segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Análise, Conclusão e Bibliografia



Ministrar as Oficinas para o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) foi realmente uma experiência fascinante, com suas ressalvas. A pouca infraestrutura que o MST possuía ou possui e oferece aos professores convidados, reafirma a idéia do sacrifício como elemento da formação política. Sofrendo alcançamos o Paraíso, diz a Igreja e os ditos de esquerda. Lembra um pouco o teatro, se não há sacrifício, não pode haver resultados, inclusive os de ordem financeira.

E o prazer? Esse se esconde, até atrás do sacrifício. Senti que toda função deve ser mais valorizada, a de professor e o próprio teatro, devem ser respeitados! Acredito que os ideais de uma esquerda de verdade, em sua essência marxista, devem querer mais justiça e solidariedade do que qualquer outra coisa. Sem entrar no mérito da prática política dita de esquerda, o que se vê e sente no país não é bem assim. Se nos voltarmos aos teóricos e aos poucos daqueles que harmonizam a prática política com a teoria, veremos que a vivência dessa teoria é o mais importante, até no teatro. Ao colocarmos o teatro como veículo de modificação da sociedade, ninguém aceita. Porém, o teatro sozinho, por si só, é um veículo de modificação da sociedade. A representação de um espetáculo (inteligível, é claro) proporciona uma modificação interior, uma ampliação do raio de visão de mundo do espectador. Se o fizermos com um direcionamento, seja na escolha do repertório, seja na maneira da representação, o efeito será ampliado.

Quando se trata de formação do ator, é semelhante, e foi o que ocorreu no MST. Mostrar a eles que sua função era extraordinária, que sua preparação deveria ser diferenciada, pois visava um fim específico, foi uma tarefa árdua. Jamais haverá um teatro engajado no MST, ou em qualquer lugar que queira fazer isso, sem que haja vontade e reconhecimento da capacidade que o teatro tem.  

Todo trabalho do homem sobre o mundo e dentro da sociedade é político. Por isso as três Oficinas ministradas por mim no CCSP (Centro Cultural São Paulo) também tiveram uma fundamentação política. Minha herança teatral vem do teatro popular, acostumada a representar para um público não iniciado, quando o TPS (Teatro Popular do Sesi) tinha como frequência o público ao qual se destinava. Quando me deparei com os integrantes das Oficinas, recordei-me do TPS, de um público não iniciado. Um grupo eclético que deveria, primeiramente, aprender a respeitar a arte do teatro, o ofício do ator, a arte da atuação e o espetáculo teatral. E todos deveriam definir seu lugar ali, ou como aspirante a aluno de um futuro curso de teatro, ou simplesmente um aluno não ator de uma Oficina. Parece-me que esses dois pontos esclarecidos fazem com que o aluno saiba, ou procure saber o que está fazendo ali, e não simplesmente passando seu tempo livre.

Cria-se um compromisso com a Oficina, o respeito que o teatro merece e a responsabilidade do aluno com o curso, com os outros colegas, com o professor. E o professor com os alunos e a própria Oficina. Criam-se laços, aprende-se que a disciplina não é sacrifício e dor, é apenas uma prática. Que bons resultados vêm da perseverança, empenho e principalmente paciência. Atingir a perfeição é o objetivo, a meta é realizar, dia após dia, o processo.

Teatro é um processo, assim como a vida e a história que produzimos. E como todo processo é preciso vivenciá-lo, esse é o segredo, com consciência e presença efetiva. Isso requer atenção, concentração, observação e maior liberdade com o próprio corpo, despertando-o para a vida, seja num abraço, seja num gesto de gentileza do dia a dia. Atuar no palco da vida não é nada fácil, o controle das emoções é imenso, o corpo participa muito e a mente nem sempre tem seu lugar privilegiado para essa atuação.

Descobri que ator e não atores precisam dos mesmos mecanismos para atuar na vida. Primeiro, precisam aprender a trabalhar sobre si mesmos, conhecer seu mundo mental e psicológico, o reflexo desse mundo no corpo, somente depois iniciar a atuação com os outros. O teatro pode servir a muitos propósitos, até em ser simplesmente teatro, porém os seus atores tem de serem preparados, primeiramente, como seres humanos apenas, melhorando seu desempenho na vida, aí sim poder querer ser ator. Assim, estaríamos mais protegidos das idiossincrasias de nós atores, que tanto prezamos chamar de uma loucura especial! 

Dialeticamente, o fazer teatral, de forma geral, e a interpretação, de forma particular, deveriam ou poderiam se nutrir na própria sala de aula, seja de uma rápida Oficina ou na própria universidade. Esse caminho de ida e volta propiciaria não somente a reflexão de um trabalho apresentado, assim como transformaria a sala de aula no verdadeiro lugar da experimentação. Assim sendo, poderíamos apresentar espetáculos mais aperfeiçoados, que até já tentam existir por essa fórmula, aproximando mais o público do teatro por meio de uma melhor compreensão do que o espectador está presenciando.

Para o aluno não ator que se dirige às Oficinas é muito importante saber do seu interesse pelo teatro, municiá-lo de formação crítica. Além da sua busca por um curso de teatro para melhorar sua expressividade, por exemplo, esse aluno é um espectador em potencial. Nem todos que procuram um curso de auxiliar de enfermagem desejam empregar-se na área, às vezes é porque são professores do ensino fundamental, ou porque tem alguém na família precisando de cuidados. Nas Oficinas de teatro ocorre o mesmo e é preciso compreender isso, porque se podem ajudar muitos jovens ou mesmo adultos que nos procuram. A mudança da atitude corporal que uma Oficina pode proporcionar, já será de grande ajuda para um simples funcionário que cumpre ordens e nunca cogitou o quanto de marcas negativas o seu corpo carrega.

Essa pesquisa pretende contribuir na reflexão do ensino de interpretação para o aluno-ator e não ator, bem como para todos aqueles que acreditam que um novo fazer teatral possa influenciar na prática em sala de aula e que essa, em contrapartida, possa suscitar novos meios para o desenvolvimento da atuação.

Nosso país padece de falta de cuidado. Assim como não cuidamos do meio ambiente, do planeta, não cuidamos também dos nossos corpos e padecemos por isso. Reich nos deixou uma grande mensagem quando nos ensinou a “lei” dos códigos de nosso corpo e identificou os nossos sentimentos. É preciso fazer alguma coisa, reconhecendo que o corpo guarda toda a carga de emoções vivenciadas no dia e de impressões que nos vem de fora, do mundo tão dissociado de nós, sem que nos demos conta disso. Sentimos o outro como um adversário a ser vencido, na escola, nas poucas oportunidades de emprego, nas relações pessoais. Não convivemos mais, somente se for conveniente, que ganhemos alguma coisa, caso contrário ficamos em nossa tão asséptica solidão, ela não nos faz mal, não nos causa problemas. Pensamos estar no caminho certo, afinal, nosso país será do primeiro mundo, é preciso preparação, comer fast-food, tomar pílulas para dormir, para depressão, para alegria em excesso, o mundo abomina gente com excessos e excesso de gente. De repente adoecemos! Oh! O que terá sido? A tão boa competição? O não se relacionar com ninguém, sinceramente? Calar-se frequentemente, chorar, sufocar-se em mágoas, ressentimentos e ódios? Não se permitir ser melancólico ou alegre como uma criança? Não, nada disso, foi apenas uma doença, alguma... nada mais. Se tivesse respirado, se tivesse mexido o corpo, se tivesse amado, se tivesse vivido, segundo Reich, não estaria assim.

Talvez se pudéssemos ensinar isso aos atores e não atores, aluno-atores e alunos não atores, já seria muito. Construiríamos pessoas mais bem ajustadas, proporcionando a elas que se conhecessem melhor e, conseqüentemente, reconhecendo-se no mundo com mais realidade, menos ilusões sobre si mesmas e o próprio mundo.

Precisamos olhar para nossos jovens, ter o cuidado quando estamos à frente de um grupo, seja para ensinar ou dirigir. Chega, bastam de cursos “capengas”, “gambiarras” para parecer que formamos atores. A grande mudança que faríamos em nosso país, e já seria muito, seria trabalharmos com seriedade sem resvalar para prepotência de queremos ser o que não somos.

Os nossos modelos sempre oscilaram entre Estados Unidos da América (EUA) e Europa. Um ator faz novelas na TV, guarda um dinheiro e vai estudar aonde? Na USP? Na UNESP? Na UNICAMP? Não, vai estudar nos EUA! Porque não valorizamos nosso ensino de teatro, chamando os atores à reciclagem, isso também é trabalho para uma Universidade, uma Oficina para profissionais, para troca de idéias, para ESTUDO, que é muito difícil entre os atores! O professor de teatro deve servir criar, tanto para aqueles que almejam o teatro, como para aqueles que desejam se aperfeiçoar. Por que não podemos criar nosso estilo de representar e pesquisá-lo?  Tudo já foi escrito e dito, todos os cursos são experimentações de teorias que já foram criadas pelos gênios do teatro, cada um em sua área. Portanto, é procurar e estudar que se acha muita coisa que está sendo feita por aí como novidade. Mostrar as fontes de pesquisa não é vergonha, juntar teorias também não. Convenhamos não se inventa nada no mundo há muito tempo!

A criação de uma filosofia que tenha um viés nacional, baseada em técnicas com predominância no enfoque corporal e orgânico do ator, mostrando a dialética existente dentro de uma sala de aula foi o que se pretendeu mostrar. Foi somente por meio dela que brotou esse embricamento de teorias e o surgimento de uma pedagogia que tivesse em seu bojo um caráter nacional calcado na nossa herança cômica. Porém, como o improviso e o cômico andam juntos, foi preciso criar um preparo corporal baseado na consciência espaço-corpo, no desenvolvimento do conhecimento das emoções, assim como uma atenção especial ao aguçamento intelectual do aluno-ator, para que ele encontrasse a disponibilidade necessária para atuar.

Acreditamos poder contribuir também para uma possível renovação e um despertar dos professores de teatro sobre a responsabilidade no trato com o iniciante frequentador das oficinas teatrais. É a função de a pré-escola dar prontidão para a alfabetização; assim também ocorre com essas oficinas, pois os resultados atestam que o aluno pode se definir quanto a seguir a carreira teatral ou não.

