sexta-feira, 20 de junho de 2014

Desempenho definido


Um dicionário estabelece que representar é “mover a ação”; que representar um papel é “manter o papel de um dos personagens numa peça teatral; por isso, simular, fingir”; e o personagem é “aquilo que uma pessoa ou coisa realmente é”.
Muito nestas definições é valioso, porém algo é desprezado. Realmente, o desempenho denota ação, e o personagem a realidade essencial de um indivíduo. Mas, o desempenho não é simular ou fingir. Esta noção falsa obscurece qualquer verdadeira compreensão da teoria e da prática da Arte. Além de simular ou fingir, o desempenho é viver em termos do teatro. O teatro concebe a vida em relação a seus próprios objetivos, de acordo com suas e próprias leis imutáveis. Estas leis são que um personagem será ouvido, visto e sentido em termos que a plateia possa apreciar o comportamento dele. Apesar dessas leis serem baseadas fundamentalmente nas leis naturais, são convenções criadas pela verdadeira natureza do teatro médio.
Representar, portanto, pode ser definido como aquele processo em que o ator concebe o personagem e revela-o perante a plateia. Concepção e revelação: - eis que toda a arte pode se resumir nestas duas palavras.
Não há menção como o ator se orientará ao longo da difícil estrada da criação do personagem? Naturalmente que sim, pois há tantos métodos de criação do personagem quantos atores, diretores, produtores e teatrólogos existem. Esta tentativa é bem uma outra opinião, como nenhuma análise por escrito pode ajudar a esclarecer totalmente uma arte ao mesmo tempo viva e efêmera.
Em primeiro lugar, o ator sincero desejará compreender definitivamente quais são os seus problemas e, em segundo lugar, trabalhará para solucioná-los. Aliás, o desempenho será quando muito acidental, acertado ou falho, e levará a voos incertos de inspiração. À pergunta: Como pode o ator ser personagem? A resposta é que ele não pode, pois se, por milagre, puder sê-lo, será um maníaco, e o teatro não é lugar para maníacos. Mas esperem! É o personagem de carne e sangue ou é imaginário? Não é um fantasma vivo num mundo de visão? E não julga habitar o corpo de carne e sangue de um ser humano real, de modo a viver no teatro?
Esta obliquidade é animadora. Como pode o ator tornar-se personagem em termos teatrais? Em primeiro lugar, quais são os elementos do teatro? O texto, o ator, a cena. Provavelmente a lei mais fundamental de qualquer arte, e esta é em especial a verdadeira para com a arte teatral, é aceitar, jamais rejeitar a matéria da qual a criação final tem de ser concebida. Não como a maioria dos atores, em que o desempenho requer seja a sua própria matéria. Concebe sua criação com ele próprio, como um meio. Em seguida, como identificar tudo do ator, com esse ser imaginário que é o personagem? O ator que tem ainda de preparar-se tecnicamente, não estará preparado para tal identificação. Antes, pode conhecer um personagem que deve conhecer-se a si próprio. Consequentemente, ele fará o seu corpo forte e sadio, sua voz clara e ressonante e a sua fala incisiva e articulada. E ele fá-los-á corresponder perfeitamente ao seu espírito, à sua imaginação e aos seus sentimentos.* Somente após esta fase de auto conhecimento ou, pelo menos, até que esta parte do seu preparo esteja bem adiantada, é que o ator está preparado para a fase do seu personagem conhecido.
*(nota do autor) Estou reservando a natureza desta técnica preliminar e o preparo criador para outra obra.

