quarta-feira, 13 de março de 2019




INSTITUTO OSMAR RODRIGUES CRUZ







TEATRO NACIONAL POPULAR BRASILEIRO (TNPB)




UM BRASILEIRO E PORTUGUÊS...

As obras de Cláudio Manoel da Costa O Parnaso Obsequioso, como também de Alvarenga Peixoto Enéias do Lácio não obtiveram muito sucesso e talvez por serem obras não populares.
Então, quem foi o primeiro dramaturgo brasileiro a nos brindar com uma obra eclética da ópera à comédia? Antônio José da Silva, chamado de O Judeu, que nasceu no Brasil, porém foi logo para Portugal e lá viveu até que a Inquisição de Portugal acusou sua mãe de “judaísmo”. Veio para o Brasil e trouxe parte de sua produção de óperas, que estavam sendo encenadas no Bairro Alto de Lisboa.
Um dos nossos maiores desastres que o nosso mundo produziu foi a Inquisição. Digo produziu, porque foi a Igreja Católica que o criou e se estabeleceu em toda Europa, ou quase toda, como forma de Tribunal. Convocava pessoas que a seus olhos eram considerados não cristãos por “juízes” (alto clero) nomeados para caçar os judeus, intelectuais, professores, “bruxas”, qualquer um aleatoriamente que não se enquadrasse às ideias, doutrinas e práticas da Igreja. O chamado Tribunal da Santa Inquisição prendia, torturava e queimava vivo todo aquele que fora condenado pelo “Tribunal” arbitrariamente.

Mas o assunto aqui é Antônio José que produziu uma obra popular, sem deixar de ser consistente. Como a curiosidade da dramaturgia é muita, vamos transcrever a introdução ao primeiro volume ao todo em quatro de suas obras da edição brasileira de 1910 que vale muito pela análise dos seus textos dramatúrgicos.
  
Primeiro uma “Advertência”:

“Poucas pessoas conhecem o teatro de Antônio José, o Judeu, o autor de comédias mais popular que teve a literatura da nossa língua.
Muitas edições se fizeram outrora das suas obras, mas são já raras em Portugal, e no Brasil raríssimas.
Das Obras do Diabinho da mão furada apenas existia uma impressão única nas páginas da Revista Brasileira que é também rara.
O primeiro editor do Teatro Cômico escreveu, em 1744, a propósito das comédias do Judeu, as seguintes palavras que ainda convém reproduzir (reserva feita dos erros de história literária):
““ Leitor: Foi tão grande o aplauso, e aceitação, com que foram ouvidas as Óperas, que no Teatro Público do Bairro Alto de Lisboa se representaram desde o ano de 1733, até o de 1738, que não satisfeitos muitos dos curiosos que as ouviram quotidianamente repetirem, passavam a copia-las, conservando aos outros estas cópias com tal avareza, que se faziam invisíveis para aqueles, que desejavam ler, e para outros apagar o desejo de as lerem, pelas não terem ouvido, outros renovar a recreação, com que no mesmo Teatro as viram representadas. Por satisfazer o desejo de uns e outros, tomei a empresa de juntá-las e fazê-las imprimir com o título Teatro Cômico Português, para que com facilidade e sem o dispêndio, que as cópias manuscritas fazem, pudessem todos gozar de umas Obras tão apetecidas por singulares. Estou persuadido que não é desagradável esta minha Coleção; porque além de satisfazer um desejo, sirvo a Pátria, publicando estas obras, que segundo as leis da composição dramática, são as primeiras, que deste gênero se tem escrito no nosso idioma. Algumas comédias foram impressas, como as de Antônio Prestes, Gil Vicente, Antônio Ribeiro, Sebastião Pirez, e Simão Machado, compostas em versos. Publicou Jorge Ferreira em prosa a Eufrozina, a Ulyssipo, e a Aulegrafia. Saiu à luz Francisco de Sá e Miranda com a intitulada Os Estrangeiros, e Vilhalpandos, e D. Francisco Manoel com as duas, a que deu por título O Labirinto da Fortuna, e Os Segredos bem Guardados, sem nos esquecermos de também das duas do nosso Luiz de Camões, que andam impressas no fim das suas Obras; porém todas estas, umas pelo diverso gênio dos tempos outras pela sua informe disposição, e dilatada contextura, serviam aos curiosos somente de fastio, que de recreio. Nestas, que agora te ofereço por benefício da impressão, acharás pelo contrário daquelas uma suave, e natural disposição das partes, o caráter dos sujeitos sustentado sem decadência, à locução própria a cada um dos interlocutores, e o jocoso tão temperadamente honesto, que não ofende com a graça os ouvidos, e tão vivo, que se não encontra semelhante em nosso idioma, e não sei também se nos dissera das Nações estranhas; os que confessariam, não sem inveja, se fossem ainda vivos. Moreto entre os espanhóis, Molière entre os franceses, e Nicolao Amenta entre os italianos.””  


