terça-feira, 15 de abril de 2014

CONVERSA DE COXIA


Quando terminamos o livro, nos deparamos com alguns relatos e conversas gravados, extremamente interessantes. Resolvemos reuni-los numa espécie de apêndice intitulado “conversa de coxia”! O título, escolhido por mim uma atriz, provocou risadas do diretor Osmar. Ora, “na coxia não se conversa”, dizia ele, e eu sempre endossava, pois o ambiente não se prestava à conversa e sim à concentração. Porém, naquela meia-luz da coxia, quem nunca trocou sussurros com outra atriz ou ator antes de entrar em cena? (ERC)



MIRIAN MUNIZ
Terminadas as peças, eu tenho que contar umas coisas. Eu estava lendo o livro da Mirian Muniz e ela conta onde nasceu, é uma coincidência incrível, pois ela nasceu no Cambuci,  na rua Baker, que ficava meia travessa de onde eu morava, que era na Lins de Vasconcelos, depois mudei para a Theodureto Souto que é paralela. Como ela é mais moça do que eu, nunca nos encontramos, mas ela frequentou o mesmo Grupo Escolar que eu frequentei e teve a mesma professora que eu tive, D. Guaraciaba, que era uma ótima professora, mas muito severa, muito brava. Achei isso muito interessante. Ela fazia teatrinho com cartolina, cobrava palito de fósforo, como eu fazia um pouco antes na garagem, ela fazia no quintal, imagine quantas vezes a gente deve ter se cruzado depois e nem sabia quem era quem (ou quem se tornaria quem). A mãe dela também a levava para assistir teatro. É, em geral todos nós começamos assim.


TEATRO DO CENTRO ACADÊMICO
Quando eu era estudante e tinha o teatro do Centro Acadêmico, fomos participar do “Hamlet” do Paschoal Carlos Magno, eu não entrei como ator, já tinha tido a experiência de os “Comediantes” que o Paschoal nos convidou, aliás o Miroel tinha convidado, mas valia por estar lá toda noite. Uma noite nós saímos, tinha dado uma boa renda e o pessoal tinha um cachezinho, era todo mundo estudante e nós fomos num restaurante ali na São João que se chamava Avenida, e encontramos o Oscarito, que estava jantando lá. O Oscarito era um cara excepcional, um bom cara, não era esnobe, foi um encontro muito interessante. O Paschoal era crítico no Rio então ele conhecia todo mundo, foi um jantar interessantíssimo.
Antes disso, eu havia conhecido o Ziembinski que era uma pessoa excepcional,  para mim, dos diretores que eu vi e conheci, ele foi o mais interessante de todos. Um homem que gostava da arte dele. Depois ele foi ficando velho, fez televisão, mas ele ensaiava direitinho, ele foi muito bom. O que ele fez com o “Vestido de Noiva” de Nelson Rodrigues fez estourourar a renovação do teatro brasileiro.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

OSMAR 90 ANOS



OSMAR 90 ANOS

No dia 2 de Abril de 2014, Osmar faria 90 anos, se estivesse entre nós. Preferimos “comemorar” seu aniversário de vida, afinal sua memória está viva em todos nós, nesse blog e em todos os pequenos passos que o Instituto dá. Lembrar é trazer da memória algum fato, alguma pessoa, lembrar é comemorar, é reviver.
É sempre disso que tratamos aqui, da memória viva, tão árdua tarefa em nosso país. Com o milagre da Internet o mundo inteiro tem acesso ao longo caminho que percorremos para trazer a vida teatral de Osmar. A primeira etapa desse blog foi cumprida.
Até que consigamos realizar nosso sonho, de colocar as obras raras on line e ter uma sede própria para que possamos colocar todo acervo disponível, estamos aqui em busca de recursos. Numa espera ativa teremos novidades em nosso blog, na aparência e no conteúdo. Nosso modesto presente Osmar Rodrigues Cruz.

