sábado, 21 de abril de 2012

Os três dramaturgos
























Carteira de sócio da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (1952)


ARTIGO – REVISTA RECREIO E ARTE (SESI) – ANO 1 – JULHO/SETEMBRO DE 1958 
Os três dramaturgos
Nestes últimos meses, o público de nossa capital teve oportunidade de tomar contato com três dramaturgos que deram à nossa literatura dramática obras que, há quase trinta anos, estávamos esperando no teatro brasileiro: “Pedro Mico”, “Gimba” e “Chapetuba F.C.”, respectivamente de Antônio Calado, Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Viana Filho, os dois primeiros já com obras anteriores e o último estreante.
A falta de autores é sem dúvida, a grande lacuna de nosso teatro. O autor é a base e, ao mesmo tempo, é quem dá as características da arte dramática nacional. Logo, um país sem autores não pode considerar nacional o seu teatro. Os três autores focalizados deram às suas peças conteúdo profundamente brasileiro, abordando ainda problemas em evidência dentro da sociedade.
“Pedro Mico” é uma das últimas peças de Antônio Calado. Com ela, de revelação promissora que surgiu com “Cidade Assassinada” passou a autor atual e atuante. Sua peça, embora apresente marcante semelhança com “Gimba”, desta muito se distancia numa análise de conteúdo. “Pedro Mico” é malandro de morro, fruto do ambiente em que formou sua mentalidade de caráter, e assim tende sempre a prosseguir numa vida de aventura. O autor bem o definiu: “Pedro Mico não é uma caricatura de malandro de morro, mas o próprio malandro”. Com isso, colocou sua peça no mesmo nível das que focalizaram uma realidade, interpretando-a, sem jamais caricaturá-la. Pedro Mico é o malandro visto através das tendências ético-sociais do autor, é uma realidade que este procura apresentar.
“Gimba” focaliza o mesmo tema, mas sob ângulo diferente. Ao passo que Pedro busca a salvação social, fugindo de seu mundo para outro, sem crimes e sem violências, Gimba continua o mesmo e se revolta contra a sociedade que não o aceita. Enquanto um é levado à reeducação social, o outro permanece como símbolo dos marginais.
O autor de “Pedro Mico” leva o espectador a se convencer de que a melhor solução para o personagem é procurar a vida normal dentro da sociedade. Pedro é conduzido a uma vida sã, dentro da ordem e da lei, levado por uma prostituta que, na peça, embora situada no mais baixo degrau da escala social, possui alto senso de dignidade.
Gimba é o contrário; permanece um revoltado e o espectador tende a acompanhá-lo nessa revolta contra a sociedade, que vive alheia ao personagem e ao seu drama. Gimba é um panfleto – no bom sentido, é claro – mas não deixa de ser um panfleto político, que procura subverter a ordem social .
Como construção e como caráter, Pedro Mico é superior a Gimba. Como espetáculo esta a supera, pois a encenação de Pedro Mico sofreu grandes erros e o mesmo se deu com a interpretação transformando-se a peça de drama social em caricatura.
Já em Gimba há o espetáculo de inúmeros personagens (Pedro possui somente três personagens principais) e de escolas de samba, que acrescentaram à peça uma riqueza de ordem folclórica.
“Pedro Mico” é peça mais séria e penetrante. O colorido visual do espetáculo de Gimba ofusca a mensagem social e o problema em foco, enquanto Pedro é peça seca, árida, que trata o tema e nada mais.
“Chapetuba F. C.” trata de assunto bastante diferente e é em nossa opinião, a melhor das três peças focalizadas. Chapetuba explora também problema brasileiríssimo, o futebol, e seus personagens reagem como nós mesmos, em diálogos bem nossos. Em “Chapetuba F.C.” vive-se o tema ajustando-se em nível igual, autor, atores, e diretores. Todos procuram a forma e os meios mais simples e brasileiros de expressar o texto, transformando a peça em grande espetáculo, um dos melhores, até hoje do teatro brasileiro, isento de influências franco-ítalo-polonesas. O espetáculo é apresentado com simplicidade, que o autor também procurou ao criar a peça.
“Chapetuba F.C.” tem a linha das peças das três primeiras décadas deste século, se bem que as características mais profundas, não reproduzindo a realidade como as peças antigas, mas interpretando-a, procurando denunciar um problema sem solução.
Das três peças, Chapetuba é a mais simples e por isso mais nossa. Contudo as três estão dentro da linha brasileira, as três focalizam problemas autóctones.
O moderno teatro brasileiro necessita de peças nacionais, que o levem a trilhar ser verdadeiro caminho. A luta por uma dramaturgia própria deve ser travada, a fim de serem assentadas as bases de um teatro nacional.
Peças como “Gimba”, “Pedro Mico” e “Chapetuba F.C.” têm o valor de abrir caminho, de apontar a direção a ser tomada, mas dificilmente poderão modificar o panorama, uma vez que no Brasil, a cultura, a sociedade e a economia ainda estão presas a influências externas. Quando a nacionalização atingir todos os setores, então teremos uma cultura, nacional e, conseqüentemente, poderemos também apresentar espetáculos escritos, dirigidos e representados por brasileiros e de conteúdo nacional.