                                            
                                           OSMAR ESPECTADOR



Coleção de Programas de Teatro das décadas de 40 e 50

Madalena Nicol inaugura uma Companhia Madalena Nicol na TV, que já possuia Teatro na TV em seu início.











quinta-feira, 31 de janeiro de 2019



   

Instituto Osmar Rodrigues Cruz



TEATRO NACIONAL POPULAR BRASILEIRO (TNPB)


A jornada de publicações do Acervo de Programas de Teatro, cujos espetáculos Osmar assistiu, é uma empreitada que não terminará tão cedo!  
Resolvemos, então, introduzir paralelamente aos programas de teatro uma modesta pesquisa, em textos breves, sobre nosso Teatro Nacional Popular Brasileiro tão esquecido e controverso. Mergulhar na história é uma tarefa que nunca é demais, pois a história é um processo dinâmico que trás desafios e mudanças. O repertório do teatro dirigido por Osmar Rodrigues Cruz sempre foi muito eclético e popular, privilegiando sempre que possível o teatro nacional. Por isso, desejamos aplicar um tom coloquial e sem pretensões acadêmicas, nosso alcance quer buscar o diálogo, críticas, opiniões, colaborações e acima de tudo instigar no leitor o gosto da leitura e pesquisa. 



Onde está o início???

Com um espírito de luta e resistência nasce (?) nossa dramaturgia da poesia. Portugueses letrados também querem conhecer a nova terra e aqui encontram outros com interesses libertários. Estes que aqui chegam são padres e bacharéis empregados em cargos públicos e que seguem os preceitos da Coroa Portuguesa. No século XVII surge o chamado Movimento Academicista com intenções libertárias, apoiando a libertação dos escravos e a independência.

Poetas que além de textos políticos, criam embriões de um teatro satírico nos moldes da commedia dell’arte. Poucos são os registros já que a Coroa não aprovava e perseguia a todos. Caldas Barbosa dramaturgo português tem registro aqui no Brasil de uma comédia O Remédio é Casar; Claudio Manoel da Costa O Parnaso Obsequioso e Alvarenga Peixoto Enéias do Lácio. Alguns com registro de existirem, porém não materialmente.

Parece que no século XVII acordamos de um longo sono, não só no Brasil, mas o mundo dá um salto de amadurecimento de toda sua história que já havia sido preparada. Sempre mencionamos a Europa porque somos filhos de sua evolução, costumes e dominação durante muitos séculos. Todo conhecimento nos foi trazido pelos europeus, portugueses em sua maioria. Porém, a formação de nossa cultura é fruto de nossa miscigenação.

“A ação fisiológica dos sangues negro e tupi no genuíno brasileiro, explica-lhe a força da imaginação e o ardor do sentimento”. O negro era “operário” e escravo doméstico, foram eles que construíram nosso país, mão de obra forte e escravizada, explorada de sol a sol. Servia ao branco em inúmeras atividades, dentro e fora de casa. Milhões deles em mais de 300 anos fizeram prosperar o país. A consciência de exploração fez crescer uma resistência rumo a sua libertação por meio da criação dos Quilombos.

O Quilombo dos Palmares, o mais conhecido, foi criado por Zumbi, seu líder “o guerrilheiro negro” e “o deus da guerra”, nosso maior líder a influenciar e espalhar a ideia de resistência através dos quilombos onde os negros fugidos tinham um pouco de dignidade. Sem tortura e maus tratos, sem humilhações e exploração, podiam descansar, comer e criarem a ideia de libertação. A revolução é um processo indispensável para o progresso de uma nação. Um povo que não se liberta das injustiças, não aceita a exploração, passivo e ignorante de sua força é um povo fraco e escravizado para sempre.

A Inconfidência Mineira e outras revoluções iniciam o caminhar para mudanças significativas em nosso país. Tiradentes é herdeiro de Zumbi nos ideais de libertação, alferes, oficial e considerado patrono cívico do Brasil, sonhava com a república e a libertação dos escravos. Ele influenciou muita gente em muitos estados brasileiros e “mostrou a Portugal o limite de seu poder”.