Eugenia Rodrigues Cruz 

terça-feira, 1 de abril de 2014

OS AMANTES DE VIORNE

TRECHOS CRÍTICA – FOLHA DE SÃO PAULO – POR FAUSTO FUSER – 27/05/1972
Os amantes obrigatórios
OS AMANTES DE VIORNE é um espetáculo apoiado unicamente na interpretação individual dos atores. Esse depoimento de um passado vivo deve passar ao público pelo estímulo do questionante, nosso representante no drama de um assassinato.
Livrando-se da prima surda-muda, a mulher livra-se de tudo o que a oprimiu durante toda a sua vida de casada e está satisfeita porque agora a casa está abandonada, suja e breve o mato tomará conta do jardim onde passou, sentada, inativa, mais de vinte anos.
Seu marido é pessoa desconhecida para ela, perdida que está na perseguição de fantasmas imaginários e transferindo o melhor de sua existência ao homem que poderia ser seu segundo grande amor: um vagabundo, homem inteiramente livre, de certa forma parecido com aquele que amara loucamente e por quem tentara o suicídio. O marido, feitas as contas, jamais chegou a entrar em sua vida.
Pequeno-burguês em busca de seu pequeno conforto, ele por sua vez, jamais sequer tentou conhecer a esposa. O interesse sexual do início do matrimônio transferiu-se para encontros fortuitos com prostitutas, mas a lembrança do grande amor que sua mulher tivera por outro ainda o perturba.
Não há qualquer busca policial no espetáculo: quando ele se inicia, a mulher já está presa e já confessou o crime. Aliás, foi ela mesma que, muito simplesmente, se denunciou, apesar de estar ainda fora de suspeita. Ela não declara poucas coisas: porque matou e onde é que depositou a cabeça do cadáver. O corpo da gorda e saudável surda-muda fora cortado em pequenos pedaços e distribuído em muitos trens que seguiam para regiões e países diferentes. Para completar a reconstituição falta apenas a cabeça, mas onde está a cabeça a criminosa insiste em ocultar.
É a única maneira de despertar o interesse por seu passado, por seus pensamentos. Se ela contar onde está a cabeça, ninguém mais a ouvirá.
Um homem sentado à nossa frente conta durante todo o primeiro ato, sua vida, declara suas ambições, confessa seus erros. No segundo ato é a mulher que ocupa a mesma cadeira. Nenhum deles sequer tenta se levantar e é por isso que, no final da peça, quando a mulher vem apressada até a frente do palco para chamar o interrogador, muita força intencional fica registrada no espectador e se esboça uma solução para o mistério. Mas as luzes já estão se apagando.
Osmar Rodrigues Cruz trabalhou seus atores dentro de perspectivas psicológicas e nesse sentido seu resultado é surpreendente.

(...) OS AMANTES DE VIORNE, pelo desempenho perfeito de dois atores de altíssimo nível e uma direção inteligente, por um texto apaixonante, é espetáculo obrigatório, embora não faça nenhuma concessão para agradar através de atalhos das facilidades conhecidas. 
(in Osmar Rodrigues Cruz - Uma vida no teatro. Hucitec 2001)

Sérgio Viotti, Nathalia Timberg e Geraldo Del Rey. Fotógrafo anônimo.


Quando as máquinas param de Plínio Marcos
REFERÊNCIAS SOBRE A PEÇA: Reportagem de Itamar Cunha
(...) Sua problemática gira em torno de um casal onde o marido desempregado não encontra trabalho. A falta de dinheiro, o futebol e as novelas fazem com que o casal vá vivendo, ou melhor, sobrevivendo em total alienação diante dos fatos que o tornou assim. Envolvidos pelo sistema, os dois são vítimas sem alcançar a noção do verdadeiro motivo que cerca toda a realidade concreta onde estão colocados. Nesse círculo surgem outros problemas que fazem com que os personagens se conscientizem do todo social em que vivem, e a peça, que até então não passava de uma comédia, traz em seu final o gosto amargo de uma denúncia.(...)
(in Osmar Rodrigues Cruz - Uma vida no teatro. Hucitec 2001)

