domingo, 26 de maio de 2013

CAIU O MINISTÉRIO


Elenco todo ao início do espetáculo












Trecho de crítica – O Estado de S. Paulo 
por Clovis Garcia – 18/3/1973

[...]. Um espetáculo do TPS traz à tona toda a problemática do teatro popular, a adequação das encenações a um tipo específico de público, e a dificuldade de encontrar o justo limite de concessões a um tipo específico de público desabituado ao teatro e de nível cultural limitado e até onde se pode chegar para obter a elevação desse nível. Osmar Rodrigues Cruz conhece bem o público a que se dirige e procura obter a justa medida.[...].
A escolha da peça não poderia ser mais feliz, pois está entre as melhores comédias de França Júnior. A sua estrutura cênica garante um bom rendimento, o desfile de personagens, todos numa linha intensamente satírica, mantém o interesse e a comicidade. Apesar do texto ter quase um século de existência, pois estreou em 1882, muito da crítica de costumes e da sátira política permanece válido até hoje. A liberdade adotada pelo diretor, de modernizar alguns diálogos, principalmente com a substituição de termos de gíria, torna o texto ainda bastante comunicativo para uma plateia atual.
A direção de Osmar Rodrigues Cruz enriqueceu o espetáculo com música e coreografia, o que, com a concepção geral da linha de farsa, resulta numa encenação alegre e divertida. [...]. mas todos parecem representar com alegria, como se estivessem se divertindo, o que se transmite ao espectador.


Trecho de crítica – revista Desfile
por Oswaldo Mendes – março/1973

Voltando a ocupar um teatro que sempre gozou a preferência de uma plateia tradicional, se quiserem chamar assim, o Teatro Maria Della Costa, deixando o modesto e fora-de-mão (para o público rotineiro) Teatro de Arte Israelita Brasileiro, o Teatro Popular do Sesi, em São Paulo, prepara-se para comemorar neste 73 o seu décimo ano de atividades profissionais. O diretor Osmar Rodrigues Cruz, que acumulou nesses dez anos a honra de encenar todos os espetáculos do Sesi, escolheu para a comemoração uma peça brasileira do século passado, escrita por um autor de nítidas implicações políticas (advogado e comentarista político no seu tempo): França Júnior. A comédia Caiu o Ministério uma evidente crítica aos nossos costumes políticos das últimas décadas de mil e oitocentos mantém-se ainda hoje como um dos primeiros documentos do início de uma dramaturgia voltada para uma realidade menos particular de hábitos e dramas domésticos. Essa preocupação com o social e o político deu a França Júnior uma posição de importância entre os nossos autores de teatro, e seu nome ficará obrigatoriamente incluído em qualquer história que se escreva de nossa dramaturgia. [...].

(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)





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quarta-feira, 22 de maio de 2013

TPS 10 ANOS!



Um sonho que virou realidade

Há dez anos, neste mesmo teatro um sonho transformou-se em realidade. Um sonho que durava, também, há quase dez anos. Esse sonho era transformar o teatro, que havia dentro do Serviço Social da Indústria, num organismo forte, irradiador de prazer e cultura, enfim um Teatro Popular para uma massa não afeita a esse tipo de manifestação.
Em fins de 1962 apareceram alguns homens de grande visão, homens fundamentalmente da indústria, mas que tinham também a responsabilidade de um Serviço Social.
Pois bem, esses senhores, hoje encabeçados pelo Sr. Theobaldo De Nigris, seus companheiros do Conselho Regional do Sesi, e a Superintendência do Sesi, acreditaram num plano, num trabalho, num ideal e transformaram o Teatro Popular do Sesi, num exemplo de como, sem visar interesses, dar ao trabalhador um pouco daquilo que ele nunca poderia ter por várias questões, principalmente por falta de hábito, de poder aquisitivo (o teatro é um divertimento caro) enfim, por uma vasta série de fatores.
Posso afirmar com a maior satisfação que o Teatro Popular do Sesi sempre mereceu desses senhores, a maior atenção, o carinho de quem vê um filho crescer. Não acredito que haja no mundo exemplos parecidos. No nosso país o caso é segundo me parece, o único.
Depois de dez anos é justo que se saiba, e principalmente, este nosso grande público, que esses senhores são os responsáveis, pois acreditaram em nós, como nós acreditamos neles.
Um dia, na história do nosso teatro, se poderá constatar que alguns senhores, respeitáveis homens de negócios, tornaram realidade um sonho, porque viram que o homem só pode acreditar na vida, no trabalho e no progresso, quando ele se instrui, adquire bons hábitos, e o Teatro é o grande meio. Eles acreditaram e com isso escreveram uma página do Teatro Paulista.
O Teatro Popular do Sesi agradece a todos os que contribuíram para o seu desenvolvimento e sua fixação, desde o humilde servidor até a mais alta administração. Isolados, os homens são uma partícula, unidos formam uma comunidade. (ORC)
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)