domingo, 8 de abril de 2012

A Arte do Ator











Osmar antes do espetáculo - Teatro Experimental

ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 25/06/1950
A Arte do Ator
É o ator, no dizer de Jean Louis Barrault “o meio essencial da arte dramática” e, sem dúvida alguma, ele tem toda razão nessa sua assertiva. É o ator a única pessoa no teatro que enfrenta o público, nem o autor e menos ainda o diretor, entram diretamente em contato com a plateia, apenas indiretamente pela voz, gestos e mímicas do intérprete, que é o ator.
Inúmeras teorias existem sobre o ator. Umas que dão a ele a qualidade de ser o único artista que de fato possui o teatro, isto é, que somente no ator está a essência do teatro. Outras o consideram apenas um dos intérpretes da obra literária, qualificando o autor o verdadeiro criador da arte dramática. Outros ainda acham que o ator é apenas um estorvo à realização do espetáculo. Esse princípio é seguido por Gordon Craig, o qual na sua teoria sobre a super-marionete ele prefere bonecos a atores de carne e osso.
Por isso concordamos com Jean Louis Barrault, quando diz: “O instrumento do qual deve servir-se o autor para praticar a arte dramática, é o ator. O ator é um ser humano especializado para servir de instrumento à arte do teatro: especializado no desenvolvimento da vontade, na determinação dos movimentos do seu corpo, da sua respiração, da sua voz e da sua dicção, através de estudo particular sobre diversas expressões estéticas e vocais”. De fato é o ator um meio do qual se serve, juntamente com o diretor, para formar com ele uma encenação, mas isso não quer dizer que o autor e o diretor não deixam de ser, também, instrumento para a arte dramática. Se é verdade que o escritor fornece a matéria prima, também é claro que, sem ator, nunca essa matéria teria vida, todos os três são instrumentos, um do outro, formando, assim, o teatro como arte de equipe.
Nesse triunvirato, como já dissemos é o ator quem mais recebe glórias, entretanto, é quem depois da morte é menos lembrado e menos ainda estudado. Sua arte vale enquanto ele puder entrar em cena, caso contrário sua fama desaparece com sua geração. 
Hoje ouvimos falar e lemos sobre Tespis, mas não nos importa a sua maneira de interpretar, nem se sua voz era boa ou sua mímica rica em nuances. O tempo só conserva no teatro o autor, porque ele grava em letras a sua arte. Entretanto, o ator que é um artista apenas visual permanece estático e sem análise pelas gerações posteriores. Isso não quer dizer que ele não seja um criador de sua arte que pertença só a ela. A prova que existe uma arte toda sua e que a interpretação de qualquer personagem pode variar de um para outro artista, e nem por isso deixa de estar certa na linha imaginada pelo escritor. Um Hamlet de Lawrence Oliver é tão puro como o de Jean Louis Barrault, entretanto são bem diferentes na interpretação. Cada um de nós apresenta um Shakespeare, diferente.
Por isso a arte do ator é intensa e laboriosa, porque ele tem que viver todo o seu futuro como artista, no presente.

sábado, 31 de março de 2012

Uma pausa para a saudade













Foto: Teresa Pinheiro



Hoje deixamos de publicar os artigos de Osmar Rodrigues Cruz, porque essa é uma semana especial. Dia 2 de abril Osmar completaria 88 anos e dia 7 de abril faz 5 anos que ele nos deixou. Para marcarmos as datas escolhemos trechos de nosso livro, o início do primeiro capítulo, mais propriamente, onde ele narra como seu gosto pelo teatro iniciou-se.