sábado, 22 de março de 2014

PEQUENOS ASSASSINATOS

REFERÊNCIAS SOBRE A PEÇA – 16/02/1972
“Um grito de alerta”
“Pequenos Assassinatos” é, sem dúvida, um grito de alerta. Jules Feiffer não pretendeu, com esta peça, dar uma solução ao problema da violência, entretanto, nenhum autor norte americano se aprofundou tanto nos paradoxos da classe média americana, no que se refere ao assunto.
A peça é uma sátira, não porque Feiffer encare o problema como fato humorístico, o que aliás não é, mas porque ele usa a sátira para que o público possa melhor criticar os acontecimentos. O riso é a melhor forma de participação. Como ele próprio diz: “a classe média americana está  enlouquecendo tradicionalmente, pois não consegue sair do labirinto da violência.” Por isso, ele a apresenta através de uma família tradicional e pacífica, que, ao abrir-se o pano, já está, sem perceber, sob a pressão da máquina da violência. Com ela poderemos ver o que irá acontecer se todos, em todos os lugares, não tomarem consciência da necessidade de que a razão e o bom senso dominem o mundo.
A violência, um mal que destrói a sociedade, não nasce com o homem, e não existe por si, a não ser quando a praticamos sob múltiplas maneiras. A violência é fenômeno social, como é a justiça, a política, a economia e não é muito difícil falar nela numa época que conheceu Auschwitz, Hiroshima, Biafra e o Vietnann.
O fato de vivermos ambientados num clima cotidiano de violência, levou-nos ao absurdo de que as perspectivas de uma guerra atômica não nos horrorizam mais.
A história não está regida por deuses ou pela fatalidade, ela, para nosso mal ou nosso bem, é escrita pela nossa própria ação, quer como indivíduos quer como coletividade. Se a verdade tem demonstrado que a violência, debaixo de suas várias formas, não pode ser eliminada da existência social, total ou parcialmente, a única atitude racional consiste em compreender as circunstâncias pelas quais ela se produz e fazermos todos os esforços que estejam ao nosso alcance, para dominá-la. Caso contrário vai acontecer o mesmo que aos seus personagens da peça, na visão final de Feiffer, onde ele nos dá a imagem da agressão já instalada de ambos os lados e o resultado disso é tão nítido que podemos chegar a seguinte conclusão: a violência está destruindo a sociedade, e o que faltou, ao mundo contemporâneo e industrializado, foi um pouco da visão trágica da existência para ter evitado essa explosão violenta que Feiffer retrata tão fielmente.
A família desta peça enlouquece porque não tem condições de sobrevivência. Até determinado instante ela tenta se manter pacífica, resiste a ponto de tornar o seu “habitat” numa fortaleza. Motivada por mais uma série de fatores agressivos perde a razão  e entra no jogo como todos que a cercam, felizes e satisfeitos, alienados.
Os personagens são todos vítimas de uma maneira ou de outra: são, violentamente, envolvidos pelo sistema desumano da vida urbana. A visão final não é uma lição, uma vingança, ou um revide. É sim, um alerta. Não podemos terminar nos destruindo uns aos outros como nos filmes “FAR WEST”. O que é preciso, isso sim, é dar um basta, colocar o raciocínio para funcionar e procurar a gênese da violência, para não sermos alcançados tal como o final da peça. Agride-se porque a moda é agredir, isso é a conclusão da peça de Jules Feiffer. A comédia diverte, mas os tiros incomodam. Indiscutivelmente a peça foi escrita procurando demonstrar que há urgência de soluções para que não haja o caos, e que a vida moderna é uma luta constante pela sobrevivência, o que é tão bem retratado nesta fala da peça: “Eu divido meu dia em etapas. Cem mil etapas. Me levanto de manhã e penso, OK, nenhum atirador furtivo conseguiu me pegar antes do café. Vamos ver se eu consigo dar minha caminhada matinal sem ser castrado. OK, terminei minha caminhada, vamos ver se consigo chegar em casa sem que um tijolo, jogado do último andar do edifício, caia na minha cabeça. OK, estou seguro no hall, vamos ver se eu consigo subir no elevador sem me enfiarem uma faca no lombo. OK, consegui chegar no meu andar, vamos ver agora se, ao abrir a porta, não encontro assaltantes no corredor, OK, já estou no corredor, vamos ver agora se abro a porta e não encontro toda a família esquartejada no living. Cidade amaldiçoada!”
JULES FEIFFER É TALVEZ UM DOS MAIS CONHECIDOS HUMORISTAS AMERICANOS, E SEUS DESENHOS SÃO CONHECIDOS EM TODO MUNDO. Escreveu sua primeira novela “Harry, the rat with women” em 1963. Depois escreveu três peças de teatro: “God Bless“, “The White House Murder Case” e Little Murders”(Pequenos Assassinatos) e seu último trabalho foi roteiro original do filme “Carnal Knowledge” com Mike Nichols, grande sucesso nos Estados Unidos e Europa e que virá ao Brasil com o título de “Ânsia de Amar”. Alguém perguntou a Feiffer porquê ele tinha se dedicado também a escrever peças teatrais e roteiros cinematográficos, já que fazia tanto sucesso com seus cartoons, disse ele – “Primeiro, os cartoons tinham um público relativamente restrito, e segundo os cartoons começaram a ser irrestritamente aceitos pelo grande público, que pensei que estava sendo mal entendido, e então eu me dediquei a formas nas quais poderia ser melhor compreendido, diminuindo assim meu público. Não me peçam para explicar isto.” (ORC)