No Brasil, pouco se fala de comédia. Dentro das universidades ela é quase um tabu, portanto não se pratica a comédia como o drama, de uma maneira formal. Gosta-se menos da comédia? Talvez por ser considerado um gênero menor? Como isso pode se dar assim, se foi o gênero da comédia que iniciou o teatro brasileiro? Foi ela a responsável pela nacionalização do nosso teatro, e é sucesso até hoje em qualquer lugar, no teatro, no cinema na TV. Atores de comédia são chamados de comediantes e são afastados de outros gêneros por preconceito.

O que vislumbramos buscar é a pesquisa de nossa raiz cômica, por meio dos textos de Martins Pena e França Junior, Arthur de Azevedo, Joaquim Manoel de Macedo e outros. Temos o equipamento físico, a descontração necessária para empreender também uma pesquisa sobre as manifestações desse estilo nacional. Ao contrário, vemos professores fazendo um esforço imenso na pesquisa de textos do teatro estrangeiro, quando a nossa realidade está aí tão próxima de nós, e tão mais fácil de ser executada.

Jamais afirmaremos nossa cultura, sem que nos remetamos aos nossos clássicos. Todos os países têm seu teatro moderno, de vanguarda, de experimentação, e tem, afirmativamente seu teatro nacional. Com companhias especializadas e de pesquisa, encenam os clássicos como eles sempre foram, sem nenhuma “releitura”. É a mais autêntica preservação do texto clássico vivo, encenado no palco. Talvez esse fosse o grande salto que poderíamos realizar, até mesmo dentro da própria universidade, como forma de mostrar ao país e ao mundo a nossa tradição teatral. Quem sabe por esse caminho possamos encontrar o nosso verdadeiro estilo de atuação, de representação, o nosso verdadeiro teatro nacional.


A função de uma filosofia que norteie essa prática fará com que se tenha maior cuidado com aqueles que se interessam por teatro, aproximando-os até como público. E, talvez, possa servir para a própria prática do ator, enquanto exercício de desbloqueio corporal para a criação do personagem. Tanto no ensino como na atuação, necessitamos de parâmetros que não vejo em nossa profissão como vejo em outras, inclusive artísticas. O quê desejou fazer em sala de aula e por que, talvez seja um bom começo para pensarmos no ensino do teatro em qualquer nível.

Bibliografia

ADLER, Stella. Técnica de representação teatral. RJ, Civilização
    Brasileira, 1992

APPIA, Adolphe. A obra de arte viva. Lisboa, Ed. Arcádia, s/d

ARANTES, Antonio Augusto. O que é cultura popular?. SP, Ed.
    Brasiliense, 1981

ARAÚJO, Alceu Maynard. Cultura Popular Brasileira. SP, Ed.
    Melhoramentos, 1977

ARISTÓTELES. Poética. Coleção Os Pensadores, SP, Ed. Abril, 1979

ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. SP, Ed. Martins Fontes,
    1993

ASLAN, Odette. O ator no século XX. SP, Perspectiva, 1994

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e
    no Renascimento: o contexto de François Rabelais. SP, Ed.
    Hucitec, 1987

BARBA, Eugenio. Além das ilhas flutuantes. SP, Hucitec, 1991
____________  A canoa de papel. SP, Hucitec, 1994
____________  Il corpo dilatato. Roma, La Goliardica Editrice
     Universitaria di Roma, 1985

BARBA, Eugenio e SAVARESE, Nicola. A arte secreta do ator. SP,

    Hucitec, 1995

BARRAULT, Jean-Louis. Nouvelles Réflexions sur le théatre. Paris, Flamarion, 1959

BARTHES, Roland. Elementos de semiologia. SP, Ed. Cultrix, 1971

BENTLEY, Eric. O teatro engajado. RJ, Zahar Editores, 1969

BERGSON, Henri. O riso. RJ, Zahar Editores, 1978 

BERNHARDT, Sarah. El arte teatral. Buenos Aires, Editorial Schapire,
    1946

BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro, SP, Editora
    Perspectiva, 2000

BOAL, Augusto. Técnicas latino-americanas de teatro popular. SP,
    Hucitec, 1979
_____________Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. RJ,
    Civilização brasileira, 1991

_____________O arco-íris do desejo: o método Boal de teatro e

    terapia. RJ, Civilização Brasileira, 1996
_____________200 exercícios e jogos para o ator e o não-ator
    com vontade de dizer algo através do teatro. RJ, Civilização
    Brasileira, 1997

BOAL, Julián. As imagens de um teatro popular. SP, Ed. Hucitec, 2000

BOLELAVSKI, Richard. A arte do ator. SP, Ed. Perspectiva, 1992

BORBA FILHO, Hermilo. Teoria e prática do teatro. SP, Agência Ed.
    Íris, 1960

BRECHT, Bertolt. Diario de trabajo (1938-1941), Buenos Aires,
    Ediciones Nueva Visión, 1973

_____________ Diario de trabajo (1942-1944), Buenos Aires,
    Ediciones Nueva Visión, 1973

BRECHT, Bertolt. Diário de trabajo (1944-1955), Buenos Aires,
    Ediciones Nueva Visión, 1973
______________Teatro dialético. RJ, Civilização Brasileira,1967

BROOK, Peter. O teatro e seu espaço. Petrópolis, Ed. Vozes, 1970
___________ O ponto de mudança. RJ, Civilização Brasileira, 1994

BURNIER, Luís Otávio. A arte do ator: da técnica à representação.
    Campinas, Ed. da UNICAMP, 2001

CAETANO, João. Lições Dramáticas. RJ, MEC, 1956

CANCLINI, Néstor García. A socialização da arte. SP, Cultrix, 1980

CARLSON, Marvin. Teorias do Teatro. SP, Fundação Editora da UNESP, 1997

CARVALHO, Enio. História e formação do ator. SP, Ed. Ática, 1989

CHEKHOV, Michael. Para o ator. SP, Ed. Martins Fontes, 1996

CLAIRON, Hyppolite. Mémoires D’Hyppolite Clairon, et reflexions
     sur la déclamation théatrale; publiés par elle-même. Paris, Chez
     F. Buisson, 1793

COLE Toby & CHINOY Helen Krich. Actors on Acting.New York,
    Crown  Publishers, 1949 

COPFERMANN, Emile. O teatro popular por quê?. Porto,
     Portucalense Ed., 1971

CRAIG, E. Gordon. Da arte do teatro. Lisboa, Ed. Arcádia, s/d

CRUZ, Osmar Rodrigues. O teatro e sua técnica. SP, Liv. Teixeira,
     1960
_________________  O ensino do teatro no Brasil. In: II
     Congresso Brasileiro de Teatro, SP, 1953, Anais, RJ, MEC, 1953 

CRUZ, Osmar Rodrigues e CRUZ, Eugênia Rodrigues. Osmar
     Rodrigues Cruz – Uma vida no teatro. SP, Hucitec, 2001

DALCROZE, E. Jacques. Ginnastica Ritmica estetica e musicale.
    Milano, Ulrico Hoepli Editore, s/d

DARWIN, Carlos R.. La expresión de las emociones en el hombre y
    en los animales. 2 volumes, Valencia, F. Sempere y Cia Editores,
    s/d

DECROUX, Etienne. Paroles sur le mime. Paris, Éditions Gallimard, 1963

DIDEROT, Denis. Paradoxo sobre o comediante. Coleção Os
    Pensadores, SP, Ed. Abril, 1979

DORT, Bernard. O teatro e sua realidade. SP, Ed Perspectiva, 1977

DUERR, Edwin. The Length and Depth of Acting. New York; Holt,
     Rinehart and Winston, 1962

DUVIGNAUD, Jean. Sociologia do comediante. RJ, Zahar Ed., 1972

ECO, Umberto. Tratado geral de semiótica. SP, Ed. Perspectiva, 1980

ESSLIN, Martin. Uma anatomia do drama. RJ, Zahar Ed., 1978

EWEN, Frederic. Bertolt Brecht, sua vida, sua arte, seu tempo. SP,
    Ed. Globo, 1991

FERNANDES, Ciane. Pina Baush e o Wuppertal dança-teatro:
   repetições e transformações. SP, Ed. Hucitec, 2000

FERREIRA, Procópio. O Ator Vasques. RJ, Ed. Funarte/SNT, 1979
_______________  Arte de Fazer Graça. RJ, Empreza Brasil Ed. Ltda, 1925

FO, Dario. Manual mínimo do ator. Org. Franca Rame. SP, Ed. Senac,
   1998

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 13ª ed., RJ, Paz e Terra,
   1983

FREIRE, Paulo e FREI BETTO. Essa escola chamada vida. 6ª ed., SP,
   Ática, 1988
                      
FREITAS, Paulo Luís de. Tornar-se ator – uma análise do ensino de
    interpretação no Brasil. Campinas, Ed. Unicamp, 1998

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Coleção Os pensadores,
    SP, Abril Cultural, 1978

GARCIA, Silvana. Teatro de militância. SP, Ed. Perspectiva, 1990

GARRONE, Alessandra Galante. Alla ricerca del próprio clown.
    Firenze/Milano, La Casa Usher, 1980

GHIRON-BISTAGNE, Paulette. Recherches sur les acteurs dans la
    Grèce Antique. Paris, Société D’Édition “Les Belles Lettres”, 1976

GIRAUDET, A.. Mimique, Physionomie et Gestes. Paris, Librairies-
    Imprimeries Reunis, 1895

GLUSBERG, Jorge. A Arte da Performance. SP, Ed. Perspectiva,

GORCHAKOV, N.. Lecciones de regisseur Vajtangov. Buenos Aires,
    Editorial Quetzal, s/d

GROTOWSKI, Jerzy. Em busca de um teatro pobre. 4ª ed., RJ,
    Civilização Brasileira, 1991

HAUSER, Arnold. História Social da Literatura e da Arte. 2 volumes, SP, Ed.
    Mestre Jou, s/d

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Estética. Coleção Os Pensadores, SP, Ed. Nova
    Cultural, 1996

HETHMON, Robert H.. El metodo del actors studio. Madrid, Ed
    Fundamentos, 1972

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. SP, Ed. Perspectiva e Ed. da USP, 1971