“Durante minha adolescência morávamos numa casa na Lins, onde havia um vasto quintal. Freqüentávamos muito o teatro, meu pai era um apaixonado por teatro, principalmente por Leopoldo Fróes, que morreu em 1932. Comecei a freqüentar teatro em 1934 em Campinas, meu pai ia trabalhar lá, minha mãe, meu irmão e eu ficávamos hospedados na casa de amigos e à noite íamos ao teatro Municipal assistir à Companhia Miramar com Emílio Russo e Norma de Andrade, foi lá que assisti a inúmeras peças e a estréia de Renata Fronzi, que tinha 15 anos, numa peça de César Fronzi.
Era uma peça por noite e foi lá que também assisti a Manhãs de Sol de Oduvaldo Vianna, Retalho de Dario Niccodemi. Todas as peças que fiz depois, Manhãs de Sol no Teatro Popular do Sesi e o Retalho antes, no Centro Acadêmico, foram peças que marcaram muito meu gosto pelo teatro.”
(...)
“Antes de 1938, fiz uma experiência de teatro, havíamos mudado para uma casa grande na Lins de Vasconcelos, que tinha uma enorme garagem e meu pai não tinha carro. Então, de tanto ver e gostar de teatro, resolvi fazer um teatrinho na garagem, cobrávamos palito de fósforo de ingresso, enchemos uma caixa de sapato de palitos de fósforo! Fazia peças improvisadas, a mais pura commedia dell’arte - escolhíamos o assunto, decidíamos quem ia fazer o quê. Eram assuntos do cotidiano: o marido chega e não tem comida pronta, a mulher que está passando roupa, arrumávamos um velho ferro de passar roupa. E assim foi durante algum tempo. Como minha mãe havia morrido, ficávamos com uma empregada, meu pai trabalhava, precisava sustentar os vagabundos em casa! O que acontecia? A empregada ia embora, porque elas iam trabalhar lá em casa, para casar com meu pai, era essa a intenção. Como meu pai não queria casar com elas, elas iam embora! Assim foi com duas ou três. Então, minha avó ia lá, cuidar da casa e da gente, ela era forte, morreu com 95 anos. Ela não queria a criançada dentro de casa, os meninos subiam na árvore para pegar ameixa e ela ficava louca da vida! Quando ela ia lá em casa, tinha de parar o teatro. Ela falava com meu pai e ele pedia para nós, afinal ela ia lá cuidar da gente. Quando arrumava outra empregada e ela tinha certa idade, era ótimo, pois ela não tinha a menor intenção de casar com meu pai, por isso continuávamos a fazer teatro sossegados. Tinha um estrado velho de cama patente de casal na garagem e então colocávamos um tapume em cima e pregávamos uma cortina de parede a parede que funcionava bem, não era a “americana”, não era a do Arquimedes Ribeiro, mas funcionava bem!
Aí começou tudo, eu queria ser ator, não sabia ainda, pois não havia diretor, havia ensaiador. Eu não fazia peça que eu assistia, era teatro de improviso, a molecada se divertia, gritava. Tudo era feito por instinto, era como a commedia dell’arte, porém sem conhecê-la e cada dia uma história, três ou quatro meninos representando. Mas a vida foi mudando, os meninos da vizinhança cresceram e eu, lógico, junto, não tanto, mas junto e continuando a assistir teatro.”

in CRUZ, Osmar Rodrigues Cruz e CRUZ, Eugenia Rodrigues Cruz - OSMAR RODRIGUES CRUZ – UMA VIDA NO TEATRO, São Paulo, Hucitec, 2001