DECLARAÇÃO (em entrevista) ÚLTIMA HORA - 11/02/1972 
“O filme “Little Murders” exibido recentemente em São Paulo mostra a violência reinante de nossa época, onde os personagens são lineares. Na peça eu pretendo colocar mais humor negro, mais sarcasmo, mostrar mais o problema da violência. Quero deixar bem claro, ao contrário do filme, que a família representa uma classe social, a média, que está enlouquecendo aos poucos, porque é a única que não se manifesta. Sua única preocupação é a sobrevivência. Eu não quero a mensagem olho por olho, dente por dente, mas sim que a peça seja um grito de alerta. O problema é todo mundo tomar consciência do que está acontecendo a nossa volta ou então vamos acabar mesmo, um atirando no outro, para matar. Estou confiante na montagem por se tratar de um problema atualíssimo.”

ENTREVISTA - ÚLTIMA HORA - COLUNA RONDA - A OSWALDO MENDES - 24/03/1972 
“A VIOLÊNCIA ESTÁ AÍ “
Muita gente se diverte com as manchetes sensacionalistas dos jornais “especializados” em crimes, lê com gosto as revistas do gênero, procuram filmes onde a violência impera. E tudo isso lhe parece coisa do outro planeta. Mas, segundo Osmar Rodrigues Cruz, diretor de Pequenos Assassinatos, esse é o perigo, a nossa convivência com a violência, e é esse o foco atingido pela peça de Jules Feiffer: - “Pequenos Assassinatos” mostra o perigo de caminharmos para a violência, individual e coletiva, em tudo. Veja a televisão: de dez programas, seis são filmes que têm mortes, crimes, assassinatos. Para se mostrar que o crime não compensa, usa-se de tantos recursos que acabam tornando o crime simpático. E o pior de tudo isso, o homem se acostumar à violência.
Há quem goste de ficar discutindo se a violência é instintiva no homem ou é fruto do meio onde se vive. Para Osmar a discussão está encerrada, porque ele é dos que definem a violência como resultado de um contexto social, e isso tentará deixar claro no seu espetáculo: - É difícil falar desse problema. Mas se a violência não tem cura, como muitos apregoam, haverá pelo menos um meio de se eliminar um pouco daquilo que a gente vê por aí. Eu procurei não fazer um espetáculo óbvio, querendo tornar claras, coisas que o texto já explicita bem. É um espetáculo realista, apesar do autor usar uma série de elementos que dão a sensação do absurdo.
Pequenos Assassinatos é o retrato da vida de uma família pacífica, respeitadora das instituições, mas que é levada à violência, que se torna um esporte. Depois da morte da filha, a família entra num processo neurótico ainda maior, fecha-se em casa colocando trancas nas portas (para Osmar Rodrigues Cruz, esta é a visão do futuro, formulada pelo autor): - Faço sentir no espetáculo, que a violência vem sempre de fora. Todos na peça são pacíficos e se agridem uns aos outros. A apatia do genro, por exemplo, é também uma forma de violência, e a maior que conheço: a violência do sujeito que se aliena, a violência da não participação.
Osmar Rodrigues Cruz fala ainda do próximo cartaz do Teatro Oficina: - As personagens de “Pequenos Assassinatos” são traçadas dentro de um clima de humor crítico que poucas vezes se vê no teatro. O filme que se fez, baseado na peça e que muita gente assistiu, não era suficientemente engraçado para despertar o espírito crítico do espectador. Por isso acredito que o conteúdo crítico da peça é maior que o do filme.