Entrevista 1 – Folha da Tarde – coluna “No Teatro”
por Paulo Lara – 11/7/1973

Você tem uma solução para a crise do teatro?
Osmar Rodrigues Cruz é o diretor do Teatro Popular do Sesi desde sua fundação, há dez anos. Seu trabalho de popularização de teatro tem dado significativos resultados. Suas montagens, além de ficarem muitos meses em cartaz, conseguem obter um público sempre acima dos cinquenta mil espectadores. Para provar isso, seu último trabalho encontra-se em cartaz no Maria Della Costa. É a comédia de França Júnior – Caiu o Ministério – que já ultrapassou os trinta mil espectadores e continua sempre com a lotação esgotada. Vejam o que ele tem a dizer sobre a atual crise de público que afeta a maioria dos teatros paulistas.
“A crise pela qual passa o teatro em São Paulo nunca deixou de existir, pelo menos nestes últimos anos: ora mais acentuada, ora menos. Mas, atualmente, essa crise não deixa de ser consequência de uma falta de planejamento no que diz respeito à popularização do teatro. Sendo uma arte cara para o nosso poder aquisitivo, ela deixa de fazer parte do hábito do paulistano e a elite que vai ao teatro, hoje em dia, só comparece àqueles espetáculos que lhe interessa ver. Não é como em certas capitais da Europa ou nos Estados Unidos onde o público assiste a tudo. Um teatro, como é feito aqui, quanto mais tempo passa, mais distanciado vai ficando do grande público.
“O que precisa ser feito é habituar esse público, alheio às casas de espetáculos, a comparecer. Mas como? Através de uma programação a longo prazo, pois a curto prazo tem-se tentado, pelas subvenções, temporadas populares mas que nunca atingem a vinte mil pessoas. Então, está provado que isso não tem alcance nem relevo.
“A necessidade é de se equacionar o problema da crise teatral, realisticamente, a longo prazo, e isso não se pode exigir do empresário que tem que manter uma companhia. O teatro é caro para quem vê e para quem o faz.
“Cabe então, aos poderes públicos, talvez unidos – Prefeitura, Estado e União – amparar o teatro. Uma campanha de popularização seria feita usando: 1) Um repertório nacional de linguagem popular que se comunique de imediato com a massa; 2) Subvenção ampla para que se possa cobrar um quarto do valor do ingresso atualmente; 3) Ampla promoção do teatro, das peças e elenco, junto a essa massa; 4) Paralelamente aos espetáculos, criar estímulos para que o público não veja no teatro uma arte de elite, mas uma manifestação comum: associações, exibições de filmes de peças, exposições e principalmente material didático sobre as apresentações.*
“O teatro tem que ser pedagógico e divertimento ao mesmo tempo – como diz Brecht. Não se pode esquecer nunca que, antes de tudo, ele tem que interessar, fazer o público sentir prazer em estar no teatro. O esquema apresentado pode ser feito por duas, três até seis empresas se revezando entre a Capital e o Interior. O teatro não pode ser um serviço público executado por particulares.
“Para esse esquema, claro que haveria problemas. Um deles: a quem se daria essa tarefa? Concorrência. E quem ficasse de fora resistiria? Essa pergunta foi feita, há mais de seis anos, quando, como membro da Comissão Estadual de Teatro, apresentamos ao então secretário do Governo um plano de popularização. E a resposta dada foi: “Ou se salva o teatro ou tentemos salvar meia dúzia de empresários e o teatro continuará em crise”. É o que está acontencendo. E nem precisa dizer que aquele plano não foi executado. Isso de distribuir uma quantia entre muitos nunca irá resolver esse problema.
“O Sr. Ministro da Educação, mostrou-se interessado em destinar uma soma bastante razoável para solucionar a crise. Se ela for dividida com as empresas do Rio e São Paulo, não vai adiantar nada. E o que é pior: o teatro continuará em crise, pois a solução do problema não está em “subvenção”, mas sim em “popularização”. Quando trezentas mil pessoas forem ao teatro – cinco por cento da população da Capital – não haverá necessidade de subvenções, nem crises, e todos poderão viver bem do teatro. Mas, para isso, é urgente um plano lógico no qual o repertório escolhido atenda, pelo menos inicialmente, às exigências do público. mas o espetáculo popular não pode ser vinculado à exigências estéticas de vanguarda, deve se ater a uma “comunicação” que atinja a maioria do povo”. (continua amanhã)
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)
* grifo nosso




