel diz que se deve desconfiar de todo filósofo incapaz de ilustrar as suas ideias com exemplos simples e comuns. Thornton Wilder não é propriamente filósofo. Mas pelo menos tem o segredo de dizer muito com pouca coisa, de uma forma irônica e poética.
“Nossa cidade” presta-se muito a espetáculo de amadores e de gente moça, como essa que integra o “Grupo Teatral Politécnico”. Diante de tantas convenções assumidas voluntariamente pelo autor, não nos custa nada admitir mais algumas, fingindo ver, naqueles quase adolescentes, senhores respeitáveis ou extremosas mães de família: tudo na peça é faz-de-conta engenhoso. Não precisamos acreditar piamente nesses pequeninos e humildes incidentes que se desfazem, juntamente com os cenários, como nos passes de mágica, ao menor sinal do diretor de cena; o que importa acima de tudo é tirar a lição de humanidade ou de poesia contida no texto. No fundo só há de fato um personagem – o diretor de cena – e tudo mais não passa de exemplificação convincente e saborosa, trazida à tona pela própria índole despreocupada da conversa.
A direção de Osmar Rodrigues Cruz e de J. E. Coelho Neto teve a grande habilidade de deixar a peça falar por si, sem nada dessa pretensão que costumamos encontrar no trabalho de alguns principiantes desejosos de se equiparar imediatamente a mestres da teatralidade como Ziembinski. As soluções encontradas para cada problema foram sempre as mais simples e apesar disso a comunicação com a platéia não se deixou de fazer ampla e cordialmente.
Também o desempenho dos artistas caracterizou-se pela ausência de qualquer afetação, e a sinceridade, na medida do possível, fez às vezes de técnica. Apenas faltou o que  tem faltado muito freqüentemente ao nosso teatro amador. Desde os tempos anteriores ao TBC: menos timidez por parte dos atores, maior projeção das próprias personalidades. A discrição não é a única, nem a maior qualidade de um interprete. Neste ponto, o teatro carioca sempre nos deu exemplo de outra vitalidade, de outra confiança em si, de outra capacidade de exteriorização. É verdade que “Hamlet” e “Desejo” foram espetáculos dirigidos por profissionais. Mas os atores, em sua maioria, eram tão principiantes quanto os nossos. E, no entanto, que vigor na representação, que vozes poderosas, vozes que se impunham à nossa atenção do primeiro ao último minuto, obrigando-nos a permanecer presos ao palco. Os estreantes paulistas, ao contrário, balbuciam timidamente, representando em miniatura para uma sala imaginária de trinta ou quarenta pessoas no máximo. A esse defeito não escapam, muitas vezes, nem os próprios alunos da “Escola de Arte Dramática”, esquecidos de que a primeira qualidade, já não diremos artística mas profissional, do ator é falar naturalmente alto, como fazem todos os atores em todas as partes do mundo.
J. E. Coelho Neto foi o melhor intérprete da noite, com enorme vantagem sobre todos os seus companheiros. Pôs o público logo à vontade, temperando a natural bonomia do diretor de cena com uma pontinha de ironia discreta e subentendida. É o seu trabalho mais interessante até a data de hoje. A seguir vieram Maria Aparecida Moreira – sem contudo repetir integralmente a esplendida versão em inglês que fez, há tempos, do mesmo papel – Moisés Leiner e Fortuna Leiner, espirituosamente caricatural. Maria da Glória Falcão permanece ainda um pouco dura, um pouco convencional nas inflexões, em contraste com a flexibilidade, quase mole e largada de Luís Mazzarolo Neto. Nas primeiras cenas tais características não chegaram a perturbar a peça, mas o mesmo já não aconteceu com os momentos mais líricos do terceiro ato. Este ato foi, aliás, bem menos feliz que os outros em matéria de direção, não conseguindo evitar de todo certo sentimentalismo, certo tom patético, que não estava nas intenções de Thorton Wilder.

domingo, 3 de junho de 2012

Os Espectros - 1947














ARTIGO - CORREIO DA MANHÃ POR PASCHOAL CARLOS MAGNO -  25/10/1947
Às quatro da tarde de sábado último no salão da Escola de Comércio Álvares Penteado, em São Paulo, assisti ao ensaio geral de “Os Espectros” de Ibsen, pelo Teatro Universitário do Centro ‘”Horácio Berlinck”. Se não encontrei intérpretes perfeitos, como deixar de admirar-lhes a sinceridade e o entusiasmo, esses rapazes e moças responsáveis pelos cenários, adereços, do espetáculo que teve lugar, segunda-feira última, no Municipal, encontram-se completamente desamparados. As autoridades estaduais e municipais não lhes conhece o endereço, para um auxílio qualquer em cruzeiros ou facilidade na doação de um terreno para construir ao menos um barracão onde pudessem encenar e representar peças. Admirei-me da cultura de cada um, particularmente no que diz respeito a efeitos luminosos, o que envergonhariam muitos dos nossos atores metidos a diretores. Até sala para ensaios, é arranjada a custa de muito esforço, como esmola ou favor. No avião que, na tarde de domingo, me trazia de volta ao Rio, lembrava-me  do encontro que tivera, no Municipal, sábado à noite com Antonieta Rudge, durante o segundo recital do “Conjunto Coreográfico Brasileiro” e mais tarde em recepção que, em homenagem aos nossos grandes-pequenos dançarinos, ofereceram em sua residência, o Sr. e Sra. Romeu Camargo. Lembrava-me das palavras de admiração que lhe dissera e ao mesmo tempo  acusando-a de roubar ao Brasil e ao mundo o direito de ouvi-la mais freqüentemente, na perfeição da sua arte. Antonieta Rudge bem podia, a fim de ajudar os moços do “Teatro Universitário do Centro Horácio Berlinck”, beneficiá-los com a renda de um recital seu. O Teatro Municipal de São Paulo, como em qualquer parte onde se anuncia o gênio de Antonieta Rudge, encher-se-ia. E os moços de São Paulo, que representaram segunda-feira última “Os Espectros”, de Ibsen, poderiam realizar o sonho que têm em mente: o de um teatrinho armado em um caminhão para representações ao ar livre. Tenho certeza que se Antonieta Rudge ler este pedaço de coluna, consentirá no empréstimo da sua glória para esse belo fim.