JANUZELLI, A.. A aprendizagem do ator. SP, Ed. Ática, 1986

JAPIASSU, Ricardo. Metodologia do ensino de teatro. Campinas,
    Papirus Ed., 2001

JUNG, Carl G. Psicologia y Educacion. Buenos Aires, Editorial Paidós,
   1949
__________ Tipos psicológicos. Buenos Aires, Editorial
    Sudamericana, 1947

JUNG, Carl G. et alli. O homem e seus símbolos. RJ, Editora Nova
    Fronteira, 1964

KOUDELA, Ingrid Dormien. Brecht: um jogo de aprendizagem. SP,
     Perspectiva/Edusp, 1991
___________________ Um vôo brechtiano. SP, Perspectiva, 1992

KUSNET, Eugenio. Ator e Método. RJ, Serviço Nacional de Teatro,
    1975

LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. SP, Ed. Summus, 1978

LECOQ, Jacques. Le théâtre du geste: mimes et acteurs. Paris, Ed.
    Bordas, 1987

LEWIS, Robert. Método ou loucura. RJ, Ed. Letras e Artes, 1962

LUKÁCS, Georg. Introdução a uma estética marxista. 2ª ed., RJ,
     Civilização Brasileira, 1978

MACHADO, Maria Clara. Jogos dramáticos. Cartilha de Teatro, RJ,
     SNT, 1973
___________________100 jogos dramáticos. RJ, Agir, 1994
___________________Exercícios de palco. RJ, Agir, 1994

MENDONÇA, Carlos Sussekind de. História do Teatro Brasileiro. RJ,
     Mendonça Machado e Cia., 1926

MEYERHOLD, V. Teoria teatral. Madrid, Ed. Fundamentos, 1979

MILTON, Joyce. Chaplin – Contraditório Vagabundo. SP, Ed. Ática, 1997

NICOLL, Allardyce. Historia del teatro mundial. Madrid, Aguilar S. A.
    de Ediciones, 1964

NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia no espírito da
     música. Coleção Os Pensadores, SP, Ed. Abril, 1983

OIDA, Yoshi. Um ator errante. SP, Beca Prod. Cult., 1999

_________  O ator invisível. SP, Beca Produções Culturais, 2001

OLIVIER, Laurence. Ser Ator. RJ, Ed. Globo, 1987

PEIXOTO, Fernando. Uma introdução ao teatro dialético. RJ, Paz e
    Terra, 1981
________________Brecht vida e obra. RJ, José Álvaro Editor,
     1968

PERRUCCI, Andréa. Dell’arte rappresentativa premeditata ed
    all’improvviso. Firenze, Edizione Sansoni Antiquariato, 1961

PISCATOR, Erwin. Teatro Político. RJ, Civilização Brasileira, 1968

PLATÃO. República. Lisboa, Publicações Europa-América, 1975

PLEKANOV, J. e outros. Sociologia da arte. SP, Cultura, 1945

POTTECHER, Maurice. Le théâtre du peuple. Paris, Libraire Paul
     Ollendorff, 1899

PRADO, Décio de Almeida. João Caetano. SP, Ed. Perspectiva,1972
__________________   João Caetano e a Arte do Ator. SP, Ed.
     Ática, 1984
__________________   Procópio Ferreira. SP, Ed. Brasiliense, 1984

PROPP, Vladimir. Comicidade e riso. SP, Ed. Ática, 1992

PUAUX, Melly e Paul; MOSSÉ, Claude. L’aventure du théâtre
     populaire. Monaco, Éditions du Rocher, 1996

RANGEL, Otávio. Escola teatral de ensaiadores. RJ, Ed.
     Talmagráfica, 1954

REDGRAVE, Michael. Los medios expressivos del actor. Buenos
    Aires, Ediciones Leviatan, 1956

REDONDO JR.. O teatro e sua estética. Lisboa, Ed. Arcádia, s/d

REICH, Wilhelm. Analisis del caracter. Buenos Aires, Ed. Paidós,
    1965
_____________Psicologia de massas do fascismo. SP, Martins
    Fontes, 1988
_____________A revolução sexual. RJ, Ed. Guanabara, 8ª ed.,
    1988
_____________A função do orgasmo. SP, Brasiliense, 16ª ed., 1990
                        
RICCOBONI, Luigi. Discorso della commedia all’improviso e scenari
    inediti. Milano, Edizioni Il Polifilo, 1973

______________ Dell’arte rappresentativa. Ristampa dell’edizione
    di Londra 1728, Arnaldo Forni Editore, 1979

RICE, Elmer. Teatro vivo. RJ, Ed. Fundo de Cultura, 1959

RIPELLINO, Ângelo Maria. O truque e a alma. SP, Perspectiva, 1996

ROCHA FILHO, Rubem. A personagem dramática. RJ, INACEN, 1986

ROLLAND, Romain. El teatro del pueblo. Buenos Aires, Editorial
    Quetzal, 1953

ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. SP, Perspectiva, 1985

ROUBINE, Jean-Jacques. A linguagem da encenação teatral. RJ, Ed.
    Zahar, 1982
__________________   A arte do ator. RJ, Zahar Ed., 1985

SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus. SP, Editora das Américas,
    1964

SCHERER, Jacques; BORIE,Monique e ROUGEMONT, Martine de.
    Esthétique Théâtrale. Paris, Editions C.D.U. et Sedes reunis, 1982

SCHILLER, Friedrich. Teoria da tragédia. SP, Ed. Herder, 1964
________________  Sobre a Educação Estética. SP, Ed. Herder,
    1963

SÉRGIO, Mário. Sobre Brecht. Lisboa, Ed. Ulmeiro, s/d

SILVA, Armando Sérgio da. Uma Oficina de Atores. SP, EDUSP,1987

SLADE, Peter. O jogo dramático infantil. SP, Summus Ed., 1978

SOMMI, Leone de’. (Org. J. Guinsburg) Um judeu no teatro da
    renascença italiana. SP, Ed. Perspectiva, 1989

SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. SP, Perspectiva, 1963

STANISLÁVSKI, Constantin. A preparação do ator. RJ, Civilização
     Brasileira, 1976  
______________________A construção da personagem, RJ,
    Civilização Brasileira, 1970
______________________ A criação de um papel. RJ, Civilização
    Brasileira, 1972

STRASBERG, Lee. Um sonho de paixão. RJ, Ed. Civilização Brasileira, 1990

TALMA, F.. Mémoires de Lekain. Paris, Chez Ponthieu Libraire au Palais-Royal, 1825

TOUCHARD, Pierre-Aimé. Dioniso – Apologia do teatro, O amador de
    teatro ou a regra do jogo. SP, Cultrix,1978
VENEZIANO, Neyde. O Teatro de Revista no Brasil. Campinas, Editora UNICAMP, 1991

VIANNA, Klauss. A dança. SP, Ed. Siciliano, s/d

Vie de David Garrick. S/a, Chez Riche et Michel, Paris, 1801 

WILLETT, John. O teatro de Brecht. RJ, Zahar Ed., 1967



REVISTAS:

Vallecchi Editore. Quaderni di teatro – Il teatro e la scuola, Firenze,
    1987

Stampa Vallardi & Associati. Teatro d’Europa – Rivista/Programma
    Del Piccolo teatro di Milano. Milano, 1988

Cruz, Osmar R.. A arte de dizer. Revista do teatro amador. Caderno de Teatro nº 1, SP, Ano I, números 1 a 7, 1955

____________ Noções da arte de representar. Revista do teatro amador. Caderno de Teatro nº 3, SP, Ano I, números 1 a 7, 1955

____________ Origem da renovação do teatro brasileiro. Revista de Estudos Teatrais. Nº 1, Ano I, números 1 a 5 (abril, junho, setembro, dezembro de 1958)
Vaghtangov, E.. Preparando a personagem. Revista de Estudos Teatrais. Nº 2, Ano I, números 1 a 5 (abril, junho, setembro, dezembro de 1958)


TESES e DISSERTAÇÕES:

GARCIA, Clovis. O teatro profano medieval francês como expressão da sociedade burguesa, no século XIII. Tese Doutorado, ECA/USP, SP, 1972

GARCIA, José Gustavo Sampaio. O ator vivo: uma abordagem reichiana para a arte do ator. Dissertação de Mestrado, ECA/USP SP, 2004

LOPES,  Elisabeth Silva. O ATOR BUFÃO. Tese Doutorado, ECA/USP SP, 2001

SARAIVA, Hamilton Figueiredo. Iluminação Teatral: História, Estética e Técnica. Dissertação de Mestrado, ECA/USP, 1989

­­­­­­­­_________________________ Interações Físicas e Psíquicas Geradas pelas Cores na Iluminação Teatral. Tese de Doutorado, ECA/USP, 1999



Filmografia Chapliniana: (Coleção em vídeo Ed. Altaya)
O Grande Ditador
Tempos Modernos
O Garoto
Luzes da Cidade
Ombro, Armas
Dia de Pagamento
O Peregrino
O Circo
Um Dia de Prazer
Luzes da Ribalta
Rua da Paz/ O Aventureiro/ O Imigrante/ Carlitos em Apuros
O Casamento de Carlitos/ O Engano
Monsieur Verdoux
Carlitos no Armazém/ Carlitos Bombeiro/ Carlitos Patinador/ Carlitos no Estúdio
Campeão de Boxe/ Os Amores de Carmem/ A Senhorita Carlitos/ Carlitos à Beira-mar
O Banco/ Carlitos Marinheiro/ Carlitos no Teatro/ Carlitos Policial
Carlitos se Diverte/ Carlitos no Parque/ Carlitos quer Casar/ Carlitos Trabalhador
Carlitos Vagabundo/ O Conde/ Carlitos Noctâmbulo/ A Casa de Penhores
Um Rei em Nova York
Carlitos Dentista/ Carlitos e as Salcichas/ Carlitos Coquete/ Na Farra/ O Passado Pré-histórico/ Dinamite e Pastel
Opinião Pública
O Balneário/ O Vagabundo/ Carlitos entre o Bar e o Amor
Carlitos e Mabel assistem as Corridas/ Carregadores de Piano/ Carlitos e Mabel de Passeio/ Seu Novo Emprego/ Carlitos e Mabel se Casam
Em Busca do Ouro/ Vida de Cachorro
Carlitos e a sonâmbula/ Carlitos Ciumento/ A Maleta Fatal/ Dois Heróis/ The Bond
Carlitos na Contra-regra/ Pintor Apaixonado/ Carlitos Dançarino/ Nova Colocação de Carlitos/ Carlitos Porteiro/ Carlitos Rival do Amor
Carlitos Marquês/ Carlitos banca o Tirano/ Carlitos e a Patroa/ Vinte Minutos de Amor/ Bobote em Apuros
Carlitos Repórter/ Corrida de Automóveis para meninos/ Carlitos no Hotel/ Dia Chuvoso/ Dia de Estréia


VISITEM TAMBÉM
WWW.BLOGDOVICTORINO.BLOGSPOT.COM.BR

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Capítulo 4 - Vivências


O esquema usado em todas as oficinas foi de iniciar as aulas com a respiração reichiana acompanhada de música. Dividi os grupos aleatoriamente para que pudessem discutir o tema proposto e organizar o exercício a ser mostrado posteriormente. Cada grupo se apresentava e ao final, rapidamente, fazíamos um pequeno comentário. E o grupão, que fechava a aula indicava o momento de discutir os exercícios, falar do dia, dos problemas e da vida.