Entrevista 2 – Folha da Tarde – coluna “No Teatro”
por Paulo Lara – 12/3/1973

“É necessária uma intervenção direta no teatro”

“Aos que discordam de uma intervenção direta no teatro, temos a lembrar que a Comissão Estadual de Teatro existe há mais de vinte anos e até hoje não conseguiu solucionar os problemas da crise do teatro, justamente porque as verbas são divididas de tal maneira que, em alguns casos, nem chegam a cobrir a folha dos atores na fase de ensaios.
“Criada uma seleção de qualidade, é dar a esses uma dotação que realmente possibilite que entrem num verdadeiro esquema de popularização. Os que ficaram de fora continuarão reclamando, mas ou se resolve o problema máximo do teatro, ou os menores. E faço minhas as palavras de Jean Vilar, quando lhe foi entregue a direção do Teatro Nacional Popular em Paris: ‘Há uma certa inquietude por uma pretensa concorrência desleal com referência aos preços muito baixos cobrados por nós. Concorrência? Com quem? Não com o teatro. Ao contrário do que acontece muito frequentemente, é que em razão do preço modesto de nossas poltronas, o TNP ganha para o teatro espectadores que não têm meios de conhecê-lo. Uma vez que esses espectadores tenham adquirido o hábito de ir ao teatro, farão, sem dúvida, no futuro, um sacrifício e o teatro se beneficiará com isso‘.*
“Isso de dizer que o teatro está morto é conversa de quem não gosta de sua profissão. O teatro está tão vivo que quando o espetáculo interessa, o público briga para entrar no teatro. O que talvez esteja morta é a vontade de se violentar um pouco e ir até onde o povo espera que o teatro chegue. O estágio artístico-cultural da plateia brasileira exige espetáculos nos quais ele sinta vibrar a sua própria capacidade de entendimento, onde ele possa criticar, discutir, enfim, compreender o que vê. Depois, o teatro tem que aparentar um divertimento que não se assemelhe aos outros meios de comunicação. Só assim ele poderá interessar.
“Resumindo, o problema do teatro seria resolvido com: 1) Repertório condicionado a quem se dirige, porém variado e em evolução constante. O bom autor de teatro sempre é popular. Exemplo: Plínio Marcos e Guarnieri. 2) Artisticamente bem acabado: elenco, montagem, técnica, etc. 3) Preços mais do que acessíveis à massa. 4) Sem problemas de ordem econômica (subvencionado). 5) Popular, comunicação direta, sem falsas pretensões estéticas. 6) Não poderá nunca estar a serviço de vaidades ou ser especificamente pedagógico. Antes, tem que divertir, preencher as horas de lazer. Isso não quer dizer que culturalmente seja de baixo nível. 7) Tem que ser um serviço público, útil, necessário e sem demagogia.
“Não se pode esquecer que o consumidor vai ao teatro depois de horas de trabalho. Há necessidade de fazê-lo relaxar, sentir prazer estético, emocional, tomar conhecimento que aquelas horas foram importantes para seu bem-estar físico e psicológico: esse, podem crer, é mais um conquistado para o teatro.”