sábado, 24 de março de 2012

Teatro Universitário











Centro Acadêmico Álvares Penteado


ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 21/05/1950
Teatro Universitário
Há em nossa capital, com vida permanente, apenas o Teatro Universitário do C.A. Horácio Berlinck. Possui esse teatro cinco anos de vida oficial. É um exemplo que deveria ser seguido por todos os Centros Acadêmicos ou Faculdades de São Paulo. Exemplo podemos tirar também das Universidades Norte-Americanas, onde em cada uma delas existe um grupo teatral permanente. Isso para não sairmos da América. Um grupo de teatro universitário tem a vantagem de congregar, distrair e ilustrar os acadêmicos, dando aos que tomam parte na interpretação um desenvolvimento nas atitudes, nos gestos e na conversação tornando-os mais aptos para a luta diária.
Como o esporte sadio faz parte da vida acadêmica, também o teatro é uma necessidade. Um para o físico, outro para o intelecto.
Desde a vinda do Teatro do Estudante do Brasil para São Paulo, que Paschoal Carlos Magno, seu diretor, deu novo impulso aos jovens estudantes paulistas, e a partir daquela época o gosto aumentou; entretanto nenhum grupo novo surgiu. Pelo contrário, o Grupo Universitário de Teatro desapareceu juntamente com outros grupos amadores, dando origem ao Teatro Brasileiro de Comédia. E, assim, somente o Teatro Universitário do C. A. Horácio Berlinck permaneceu na vida teatral amadorista. Porém, há meses atrás surgiu na Escola de Jornalismo um grupo de teatro dirigido pelo Prof. Georges Readers. Logo após, o Teatro Experimental do Negro, tendo a frente Geraldo Santos, seu incansável diretor que no próximo mês encenará “Todos os filhos de Deus têm asas” de O’Neill. Mas a notícia mais auspiciosa foi a de que a Escola Politécnica, por intermédio de seu Grêmio, fundou também seu grupo de teatro e irá dar um espetáculo em agosto, sob a direção de João Ernesto Coelho Neto. Por fim, alunos da Faculdade de Filosofia também resolveram organizar um grupo de teatro e tivemos imenso prazer em receber a notícia desses moços que desejam, além de estudar filosofia, dedicar-se um pouco ao estudo do teatro.
Parece que 1950 está dando sorte ao Teatro Universitário, pois apenas há um ano atrás somente o do Horácio Berlinck trabalhava nesse sentido, apesar das dificuldades financeiras por que sempre passou e que neste ano pretende apresentar em junho “As mulheres não querem almas”, de Paulo Gonçalves, o inesquecível comediógrafo paulista que tão cedo nos deixou. Nesse espetáculo será feita uma homenagem a esse inigualável escritor e poeta. Para a segunda metade do ano uma peça estrangeira. Nessa época, então com todos os grupos acima mencionados e mais alguns outros poderá ser realizado o 1º Festival Amador, com a participação de cada um, apresentando durante alguns dias suas peças.
Esse programa, não tão difícil de realizar, poderá falhar se a boa vontade e a dedicação de seus componentes não souberem trabalhar com interesse e afinco.
Aos jovens estudantes deve ser dado todo apoio, principalmente das pessoas que a isso for possível, pois sem dinheiro, difícil é realizar qualquer coisa, principalmente teatro.
Se tudo isso sair de acordo com os planos que nos divulgam, brevemente em São Paulo haverá uma vida teatral estudantil digna da “capital artística” do país. Aqui vai, portanto, nossos votos de progresso e bastante sorte aos jovens amantes do teatro. Um dia, num futuro próximo, poderão colher os frutos do seu trabalho vendo que no meio universitário o teatro já não será tão desconhecido como ainda hoje o é. À luta pois!