Ao analisar os relatórios das oficinas e mostrá-los, tento afirmar a ressonância da prática aplicada, bem como atestar a eficácia da convivência de cada grupo entre si e de todos entre todos para o crescimento de cada um.

Quando me deparei com os relatórios confesso que fiquei surpresa com o volume, pois sei a quantidade de analfabetos funcionais existentes em nosso país. É claro que alguns relatórios eram ilegíveis, a maioria era feita sem nenhuma preocupação com a apresentação ou com quem fosse ler. Porém, todos quiseram expressar sua opinião por escrito, o que é sempre muito relevante e deve ser incentivado.




OFICINA NA ESCOLA DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM-TERRA  LOCAL - SUL DO PAÍS 
PERÍODO – Setembro/1991

As Oficinas para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) foram divididas em duas turmas, sendo pela manhã a turma do segundo grau e pela tarde a do primeiro grau. Não houve relatórios dos participantes, porém fizemos uma reunião de avaliação e todos puderam expressar nossas opiniões. Havia levado alguns textos, cópias de peças curtas de Bertolt Brecht que deixei com eles. Fiz indicações de alguns livros fáceis de serem encontrados, bem como fiquei à disposição no que pudesse ajudar. É costume no MST não se tomar a autoria de nada, portanto as publicações que saíram a seguir nem mencionavam as Oficinas. Elas foram uma grande introdução de um grande projeto que não vingou, pois saía muito dispendioso pagar as despesas mínimas de uma professora de São Paulo para ir aos assentamentos. Nunca se recebe salário, tudo é doação como colaborador. O projeto de levar teatro aos acampamentos era uma maneira de suprir o tempo ocioso dentro do acampamento. Como a ocupação é de resistência, pode-se até preparar a terra, mas não há condições de vida para um cotidiano normal. Assim como a escola funciona ao ar livre dentro das condições apresentadas, o teatro seria uma forma de encontro dos adultos e das crianças também em outro grupo, para ensaiarem, fazerem seus exercícios. Em algum lugar a idéia deve ter vingado e se não vingou, qualquer hora é hora de recomeçar. Os alunos ficaram maravilhados com a idéia de levar o teatro para o acampamento como meio de conscientização e socialização do coletivo. Sentiam-se à vontade para realizar qualquer enredo depois da descoberta e domínio do roteiro. Todos estavam mais conscientes da expressividade corporal e vocal como meio de construção de uma mensagem. Dentro do exercício eles puderam experienciar uma nova maneira de ser, bem diferente da atenção constante e até vigilância sobre si mesmo. Enfim, puderam experimentar uma liberdade possível e necessária a qualquer luta.



OFICINA ATUANDO NO PALCO DA VIDA
LOCAL – CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
PERÍODO – 19/08/1997 A 11/09/1997
                 Terças e quintas-feiras/13 às 15 horas
                 50 inscritos

Quando retornei da Oficina no MST estava convencida de que aquela maneira de trabalhar com atores e não atores dariam bons resultados e fui à busca do Centro Cultural São Paulo. Fui ao encontro de Lizette Negreiros, responsável pela política e ação cultural, entre outras, para as crianças, os jovens e os adolescentes. Somente ela poderia dar-me os parâmetros e as diretrizes para um bom resultado e, acima de tudo, se essa Oficina poderia ser útil. O empenho e dedicação de Lizette frente a seu trabalho com os jovens e sua constante preocupação com conteúdos e métodos a serem empregados com eles faz a diferença na qualidade dos trabalhos apresentados no CCSP. Não só relativo aos espetáculos, como também às Oficinas, seu crivo é bem rigoroso, se eu conseguisse passar por ele, estaria mais tranquila. Não precisaria mencionar, mas no meu caso em particular é bom, que a entrada no CCSP não dependesse somente Lizette, colega de TPS de tantos anos, mas de instâncias superiores, portanto se pairava uma dúvida...

Entreguei uma proposta aberta à direção do CCSP, não restringi idade, deixei que a seleção pessoal fosse formando uma turma eclética e satisfatória. Deu certo.

Iniciei com uma entrevista com grupos de participantes, durante quatro dias consecutivos, nos quais pude avaliar o real interesse de cada participante. Isso fez com que eu tivesse alguma certeza quanto à evasão, tão comum em cursos de curta duração.

A primeira Oficina transcorreu muito bem – pude ministrá-la inteiramente a contento e acredito que os alunos também sentiram assim, haja vista o resultado positivo dos relatórios comentados a seguir. Minhas expectativas quanto a trabalhar no Centro Cultural foram alcançadas e ultrapassadas, pois tive liberdade de desenvolver as aulas inteiramente. Depois dessa experiência posso afirmar que há carência desse tipo de curso, que quase não pede pré-requisitos, que constrói uma turma heterogênea como a nossa: professores, estudantes de direito, secretariado e teatro – profissionais que aspiravam melhorar seu desempenho comunicativo, com idades que variavam de 15 a 54 anos.

Dentre os relatórios apresentados pelos participantes, destacam-se pontos em comum, os quais são relevantes para comprovar a eficácia da Oficina.

Fica explícito nos relatórios que todos tiveram a compreensão exata de que os exercícios de respiração auxiliavam na oxigenação do corpo, a perder a timidez e soltar a voz, mas ao mesmo tempo entender algumas de suas limitações, pois a Oficina possibilitou uma nova visão de si mesmo. Em vários depoimentos encontram-se afirmações de que aprenderam a lidar melhor com as situações do cotidiano e com isso tiveram uma surpresa consigo mesmos. Aprenderam a enfrentar os medos, pois conseguiram perceber que vem da mente. Reclamaram muito da curta duração da Oficina, talvez esperando ingressar num curso regular.

Pessoas de várias idades e profissões, juntas, propiciaram a interação de cada um no grupo, a auxiliar e contar com o próximo, desenvolver a convivência em grupo, como também melhorar o aprendizado para saber lidar com as situações do cotidiano. A aplicação dos exercícios no dia a dia e saber colocar em prática o dizer “não”, o que para nós brasileiros é incomum, foi também observado nos relatórios.

Segundo Elissandra [1], que me auxiliou nas análises: “As mulheres no curso, segundo os relatórios, apresentaram maior espontaneidade, falaram mais dos seus sentimentos, detalhavam com precisão os exercícios e não demonstraram temores quando expunham suas idéias. Os homens, mais contidos e objetivos, foram diretos e poucos comentaram sua experiência pessoal.”.


  
OFICINA VIVENCIANDO O TEATRO: UMA APTIDÃO PARA A VIDA
LOCAL – CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
PERÍODO – 23/10 a 11/12/1999
                Sábados/10 às 13 horas
                30 inscritos (com 2 mensalidades de R$ 20,00)

Com uma Oficina encomendada pela Coordenadoria do CCSP, dessa vez com cobrança de mensalidade, confesso que fiquei apreensiva, porém foram tantos inscritos que me tranquilizei. A primeira Oficina havia obtido excelentes resultados e agora o perfil dos participantes foi definido entre adolescentes e jovens, o que definia o grupo de trabalho. Procedi como da primeira vez fazendo um bate–papo-entrevista.

O espaço que nos foi designado era pequeno - uma das salas de ensaio, para o número de participantes era difícil, porém não havia alternativa. Depois de montada a Oficina e contratadas as pessoas é que se pensa no espaço, e não é culpa deles, é falta de vontade política em liberar as salas de espetáculos para aulas de teatro. Como sempre a afluência foi grande de interessados e a seleção efetuada pessoalmente não deixou dúvidas quanto à escolha dos 30 participantes. Não tivemos evasões, porém nem todos fizeram relatórios. Dos que pude analisar, a maioria foi unânime em afirmar o equilíbrio que a respiração proporcionava. O desenvolvimento da paciência para com os outros num espaço tão pequeno, também foi um fator que chamou a atenção dos participantes. Na expressão dos alunos, “sair do umbigo” foi muito difícil, mas valeu a pena, porque propiciou o encontro com o outro, ao mesmo tempo em que despertou a criança que existe dentro de nós e que fazemos questão de esquecer. Aprender a ouvir e respeitar o comando do professor ou orientador foi novidade, que os participantes destacaram em seus relatórios. Penso que para o bom andamento de uma aula de teatro é preciso muita disciplina, porque o ambiente já é dispersivo, então tento transmitir que há um comando com tranqüilidade para eles. Para os que serão atores mais tarde, se encontrem preparados quando enfrentarem o comando de seus diretores de teatro, cinema ou televisão.

Acredito que do ponto de vista de conteúdo a Oficina respondeu ao seu intento, pois os relatórios dos alunos e os “bate-papos” informais com alguns participantes sempre mostraram boa receptividade. O fato de utilizarmos o horário matutino aos sábados foi bem aceito, causando-me surpresa a assiduidade dos participantes, mesmo os finais de semana prolongados. Todas essas dificuldades foram um grande aprendizado e um grande teste, porque nos propiciou aprender a reverter as impressões negativas iniciais para positivas. 