* grifo nosso
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)


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domingo, 12 de maio de 2013

UM GRITO DE LIBERDADE



Trechos de crítica
Última Hora – por João Apolinário – 28/9/1972

Deve ter sido muito difícil a Sérgio Viotti vencer a primeira grande dificuldade que o texto Um Grito de Liberdade, que você poderá ver no Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib), oferecia a quem quisesse biografar a vida e a época histórica de D. Pedro I e da Independência do Brasil.
As distorções e os preconceitos existentes em relação a essa figura apaixonante de homem que em tão curta vida foi rei de dois povos, tornaria difícil repor, com a necessária autenticidade histórica, essa aventura humana excepcional, só por si merecedora de ganhar a dignidade teatral.
Outras dificuldades o autor de Um Grito de Liberdade soube contornar, realizando um texto carpinteirado com maestria. Selecionando as cenas capitais da biografia e da história e usando a linguagem própria, fluente e convincente, para que os personagens à volta dos quais se desenvolve a ação, vivam com aquela plenitude existencial indispensável à veracidade dos fatos indiscutíveis que teria de respeitar, como fez.
A ideia de propor a narrativa partindo da simultânea criação do espetáculo, com os atores representando-se e interpretando ao mesmo tempo os personagens, é, além de muito, didático, uma colocação inteligente, quebrando o lado mágico e teatral da história e oferecendo a outra face, a face crítica, ao espectador. Essa aparente quebra ou essa dualidade entre uma pretensa realidade (os atores ensaiando) e uma pretensa ficção (os personagens históricos vivendo a história) resultou, a meu ver, permitindo a encenação de Osmar Rodrigues Cruz uma totalidade de informações, coerentemente desenvolvidas pela via mais perfeita de comunicação que é, afinal, o teatro sem teatralidade, o teatro despojado, direto, concreto, sem sofismas. Em suma: a simplicidade. Em tudo: os praticáveis, os figurinos, as marcações, em tudo Osmar Rodrigues Cruz obteve uma perfeita sintonia, um acabamento a que a luz e a música põem o toque final de encenação simples e ao mesmo tempo perfeita que nestes anos todos o vimos realizar.
Essa simplicidade custa um preço, desperta incompreensões, permite preconceitos, falsos, naturalmente, como por exemplo a atitude cultural que não leva em conta o público para quem Um Grito de Liberdade foi realizado.
E, no entanto, é nessa simplicidade que devemos mais elogios a Sérgio Viotti e a Osmar Rodrigues Cruz. E ao elenco, todo ele integrado nessa dimensão popular sem concessões, espontânea sem esforço, artística sem trair o nível que o bom teatro se deve e nos deve. [...] enfim, todos me parecem cumprir essa ordem geral de simplicidade que faz do espetáculo um divertimento fácil, fluente, ao mesmo tempo que informa sobre a personalidade e a época que pretende marcar, no teatro paulista, o Sesquicentenário da Independência do Brasil.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)




























