segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Análise, Conclusão e Bibliografia



Ministrar as Oficinas para o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) foi realmente uma experiência fascinante, com suas ressalvas. A pouca infraestrutura que o MST possuía ou possui e oferece aos professores convidados, reafirma a idéia do sacrifício como elemento da formação política. Sofrendo alcançamos o Paraíso, diz a Igreja e os ditos de esquerda. Lembra um pouco o teatro, se não há sacrifício, não pode haver resultados, inclusive os de ordem financeira.

E o prazer? Esse se esconde, até atrás do sacrifício. Senti que toda função deve ser mais valorizada, a de professor e o próprio teatro, devem ser respeitados! Acredito que os ideais de uma esquerda de verdade, em sua essência marxista, devem querer mais justiça e solidariedade do que qualquer outra coisa. Sem entrar no mérito da prática política dita de esquerda, o que se vê e sente no país não é bem assim. Se nos voltarmos aos teóricos e aos poucos daqueles que harmonizam a prática política com a teoria, veremos que a vivência dessa teoria é o mais importante, até no teatro. Ao colocarmos o teatro como veículo de modificação da sociedade, ninguém aceita. Porém, o teatro sozinho, por si só, é um veículo de modificação da sociedade. A representação de um espetáculo (inteligível, é claro) proporciona uma modificação interior, uma ampliação do raio de visão de mundo do espectador. Se o fizermos com um direcionamento, seja na escolha do repertório, seja na maneira da representação, o efeito será ampliado.

Quando se trata de formação do ator, é semelhante, e foi o que ocorreu no MST. Mostrar a eles que sua função era extraordinária, que sua preparação deveria ser diferenciada, pois visava um fim específico, foi uma tarefa árdua. Jamais haverá um teatro engajado no MST, ou em qualquer lugar que queira fazer isso, sem que haja vontade e reconhecimento da capacidade que o teatro tem.  

Todo trabalho do homem sobre o mundo e dentro da sociedade é político. Por isso as três Oficinas ministradas por mim no CCSP (Centro Cultural São Paulo) também tiveram uma fundamentação política. Minha herança teatral vem do teatro popular, acostumada a representar para um público não iniciado, quando o TPS (Teatro Popular do Sesi) tinha como frequência o público ao qual se destinava. Quando me deparei com os integrantes das Oficinas, recordei-me do TPS, de um público não iniciado. Um grupo eclético que deveria, primeiramente, aprender a respeitar a arte do teatro, o ofício do ator, a arte da atuação e o espetáculo teatral. E todos deveriam definir seu lugar ali, ou como aspirante a aluno de um futuro curso de teatro, ou simplesmente um aluno não ator de uma Oficina. Parece-me que esses dois pontos esclarecidos fazem com que o aluno saiba, ou procure saber o que está fazendo ali, e não simplesmente passando seu tempo livre.

Cria-se um compromisso com a Oficina, o respeito que o teatro merece e a responsabilidade do aluno com o curso, com os outros colegas, com o professor. E o professor com os alunos e a própria Oficina. Criam-se laços, aprende-se que a disciplina não é sacrifício e dor, é apenas uma prática. Que bons resultados vêm da perseverança, empenho e principalmente paciência. Atingir a perfeição é o objetivo, a meta é realizar, dia após dia, o processo.

Teatro é um processo, assim como a vida e a história que produzimos. E como todo processo é preciso vivenciá-lo, esse é o segredo, com consciência e presença efetiva. Isso requer atenção, concentração, observação e maior liberdade com o próprio corpo, despertando-o para a vida, seja num abraço, seja num gesto de gentileza do dia a dia. Atuar no palco da vida não é nada fácil, o controle das emoções é imenso, o corpo participa muito e a mente nem sempre tem seu lugar privilegiado para essa atuação.