OFICINA TEATRO - A LIBERDADE DO SER
LOCAL – CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
PERÍODO – Abril a Julho de 2001
                Sábados/10 às 13 horas e 14 às 17 horas
                50 inscritos em cada turma

Turma 1 – Eram muitos adolescentes, quase todos estavam se expressando pela primeira vez. Nos grupões iniciais, que faço sempre aos finais das aulas, eles mal falavam e se revelaram no decorrer dos dois meses. Segundo os relatórios as notícias de jornal ajudaram a pensar melhor, chegaram a definir as aulas como oficinas de cidadania. Os temas que mais buscavam nos jornais eram os problemas da periferia, como violência, drogas e prostituição; cadeia, isso com forte influência dos programas policiais de televisão. Era a época do apagão, então surgiram muitos exercícios sobre o assunto explorando o lado positivo de educação para a economia de luz, como também a crítica culpando o governo pela ausência de providências.

Para os adolescentes o contato com a respiração foi muito importante, tomando-a como um exercício de relaxamento. 


Turma 2 – Essa turma era principalmente de jovens que tinham como objetivo resolver o problema da timidez e da dificuldade em se comunicar. Não havia um interesse específico no teatro em si, mas nos resultados que ele pudesse dar. Por isso a surpresa em se ver improvisando ou relaxando com uma nova maneira de respirar era muito grande. O mais importante para todos eles era a concentração, que eles souberam desenvolver muito bem. Os temas escolhidos nos jornais foram, principalmente, aqueles ligados à política, à televisão, como os programas de fofocas e os problemas da sociedade em que eles vivem.


Turma 3 e 4 – O uso dos jornais e das revistas foi muito enfatizado por essas turmas em seus relatórios. Isso ocorreu talvez porque as turmas fossem muito heterogêneas em idade, proporcionando um maior debate de idéias. Porém, principalmente para a turma 3, o que todos apreenderam da Oficina foi o desenvolvimento de um maior equilíbrio mental e físico através dos exercícios de respiração, assim como nos jogos. A turma 4 tomava a Oficina mais como uma terapia. Nas palavras de Elissandra, minha assistente: “Esta turma mostrou a importância de usar os jornais e revistas no momento da criação. Comentar e debater temas e notícias estabeleceu um olhar crítico dos jovens e adolescentes, demonstrando no grupo o necessário questionamento e insatisfação perante as desigualdades e negligências sociais. Ressaltando a necessidade da leitura e a importância política, moral e social do teatro em nossas vidas.”.

Para poder dar conta, plenamente, de uma Oficina pela manhã e outra à tarde, convoquei dois assistentes, meus ex-alunos – Alessandra e Salomão [2] que me ajudaram muito.

Pedi a Alessandra Gisele Daniel, Lili, minha aluna e assistente, para que me ajudasse na análise dos muitos depoimentos. Por fim, aconteceu um trabalho extremamente profícuo que gerou análises e considerações tanto minhas quanto dela. Além do depoimento feito a época em que cursou as Oficinas, Lili produziu um depoimento geral de sua participação como aluna e assistente, inclusive em outros grupos.

Fabiana S. Magalhães [3] também fez o mesmo em outro estilo, porém, em ambas, se vê a análise do passado através do momento presente. Lili em seu relato enfatiza sua luta pessoal contra a timidez e credita ao trabalho nos grupos o resultado de sua mudança. Quando foi minha assistente pode mostrar sua desinibição.

Terminada a terceira Oficina – A Liberdade do Ser, um pequeno grupo se formou querendo aprofundar o estudo teórico sobre o teatro. Então montamos um pequeno grupo em minha casa com aulas uma vez por semana onde estudamos a história geral do teatro, bem como o teatro brasileiro.

Fizemos também uma experiência num espaço no bairro do Jabaquara, cedido por uma aluna, onde pudemos aprofundar os exercícios das oficinas, todos eram ex-alunos e queriam seguir em frente com exercícios mais elaborados em busca de montar um grupo de teatro. Infelizmente, o espaço teve de ser ocupado e a turma se dispersou.

Salomão Cohen se destacou no curso tanto quanto Lili. De um adolescente de 16 anos para um jovem mais ativo, dinâmico e deixando sua iniciativa ser despertada. Após a Oficina A Liberdade do Ser, ele manteve contato, sempre disposto a reunir a turma, sempre participando dos cursos. Quando resolvi chamá-lo para ser meu assistente, ele mostrou-se muito interessado e cumpriu sua função com precisão. Com esse aprendizado e com o talento nato de Salomão para a interpretação e a direção, aplicou o que aprendeu na sua turma de escola, dirigindo um espetáculo com texto de outro aluno. Como estavam em conclusão do terceiro grau, o trabalho de Salomão foi extremamente gratificante e marcante para a escola.

Depois de toda essa iniciação, pensei que ele fosse se interessar em fazer um curso superior de artes, em crescer e atuar em teatro. Porém, isso não aconteceu, ele permaneceu em contato conosco, mas não se interessou por nada referente a teatro. Esboçou a vontade de cursar cinema, mas não perseverou na idéia. Enfim, é com pesar que não inclua um relatório seu, seja porque não soube ou não quis fazer, seja porque não tenha mais tempo para isso. É penoso ver um talento se perder por nada, por falta de direção, de determinação, talvez esse seja o lado ruim de um curso. Quando percebemos que o aluno que dispunha de tempo, talento, vontade não vinga, não aproveita as oportunidades oferecidas pela vida.

Fiz questão de deixar aqui esse relato, pois ele vai de encontro ao “susto” que a prática de Reich pode produzir. Estar mais presente no mundo, em sua própria vida, assumir riscos e responsabilidades pode ser, às vezes, assustador para alguns. A liberdade corporal exige controle, desenvolvimento da inteligência, maior conhecimento emocional de si mesmo, tudo isso pode produzir um efeito contrário devastador. Embora seja um risco pequeno, pois apenas ele apresentou esse comportamento, não deixa de ser uma perda.

Por outro lado, quantas revelações se deram nos grupos durante os exercícios, quando o ser se deixa simplesmente representar, brincar, jogar, sem censuras. Muitos participantes se revelaram assim, percebendo em si mesmo um dom antes encoberto. Foi assim com a Lili e a Fabiana e tantos outros que teremos a surpresa de encontrar algum dia num palco ou num estúdio. Os exercícios também trouxeram a todos aqueles não atores uma maneira nova de encarar a vida, de abandonar o preconceito, de ser mais solidário com os outros. Tornaram-se atores na vida!

O grupão, de uma forma geral, revelou a vida de cada um, foi o cerne da Oficina para cada participante, pois eles tinham um momento e um espaço para se expressarem. Aprendemos a ouvir críticas, a fazer comentários sem agredir, aprendemos a nos defender. Sem resvalar para a terapia, os grupões propiciavam um encontro de todo grupo através de uma dinâmica, porém sem bloqueios. Chegamos a dizer coisas sérias, tivemos problemas sérios, mas nunca tivemos um momento de agressão, um gesto mais ousado, nem dentro, nem fora da sala de aula. Eram adolescentes de diversas classes sociais e econômicas, porém todos ali eram iguais e havia respeito entre todos. Conseguimos colocar uma teoria em prática e respeita-la plenamente. 



[1] Elissandra Gisele Daniel foi minha aluna na Oficina - Vivenciando o Teatro uma Aptidão para Vida, minha assistente na Oficina - Teatro A Liberdade do Ser e minha colaboradora na análise dos relatórios.
[2] Salomão Cohen foi meu aluno na Oficina – Teatro A Liberdade do Ser
[3] Fabiana S. Magalhães foi minha aluna na Oficina – Teatro A Liberdade do Ser


VISITEM TAMBÉM
WWW.BLOGDOVICTORINO.BLOGSPOT.COM.BR

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Capítulo 3 - Segunda parte

Acredito que um grupo de trabalho, seja para qualquer oficina, que se encontra pela primeira vez carece de alguma forma de exercício de integração, a fim de que os participantes e professor possam se conhecer e se integrar, criando um ambiente específico para o grupo. Como primeiro procedimento costumo reunir o grupo em um imenso círculo, no caso desses grupos, onde todos possam ver a todos. Ao sentarem-se, já se percebe aquele mais tímido, que se esconde atrás do outro, ou aquele que já se coloca com um sorriso, olhando atentamente o professor. Ao me colocar na roda, após uma rápida apresentação de todos, estabeleço claramente as regras para nosso trabalho, sabendo que elas poderão contribuir para o sucesso e o bom desempenho de todos. Coloco-me como organizadora, não como professora. Lembro sempre, porque acredito, que a organização natural e observadora das necessidades dos outros, não é nada pesado ou difícil de cumprir. Se olharmos o outro como companheiro de jornada, tudo ficará mais fácil, se fizermos cumprir nossas regras, seremos todos responsáveis por nossas falhas. Não eram muitas as exigências, mas deveriam ser cumpridas à risca: horário para início e término; evitar ao máximo faltar; interesse, mesmo que o desafio seja grande; todos ajudarem a todos. Não estabelecido o fator competição, todos começavam a relaxar, ao mesmo tempo em que sabiam que tinham um ambiente acolhedor. Parece-me que aos adolescentes tudo isso parecia o paraíso, pois não tinham toda essa atenção em casa ou na escola, todo esse ritual, todas essas regras a cumprir, porém regras que não invadiam sua privacidade, ao contrário, deixavam uma larga margem de liberdade. Se o teatro é feito de muita disciplina e dedicação, também é feito com uma boa dose de liberdade, sem ela não há criação. Essa liberdade, dentro da Oficina, era transmitida com muito humor, por meio da brincadeira na hora certa.