ENTREVISTA - FOLHA DE SÃO PAULO - A IBANEZ FILHO - 29/03/1972  
Quando alguém nos conta que foi assaltado, roubado, deixado nu na rua, nós não nos admiramos mais. Freqüentemente apenas comentamos de que a cidade à noite, está muito perigosa. Nem mesmo a possibilidade de uma guerra atômica consegue nos assustar. Nós a discutimos como se fosse apenas uma decisão entre outras. Estamos nos acostumando com a violência sem tomarmos consciência do absurdo da situação.

PEQUENOS ASSASSINATOS é a peça mais atual dos últimos tempos. O problema da violência é extremamente contemporâneo e apesar do Feiffer declarar que a peça trata da onda de assassinatos que assolou os Estados Unidos depois da morte de Kennedy e da guerra do Vietnam mesmo para uma pessoa que não conheça estes fatos, mas vive em uma cidade, a peça tem importância. Provavelmente aqueles acontecimentos inspiraram a peça mas ela não faz nenhuma citação explícita deles. Os personagens encaram a violência da forma mais simples possível, embora cada um tenha uma reação diferente. Isso acontece porque o Feiffer escreveu cada um representando uma atitude da burguesia. A filha é pragmática (levanta de manhã com um sorriso que procura manter durante todo o dia apesar de enfrentar situações terríveis); o fotógrafo é niilista e no decorrer da peça se transforma em anarquista que, veja bem, não é político mas uma postura perante a vida. O juiz é o protótipo do conservador enquanto que a mãe representa o sistema matriarcal norte-americano (dirige a casa, faz compras, organiza tudo, etc.) O pai, além de pragmatista, é temeroso e respeitador das instituições. E o reverendo sintetiza todas as correntes existencialistas dos Estados Unidos. O filho é totalmente desajustado como certa parte da juventude classe-média dos EUA. Todos os personagens são cruéis, como é cruel o próprio Feiffer. Por exemplo, o fotógrafo destrói a instituição casamento com sua atitude e diz que a cerimônia foi bonita mas um pouco adocicada. O juiz por sua vez, quando faz a apologia de Deus, mostra um Deus terrível, castigador, que atormentava sua mãe e na verdade seu objetivo alcança um final totalmente diverso: se Deus é tão terrível, terá sentido pedir a sua ajuda?
(in Osmar Rodrigues Cruz - Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)




sexta-feira, 7 de março de 2014

É HOJE


A FALECIDA SENHORA SUA MÃE
"Eu fiz também uma peça no circo da Natália Timberg, mais ou menos por essa época, eu não me lembro a data precisa e nem possuo nenhum registro em jornal, crítica ou programa da peça. O que eu me lembro é que a Natália e o marido fizeram um circo e queriam um espetáculo, um circo bonito, conseguiram patrocínio. Eu estava fazendo “Noites Brancas”, viajando com o Jovelti Arcangelo e a Arlete Montenegro, então convidei os dois para fazer a “A Falecida Senhora Sua Mãe” de George Feydau, uma peça muito engraçada, que não precisava pagar o “avaloir”, então montamos lá no circo, mas a montagem não saiu boa, pois ensaiamos pouco, a peça exigia pessoal de comédia mesmo, e não foi ninguém, também era longe o circo, ficava na periferia. A ideia do circo era para popularizar o teatro, tinha um palco, era bem instalado, mas precisava de dinheiro e não tinha. Ia o pessoal da vizinhança e era uma “baixaria” danada na plateia. Depois que a peça saiu, não soube mais o que aconteceu com o circo." (ORC)
 