domingo, 18 de março de 2012

Crítica
















ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 16/04/1950
Acerca de “No fundo do poço”
Muito se tem escrito ultimamente sobre a peça de Helena Silveira “No fundo do poço”. Uns a favor, outros contra. Entretanto, poucos foram os que, além do comentário ao texto, se estenderam e analisaram a encenação. O diretor da peça, Graça Melo, além dos cortes que fez devido a censura, modificou outras partes, mas com a presença da escritora, conforme ficou esclarecido no dia dos debates realizados no teatro. Mesmo aquele dia os comentários feitos foram quase que dedicados ao texto e poucos à encenação. Muitos cavalheiros conhecedores pretensos do teatro, acham que uma crítica teatral, baseia-se somente no texto; que o autor é a suprema pessoa do teatro. Isso é bastante interessante pois, se o ator não o representar e o diretor não a colocar em cena, a peça ficaria no papel e bem guardada numa estante. Desde que se escreva uma peça para ser representada o autor na representação é obrigado a dividir a autoria com o ator e o diretor.
Este é o caso de “No fundo do poço”. Helena Silveira concordou com os cortes e a interpretação do diretor-ator. Daí é absurdo vir alguém e dizer que a peça deve ser levada de outra maneira, porque a intenção da autora não foi seguida.
Nos debates sobre a peça surgiu algo assim, mas Graça Melo soube explicar e mesmo esclarecer muitos pontos que para os leigos eram desconhecidos.
Outro ponto de ataque à direção que surgiu foi a interpretação da parte em que Júlio recorda o passado. Ouvimos e lemos nos poucos comentários à encenação, que a interpretação expressionista estava em desacordo com o texto. Muitos acharam que o cenário da memória está dentro da escola, ou melhor, tendência expressionista e que essa escola já passou e não tem razão de ser, como se arte fosse uma espécie de moda onde as vestimentas passam da época.
Em primeiro lugar estão todos enganados defendendo a teoria de que o autor deve ser respeitado; os nossos amigos erram, pois a própria autora diz na descrição do cenário: “O cenário é concebido expressionisticamente para dar impressão de incúria e pobreza”. Aí está, o próprio ambiente expressionista da peça é marcado pela autora, não sendo pois, uma interpretação livre do diretor.
Outro ponto é sobre a memorização de Júlio, que Graça Melo interpreta à expressionista, talvez para mais salientar o realismo da cena atual com a sua consciência. Com a sua mente de assassino prestes a ser descoberto, atordoado pela polícia ele evoca as cenas que reconstituem a preparação para o ato que praticou. No estado de completa perturbação mental ele só poderia lembrar-se dos fatos retorcendo-os, devido ao seu estado nervoso. Muito bem. Como apresentar isso no palco? Cremos que somente a tendência expressionista nos auxiliaria, somente ela contém os elementos estéticos próprios para a situação. Isso não quer dizer que toda a encenação seja expressionista, apenas as cenas de recordação e que não chegam à totalidade da peça, pois com elas estão entrelaçadas as cenas realistas em igual quantidade. Seria erro usar o expressionismo, em parte, hoje que ele não é mais novidade? Não. Claro que não! O que significa uma corrente dentro do vasto campo da arte, o que interessa é que a obra tenha elementos de arte se foi concebida dentro dos moldes clássicos, modernos, não importa. Arte é uma só. Os meios de expressão é que variam. A pintura moderna não está voltada às antigas pinturas clássicas, como pesquisa? E por isso deixa de ser arte? Não. Apenas hoje usamos métodos diferentes. Assim é o Teatro, não importa a escola em que se apresente, o que vale é se é ou não Teatro. E parece que não resta dúvida que a encenação de Graça Melo é uma obra de arte. Os nossos amigos, na certa, se a encenação pertencesse a um estrangeiro não discordariam da interpretação, mesmo errada, talvez. Mas como o diretor e a autora são nossos patrícios tudo está errado.
Vamos deixar de resolver nossos problemas em fórmulas estrangeiras, vamos incentivar a nossa produção artística. Não nos faltam valores para isso. Falta-nos apenas incentivo, por isso aqui vai um velho ditado àqueles que não compreendem o esforço e a intenção dos que querem produzir: “Muito faz quem não atrapalha”. 