Acredito que os resultados obtidos nos exercícios e nos jogos, somente tenham sido possíveis graças à introdução da aula baseada nos exercícios respiratórios e movimentos de Reich. Toda aula tinha seu ritual, todos eram avisados a chegar com 15 a 10 minutos de antecedência do horário previsto, a fim de se prepararem, trocarem de roupa, irem ao banheiro ou mesmo descansarem um pouco do longo percurso que a maioria fazia da periferia da cidade até o Centro Cultural São Paulo. Tínhamos um aparelho de som que sempre nos era cedido e eu levava as fitas conforme o tema da aula. Acredito que a mistura de estilos que iam desde a música clássica, com coletâneas de adágios e minuetos, principalmente Mozart e Bach, até músicas new age, inspiravam os alunos a se concentrarem não na música, mas na respiração. Todos se colocavam de forma a que pudessem me ver, afastados um do outro o tanto que o espaço oferecido permitisse. Num primeiro momento, eu contava um pouco sobre Reich, sua técnica terapêutica e a aproximação que essa técnica permitia para o desenvolvimento corporal do ator. Explicava sempre que qualquer alteração deveria ser comunicada, visto que algumas pessoas são mais sensíveis quando lidam com a respiração. Perguntava de algum mal físico, doença crônica, para que eu pudesse ter mais atenção nesse aluno e orientá-lo. Todos eram muito receptivos às explicações e não pairavam dúvidas quanto aos três pontos básicos: tomar a música apenas como fundo, para inspiração; não sair do seu lugar, mas movimentar o corpo com os pés separados na medida de cada um; ficar de olhos fechados o tempo todo e fixar-se, mesmo movimentando-se, o que não é nada fácil, na inspiração em uma só vez e na expiração em duas vezes, fazendo uma ligeira pausa antes da última e soltando-a como se quisesse empurrar o ar para fora. O exercício durava em média cinco a dez minutos, em escala crescente nas aulas que se seguiam, nunca excedendo vinte minutos. Sempre deixava bem claro que os efeitos jamais seriam de “baixar o santo” ou de algum milagre, por isso a consciência da realidade era primordial em todo tempo.

Ora, o movimento junto à respiração, mesmo que essa seja esquecida às vezes e retomada quando lembrada pelo professor, ia, pouco a pouco, soltando as travas corporais que geralmente se alojam no adolescente, nos ombros e nas pernas. Nas primeiras vezes era difícil começar, por isso o estímulo era pontuar esses lugares onde geralmente se alojam as tensões, encorajá-los a mexer o corpo e respirar, o que provocaria uma boa sensação. Motivá-los a não terem medo, porque todos estavam de olhos fechados, portanto ninguém poderia ver ninguém, ninguém poderia saber o que o outro estava fazendo.

Na segunda vez eles já estavam um pouco mais soltos e já se conseguia definir aquilo que Reich aponta como couraças musculares, aqueles lugares que eram intocados pelo movimento, ali residia o traço. O corpo todo obedecia ao fluxo da respiração, deixava-se enlevar pela música e o ritmo da respiração, mas o foco, o traço principal permanecia intocado. Isso mostrava a constatação das dificuldades que se dariam no jogo que viria a seguir. Muito raramente, pelo tempo exíguo das Oficinas, alguém conseguia ultrapassar o traço e romper a couraça, sem se dar conta disso, apenas notavam uma sensação de estar melhor fisicamente. E não poderia ser de outro modo, não se tratava de uma terapia e não poderia haver avaliações, apenas um encaminhamento e incentivo para que prosseguisse, caso isso fosse solicitado.

Alguns mal se moviam e expressavam um medo enorme em respirar, era uma pequena minoria que também não conseguia se integrar nos jogos. Se não havia a liberação dos afetos no exercício de respiração, ou seja, da cólera e da angústia, que são os afetos primitivos, não havia progresso.

É da energia liberada pela respiração que surge o movimento, ora involuntário, ora voluntário, como expressão de um gesto genuíno. É exatamente com a prática desse exercício que o aluno-ator consegue uma maior autenticidade na sua expressão condicionada, prejudicada pelos pontos de tensão, pela couraça muscular. Quando se respira um por dois, ou seja, inspirando uma vez pelo diafragma, fazendo um silêncio, uma suspensão na respiração, e expirando em duas vezes, promove-se uma “limpeza” não somente nas vias respiratórias, como também em todo o organismo, ativando o processo biológico e retirando as impurezas que possam alojar-se no organismo. Reich tem estudos médicos que comprovam que a respiração curta, que nem lembramos que fazemos, além de ser um retrato de funções psicológicas equivocadas refletem no funcionamento do organismo, podendo causar muitos males e muitas doenças.

Quando o aluno-ator descobre os seus movimentos que surgem dessa respiração, por estar de olhos fechados, consegue ter a percepção de novos gestos e de onde vieram esses gestos. É claro, que somente o tempo e a prática conseguem fazer do aluno-ator um praticante consciente e perceptivo de seu corpo, tomando para si suas travas corporais e ao mesmo tempo expressando seu gesto autêntico. Ele treina seu corpo a fazer o que quiser com ele, desde a cópia, imitação mais autêntica, até a composição mais verdadeira. A ação muscular, de onde partem os gestos deve ser liberada e ela está carregada de sentimentos e sensações bloqueadas, representadas pelas couraças musculares. O que se pretende é encontrar um meio de desbloqueio corporal, da busca por uma expressão mais consciente e autêntica para o próprio aluno, principalmente, e depois para o ator.

Como a descoberta de Reich foi feita por mim num ambiente profissional, pude constatar que se o ator profissional se submetesse a essa técnica preparatória, poderia lucrar muito no seu desempenho. A consciência corporal se dá por meio da respiração, da liberdade que surge no movimento aleatório, na concentração que remete o ator ao seu interior. Nessa busca pelo gesto mais autêntico e consciente surge a composição física, deixando a composição emocional para o jogo, para o encontro com o outro.

Para Darwin e depois Delsarte, a expressividade, seja nos homens ou nos animais, é “inata ou hereditária”, sendo a influência do meio e o papel da educação limitados. Delsarte perseguia o gesto autêntico, sendo o primeiro a estudar a dinâmica do gesto, sua estrutura e concebendo a ciência do movimento expressivo e sua maneira de ser. A busca de conhecermos nosso corpo e seu funcionamento, sua expressividade no mundo, compete não só aos atores e professores, mas a todos que se interessem em buscar a harmonia de sua linguagem corporal, para sua expressividade ser mais autêntica, mais genuína.

As regras estabelecidas, tanto para o jogo como para a convivência e vivência desse grupo, os exercícios de respiração, o aluno-ator mais relaxado, mais disponível para realizar os jogos, os grupos então se formam. Primeiro aleatoriamente, sabendo que sempre farão um “rodízio” dentro de cada grupo. Um tema é colocado como desafio, uma notícia de jornal, um fato da realidade, ou simplesmente um sentimento para ser explorado pelo grupo, para ser trabalhado, discutido. Com a estrutura de Viola explicada anteriormente (quem, onde e o quê) fica fácil montar uma pequena cena sem falas, pois a preocupação é mostrar aos alunos-observadores a visão do grupo sobre o tema. Para eles as discussões eram infinitas, primeiro sobre o tema, todos queriam opinar, depois sobre a forma da apresentação. Cada grupo escolhia um estilo, porém o que predominava em quase todos os grupos era a presença de um, às vezes mais, personagem cômico. Mesmo quando o enredo era dramático, havia essa presença que provocava risos nos alunos-observadores e descontraia o grupo. Isso tornava a aula divertida e a preocupação na execução dos temas fluía prazerosamente, sem prejudicar os objetivos, pois não faziam graça por fazer, ao contrário, era tudo elaborado, pois é muito difícil fazer rir uma plateia. Nunca houve abusos com o uso da comicidade, como resvalar para a gozação simplesmente, ou fazer graça pela graça, o que se torna sem graça. Acredito que isso tenha surgido sempre, em todas as Oficinas, porque nossa raiz cômica é muito acentuada e temos facilidade também, para a elaboração de histórias, para a construção do improviso como queria Perrucci.

Antes de se pretender municiar o aluno-ator de técnicas de representação, o mais relevante é o processo de desconstrução da própria pessoa. A exposição que a respiração Reichiana e os jogos propõem tornam-na tão vulnerável que é preciso cuidado nesse aprofundamento. Talvez os chamados “grupões”, promovidos ao final de aula, possibilitassem que todos pudessem expressar, verbalizar, ordenar logicamente em linguagem comum o que havia ocorrido com cada um naquela aula. Ali era mostrado se havia o processo em curso ou não, o verdadeiro conhecimento de si e uma tomada de consciência de si mesmo, embora ainda tênue. Com o passar do tempo já se iniciava a desconstrução do mundo, a formação de uma pequena crítica ao que ocorria ao seu redor, o que era passível de modificação em si mesmo e no mundo. Se não ocorre esse despertar de uma pequena consciência, não pode haver a consciência social de si mesmo no mundo, não pode haver ator. Se não for possível despertar esse ser para que se interesse pelo que acontece em si mesmo e no mundo, como poderá um dia preparar um papel, analisar um personagem? Como poderá fazer uma leitura histórica do texto, uma análise aprofundada de um dado momento histórico da peça? É por isso que discutíamos tanto nesses “grupões”, às vezes transcendíamos aos comentários dos exercícios e eram então enfocados os problemas de cada um. O mais importante é que falávamos de nós mesmos, seres humanos, e de nossa realidade - o material mais precioso para um ator.

Em grupos mais adiantados propunha uma construção de exercício baseado nos personagens por eles criados e fazia uma variação do “jogo da verdade + gênese do personagem”. O que ocorre nesses casos, e já fiz muito isso, é que nessa gênese se fala sempre do que o personagem gosta, ou não, ou seja, dos seus sentimentos. Nossa gênese era diferente e chama-se gênese social do personagem; por meio de perguntas sobre a vida do personagem, como exemplo: de quem era filho, onde morava, no que trabalhava, se estudava, enfim tudo aquilo que ele fazia. Era proibido usar a palavra gostar ou do que o personagem gosta. Ao final o personagem estava construído e seus gestos e sentimentos também, provando assim ser o homem o produto de seus pais e do meio em que vive. Tudo para mostrar a necessidade de um novo corpo para esse personagem, de novas atitudes, de um novo movimento e gesto para ele. Se isso pode ilustrar o “gestus” teatral de Brecht, poderia até ousar dizer que sim, cria, para o ator, novos horizontes onde alicerçar seu personagem. Os tipos da Commedia dell’Arte eram baseados nos gestos de cada tipo que eles criavam. Na relação de Darwin, exposta no capítulo II, sobre a expressão das emoções, são gestos inatos que ali estão, os aprendidos vem da vida, do trabalho que exerce, do local onde está, assim como os próprios tipos da Commedia dell’Arte. Também para Barrault, para quem existe a atitude, o gesto e a indicação, sendo a atitude construída, para expressar um gesto mostrando o seu significado.