Surge então de Portugal, para mim, o maior dramaturgo de língua portuguesa, Antônio José da Silva, que foge de Portugal, para nossa sorte, escolhendo o Brasil como refúgio.

Mas... hoje só no próximo encontro!


Dica: Procure mais pelo assunto Movimento Academicista.



                                     


                                         OSMAR ESPECTADOR


Coleção de Programas de Teatro das décadas de 40 e 50

Os programas de teatro aqui exibidos são recheados de informações do teatro brasileiro encenado nesta época e das companhias estrangeiras conceituadas que excursionavam por aqui. Além dos divertidos anúncios de antigamente!




Madalena Nicol inaugura uma Companhia (Companhia Madalena Nicol) que atua na Televisão, que já possuía programas como Teatro na TV em seu início.





segunda-feira, 7 de janeiro de 2019



Instituto Osmar Rodrigues Cruz




Acredito que essa postagem possa ser apropriada ao momento conturbado que vivemos em relação a cultura.



"Um modelo de política cultural em relação ao teatro"


Os mecanismos de patrocínio ao teatro sempre existiram por parte do Estado, pois a arte, de uma maneira geral, estava sempre presente nos mecanismos de atuação do próprio Estado. O teatro e o Estado estavam juntos desde o início do teatro ocidental na Grécia Antiga. Lá o Estado promovia festivais de teatro, que eram oferecidos como atividade obrigatória e, assim como o esporte, era motivo de congraçamento entre os cidadãos[1]. Na Roma Antiga, o teatro era parte integrante da vida dos cidadãos, com o objetivo de ser meramente diversão. Na Idade Média o teatro é mantido pela Igreja, que nessa época, não deixava de ser o próprio Estado, exercendo poder preponderante. Durante a Monarquia o teatro está dentro dos palácios com as companhias do rei e posteriormente, com a edificação de prédios próprios, onde são abrigadas as companhias oficiais, surge, então, o conceito de teatro nacional.
O Teatro Nacional forma-se como um dos mecanismos de reafirmação e unificação da nação frente ao imperialismo econômico, político e cultural de outras nações ameaçadoras. Tem, portanto, uma missão específica tornando-se, segundo Jack Lang, um serviço público nacional, beneficiário de créditos do Estado, submetendo-se a um controle administrativo rigoroso, assumindo uma função cultural de prestígio, propaganda e educação.
Após a Revolução Francesa, que difunde em toda a Europa um novo conceito de cidadão, uma nova ordem se instaura, um novo estado se forma. Consequentemente a missão do Teatro Nacional se modifica, passando a ter a função de conservar as obras do passado, bem como preservar as tradições das diversas regiões do país, sem deixar de levar à cena espetáculos experimentais. São criadas diversas associações de escritores, de autores teatrais, visto ser a preocupação precípua a afirmação da cidadania em todos os países que aboliram a monarquia.
Certamente, à margem das companhias oficiais sempre existiu os grupos “alternativos”, aos quais se deve boa parte das inovações que se processaram no teatro, como a comédia na Grécia, os saltimbancos percorrendo todas as regiões mais distantes da Europa e a Commedia Dell’arte, as quais jamais receberam patrocínio do Estado. Eram sustentados predominantemente pelo povo que os acolhia e suas produções eram as mais humildes possíveis, porém o seu discurso era ferino, levando alegria e reflexão ao povo tão marginalizado quanto as próprias companhias.
Existiram também, como forma de patrocínio ao teatro, a figura do mecenas, rico e amante das boas artes, patrocinava-as com o intuito de auto promover-se. E as organizações de massa, principalmente na ex-União Soviética e ex-Alemanha Oriental, as quais mantinham o teatro tanto como forma de veiculação e implantação do regime comunista, como de formação, através dos sindicatos, e educação do povo.
Com o surgimento do capitalismo surge uma nova classe social, a burguesia, fazendo nascer um novo teatro. São impostas novas relações sociais mediadas pelo capital, regidas pela economia de mercado. Os meios de produção são controlados por uma classe dominante, que dita as regras do consumo e as leis de mercado. E as leis de mercado são imperativas definindo o que pode e o que não pode ser consumido, através da implantação da homogeneidade e massificação, criando a cultura de massas, e a liquidação da heterogeneidade, eliminando as diferenças regionais. Há a privatização da vida social, enquanto questão a ser administrada, passando o Estado a ser o mero gerenciador da nação, pois o poder econômico não se encontra mais nas mãos do Estado. A sociedade passa a ter fortes divisões sociais, de um lado a classe dominante detentora dos meios de produção, de outro a classe trabalhadora detentora da força de produção. Emerge a figura do especialista e das instituições especializadas, que são os mediadores entre as classes, intérpretes e estudiosos dos problemas sociais da massa.
Sendo o teatro uma arte social por excelência, pois é produção cultural como tantas outras, mesmo com o advento do capitalismo, continua uma pequena parte dele sendo patrocinado pelo Estado, outra, passa a se oferecer ao mercado de consumo que surge, sendo responsável pela formação das primeiras companhias comerciais.