Descobri que ator e não atores precisam dos mesmos mecanismos para atuar na vida. Primeiro, precisam aprender a trabalhar sobre si mesmos, conhecer seu mundo mental e psicológico, o reflexo desse mundo no corpo, somente depois iniciar a atuação com os outros. O teatro pode servir a muitos propósitos, até em ser simplesmente teatro, porém os seus atores tem de serem preparados, primeiramente, como seres humanos apenas, melhorando seu desempenho na vida, aí sim poder querer ser ator. Assim, estaríamos mais protegidos das idiossincrasias de nós atores, que tanto prezamos chamar de uma loucura especial! 

Dialeticamente, o fazer teatral, de forma geral, e a interpretação, de forma particular, deveriam ou poderiam se nutrir na própria sala de aula, seja de uma rápida Oficina ou na própria universidade. Esse caminho de ida e volta propiciaria não somente a reflexão de um trabalho apresentado, assim como transformaria a sala de aula no verdadeiro lugar da experimentação. Assim sendo, poderíamos apresentar espetáculos mais aperfeiçoados, que até já tentam existir por essa fórmula, aproximando mais o público do teatro por meio de uma melhor compreensão do que o espectador está presenciando.

Para o aluno não ator que se dirige às Oficinas é muito importante saber do seu interesse pelo teatro, municiá-lo de formação crítica. Além da sua busca por um curso de teatro para melhorar sua expressividade, por exemplo, esse aluno é um espectador em potencial. Nem todos que procuram um curso de auxiliar de enfermagem desejam empregar-se na área, às vezes é porque são professores do ensino fundamental, ou porque tem alguém na família precisando de cuidados. Nas Oficinas de teatro ocorre o mesmo e é preciso compreender isso, porque se podem ajudar muitos jovens ou mesmo adultos que nos procuram. A mudança da atitude corporal que uma Oficina pode proporcionar, já será de grande ajuda para um simples funcionário que cumpre ordens e nunca cogitou o quanto de marcas negativas o seu corpo carrega.

Essa pesquisa pretende contribuir na reflexão do ensino de interpretação para o aluno-ator e não ator, bem como para todos aqueles que acreditam que um novo fazer teatral possa influenciar na prática em sala de aula e que essa, em contrapartida, possa suscitar novos meios para o desenvolvimento da atuação.

Nosso país padece de falta de cuidado. Assim como não cuidamos do meio ambiente, do planeta, não cuidamos também dos nossos corpos e padecemos por isso. Reich nos deixou uma grande mensagem quando nos ensinou a “lei” dos códigos de nosso corpo e identificou os nossos sentimentos. É preciso fazer alguma coisa, reconhecendo que o corpo guarda toda a carga de emoções vivenciadas no dia e de impressões que nos vem de fora, do mundo tão dissociado de nós, sem que nos demos conta disso. Sentimos o outro como um adversário a ser vencido, na escola, nas poucas oportunidades de emprego, nas relações pessoais. Não convivemos mais, somente se for conveniente, que ganhemos alguma coisa, caso contrário ficamos em nossa tão asséptica solidão, ela não nos faz mal, não nos causa problemas. Pensamos estar no caminho certo, afinal, nosso país será do primeiro mundo, é preciso preparação, comer fast-food, tomar pílulas para dormir, para depressão, para alegria em excesso, o mundo abomina gente com excessos e excesso de gente. De repente adoecemos! Oh! O que terá sido? A tão boa competição? O não se relacionar com ninguém, sinceramente? Calar-se frequentemente, chorar, sufocar-se em mágoas, ressentimentos e ódios? Não se permitir ser melancólico ou alegre como uma criança? Não, nada disso, foi apenas uma doença, alguma... nada mais. Se tivesse respirado, se tivesse mexido o corpo, se tivesse amado, se tivesse vivido, segundo Reich, não estaria assim.

Talvez se pudéssemos ensinar isso aos atores e não atores, aluno-atores e alunos não atores, já seria muito. Construiríamos pessoas mais bem ajustadas, proporcionando a elas que se conhecessem melhor e, conseqüentemente, reconhecendo-se no mundo com mais realidade, menos ilusões sobre si mesmas e o próprio mundo.