 
REFERÊNCIAS SOBRE A PEÇA: É HOJE 
Uma peça para o verão
“É Hoje!...” focaliza o problema da timidez e do relacionamento das pessoas que vivem na grande metrópole. Imagine-se um rapaz tímido, difícil de se comunicar, uma moça estranha, a qual nem o nome se sabe, encontram-se por acaso. Uma vez colocados um diante do outro surge um novo elemento, o cachorrinho.
O autor, ao descrever os personagens coloca como fator fundamental a sua timidez e seu descontrole na maneira de se comportar, nas atitudes e até na voz. Acrescenta ele “percebe-se que, assim mesmo, ele tem muita chance de ser bem sucedido”.
Da mulher o autor insiste em destacar, além da sua solidão, seu medo: “medo de tudo, da cidade, dos outros, da vida...”.
Esses elementos dos caracteres dos personagens foram usados pelos atores como fatores essenciais para conseguirem criar dois personagens de carne e osso, que vivem, sofrem e amam. Procurou-se dar profundidade aos personagens, para colocá-los, em seguida, numa série de situações confusas e embaraçosas, que provocam o riso.
Desta maneira a peça é tratada com realismo e até mesmo intimismo para despertar o interesse do espectador. Se o cômico surgir, melhor, mas neste caso será naturalmente e não forçado, e surgirá da situação criada pelo autor, não será nunca sobreposta, nem forjada através de acréscimos, mais ou menos gratuitos, ao texto que o autor propõe.
A comédia leve americana é sempre um pedaço da vida, apoiada em caracteres que por serem convencionais não deixam nunca de serem reais. Se eles vivem segundo moldes criados por uma sociedade em que vivem e contra a qual são incapazes de reagirem, mesmo sendo esmagados por ela, é porque grande parte da nossa sociedade vive, realmente, segundo critérios estabelecidos e aceitos cegamente. Da revolta tímida, ou da falta de revolta pode surgir a comédia leve. (ORC)
(in Osmar Rodrigues Cruz - Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)


                                                                Na foto Lilian Lemmertz e Luís Gustavo. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Putz no Rio de Janeiro


TRECHO CRÍTICA – TRIBUNA DA IMPRENSA (RJ) – POR FLÁVIO MARINHO – 09/03/1976
Um Putz nem tão absurdo
Segundo Luigi Pirandello – autor sugerido pela leitura de Putz de Murray Schisgal – “não pode haver nenhuma verdade, já que a verdade varia de acordo com o indivíduo e as circunstâncias; não pode haver comunicação, pois as palavras enunciam o que parece ser e não o que realmente é; não pode haver sanidade pois sanidade exige estabilidade, o que não se encontra na condição humana”. Partindo desta proposta básica, parece estar a chave da maioria das respostas às questões apresentadas pelo atual cartaz da Maison de France. Pois é dentro desta perspectiva de mensagens não-definitivas, limitadas pela teoria da relatividade, que o autor monta seu texto. Onde aborda, entre outros temas, o amor, casamento, autopiedade, desespero, suicídio ou homossexualismo. Para isso, concedeu-lhe um tratamento de algum parentesco com o teatro do Absurdo que, no entanto, tem mais a ver com uma comédia humanística de nonsense à la Irmãos Marx. Dentro desta ótica, o amor, por exemplo, não chega a ser definido por Schisgal; ele prefere denunciar o mau uso e o desgaste de tal sentimento nas sociedades tecnológicas que o utilizam como desculpa para insinceridade, desejo físico ou chantagem emocional. Para Schisgal, o importante é mostrar a visão destorcida do amor – vendida em livros ou filmes baratos – que o transformou numa comodidade em vez de uma verdadeira emoção. Dessa forma, o texto se desenvolve por meio de três únicos personagens que simplesmente vão jogando suas idéias, sem se preocupar em coordená-las – e talvez por isso os três dêem a impressão de beirar a insanidade. Mas apenas a impressão, já que, relembrando Pirandello, “não pode haver sanidade, pois sanidade exige estabilidade, o que não se encontra na condição humana”. O maior mérito de Schisgal talvez esteja no fato de que mesmo abordando um tema dramático como a loucura contemporânea enlatada pela sociedade de consumo, Putz consegue se realizar como uma divertida comédia. Nela, Schisgal ironiza os lugares comuns provocados pelo desgaste do amor, goza o self made man americano, o feminismo, além das patéticas situações criadas por ele mesmo. O resultado embora algo pretensioso, senão chega a ser hilariante, pelo menos não nos conduz ao universo dos bocejos.
A competente direção de Osmar Rodrigues Cruz aproveitou o potencial humorístico dos lugares-comuns do texto e partiu para farsa rasgada. Acertou no alvo quanto ao ritmo, no tom exasperado e na limpeza  de desnecessários toques absurdos.(...)
 