Sem o amparo do Estado, o teatro descobre-se uma arte de alto custo de produção, custo de pessoal, custo do ingresso. Surge um dilema, pois se a companhia vende seus ingressos a preços elevados, limita seu público às classes mais privilegiadas compostas de poucas pessoas, porém se os oferece a preços acessíveis a todas as classes, corre o risco de ficar deficitária, pois nem todos têm o hábito de ir ao teatro, pois o tomam como uma arte de elite, não podendo pagar sequer um preço mais baixo. Ocorre que o investimento numa dada produção teatral pressupõe seu sucesso de crítica e de público, para obtenção de um bom resultado de bilheteria. Então, como o teatro não é uma mercadoria, que não obtendo venda pode ser estocado e vendido mais adiante, ele depende substancialmente do sucesso de público, devendo estar livre das leis que regem o mercado, bem como o público deve estar livre dos abusivos preços dos ingressos, que o mantém longe de uma sala de espetáculo.
Justifica-se assim uma intervenção do Estado, pois o teatro não consegue sobreviver de seus próprios recursos, menos ainda se submetendo às leis de mercado e ao patrocínio privado. Contudo esse patrocínio do Estado deve ser isento de discriminação na distribuição de seus recursos, como ocorre em toda Europa, onde inclusive a pesquisa teatral é objeto de amparo do Estado, sendo o teatro oferecido a todas as classes, sem distinção, também através do ingresso gratuito. 
Assimilamos todas essas formas de patrocínio do teatro, sejam elas estatais, como as de mercado, num arremedo do que ainda está por se criar diante de nossa realidade. Se por um lado passamos pelo auxílio “real” que permitiu a construção das primeiras casas teatrais, o teatro foi patrocinado pela ditadura de Vargas que implantou o teatro nacional como forma de afirmação totalitária e populista, desvirtuando o verdadeiro sentido de um teatro nacional. Por outro lado, o teatro comercial tem seu estilo marcadamente definido e atuante em todo país, constituindo fonte de renda a muitos empresários, que ao produzirem um teatro sem o menor comprometimento com a qualidade, tratam-no como mercadoria. 
O Estado, por sua vez, de todas as formas de patrocínio ao teatro “exportadas” experimentou todas, sem se preocupar em criar uma que fosse mais condizente com a realidade brasileira, com os problemas que se arrastam desde nossa colonização, como nossa dependência cultural.   
Pois, não só o Estado é autoritário no país, mas toda a sociedade também, o que se reflete na cultura e em todas as práticas culturais, tornando-as altamente centralizadoras. Assim sendo, todo projeto cultural visa uniformizar essa cultura, mantendo o princípio de dependência e, ao mesmo tempo em que descarta qualquer iniciativa de autonomia das manifestações culturais, instrumentaliza as práticas culturais, produzindo medidas “de cima para baixo”. Impõe uma maneira de se “produzir cultura”, como se fosse possível existir somente uma. Trata de promover mega eventos, geralmente da cultura rotulada de erudita, chamando a isso de projetos culturais, no lugar de reunir planos a serem discutidos com todos os envolvidos com as artes. Então, exibem seus resultados como um sucesso de público de uma iniciativa governamental de arte popular! 
Porém, nunca se viu mega eventos de teatro, arte de alto custo, arte que pode subverter, em apresentações gratuitas. Teatro ao ar livre, com obras nacionais, oferecidas gratuitamente, com produções de qualidade, que poderiam excursionar pelas cidades, isso nunca se realizou. Temos conhecimento de uma companhia que fez história em São Paulo e que se consagrou como experiência única no Brasil, levando repertório de alto nível com excelentes produções, em prédio próprio, com ingressos gratuitos, mas patrocinada pela indústria paulista, provando que é possível um teatro nacional e popular ser subvencionado. [2] 
O sentido de teatro nacional foi desvirtuado, bem como o de popular, pois para se tornar produto, a apropriação do que é popular precisa ser “lapidada”, filtrada pela classe dominante, representante do poder econômico, que passa a normatizar o que é popular e o que é erudito. Surge a noção de produto artístico, pois é preciso oferecer mercadorias para a classe A, como para a classe B, mas nunca para a classe C, pois essa não pode comprar produto tão sofisticado, tão supérfluo como o teatro. Porque para o Estado, o teatro é uma coisa fútil, um privilégio de poucos. Desconhecem completamente as várias funções que o teatro tem como parte da sociedade. 
Como forma de uma pseudo-inclusão da cultura no meio social são criadas pelo Estado as leis de patrocínio, tanto em âmbito federal como em âmbito estadual e municipal. Nomeadas como Leis de Incentivo à Cultura são basicamente normas para que o candidato a patrocínio possa receber um aval do Estado, para então se tornar candidato ao patrocínio privado das empresas nacionais. Ora, ao se candidatar ao patrocínio já se sabe que as empresas não irão colocar seu nome em espetáculos que possam ferir algum princípio das mencionadas leis de mercado. Mostrando um forte controle, seja por parte do estado, seja por parte do mercado, as iniciativas experimentais estão totalmente excluídas da “proteção” dessas leis, como também qualquer pesquisa. A atividade teatral fica concentrada no grupo já eleito pelo mercado, restrita aos nomes principalmente consagrados pelo meio de comunicação de massa mais eficaz em produzir artistas virtuais, que é a televisão, restando à marginalidade para as poucas atividades inovadoras, como também para a produção de um teatro que possa atingir camadas diversificadas da população. 