Precisamos olhar para nossos jovens, ter o cuidado quando estamos à frente de um grupo, seja para ensinar ou dirigir. Chega, bastam de cursos “capengas”, “gambiarras” para parecer que formamos atores. A grande mudança que faríamos em nosso país, e já seria muito, seria trabalharmos com seriedade sem resvalar para prepotência de queremos ser o que não somos.

Os nossos modelos sempre oscilaram entre Estados Unidos da América (EUA) e Europa. Um ator faz novelas na TV, guarda um dinheiro e vai estudar aonde? Na USP? Na UNESP? Na UNICAMP? Não, vai estudar nos EUA! Porque não valorizamos nosso ensino de teatro, chamando os atores à reciclagem, isso também é trabalho para uma Universidade, uma Oficina para profissionais, para troca de idéias, para ESTUDO, que é muito difícil entre os atores! O professor de teatro deve servir criar, tanto para aqueles que almejam o teatro, como para aqueles que desejam se aperfeiçoar. Por que não podemos criar nosso estilo de representar e pesquisá-lo?  Tudo já foi escrito e dito, todos os cursos são experimentações de teorias que já foram criadas pelos gênios do teatro, cada um em sua área. Portanto, é procurar e estudar que se acha muita coisa que está sendo feita por aí como novidade. Mostrar as fontes de pesquisa não é vergonha, juntar teorias também não. Convenhamos não se inventa nada no mundo há muito tempo!

A criação de uma filosofia que tenha um viés nacional, baseada em técnicas com predominância no enfoque corporal e orgânico do ator, mostrando a dialética existente dentro de uma sala de aula foi o que se pretendeu mostrar. Foi somente por meio dela que brotou esse embricamento de teorias e o surgimento de uma pedagogia que tivesse em seu bojo um caráter nacional calcado na nossa herança cômica. Porém, como o improviso e o cômico andam juntos, foi preciso criar um preparo corporal baseado na consciência espaço-corpo, no desenvolvimento do conhecimento das emoções, assim como uma atenção especial ao aguçamento intelectual do aluno-ator, para que ele encontrasse a disponibilidade necessária para atuar.

Acreditamos poder contribuir também para uma possível renovação e um despertar dos professores de teatro sobre a responsabilidade no trato com o iniciante frequentador das oficinas teatrais. É a função de a pré-escola dar prontidão para a alfabetização; assim também ocorre com essas oficinas, pois os resultados atestam que o aluno pode se definir quanto a seguir a carreira teatral ou não.

No Brasil, pouco se fala de comédia. Dentro das universidades ela é quase um tabu, portanto não se pratica a comédia como o drama, de uma maneira formal. Gosta-se menos da comédia? Talvez por ser considerado um gênero menor? Como isso pode se dar assim, se foi o gênero da comédia que iniciou o teatro brasileiro? Foi ela a responsável pela nacionalização do nosso teatro, e é sucesso até hoje em qualquer lugar, no teatro, no cinema na TV. Atores de comédia são chamados de comediantes e são afastados de outros gêneros por preconceito.

O que vislumbramos buscar é a pesquisa de nossa raiz cômica, por meio dos textos de Martins Pena e França Junior, Arthur de Azevedo, Joaquim Manoel de Macedo e outros. Temos o equipamento físico, a descontração necessária para empreender também uma pesquisa sobre as manifestações desse estilo nacional. Ao contrário, vemos professores fazendo um esforço imenso na pesquisa de textos do teatro estrangeiro, quando a nossa realidade está aí tão próxima de nós, e tão mais fácil de ser executada.

Jamais afirmaremos nossa cultura, sem que nos remetamos aos nossos clássicos. Todos os países têm seu teatro moderno, de vanguarda, de experimentação, e tem, afirmativamente seu teatro nacional. Com companhias especializadas e de pesquisa, encenam os clássicos como eles sempre foram, sem nenhuma “releitura”. É a mais autêntica preservação do texto clássico vivo, encenado no palco. Talvez esse fosse o grande salto que poderíamos realizar, até mesmo dentro da própria universidade, como forma de mostrar ao país e ao mundo a nossa tradição teatral. Quem sabe por esse caminho possamos encontrar o nosso verdadeiro estilo de atuação, de representação, o nosso verdadeiro teatro nacional.