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domingo, 5 de maio de 2013

SENHORA

Elenco da peça













Trechos de crítica
Última Hora – por João Apolinário – 4/8/1971
APROVEITE. É DE GRAÇA. VEJA SENHORA, UM BOM ESPETÁCULO
Há mil razões, todas maravilhosas, para aplaudir este espetáculo que o povo pode ver no Teatro Popular do Sesi (Rua Três Rios, 252, sem pagar nada). E se me dão licença os mercenários do teatro, vou aplaudir de pé todos os que fazem de Senhora uma prova provada de que estão certos aqueles que defendem a necessidade de um teatro brasileiro popular.
Em seguida, um aplauso muito intencional para Osmar Rodrigues Cruz, não só como diretor desta encenação, mas sobretudo por ter sabido usar os recursos do Serviço Social da Indústria no sentido que devia e pela primeira vez aplica com total objetividade didática e cultural, em função do público em formação de que também dispõe aos milhares.
Chamo agora a vossa atenção para Sérgio Viotti: ele provou com esta adaptação do romance de José de Alencar, Senhora, ao povo que o teatro brasileiro que devemos poder alcançar com boas adaptações como a sua, um alto nível catalisador no desenvolvimento da formação de espectadores, sintonizando neles todo um repertório estudado em sucessivos graus de revelação cultural que utiliza não só as peças existentes, mas a nossa literatura de ficção, adaptada inteligentemente, não apenas para adultos, mas também para os estudantes secundários.
Exatamente a proposta que já foi feita pela Comissão Estadual de Teatro, da qual o Sesi dá este primeiro passo e magnífico exemplo.
Exemplo ainda mais significativo, o quanto Osmar Rodrigues Cruz soube reunir uma equipe de rigorosa capacidade profissional e com ela realizar uma encenação cujo mérito está em alcançar o nível artístico que teria se se tratasse de uma exploração comercial, o que prova que o diretor sabe que deve ao povo, a quem oferece gratuitamente o resultado do seu trabalho e dos recursos do Sesi, o máximo do desenvolvimento que é possível atingir-se entre nós em espetáculos do gênero, sem que se subestime o mínimo detalhe.
Está nesse caso, por exemplo, a concepção dos cenários e figurinos, aparentemente contraditórios, mas a meu ver certos na sua justaposição realista e impressionista, com o objetivo igualmente certo de apoiar o ator a exprimir, essencialmente, a expressão verbal, resultado último da adaptação do romance para a qual havia necessidade de se criar um lugar dramático, um local generalizado, de ação múltipla, por vezes quase simultânea, aqui suprindo a falta orgânica da carpintaria, impossível de dar a um texto que não nasceu para o teatro.
E Túlio Costa, o cenógrafo foi muito feliz, mas Ninette Van Vuchelen muito mais, caracterizando os figurinos em uso na sociedade carioca do Segundo Reinado não só de uma leveza de bom gosto, mas ainda mais no equilíbrio das cores, permitindo a fusão plástica com a luz, cuja distribuição visava só o essencial para sugerir o lugar dramático e a emoção, o que aliás foi conseguido plenamente.
O estilo de representação, obrigado a impor-se no sentido de uma convincente e consistente expressão verbal, teria de ser indiscutivelmente naturalista, como é, embora realizado melhor por uns do que por outros intérpretes, isto se exigíssimos deles mais do que podem dar. O que dão, porém, é eficiente, claro e uma nítida substância da ideia ou tema do romance feito peça [...] todos a final merecendo aplausos e, em nome do espectador mais comum, o nosso agradecimento.
Desculpem se ainda não foi desta vez que fizemos o comentário popular que também devemos aos espectadores de Senhora, mas não resistimos ao entusiasmo de somente saudar todos os que colaboraram com o Sesi para dar ao público o teatro que ele precisa.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)







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domingo, 28 de abril de 2013

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS

Ruthinéa de Moraes e Nize Silva (fotógrafo desconhecido)