domingo, 11 de março de 2012

Teatro Amador













Elenco de "O Badejo" com o diretor Osmar Rodrigues Cruz


ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 22/01/1950
Teatro Amador
Vamos hoje discorrer sobre o teatro amador e estudantil, bem como sobre a sua influência e contribuição ao desenvolvimento do teatro nacional e em particular o teatro paulista.
Em todo o mundo são os grupos de amadores que apresentam às platéias de sua terra espetáculos que, por seu alto grau de cultura, muitas vezes não podem ser levados por companhias profissionais por não serem obras de bilheteria, mas cujo valor artístico é respeitável. São sempre os grupos de teatro amador que fornecem a maioria dos atores  e técnicos aos elencos profissionais. Isso se passa tanto aqui como em outras terras. Sendo o teatro uma arte quase que inteiramente prática, o amadorismo é a oficina onde se pratica essa nobre arte. Quantos atores e diretores não surgiram da obscuridade do teatro amador? Stanislawski foi amador na arte cênica durante muitos anos, somente quando fundou o “Teatro de Arte” é que se tornou profissional, mas seu gênio já era o do eterno pesquisador desde o começo da sua vida no palco. Um homem como ele pode ser considerado um gênio da arte dramática, pois seus ensinamentos são seguidos em todo o mundo desde os Estados Unidos até a Rússia seu país de origem. Muitos outros atores, e a lista seria enorme, saíram do teatrinho da sociedade estudantil. Em nosso país a maioria de nossos atores e atrizes foi amador. É o Teatro do Estudante do Brasil que tem sido o maior celeiro de jovens inclinados ao palco. Graças a Paschoal Carlos Magno um grande número de jovens vem servindo o Teatro Brasileiro. Pelo Brasil afora, em cada cidade surge um teatro de estudante com uma vontade enorme de trabalhar e progredir, de poder contribuir para a cena nacional com um pouco de dedicação e esforço.
São Paulo atualmente está pobre de teatro amador, somente o Teatro Universitário do C. A. “Horácio Berlinck”, e o Teatro do Estudante de São Paulo, que recém fundado irá apresentar-se em março com a peça “Nossa Cidade”, e ainda o Corpo Cênico Bancário que tem apresentado aos seus elementos de classe peças nacionais, o que não deixa de ser uma contribuição.
Portanto, apenas três teatros amadores lutam em São Paulo. Aqui, onde devia haver mais de uma dúzia de grupos.
Qual a causa, perguntam? Não se pode responder que ela seja uma só, não. Mas a principal é a falta de apoio quer por parte oficial como particular. O Teatro do Estudante de São Paulo não se apresentou ainda porque a entidade que está patrocinando – União Estadual dos Estudantes – ainda não lhe pôde fornecer os recursos financeiros; por outro lado o próprio grupo não encontra eco em parte alguma. Entretanto, o seu espetáculo é uma novidade para São Paulo, pois nunca a peça de Thorton Wilder foi representada em português para nós. Ali estão mais de trinta jovens esperando um dia poderem apresentar-se ao seu público.
Por que algumas pessoas que possuem dinheiro não auxiliam numa causa dessa? Isso não tem resposta porque ela reside na boca de cada um. No entanto, quantos benefícios não poderiam os grupos amadores oferecer à nossa pobre capital artística!
Em todas as capitais os teatros dos estudantes lutam com o mesmo problema, mas sempre, quando não é o prefeito é o secretário, e às vezes o próprio governador, ou mesmo particulares que auxiliam o grupo. Haja vista o Teatro do Estudante do Paraná, que excursionou por todas as cidades vizinhas representando “Os Espectros” de Ibsen. O mesmo poderia ser feito aqui em São Paulo; cada grupo daria um espetáculo nas cidades próximas, onde nunca se viu uma companhia profissional, justamente porque não há público suficiente para mantê-la. Mas, o amadorismo, dirigindo-se para lá, teria possibilidade de formar esse público. Quantas pessoas no interior do Paraná hoje já sabem o que é um espetáculo e quem foi Ibsen. Mas aqui, quando o Teatro Universitário do C. A. “Horácio Berlinck” representou os “Espectros” os “snobes” e os “entendidos” não apoiaram e muito menos estimularam. Todavia, quantos paulistas não poderiam conhecer Ibsen e ver um espetáculo moderno. Para isso levariam prospectos e fariam apresentação do espetáculo para que a platéia compreendesse a obra do dramaturgo norueguês. Isso deveria ser feito e ainda deve ser feito. Uma missão de cultura está nas mãos dos jovens amadores e estudantes para ser cumprida, mas antes de tudo, senhores, o vosso apoio deve ser dado. A chama do progresso está sempre com os moços, deles é que parte o grito de vanguarda, a sua missão deve merecer o aplauso geral, porque muito precisa o teatro nacional de renovação, e somente a mocidade poderá fornecer essa mudança.




domingo, 4 de março de 2012

Algo sobre o teatro











Encenação da peça "As Mulheres não querem Almas" (1950) 