A função de uma filosofia que norteie essa prática fará com que se tenha maior cuidado com aqueles que se interessam por teatro, aproximando-os até como público. E, talvez, possa servir para a própria prática do ator, enquanto exercício de desbloqueio corporal para a criação do personagem. Tanto no ensino como na atuação, necessitamos de parâmetros que não vejo em nossa profissão como vejo em outras, inclusive artísticas. O quê desejou fazer em sala de aula e por que, talvez seja um bom começo para pensarmos no ensino do teatro em qualquer nível.

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Filmografia Chapliniana: (Coleção em vídeo Ed. Altaya)
O Grande Ditador
Tempos Modernos
O Garoto
Luzes da Cidade
Ombro, Armas
Dia de Pagamento
O Peregrino
O Circo
Um Dia de Prazer
Luzes da Ribalta
Rua da Paz/ O Aventureiro/ O Imigrante/ Carlitos em Apuros
O Casamento de Carlitos/ O Engano
Monsieur Verdoux
Carlitos no Armazém/ Carlitos Bombeiro/ Carlitos Patinador/ Carlitos no Estúdio
Campeão de Boxe/ Os Amores de Carmem/ A Senhorita Carlitos/ Carlitos à Beira-mar
O Banco/ Carlitos Marinheiro/ Carlitos no Teatro/ Carlitos Policial
Carlitos se Diverte/ Carlitos no Parque/ Carlitos quer Casar/ Carlitos Trabalhador
Carlitos Vagabundo/ O Conde/ Carlitos Noctâmbulo/ A Casa de Penhores
Um Rei em Nova York
Carlitos Dentista/ Carlitos e as Salcichas/ Carlitos Coquete/ Na Farra/ O Passado Pré-histórico/ Dinamite e Pastel
Opinião Pública
O Balneário/ O Vagabundo/ Carlitos entre o Bar e o Amor
Carlitos e Mabel assistem as Corridas/ Carregadores de Piano/ Carlitos e Mabel de Passeio/ Seu Novo Emprego/ Carlitos e Mabel se Casam
Em Busca do Ouro/ Vida de Cachorro
Carlitos e a sonâmbula/ Carlitos Ciumento/ A Maleta Fatal/ Dois Heróis/ The Bond
Carlitos na Contra-regra/ Pintor Apaixonado/ Carlitos Dançarino/ Nova Colocação de Carlitos/ Carlitos Porteiro/ Carlitos Rival do Amor
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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Capítulo 4 - Vivências


O esquema usado em todas as oficinas foi de iniciar as aulas com a respiração reichiana acompanhada de música. Dividi os grupos aleatoriamente para que pudessem discutir o tema proposto e organizar o exercício a ser mostrado posteriormente. Cada grupo se apresentava e ao final, rapidamente, fazíamos um pequeno comentário. E o grupão, que fechava a aula indicava o momento de discutir os exercícios, falar do dia, dos problemas e da vida.

Ao analisar os relatórios das oficinas e mostrá-los, tento afirmar a ressonância da prática aplicada, bem como atestar a eficácia da convivência de cada grupo entre si e de todos entre todos para o crescimento de cada um.

Quando me deparei com os relatórios confesso que fiquei surpresa com o volume, pois sei a quantidade de analfabetos funcionais existentes em nosso país. É claro que alguns relatórios eram ilegíveis, a maioria era feita sem nenhuma preocupação com a apresentação ou com quem fosse ler. Porém, todos quiseram expressar sua opinião por escrito, o que é sempre muito relevante e deve ser incentivado.