Trechos de crítica
O Estado de S. Paulo – por Sérgio Viotti – 7/6/1970
O BOM SARGENTO LEONARDO
Para voltar a tocar na mesma tecla, no teatro nacional, existe um vazio tristonho no que se refere aos autores do século passado. Da morte de Martins Fontes até o aparecimento de Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues alastra-se um século de desolação teatral. Claro que houve, aqui e alí, algumas ilhotas afoitas erguendo suas cabeças frágeis acima da linha das águas desabitadas. Forma-se um arquipélago teatral. As peças não chegam a criar uma unidade histórico-dramática, isoladas em si mesmas, com suas qualidades e defeitos avivados pelo próprio isolamento da criação esporádica.
Nenhuma solução para o que, obviamente, não tem solução, pode ser apresentada. Se não existe uma dramaturgia tradicional, não se pode inventar uma, ou importar peças da mesma língua da mãe-pátria (o que os americanos não hesitaram fazer no passado; hesitam agora). Porém se não há solução, há, parece-me, pelo menos um caminho que pode ser seguido: adaptar. Se a nossa literatura continua sendo de uma riqueza invejável, por que não arrancar dela as peças de teatro que não foram escritas? Poderá não ser a mais nobre das soluções. Certamente não é a ideal. Mas o gato caçador, na ausência de um cão que falte poderá suprir o nosso teatro com alguma coisa que ele não tem.
Francisco Pereira da Silva, que o Nordeste deu ao Rio de Janeiro, é um autor para quem o regionalismo e as ambiências sociais da pequena burguesia não tem mistérios. Os reflexos deste conhecimento de causas podem ser encontrados facilmente nas suas peças (algumas premiadas) as quais, infelizmente, não chegam a São Paulo. Pode-se lamentar que ao se conservar demasiadamente fiel ao original de Manuel Antônio de Almeida, Francisco Pereira da Silva tenha perdido várias oportunidades de dinamizar a peça e libertá-la de uma fórmula que o obrigou a manter a si e aos seus personagens amarrados à pracinha carioca do tempo em que havia reis por estas bandas, mesmo assim (e não fui correndo reler o original de Antônio de Almeida para criar ideias de como deveria ser a adaptação, preferindo aceitá-la, ou não, pelo que é) ele conseguiu dar aos atores e ao diretor um punhado de tipos dos mais gostosos, de uma brasilidade facilmente identificável. Aí estão dois pontos básicos para dar a atores facilidade de criação imediata e a espectadores possibilidade de identificação total. Ambos foram explorados com o máximo rendimento. Sem mensagem e sem pretensões, teatro ingênuo, a adaptação tem a qualidade de preservar uma atmosfera sem pretender projetá-la no presente nosso, dentro de uma visão crítica inaceitável aqui. Claro: não é teatro agora. É teatro ontem do mais puro. O que o salva é a pureza. Quem não gosta, pior. Não se pode querer que o mundo de Manuel Antônio de Almeida mude no que não é só porque não existe mais. Mundo-museu, concordo. Mas quem, senão o Teatro Popular do Sesi, poderia dar-se ao luxo de recriá-lo?
A questão aqui é outra: O TPS é o único (vejam bem: o único) teatro regular e totalmente subvencionado que existe no Brasil. Gratuito. Com uma folha de serviços e espectadores das mais respeitáveis (e invejável). A sua função primeira é dar teatro popular, i.e., acessível, a um público que desconhece teatro, não tem “posição” tomada diante do fenômeno cultural e que, em sua quase totalidade, só viu teatro pela primeira vez quando ganhou entrada do Sesi. Assim, por que esperar, em lugar do Sargento Leonardo, o Baal de Brecht? O TPS, sem pretender concorrer com o teatro puramente comercial (e a vanguarda é comercial porque precisa de dinheiro para sobreviver) alimenta com teatro fácil um público que não tem poder aquisitivo para frequentar outros teatros paulistas. Se a esse público se der o “último grito” europeu ou americano ele deixará de ir ao teatro. O curioso é que entre quase um milhão de espectadores que o TPS já teve desde sua criação há uma ausência total de burgueses médios que frequentam os outros teatros. O mesmo motivo que faz o brasileiro desconfiar do lugar mais barato ao fundo da plateia (se bem que pague por ele quando a peça vem de algum além-mar!) faz com que desconfie do ingresso gratuito do Sesi. O burguês, via de regra, não será encontrado na plateia do Taib. O que é uma pena. Se ele soubesse o que estava perdendo, teria ido antes. Se avaliar o que está perdendo, irá agora ver o Sargento Leonardo em suas peripécias amorosas, nos tempos em que o Rio de Janeiro era vice-realmente pacata.
Eu cá por mim, prefiro mil vezes ver uma peça nossa do que um mau Goldoni, Marivaux ou Sheridan. E prefiro a quadratura do Sargento pelo que é do que pelo espetáculo pra-frentista que poderia ser. Prefiro porque vi bons atores alastrando alegria de ser brasileiramente autênticos num palco autenticamente popular. Osmar Rodrigues Cruz conseguiu a meia dúzia ideal de primeiros atores para seis divertidos primeiros papéis de comédia.[...].
Aí está: um Sargento simples, alegre, divertido, colorido, bem musicado, cheio de ação e marotices. Um Liolá bem feito me teria dado o mesmo prazer. Uma única tristeza: que os burgueses motorizados continuem desconfiando e não se dêem o prazer de conhecer de perto o que vai por aquela pracinha carioca dos tempos dos reis.