ARTIGO – DIÁRIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA – 18/12/1949
Algo sobre o teatro
Na falta de verdadeiros espetáculos para começar, passamos a escrever algo sobre teatro; alguns rudimentos sobre o que vem a ser o ato teatral, qual a sua situação verdadeira. Enfim, o que é a representação de uma peça e quais os seus responsáveis.
Não vamos aqui escrever sobre história do teatro, literatura dramática, arte de representar, direção, etc.; para tanto seria necessário escrever muitos capítulos. Somente pretendemos dar uma ideia do que é a arte do teatro em sua essência, quais os elementos que a formam e que respondem pela sua execução.
Veremos, inicialmente, o que vem a ser teatro: na generalidade, teatro é o lugar onde se passa determinado fato que provoca o interesse geral. Está aí a simples definição do fato a que se dá o nome de teatro. Mas, vamos ver o que é arte teatral. É o espetáculo onde se representa um determinado fato, criado pela imaginação do homem, ao público em geral.
Talvez não possamos reunir nessa definição o que vem a ser essa complexa arte, tão cheia de minúcias como a própria vida. Entretanto, ela define o que é o ato representativo, isto é o espetáculo como arte criadora. Para deixar mais clara nossa ideia daremos dois exemplos que hão de distinguir bem essas duas definições: as crianças quando brincam de “fazer de conta” estão praticando inconscientemente um ato teatral onde a representação é o principal objetivo. Estão “fazendo de conta” que cada um deles é um personagem da história de sua imaginação. Vejamos agora, quando o espetáculo apesar de estar no palco, não é arte teatral, isto é, não possui a essência da arte dramática: no palco estão vários acrobatas, ginastas, mágicos e etc., nenhum deles faz parte de alguma representação, estão apenas mostrando ao público as suas habilidades próprias, sua própria pessoa e não outras, fruto da imaginação criadora de um autor dramático.
Assim, já podemos ter uma simples ideia do que é a arte cênica.
Veremos, agora, quais são os principais criadores dessa arte. Toda ela depende de três fatores iniciais: o autor, o ator, e o diretor. Neles estão contidas todas as inúmeras partículas  de uma encenação, desde o texto até a representação dada ao público. Para a formação desses elementos, há necessidade, é claro, que cada um possua uma preparação no que diz respeito à cultura geral e artística.
O autor é a fonte de onde surge o argumento escrito, o texto, composto dentro das leis da literatura dramática, onde uma determinada ação é transformada em diálogos, dando origem a vários caracteres, com a sua própria constituição sem apresentar semelhança um para com o outro. O enredo deve iniciar por uma apresentação de tipos, depois o choque entre eles que vem a ser o desenvolvimento da história, e, finalmente, o desfecho. Essas considerações, em simples palavras são a fórmula da criação do texto dramático. Assim, conforme a ação, pode-se denominar de tragédia, comédia, farsa, etc.
A seguir temos o ator ou atores; esses têm a seu cargo a transposição para cena dos caracteres escritos pelo autor. É o ator um indivíduo preciso do teatro. É ele que contém em si todos os elementos da expressão corporal na arte dramática, é o único dos três – autor, ator, diretor – que mais diretamente está em contato com o público, servindo de meio entre os outros dois.
Finalmente é o diretor de cena, ou encenador, outro responsável pela arte do teatro. Desde a Grécia, onde surgiu o teatro, é ele um precioso e indispensável elemento da representação. É a mão que coloca, regula e apara a exteriorização de uma peça. Captando a idéia impressa pelo autor no texto, ele controla o trabalho do ator e cria todo aquele universo de som, movimento e luz que é a encenação. Ainda estuda a cenografia, a indumentária, as luzes, a música e a dança , com a colaboração de seus auxiliares. Estuda ele, enfim, a interpretação que dará à obra do autor, colocando em cena a peça sem modificar o seu conteúdo, podendo, entretanto, usar a forma que lhe parecer melhor para expressar a sua concepção e a do escritor, para que o público compreenda a ideia principal. Homem de intuição e cultura artística é o diretor o eixo que controla o espetáculo.
Aqui estão, simples palavras, explicando fatores que para alguns estudiosos nada representa, mas, para outros servirão como esclarecimentos de algo sobre o teatro. Principalmente agora que para o bem de nossa gente ele começa a ter mais adeptos e trabalhadores, o que somente poderá trazer benefícios à nossa cultura.