OFICINA NA ESCOLA DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM-TERRA  LOCAL - SUL DO PAÍS 
PERÍODO – Setembro/1991

As Oficinas para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) foram divididas em duas turmas, sendo pela manhã a turma do segundo grau e pela tarde a do primeiro grau. Não houve relatórios dos participantes, porém fizemos uma reunião de avaliação e todos puderam expressar nossas opiniões. Havia levado alguns textos, cópias de peças curtas de Bertolt Brecht que deixei com eles. Fiz indicações de alguns livros fáceis de serem encontrados, bem como fiquei à disposição no que pudesse ajudar. É costume no MST não se tomar a autoria de nada, portanto as publicações que saíram a seguir nem mencionavam as Oficinas. Elas foram uma grande introdução de um grande projeto que não vingou, pois saía muito dispendioso pagar as despesas mínimas de uma professora de São Paulo para ir aos assentamentos. Nunca se recebe salário, tudo é doação como colaborador. O projeto de levar teatro aos acampamentos era uma maneira de suprir o tempo ocioso dentro do acampamento. Como a ocupação é de resistência, pode-se até preparar a terra, mas não há condições de vida para um cotidiano normal. Assim como a escola funciona ao ar livre dentro das condições apresentadas, o teatro seria uma forma de encontro dos adultos e das crianças também em outro grupo, para ensaiarem, fazerem seus exercícios. Em algum lugar a idéia deve ter vingado e se não vingou, qualquer hora é hora de recomeçar. Os alunos ficaram maravilhados com a idéia de levar o teatro para o acampamento como meio de conscientização e socialização do coletivo. Sentiam-se à vontade para realizar qualquer enredo depois da descoberta e domínio do roteiro. Todos estavam mais conscientes da expressividade corporal e vocal como meio de construção de uma mensagem. Dentro do exercício eles puderam experienciar uma nova maneira de ser, bem diferente da atenção constante e até vigilância sobre si mesmo. Enfim, puderam experimentar uma liberdade possível e necessária a qualquer luta.



OFICINA ATUANDO NO PALCO DA VIDA
LOCAL – CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
PERÍODO – 19/08/1997 A 11/09/1997
                 Terças e quintas-feiras/13 às 15 horas
                 50 inscritos

Quando retornei da Oficina no MST estava convencida de que aquela maneira de trabalhar com atores e não atores dariam bons resultados e fui à busca do Centro Cultural São Paulo. Fui ao encontro de Lizette Negreiros, responsável pela política e ação cultural, entre outras, para as crianças, os jovens e os adolescentes. Somente ela poderia dar-me os parâmetros e as diretrizes para um bom resultado e, acima de tudo, se essa Oficina poderia ser útil. O empenho e dedicação de Lizette frente a seu trabalho com os jovens e sua constante preocupação com conteúdos e métodos a serem empregados com eles faz a diferença na qualidade dos trabalhos apresentados no CCSP. Não só relativo aos espetáculos, como também às Oficinas, seu crivo é bem rigoroso, se eu conseguisse passar por ele, estaria mais tranquila. Não precisaria mencionar, mas no meu caso em particular é bom, que a entrada no CCSP não dependesse somente Lizette, colega de TPS de tantos anos, mas de instâncias superiores, portanto se pairava uma dúvida...

Entreguei uma proposta aberta à direção do CCSP, não restringi idade, deixei que a seleção pessoal fosse formando uma turma eclética e satisfatória. Deu certo.

Iniciei com uma entrevista com grupos de participantes, durante quatro dias consecutivos, nos quais pude avaliar o real interesse de cada participante. Isso fez com que eu tivesse alguma certeza quanto à evasão, tão comum em cursos de curta duração.

A primeira Oficina transcorreu muito bem – pude ministrá-la inteiramente a contento e acredito que os alunos também sentiram assim, haja vista o resultado positivo dos relatórios comentados a seguir. Minhas expectativas quanto a trabalhar no Centro Cultural foram alcançadas e ultrapassadas, pois tive liberdade de desenvolver as aulas inteiramente. Depois dessa experiência posso afirmar que há carência desse tipo de curso, que quase não pede pré-requisitos, que constrói uma turma heterogênea como a nossa: professores, estudantes de direito, secretariado e teatro – profissionais que aspiravam melhorar seu desempenho comunicativo, com idades que variavam de 15 a 54 anos.