(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)



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domingo, 21 de abril de 2013

INTRIGA E AMOR



























Trechos de crítica
 Jornal da Tarde – por Sábato Magaldi – 19/9/1969


Foi muito feliz o diretor Osmar Rodrigues Cruz ao escolher para o elenco do Teatro Popular do Sesi a peça Intriga e Amor cartaz do teatro Taib, oferecido gratuitamente aos industriários e ao público em geral. O “drama burguês” de Schiller, tem todos os ingredientes para divulgar o teatro, como proposta artística de valor.
O tema do amor que não conhece fronteiras das classes sociais e dos impedimentos de qualquer natureza conserva até hoje o segredo de apaixonar as plateias e sugerir emoções sinceras. [...]. Nessa montagem Osmar Cruz aderiu francamente à maneira dos teatros populares europeus, sobretudo ao antigo TNP de Jean Vilar. [...]. A encenação voltada para o ator foi grandemente comprometida pelas desigualdades do elenco. Sabe-se como é difícil encontrar, entre nós, intérpretes para os textos clássicos. Mas o próprio Teatro do Sesi, desse ponto de vista, já havia alcançado um rendimento mais homogêneo em Caprichos do Amor e do Acaso. [...]



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domingo, 14 de abril de 2013

O MILAGRE DE ANNIE SULLIVAN




























Trechos de crítica
O Estado de S. Paulo – por Décio de Almeida Prado – 13/08/1967
O Milagre de Annie Sullivan transborda de bons sentimentos. Imaginem essa história, parece que feita de encomenda para ser contada pelas “Seleções”: Uma menina cega e surda, salva pela dedicação de uma professora incomparável. O milagre de William Gibson foi ter escrito com esse material, assim gotejante de possibilidades patéticas, assim impregnado do mais invencível otimismo norte-americano, uma peça sóbria e dramática, que nos prende e chega até a nos comover.
Não que seja uma obra-prima literária. Os seus aspectos mais exteriores, tudo o que diz respeito à vida da família Keller – o germe da incompreensão entre pai e filho, a relação reticente entre madrasta-enteado, o ciúme do irmão mais velho em relação à irmãzinha em torno da qual gravita a atividade da casa – é psicologia elementar expressa em termos dramáticos também elementares, de acordo com as técnicas determinadas pelos numerosos abecês da dramaturgia existentes no mercado. É a cópia já apagada, feita a carbono, de dezenas de outras peças e filmes similares.
A história de Helen Keller e Annie Sullivan, entretanto, possui um núcleo de realidade, duro, consistente, capaz de resistir a qualquer tentativa de edulcoração que o texto de Wlliam Gibson sabe respeitar. Quando as duas se encontram como aluna e professora, Helen Keller tem sete anos (a interprete brasileira aparenta o dobro da idade sem com isso comprometer o alcance da peça. Mas é como se tivesse muito menos, dada a circunstância de não ouvir e não enxergar nada. É egocêntrica, imperiosa, caprichosa, como uma criança mimada de dois ou três anos, com defeitos de personalidade que não abrandarão com a passagem do tempo: ninguém ousa contrariá-la. O que verdadeiramente a isola do mundo dos adultos, o que a torna irresponsável como um pequeno animal selvagem, não é a cegueira ou a surdez: é a piedade com que os outros a contemplam. A primeira dificuldade de Annie Sullivan é impor-lhe disciplina, submetê-la às regras da vida diária, deixando de considerá-la uma irremediável exceção. Não