O Estado, enquanto provedor, desvia os recursos que poderiam subsidiar um teatro verdadeiramente nacional e popular, pois destina uma ínfima quantia para todas as atividades culturais, não dando conta das necessidades básicas de uma população, que se mostra cada vez mais preocupada em satisfazer o mencionado mercado, trocando o título de cidadão pelo de consumidor. Não se preocupa nem mesmo em “consumir” cultura, pois nunca lhe foi oferecida qualquer arte como necessidade, e o que, no entanto, é oferecido como gratuito é tomado como pouco valioso, mal feito, “amador”. 
No entanto, o teatro é necessidade, é prazer. Se o destino das pessoas e seus problemas do cotidiano não são colocados à vista, e o teatro é o meio de congregar as pessoas para tanto, cria-se uma sociedade árida e carente de sua própria humanidade. Estar no mundo é atuar, é agir, é fazer, mas também é prazer, é contemplação, é o teatro, que dentre as inúmeras artes, é apenas um dos canais para isso, além de ter a possibilidade de promover a educação e socializar os indivíduos. 
Porém, convencer burocratas e governantes de que a existência e manutenção do teatro são tão necessárias quanto a existência e manutenção de escolas é tarefa das mais exaustivas. Poucos são aqueles que não se viram possuídos pelo mencionado autoritarismo que contamina nossa sociedade. Entretanto é preciso reagir, pois nada se produz na letargia e submissão, é necessário ousadia. 
A criação da CET (Comissão Estadual de Teatro) mostrou ousadia e determinação ao elaborar um plano para o desenvolvimento do teatro em várias frentes. Seja no incentivo ao teatro amador, seja na promoção de cursos e conferências, ou na distribuição de verbas e premiações. Agindo com independência, o que é fundamental nas iniciativas de comissões designadas para o desenvolvimento cultural, mostrou que é possível o retorno do teatro ao seu verdadeiro lugar na sociedade. Se comissões como essa não tivessem existido, certamente não seria possível o surgimento de diversos profissionais, autores e atores, técnicos e diretores, que tanto contribuíram para o teatro paulista. 
Mas a realidade hoje é bem diferente, e o que se percebe é que a comissão, outrora atuante e representante da comunidade artística, pouco pode fazer pelo teatro. Foi reduzida a um mero órgão atrelado às decisões da Secretaria de Cultura, as quais aceita, pois não há mais a possibilidade de independência para a criação de programas, menos ainda ousadia para compreender as necessidades do momento histórico. Compactua com a implantação das chamadas leis de incentivo, que centralizam a atuação artística, sem questionar o quanto essas leis são coorporativas, segregando boa parte das produções teatrais. 
Soluções não são encontradas em gabinetes, mas no encontro da própria comunidade com o governo, pois enquanto o mundo rompe suas fronteiras através da descoberta de novas tecnologias, a ação do homem no mundo exige que ele se direcione cada vez mais para os problemas locais, de sua cidade e no máximo de seu estado. Uma nação se resguarda quando faz prevalecer suas diferenças e sua própria diversidade. Agindo-se em âmbito restrito pode-se obter um resultado muito maior do que a tentativa de estabelecer, por exemplo, um plano nacional. 
A criação de comissões municipais e estaduais direcionadas a ouvir, não só a comunidade teatral, mas toda comunidade que habita na cidade ou estado, pode trazer de volta uma atuação do Estado como legítimo provedor das necessidades básicas dessa população determinada. Representando o próprio povo, a comissão pode ressaltar as regionalidades, fazendo eclodir talentos naturais, possibilitando a expansão da experimentação, proporcionando a discussão dos seus próprios problemas. 
A ação do governo, ao se descentralizar delegando poder e independência na implantação de políticas culturais locais, através de comissões, faz-se mais presente cumprindo seu papel. Fortalece a ação local e permite o intercâmbio com outras realidades. Talvez não seja um modelo, pois ainda está por fazer-se, talvez não seja a solução, pois ainda não se permitiu que houvesse continuidade. 
Portanto, o que se conclui da iniciativa da criação da CET foi uma amostra de que ações locais podem tornar possível a implantação de uma política cultural genuinamente brasileira. Apontar os erros dessa ação tornou-se impossível, quando se leva em conta o momento histórico em que ela se deu. Todavia, uma profunda reflexão sobre o seu trabalho pode suscitar, sem ter a pretensão de apontar caminhos, a forte necessidade de se repensar as atuais políticas culturais implementadas no Brasil.