Dentre os relatórios apresentados pelos participantes, destacam-se pontos em comum, os quais são relevantes para comprovar a eficácia da Oficina.

Fica explícito nos relatórios que todos tiveram a compreensão exata de que os exercícios de respiração auxiliavam na oxigenação do corpo, a perder a timidez e soltar a voz, mas ao mesmo tempo entender algumas de suas limitações, pois a Oficina possibilitou uma nova visão de si mesmo. Em vários depoimentos encontram-se afirmações de que aprenderam a lidar melhor com as situações do cotidiano e com isso tiveram uma surpresa consigo mesmos. Aprenderam a enfrentar os medos, pois conseguiram perceber que vem da mente. Reclamaram muito da curta duração da Oficina, talvez esperando ingressar num curso regular.

Pessoas de várias idades e profissões, juntas, propiciaram a interação de cada um no grupo, a auxiliar e contar com o próximo, desenvolver a convivência em grupo, como também melhorar o aprendizado para saber lidar com as situações do cotidiano. A aplicação dos exercícios no dia a dia e saber colocar em prática o dizer “não”, o que para nós brasileiros é incomum, foi também observado nos relatórios.

Segundo Elissandra [1], que me auxiliou nas análises: “As mulheres no curso, segundo os relatórios, apresentaram maior espontaneidade, falaram mais dos seus sentimentos, detalhavam com precisão os exercícios e não demonstraram temores quando expunham suas idéias. Os homens, mais contidos e objetivos, foram diretos e poucos comentaram sua experiência pessoal.”.


  
OFICINA VIVENCIANDO O TEATRO: UMA APTIDÃO PARA A VIDA
LOCAL – CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
PERÍODO – 23/10 a 11/12/1999
                Sábados/10 às 13 horas
                30 inscritos (com 2 mensalidades de R$ 20,00)

Com uma Oficina encomendada pela Coordenadoria do CCSP, dessa vez com cobrança de mensalidade, confesso que fiquei apreensiva, porém foram tantos inscritos que me tranquilizei. A primeira Oficina havia obtido excelentes resultados e agora o perfil dos participantes foi definido entre adolescentes e jovens, o que definia o grupo de trabalho. Procedi como da primeira vez fazendo um bate–papo-entrevista.

O espaço que nos foi designado era pequeno - uma das salas de ensaio, para o número de participantes era difícil, porém não havia alternativa. Depois de montada a Oficina e contratadas as pessoas é que se pensa no espaço, e não é culpa deles, é falta de vontade política em liberar as salas de espetáculos para aulas de teatro. Como sempre a afluência foi grande de interessados e a seleção efetuada pessoalmente não deixou dúvidas quanto à escolha dos 30 participantes. Não tivemos evasões, porém nem todos fizeram relatórios. Dos que pude analisar, a maioria foi unânime em afirmar o equilíbrio que a respiração proporcionava. O desenvolvimento da paciência para com os outros num espaço tão pequeno, também foi um fator que chamou a atenção dos participantes. Na expressão dos alunos, “sair do umbigo” foi muito difícil, mas valeu a pena, porque propiciou o encontro com o outro, ao mesmo tempo em que despertou a criança que existe dentro de nós e que fazemos questão de esquecer. Aprender a ouvir e respeitar o comando do professor ou orientador foi novidade, que os participantes destacaram em seus relatórios. Penso que para o bom andamento de uma aula de teatro é preciso muita disciplina, porque o ambiente já é dispersivo, então tento transmitir que há um comando com tranqüilidade para eles. Para os que serão atores mais tarde, se encontrem preparados quando enfrentarem o comando de seus diretores de teatro, cinema ou televisão.

Acredito que do ponto de vista de conteúdo a Oficina respondeu ao seu intento, pois os relatórios dos alunos e os “bate-papos” informais com alguns participantes sempre mostraram boa receptividade. O fato de utilizarmos o horário matutino aos sábados foi bem aceito, causando-me surpresa a assiduidade dos participantes, mesmo os finais de semana prolongados. Todas essas dificuldades foram um grande aprendizado e um grande teste, porque nos propiciou aprender a reverter as impressões negativas iniciais para positivas. 