se trata de vencer a menina pelo amor, pelo carinho, que isto ela já recebe até demais, mas de apelar para a razão, de reintegrá-la na normalidade, de dar objetividade às suas relações humanas, de torná-la suscetível ao castigo como qualquer outra criança. A melhor arma de Annie Sullivan é essa severidade, essa dureza com os outros e consigo mesma, que o orfanato, a sua infância também áspera e cruel, lhe ensinaram. Ela não tem dó de Helen Keller porque nunca teve oportunidade de ter dó de si própria. A pieguice é assim expulsa das relações dessa estranha mestra e essa estranha discípula que formam o núcleo dramático da peça.
Até aqui estamos no terreno da educação das crianças anormais. É interessante, por nos revelar fatos menos conhecidos, por se referir a acontecimentos afastados da nossa experiência habitual porém sem significação mais extensa do que a visita a uma clínica especializada. A parte mais profunda e comovente vem a seguir, é a luta para chegar até a inteligência sem passar pelos órgãos dos sentidos – os olhos e os ouvidos – de maior receptividade intelectual. Annie Sullivan pede a Helen Keller que aprenda a pensar sem o auxílio das palavras, que se eleve até o conceito através de meios de comunicação tão rústicos como o tato. A peça transcende dessa forma os dados individuais, fazendo-nos participar, por assim dizer, da penosa ascensão do homem em direção ao pensamento abstrato. Quando a primeira palavra é finalmente comunicada e recebida (“água”, de tão longa tradição no pensamento humano), temos a impressão de que o triunfo não é de Annie Sullivan e de Helen Keller, mas de todos nós, de toda a humanidade, como se tivéssemos presenciado algo assim como a descoberta do fogo, um desses passos rudimentares e cruciais que deram início à caminhada do homem.
William Gibson atendo-se a este lado documentário contando com a própria realidade para lhe fornecer a substância dramática do texto, acaba por contar uma história que nos toca por remontar ao que possuímos de mais básico e primitivo: a necessidade de comunicação.
Também ascensional, como a peça, é a trajetória do Teatro Popular do Sesi, como atestam, melhor do que qualquer consideração, alguns números impressos no programa: 1.500 espectadores para sua primeira peça, 112.000 para a última. A finalidade do conjunto é dupla: social, ao oferecer espetáculos gratuitos a quem não está em condições de poder pagá-los, e artística, por achar que a plateia operária merece teatro da melhor qualidade. Schiller, Tchekhov, Shakespeare, Musset, serão as próximas estreias, numa política de aproximação entre teatro clássico e teatro popular que parece diretamente inspirada na experiência de Jean Vilar à frente do Teatro nacional Popular.
O crescimento do Teatro Popular do Sesi acompanhou de perto a evolução do seu diretor, Osmar Rodrigues Cruz, o mais modesto e, em muito sentidos, o mais seguro dos nossos encenadores. Sem pretender inovar ou renovar, contentando-se em seguir o que lhe dita o bom senso e uma já longa prática de palco (o que não significa que lhe faltem leitura ou conhecimento teóricos), vai estabelecendo aos poucos um padrão de regularidade capaz de competir sem desvantagem com as nossas melhores companhias profissionais. *
[...].
Os cenários e figurinos de Elizabeth Ribeiro, sem serem brilhantes, funcionam a contento.
*grifo nosso
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)


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