A partir do desenvolvimento corporal do ator, ele pode encontrar dentro de si as emoções de que necessita. É no corpo, estão lá escondidos os sentimentos desse personagem. Se o corpo não é trabalhado primeiro, se não tem uma constante e um hábito de exercícios, nada pode brotar dele, nenhuma expressão, seja fala, seja emoção. Corpo e fala, texto e sentimentos, tudo está interligado, não há um teatro só corporal ou só declamatório, há sim um ator bem preparado física, psicologicamente para realizar o personagem.

O ator da Commedia dell’Arte tinha como princípio de preparação corporal a acrobacia. Como todos faziam de tudo, tinham a vantagem de se exercitarem de todas as maneiras. A acrobacia ajudava-os nas improvisações, na agilidade que o corpo tinha residia a agilidade das falas a serem ditas, baseadas no fio condutor da história, muito parecido com nossos jogos teatrais de Viola. Hoje, com nossa vida tão confortável temos tantas dificuldades em promover uma improvisação e no entanto, aqueles atores, com condições tão precárias produziam tanto. Acredito que se deva despojar cada vez mais no teatro para que possa haver mais produção artística. Partir-se do mais elementar e simples para se chegar à raiz, ao cerne do que se quer transmitir. Nisso a respiração Reichiana ajuda ao aluno-ator a ter um contato consigo mesmo, conhecendo melhor seu próprio corpo e sua própria mente, seus sentimentos e seus bloqueios. Se Garrick não houvesse ousado nos gestos, o teatro seria declamatório até hoje. Não teríamos as lições de Decroux e Barrault, Delsarte e a reflexão sobre Darwin.

Se não há uma filosofia que sirva de alicerce para uma proposta ela simplesmente não existe. A filosofia que rege esta proposta, que na verdade é mais uma prática de várias teorias, é o ensino como forma de despertar o aluno-ator para que procure o porquê de estar trilhando esse caminho, por que ser ator? Já que hoje em dia qualquer um é ator, qualquer um sobe num palco e de repente está na televisão e no cinema, é preciso querer saber por que alguém quer ser ator. Talvez pela ilusão do dinheiro fácil e da fama, os cursos de teatro iniciem suas classes tão repletas de jovens e ao longo do tempo, quando percebem que ser ator requer aprendizado e treinamento duro como qualquer outra profissão, vão embora decepcionados pela disciplina e ao mesmo tempo delicadeza e cultura que envolvem nossa arte. A filosofia de ter o cuidado com essas Oficinas que mais são pré-escolas, jardins da infância teatral para tantos jovens. Essa é a grande preocupação, o contato dos jovens com o teatro pela primeira vez, a experiência de uma vivência coletiva que em 10% dos jovens resultará em carreira artística, mas e o restante? Vieram em busca de um grupo onde pudessem sair diferente, é o que todo mundo almeja de um curso e era o que Brecht dizia sobre um espetáculo. Se o aluno-ator puder se modificar um pouco que seja, já será uma grande vitória, a proposta terá uma filosofia, pois terá cumprido uma função social e individual. Em nossas Oficinas no coletivo, todos saíram com alguma opinião, nunca houve indiferentes. Individualmente, muitos são amigos até hoje, estão batalhando a carreira artística e adquiriram bons hábitos, lêem teatro, assistem teatro e criticam teatro! Acredito que essa modificação – uma nova visão de mundo se dê, em parte, com o trabalho de respiração e movimento de Reich, que funciona quase como um estímulo, uma preparação para os jogos. Os jogos viram uma grande brincadeira organizada, onde a criação do aluno-ator é exigida. A formação dos pequenos grupos, onde há a possibilidade do diálogo e discussão, de posicionamento de opinião, é extremamente rico para o aluno-ator, principalmente o jovem e adolescente que quer ter o direito de se expressar. O tema pode ser abstrato, ou uma atividade do cotidiano ou mesmo uma notícia de jornal, pouco importa. Certamente guardará tudo isso dentro de si, vai compartilhar com os colegas do pequeno grupo o que expressará somente com o corpo no jogo, por isso seu esforço é o de manipular informações, o esforço a que se refere Perrucci, do ator que improvisa ter as qualidades do poeta em elaborar a história e a expressão perfeita dessa história, quando não há texto prévio, e no nosso caso sem falas, o corpo é o grande veículo de contar histórias.

Acredito que somos um povo privilegiado em manifestações corporais, em danças e com um teatro cômico muito rico em textos e autores. Embora nossa herança européia seja extremamente marcante até hoje, devemos procurar nossas raízes para aí sim estabelecer nossa filosofia. Buscar nossa própria maneira de atuar, criar nossa própria linguagem, os alunos-atores têm menos medo do ridículo do que muitos atores profissionais. Tentar a comédia “seriamente” com vontade e determinação, retomando os clássicos, que não são conhecidos dos alunos-atores, nem de atores profissionais, seria uma saída. Tentar o corpo na comédia, que se desenvolve e se mostra mais solto, não ter medo de ousar ser nacional é o grande desafio que nos impõe o ensino do teatro. Senão, para quê ensinar teatro e formar atores? É preciso transmitir a eles que o teatro é uma arte nacional, exatamente, devido ao idioma. Se retirarmos o texto em nosso idioma do teatro, não conseguimos compreender quase nada. Quando se mostra um espetáculo de um determinado país, temos sempre a barreira do idioma, podemos apreciar tudo, porém se não sabemos um pouco da história perdemos a mensagem que nos era dirigida. O teatro é uma arte nacional, é preciso procurar aprender a representar com os nossos textos, aprender a dominar a nossa dramaturgia, a estudar nossos atores e diretores, nossa história, somente assim teremos nosso estilo de representar. Como diz Dario Fo...” um povo sem cultura é um povo sem dignidade, despreocupado com suas raízes, portanto sem desejo de se libertar e ainda menos de combater”. [1]  

Resolvi adotar o termo vivência, para minhas Oficinas, porque define bem o limite entre o teatro e a terapia. Nas Oficinas lidamos com o ser humano e suas fraquezas; tomamos, todos nós alunos e professores, contato com regiões escondidas de nós mesmos. Uns mais outros menos, porém todos se abriram um pouco mais ao mundo durante as Oficinas, ao outro e a si mesmo também. Por meio da respiração reichiana, ou dos jogos, tenho a certeza de que houve um momento em que a consciência e a liberdade se encontraram. Alguns atores quando concebem um personagem chamam a isso de “magia”, acredito que não há nada de mágico nisso, apenas empenho, técnica, consciência e vivência.

Quando me utilizo da palavra consciência resumo nela todas as percepções, desde os cinco sentidos até a intuição, passando pelo intelecto e sentimento, reunidas numa única sensação de estar aqui agora, ser plenamente. É muito difícil conseguir isso, que mais se aproxima de técnicas de meditação transcendental tibetanas, porém como somos ocidentais podemos ser mais originais adaptando essa sensação. Essa noção de consciência é muito importante para nós de teatro, assim como é sempre citada desde a psicologia até a espiritualidade. O treino para isso requer muito domínio de si, muito controle, paradoxalmente muita liberdade interna e externa. Ser presente, estar presente globalmente, interagindo com o outro e com o ambiente, esta é a essência da vivência. Num tempo determinado poder explorar todo o corpo do aluno-ator, fazendo com que se desenvolva mais harmoniosamente com o ambiente, se integrando socialmente, também, porque atualmente as pessoas mal falam umas com as outras. Enfim, tudo é vivência, quando falamos do espaço onde trabalhamos sempre há uma menção ao reconhecimento do espaço, da sala onde temos aula. Muito bem, tento transcender, e todos do CCSP acostumaram-se a isso - levar os alunos nos arredores de nossa sala situá-los quanto a possíveis saídas, perguntar por onde entraram, enfim, até municiá-los para uma saída de emergência, porém tudo feito já se aplicando consciência no sentir a si mesmo executando a tarefa, observando o local, sentindo o espaço e a si mesmo no espaço. Nenhuma novidade, apenas empenho na execução.

Diderot antigamente e Yoshi Oida hoje, ator e professor japonês para usar da contemporaneidade, enfatizam em todos os seus textos de que a emoção acontece para o público, através da atitude do ator e quanto mais essa atitude for trabalhada racionalmente em seus menores detalhes, aí haverá interpretação. Barrault cita a atitude também como justificativa e intenção do gesto. Mas como desenvolver essas noções tão similares no aluno-ator? Poderemos pensar apenas numa semente a ser jogada para que ele se interesse ou não por tudo isso. Os resultados nos dizem que sim, ele aceita para sua própria vida, então isso já é muito. Consegue colocar em prática a consciência de seu corpo e com isso modificar algumas atitudes, o que não é nada fácil. Todas as nossas emoções se ancoram no corpo, é com ele e somente com ele que podemos construir algum gesto, buscar o que nos falta. Quando nosso corpo adoece percebemos a massa que ele ocupa no espaço, pois dói aqui e ali e ele nos parece enorme com essa dor. Nada disso é verdade, é apenas a ilusão de quem nunca percebeu seu corpo.

A consciência corporal se dá em exercícios simples do dia a dia, de flagrar-se a si mesmo no banho, de perceber-se andando na rua ou dentro de casa. Obviamente a respiração reichiana ajuda muito, porque ela nos “treina” a percebermos nosso corpo numa situação mais peculiar que é respirando e oxigenando todo corpo. Andar na rua, prestar atenção no seu próprio corpo, no espaço a sua volta e nas pessoas é um exercício completo para o aluno-ator e para todo mundo que queira aproveitar a vida. A assim chamada consciência corporal nada mais é do que estar presente e ser o agente do seu corpo. A maior parte das queixas em consultórios ortopédicos é de dores causadas por má postura, ou seja, basicamente ausência de consciência corporal. Certamente, não podemos ter o controle completo quanto às anomalias que surgem, mas podemos ter a consciência de suas causas e tentar modificar alguns hábitos.