OFICINA TEATRO - A LIBERDADE DO SER
LOCAL – CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
PERÍODO – Abril a Julho de 2001
                Sábados/10 às 13 horas e 14 às 17 horas
                50 inscritos em cada turma

Turma 1 – Eram muitos adolescentes, quase todos estavam se expressando pela primeira vez. Nos grupões iniciais, que faço sempre aos finais das aulas, eles mal falavam e se revelaram no decorrer dos dois meses. Segundo os relatórios as notícias de jornal ajudaram a pensar melhor, chegaram a definir as aulas como oficinas de cidadania. Os temas que mais buscavam nos jornais eram os problemas da periferia, como violência, drogas e prostituição; cadeia, isso com forte influência dos programas policiais de televisão. Era a época do apagão, então surgiram muitos exercícios sobre o assunto explorando o lado positivo de educação para a economia de luz, como também a crítica culpando o governo pela ausência de providências.

Para os adolescentes o contato com a respiração foi muito importante, tomando-a como um exercício de relaxamento. 


Turma 2 – Essa turma era principalmente de jovens que tinham como objetivo resolver o problema da timidez e da dificuldade em se comunicar. Não havia um interesse específico no teatro em si, mas nos resultados que ele pudesse dar. Por isso a surpresa em se ver improvisando ou relaxando com uma nova maneira de respirar era muito grande. O mais importante para todos eles era a concentração, que eles souberam desenvolver muito bem. Os temas escolhidos nos jornais foram, principalmente, aqueles ligados à política, à televisão, como os programas de fofocas e os problemas da sociedade em que eles vivem.


Turma 3 e 4 – O uso dos jornais e das revistas foi muito enfatizado por essas turmas em seus relatórios. Isso ocorreu talvez porque as turmas fossem muito heterogêneas em idade, proporcionando um maior debate de idéias. Porém, principalmente para a turma 3, o que todos apreenderam da Oficina foi o desenvolvimento de um maior equilíbrio mental e físico através dos exercícios de respiração, assim como nos jogos. A turma 4 tomava a Oficina mais como uma terapia. Nas palavras de Elissandra, minha assistente: “Esta turma mostrou a importância de usar os jornais e revistas no momento da criação. Comentar e debater temas e notícias estabeleceu um olhar crítico dos jovens e adolescentes, demonstrando no grupo o necessário questionamento e insatisfação perante as desigualdades e negligências sociais. Ressaltando a necessidade da leitura e a importância política, moral e social do teatro em nossas vidas.”.

Para poder dar conta, plenamente, de uma Oficina pela manhã e outra à tarde, convoquei dois assistentes, meus ex-alunos – Alessandra e Salomão [2] que me ajudaram muito.

Pedi a Alessandra Gisele Daniel, Lili, minha aluna e assistente, para que me ajudasse na análise dos muitos depoimentos. Por fim, aconteceu um trabalho extremamente profícuo que gerou análises e considerações tanto minhas quanto dela. Além do depoimento feito a época em que cursou as Oficinas, Lili produziu um depoimento geral de sua participação como aluna e assistente, inclusive em outros grupos.

Fabiana S. Magalhães [3] também fez o mesmo em outro estilo, porém, em ambas, se vê a análise do passado através do momento presente. Lili em seu relato enfatiza sua luta pessoal contra a timidez e credita ao trabalho nos grupos o resultado de sua mudança. Quando foi minha assistente pode mostrar sua desinibição.

Terminada a terceira Oficina – A Liberdade do Ser, um pequeno grupo se formou querendo aprofundar o estudo teórico sobre o teatro. Então montamos um pequeno grupo em minha casa com aulas uma vez por semana onde estudamos a história geral do teatro, bem como o teatro brasileiro.