[1]  O conceito de cidadão na Grécia excluía as mulheres, as crianças e os escravos.
[2]  O Teatro Popular do Sesi de São Paulo manteve por 30 anos seus espetáculos, tendo sido criado por Osmar Rodrigues Cruz.


Conclusão da Dissertação de Mestrado de Eugenia Rodrigues Cruz na ECA - USP em 2000

"Comissão Estadual de Teatro de São Paulo (1956 – 1960)"

    




segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Instituto Osmar Rodrigues Cruz



REVISTA EDUCATIVA SESI ANO II ABRIL 1955 Nº3

Primeiras manifestações de teatro no Brasil (Osmar Rodrigues Cruz – Chefe do Serviço de Teatro)

Diz Viriato Corrêa que “a nossa civilização começou com o Teatro”, e é bem verdade! Nenhuma nação teve um início tão singular quanto a nossa. Aqui mesmo em São Paulo, mais tarde em São Vicente e Niterói, foi que Anchieta adotou, como a melhor maneira de catequizar os indígenas (dando-lhes noções de religião, moral e educação), o teatro, que age diretamente sobre o cérebro e os sentidos e ensina por meio de exemplos que são vistos e não apenas narrados. A fórmula usada por Anchieta foi por ele trazida da velha Espanha.
O efeito foi grande. Ao lado da sua choupana, Anchieta construiu um tablado, escreveu autos em castelhano, português e tupi-guarani, língua que logo aprendeu, e ensaiava as peças com os indígenas. O enredo delas, geralmente, girava em torno do mal que deveria ser expulso da aldeia. Assim escolhia para o papel de “mal”, um morador que fosse realmente mau ou tivesse fama de mau; para cada papel, pessoa com as características do papel a ser representado. Tendo como cenário as folhagens das árvores, o pôr do sol e o canto dos pássaros, eram armados o tablado e os bancos para os assistentes; e entravam logo depois os personagens, interpretando o “Auto da Pregação Universal” texto bilíngue de Anchieta, sobre a luta do bem e do mal. Representaram mais tarde os “Mistérios de Jesus”. Pouco a pouco, foi Anchieta iniciando nossa civilização através da arte do Teatro. Todos os indígenas, aos poucos, foram-se aproximando dessas representações, aderindo à escola, à igreja; através delas, receberam os primeiros ensinamentos, aprenderam a língua, boas maneiras e o principal, que era o trabalho.
Não escrevia Anchieta em linguagem difícil. Tudo era compreensível para os selvagens, desde a trama, até os locais onde se passava a ação. Muitas vezes o efeito desejado por Anchieta era recebido com palmas e gritos do auditório, que entendia perfeitamente.
Surgiu assim o nosso Teatro, entre as árvores de Piratininga, representado por nossos indígenas, e com a finalidade única de educar.
Essa deve ser a finalidade da arte.