Tais relatos podem servir para experiências como essa das vivências teatrais em oficinas, cursos rápidos e de iniciação teatral. Tentar desenvolve-los, instigar no aluno-ator o despertar de sua consciência, levando-os a trabalharem mais com seus corpos, não somente no sentido da atividade física, mas da consciência dessa mesma atividade.

A fim de ratificar e melhor esclarecer minha proposta, exponho a metodologia surgida desta práxis, uma forma apenas de organizar as idéias aqui contidas e já por vezes mencionadas. Na verdade, estas idéias são passíveis de interpretação, de modificações, pois a prática em sala de aula com um grupo é diferente a cada dia, assim como é diferente entrar em cena a cada dia.

Sempre que penso no conteúdo de uma Oficina, lembro-me, imediatamente, dos possíveis participantes dela. Por isso, a primeira coisa que faço é uma entrevista com eles, coletiva ou individual. Sem um trato especial, diferenciado com o participante, ele só se sente mais um número a preencher aquele curso. Mas quando ele conhece o professor, o espaço, o conteúdo, tudo fica mais fácil, a primeira aula torna-se um segundo encontro do grupo, todos estão relaxados e já se conhecem.

Isto já faz parte da filosofia desta proposta, estabelecer sempre uma relação de cuidado com o outro, de humanização, de recuperação de um relacionamento perdido. O respeito à sala de aula, seja ela qual for, começa com um relacionamento do grupo.

Se a preocupação pedagógica é formar consciência a fim de gerar uma filosofia, podemos nomear esse primeiro momento de consciência de base, que é aquela que se desenvolve mais no primeiro dia de aula e também ao longo do curso. É a consciência básica de qualquer ser humano que queira se comportar com um mínimo de educação e civilidade. Normas simples de respeito ao ambiente e aos outros. Explicadas as razões dos comportamentos, todos aceitam e utilizam, porque fazer coisas sem razão é muito difícil. É preciso incutir a ideia de que qualquer lugar pertence a nós e de que qualquer pessoa é nossa companheira de jornada.

As nossas vivências são como ensaios, não podem se presenciados por ninguém, por isso o grupo requer privacidade, porque tanto os exercícios iniciais como os de grupo podem inibir bastante os participantes no início. A respiração reichiana, sendo um exercício individual, promove o relaxamento e a descontração do aluno-ator, portanto, qualquer interferência pode prejudicar o processo. Por isso, essas aulas não podem ser exibidas diante de uma platéia.

O meu objetivo enquanto orientadora é verificar as travas corporais de cada um, os “nós” a serem indicados para serem desfeitos, como também a capacidade de cada um de se concentrar apenas em seu corpo. Vale salientar que o intuito é meramente de observação para a atuação teatral e não como análise terapêutica. As orientações posteriores à vivência, quando conseguimos dar, são em prol de um corpo melhor para o ator. Se for dado ao aluno-ator todos os elementos a serem explorados por ele, se é desvendado a ele toda a história da respiração, ele pode aproveitar muito mais.

Acredito que após esse breve exercício o aluno-ator está mais relaxado para enfrentar o grupo, apresentar-se, falar um pouco de si mesmos. E reiterando a minha convicção de que primeiro cuidamos do ser humano, depois do ator, vamos trabalhar com os jogos teatrais, da nossa maneira brasileira, conforme o perfil de cada grupo. Se tiver um grupo mais de pré-adolescentes, explorar seu universo é muito interessante e proveitoso.

Se o grupo é mais de jovens, exploro mais nossos problemas cotidianos, a realidade de nosso país. Os grupos são sempre heterogêneos, há aspirantes a ator, estudantes, advogados recém-formados, enfim uma gama de profissões, que se misturam, dando sempre um bom resultado.

Precisamos ser bons, independentemente de uma religião, mas desenvolver uma humanidade de ser bom, uma natureza boa. Isso é preciso desenvolver no grupo em primeiro lugar para poder gerar união, fazendo com que todos aceitem a todos, sem distinção.

Creio que o corpo e a de consciência corporal ajudam no sentido de conhecermos nossa natureza, aquela que está mais próxima de nós que é o nosso corpo. Este seria o segundo momento, o da consciência corporal, os já expostos exercícios do dia a dia, os quais são mais eficientes do que aulas e mais aulas. Desenvolver a consciência espacial, as dimensões do lugar onde estou, as dimensões do meu corpo.

Logo após ter conhecimento de seu corpo, seja através do exercício de respiração, solitário, ou através dos exercícios em grupo, com o outro, vem agora à consciência espacial. Onde estou? Que lugar ocupo, como ocupo? Como eu ando? Pois dentro do exercício em grupo, o aluno-ator sente-se desconfortável, sente-se sem a dimensão do espaço, quanto ele ocupa dele, onde está seu colega, a que distância. Acredito que os exercícios, baseados no esquema de Viola Spolin mantêm sua estrutura primordial, porém são modificados a cada grupo, como já mencionei, respeitando as necessidades sociais, culturais e econômicas de cada participante. Na consciência espacial voltamos à consciência de base, pois duas pessoas não sentam na mesma cadeira, é preciso ver, estar presente nesse ver, observar o espaço que você ocupa e o espaço ao seu redor. Como é esse espaço? Voltamos à consciência corporal que inclui a consciência espacial.

Surge, então, a reflexão no exercício de sua situação social, o aluno-ator consegue ver sua vida, às vezes por meio da ajuda do outro participante do grupo. Essa consciência se expande em consciência histórica, fazendo com que sua reflexão, que se iniciou apenas na sua própria constatação de sua condição social e situação social, se expanda a uma consciência do próprio processo histórico, da realidade como mudança, da sua vida significando transformação.

O exercício, o jogo teatral dá essa possibilidade de “despertar” para uma realidade que é proposta pelo próprio aluno-ator, como tema e que, à vezes, se modifica dentro do exercício. Sem intervenções do professor-orientador, somente opiniões da “plateia” de alunos, os grupos que apresentam guardam para si mesmos experiências pessoais que modificaram suas vidas, como quase todos os relatórios, contidos no Anexo, podem atestar.

A consciência histórica promove no aluno-ator uma visão da sua situação em sua realidade social. A visão do todo e a constatação da possibilidade de mudança, nem que seja a sua interioridade. O exercício que lida com situações sociais vai promover isso no aluno-ator naturalmente, sem levantar bandeiras. É preciso desenvolver no aluno-ator sua consciência voltada ao seu tempo, bem como ao seu passado e seu futuro. Situar sua profissão historicamente, saber do por que ser ator hoje.

Trabalhamos com a respiração e o corpo, primeiramente, depois no jogo envolvemos corpo e mente, aparecem a atitude e o gesto e permitem que a emoção vá permeando todo trabalho no jogo, ela vai aflorando e sendo reconhecida pelo participante sem traumas ou violências. A consciência emocional é aprender a entrar em contato com seus próprios sentimentos, a reconhecê-los e aprender a conviver com eles; é como ter consciência corporal, você pode não mudar o “defeito” de imediato, mas sabe que ele está ali, o que antes não era possível. O campo da emoção é muito delicado, talvez por isso ele não seja tão enfatizado numa Oficina, porém, somos emoção, é impossível separá-la de nossos atos. O cuidado com o aluno-ator reside no fato de que precisamos lidar com todos os seus lados, com suas inúmeras facetas, porém com tranquilidade.

Sempre que tocamos na emoção nos embrenhamos na memória e, também, na liberdade, questões muito delicadas a qualquer ser humano, porém, material precioso ao ator. A emoção que promove a intenção que juntamente com a atitude, que provém da razão, da análise e da compreensão, fazem a ação. Ação que se dá no gesto social que retrata a realidade e a fisicaliza. A dinâmica entre emoção e razão faz brotar no ser humano o olhar crítico, ao perceber a realidade distanciada de si mesmo.

Para o aluno-ator iniciar-se no teatro tem de ser motivo de desenvolvimento de sua percepção social, porque somente daí ele poderá construir seu personagem ao mesmo tempo em que enriquece sua personalidade.            

Um aluno-ator não se reconhecendo em seu próprio meio, não consegue subsídios para enfrentar um trabalho teatral. O reconhecimento de sua própria realidade requer percepção social e histórica, que alguns adquiriram na escola, por meio de professores interessados na formação de consciência. O interesse na consciência social e histórica, ou seja, qual a realidade social e histórica do momento em que vivo, da minha família, do meu bairro, da minha cidade, do país e do mundo.

Isso posto o método consiste em que o aluno-ator não só adquira uma maior reflexão sobre si mesmo, como tenha material suficiente para os temas dos jogos. Tudo o mais depende disso – sua atitude corporal, seu gesto emocional, seu gesto social, sua atitude espacial. Todo material que é trabalhado durante uma Oficina vem da primeira reflexão feita pelos participantes.

O que este método pretende é sempre aprofundar a reflexão sobre si mesmo, trazer à consciência o aluno-ator, talvez até destruindo um pouco seu primeiro desejo de ser ator, porém tentando convence-lo a aprofundar seu ser, mergulhar em si mesmo, reconhecendo sua condição e acima de tudo, aceitando-a, para até, se preciso for, modifica-la. Daí para ele ser ator ou não ator, acredito que muitos caminhos já tenham sido abertos.


Para melhor racionalizar a linha de ação em sala de aula, foi feito o esquema da página seguinte.


                     
                                                                            
                    
ETAPAS de uma vivência
Para o ALUNO
Para o PROFESSOR
RESULTADOS ESPERADOS
Primeira: com duração de 30 min.
Respiração – é muito importante o contato do aluno-ator consigo mesmo.
Explanação exata da respiração, para que não haja danos em ninguém.
Desenvolver a concentração em si mesmo.
Segunda: com duração de 60 min., com um intervalo de dez min.
Jogo – reaprender a brincar, aprender a jogar, se ver no jogo.
Ser apenas o orientador do jogo, incentivar.
Interação dos alunos, cumplicidade.
Terceira: com duração de 30 min.
Grupão – é hora de debater e conversar. Análise e críticas dos trabalhos apresentados.
Manter-se calada (o) o quanto puder, apenas orientando o debate.
Revelar, aprender a argumentar e denunciar.



[1]FO, Dario. Manual Mínimo do Ator. Org. Franca Rame. SP, Ed. Senac, 1998, pg. 67


Visitem também
www.blogdovictorino.blogspot.com.br