Fizemos também uma experiência num espaço no bairro do Jabaquara, cedido por uma aluna, onde pudemos aprofundar os exercícios das oficinas, todos eram ex-alunos e queriam seguir em frente com exercícios mais elaborados em busca de montar um grupo de teatro. Infelizmente, o espaço teve de ser ocupado e a turma se dispersou.

Salomão Cohen se destacou no curso tanto quanto Lili. De um adolescente de 16 anos para um jovem mais ativo, dinâmico e deixando sua iniciativa ser despertada. Após a Oficina A Liberdade do Ser, ele manteve contato, sempre disposto a reunir a turma, sempre participando dos cursos. Quando resolvi chamá-lo para ser meu assistente, ele mostrou-se muito interessado e cumpriu sua função com precisão. Com esse aprendizado e com o talento nato de Salomão para a interpretação e a direção, aplicou o que aprendeu na sua turma de escola, dirigindo um espetáculo com texto de outro aluno. Como estavam em conclusão do terceiro grau, o trabalho de Salomão foi extremamente gratificante e marcante para a escola.

Depois de toda essa iniciação, pensei que ele fosse se interessar em fazer um curso superior de artes, em crescer e atuar em teatro. Porém, isso não aconteceu, ele permaneceu em contato conosco, mas não se interessou por nada referente a teatro. Esboçou a vontade de cursar cinema, mas não perseverou na idéia. Enfim, é com pesar que não inclua um relatório seu, seja porque não soube ou não quis fazer, seja porque não tenha mais tempo para isso. É penoso ver um talento se perder por nada, por falta de direção, de determinação, talvez esse seja o lado ruim de um curso. Quando percebemos que o aluno que dispunha de tempo, talento, vontade não vinga, não aproveita as oportunidades oferecidas pela vida.

Fiz questão de deixar aqui esse relato, pois ele vai de encontro ao “susto” que a prática de Reich pode produzir. Estar mais presente no mundo, em sua própria vida, assumir riscos e responsabilidades pode ser, às vezes, assustador para alguns. A liberdade corporal exige controle, desenvolvimento da inteligência, maior conhecimento emocional de si mesmo, tudo isso pode produzir um efeito contrário devastador. Embora seja um risco pequeno, pois apenas ele apresentou esse comportamento, não deixa de ser uma perda.

Por outro lado, quantas revelações se deram nos grupos durante os exercícios, quando o ser se deixa simplesmente representar, brincar, jogar, sem censuras. Muitos participantes se revelaram assim, percebendo em si mesmo um dom antes encoberto. Foi assim com a Lili e a Fabiana e tantos outros que teremos a surpresa de encontrar algum dia num palco ou num estúdio. Os exercícios também trouxeram a todos aqueles não atores uma maneira nova de encarar a vida, de abandonar o preconceito, de ser mais solidário com os outros. Tornaram-se atores na vida!

O grupão, de uma forma geral, revelou a vida de cada um, foi o cerne da Oficina para cada participante, pois eles tinham um momento e um espaço para se expressarem. Aprendemos a ouvir críticas, a fazer comentários sem agredir, aprendemos a nos defender. Sem resvalar para a terapia, os grupões propiciavam um encontro de todo grupo através de uma dinâmica, porém sem bloqueios. Chegamos a dizer coisas sérias, tivemos problemas sérios, mas nunca tivemos um momento de agressão, um gesto mais ousado, nem dentro, nem fora da sala de aula. Eram adolescentes de diversas classes sociais e econômicas, porém todos ali eram iguais e havia respeito entre todos. Conseguimos colocar uma teoria em prática e respeita-la plenamente. 



[1] Elissandra Gisele Daniel foi minha aluna na Oficina - Vivenciando o Teatro uma Aptidão para Vida, minha assistente na Oficina - Teatro A Liberdade do Ser e minha colaboradora na análise dos relatórios.
[2] Salomão Cohen foi meu aluno na Oficina – Teatro A Liberdade do Ser
[3] Fabiana S. Magalhães foi minha aluna na Oficina – Teatro A Liberdade do Ser


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