 
 
(in Osmar Rodrigues Cruz - Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

PUTZ


Eva , Tatá e Juca falam sobre Osmar, o diretor  (Programa da peça)
Osmar é o típico diretor “Sumerhill” ou seja, o diretor da liberdade sem medo. Ele nos dá a impressão de que, finalmente, pela primeira vez em nossa carreira teatral, temos a possibilidade de fazer artisticamente aquilo que muito bem entendemos. A sua presença carinhosa e paternal nunca interferiu nas verdadeiras batalhas, atritos e xingamentos que constantemente desencadeamos sobre esta ponte (aliás não entendemos como ela ainda se mantém em pé). É provável que tais conflitos tenham provocado efeitos maléficos na sua constituição psico-física, já tão trucidada por persistente hipocondria. Senão vejamos: no início dos ensaios ele se ministrava apenas 4 Cibalenas, 2 Alka-Seltzers, 3 Engovs, meio tubo de descongestionante nasal, uma ampola de Metiocolin com B-12 (aplicação endovenosa), e um comprimido de Arovit por dia. Agora na véspera da estreia, o que ele consumia de medicamentos, não consta nos manuais farmacológicos da maior drogaria da cidade. Estamos desconfiados, de que agravamos um pouco o seu estado de saúde. Como dissemos, a gente tinha a impressão de que estava fazendo o que muito bem entendia. Acontece, porém, que no exato momento em que redigimos estas despretensiosas linhas, nos assaltou o terrível pressentimento de que, pérfida e maquiavelicamente, o homem nos levou a fazer aquilo que ele muito bem entendeu! Conclusão: Somos três crianças conduzidas a esta Ponte, totalmente desamparadas. E queremos deixar bem claro, que, tudo aquilo que vier a ocorrer sobre o palco esta noite, é de inteira e total responsabilidade de Sr. Osmar Rodrigues Cruz. E nesta nossa ciranda, ele nos transmitiu essencialmente uma coisa. Como foi bom nós quatro nos encontrarmos. PUTZ!!!
 
TRECHOS CRÍTICA - JORNAL DA TARDE – POR SÁBATO MAGALDI – 21/01/1971
Putz, novo cartaz do Teatro Aliança Francesa, preenche uma função definida e sem dúvida importante: procura atrair de novo o público arredio, oferecendo-lhe um entretenimento com as necessárias garantias de agrado. Já que não há condições para romper a estrutura que regula atualmente a atividade cênica, esse é um caminho de bom senso acomodado e de eficaz luta pela sobrevivência.
(...) Murray Schisgal, o autor, havia sido mais ambicioso em dois textos anteriores, Os Dactilógrafos e O Tigre. Embora sem acrescentarem  nada ao processo da vanguarda, esses atos únicos assimilam a experiência que vai das sínteses futuristas italianas a Ionesco, encaixando-a na realidade norte-americana. O substrato é a indefectível incomunicabilidade e o desejo de comunicação, num mundo que aliena o homem. Embora estejamos cansados de peças com duas personagens, essas obras, reunidas, num espetáculo, poderiam propiciar um rendimento artístico apreciável.
Putz (Luv, no original) parece uma demissão das propostas anteriores. Schisgal barateia a vanguarda, suaviza o que provocaria atrito. Com as concessões sucessivas na trama, passa-se do absurdo ao inverossímil. E a mecânica do maldito “play-writing”, pelo forçado e pela repetição dos recursos, acaba por cansar. Dentro de todo o artificialismo da história, tranquiliza-se a plateia: o amor do primeiro matrimônio é o verdadeiro, as outras inclinações esvaziam-se no efêmero.
Uma virtude da encenação de Osmar Rodrigues Cruz está em não mistificar a peça, fazendo o que ela é. Outra se refere ao resultado que obtém do elenco. A montagem, em relação aos seus trabalhos anteriores, se mostra mais flexível, aberta, movimentando os atores com liberdade.
(...) Um bem concebido cenário de Túlio Costa ambienta a ação, numa prova de que esse gênero de peça atinge o público pelo cuidado em todos os elementos do espetáculo.