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segunda-feira, 9 de junho de 2014

A EVOLUÇÃO DO PERSONAGEM


CONSELHO DE HAMLET AOS ATORES

“Rogo-lhes que digam o texto como lhes mostrarei, com língua fácil: mas se encherem com ele a boca, à laia de certos atores, tanto se me dará que o pregoeiro público brade as minhas frases. Nem gesticulem assim, serrando o ar com a mão, mas sejam moderados: pois na própria torrente, tempestade e – é lícito que o diga – torvelinho de paixão, devem conquistar e adquirir um auto controle que lhes imponha medida. Oh, fere-me até a alma ouvir um ruidoso  ator dilacerar uma paixão até a esfrangalhar, em verdadeiros trapos, e fender os ouvidos dos espectadores da plateia, que na maioria são incapazes de apreciar algo diferente de incompreensíveis pantomimas e barulheira. Eu gostaria de que tal ator fosse açoitado por exagerar o papel de Termagante; expulsem o Herodes: rogo-lhes que o anulem.
Não sejam tão pouco incaracterísticos, mas deixem que o discernimento seja o preceptor: ajustem o gesto à palavra, esta àquele, com o cuidado especial de não ultrapassarem a natural moderação: pois o exagero foge ao propósito do teatro. O objetivo deste, a princípio e agora, foi e é oferecer como que um espelho à natureza; mostrar à virtude suas próprias características, ao escárnio a sua própria feição, e à sociedade da época a sua verdadeira estrutura e realidade... Ora, o excesso ou a carência, embora façam rir o imbecil, desgostam o circunspecto; e a opinião deste deve pesar mais, na estima de vocês, do que toda uma assistência de néscios. Ora, existem atores que eu vi representarem – e aos quais ouvi muitos erguerem excelsos louvores, não falando impiamente – que nem possuíam o acento de cristãos, nem se portavam como algum cristão, pagão ou homem; entonavam-se e mugiam tanto, que – pus-me a pensar – os homens haviam sido feitos, e mal, por jornaleiros da natureza, tão abominavelmente eles imitavam a humanidade.”
HAMLET, 3° ato, cena II

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segunda-feira, 2 de junho de 2014

NOVA FASE


Quando idealizei o Instituto, sempre desejei que o nosso foco fosse a educação. Afinal, a grande obra de Osmar foi a formação de público para o teatro. Nós gostaríamos de aprofundar essa ideia, continuá-la, talvez de outra forma, focando mais o teatro como um meio.

Como ainda não possuímos sede própria, cursos e palestras, oficinas e leituras somente são feitas quando nos oferecem um local. Então, recordei-me de todos os textos e anotações de Osmar dos cursos ministrados por ele. Como sempre, encontrei muita coisa relevante e instigante, textos teóricos e práticos que muitas vezes foram utilizados inclusive por mim em cursos e oficinas. 

Assim sendo, o Instituto publicará os textos inéditos na cronologia estabelecida por ele, com comentários atuais.

Esperamos que a leitura e o estudo sirvam a todos.

domingo, 25 de maio de 2014

O TEATRO HOJE



Outro dia eu li numa revista do Aderbal Freire Filho, um artigo do Streller e ele fala justamente do caminho que o teatro tomou. Acho que o que se tenta fazer do teatro, ou seja, cada um fazer diferente do outro, ser mais original que o outro, faz com que o velho texto desapareça. O Streller fala disso e eu concordo, as pessoas se desligaram do texto, cortam, mudam a intenção do autor, tudo para ser original e a crítica apoia, também não entendem de teatro, tem que apoiar mesmo. No Brasil em geral, o respeito ao texto que antes era fundamental no teatro, deixou de existir. Parece que é um teatro improvisado, mas eles ensaiam, trabalham para conseguir as coisas deles, você lê entrevistas, mas é um negócio tão confuso, tão atrapalhado, não se entende. É um pouco de que em terra de cego, quem tem um olho é rei, então eles não definem o caminho que estão seguindo, ou o estilo, porque não conhecem nem estilo. No Brasil não há tradição de teatro, é esse o problema. Por isso é que o teatro popular é importante, para acostumar o público ao teatro. O Jean Villar falava isso, fazer as pessoas gostarem de teatro. O teatro não é uma coisa nova, ele vem da Grécia, o teatro grego era uma coisa que parava a cidade para assistir os espetáculos, como parava tudo também para as Olimpíadas. Eles tinham tradição de teatro, o teatro tinha trinta mil lugares, passavam o dia assistindo, porque de noite não havia luz para o espetáculo. E isso foi se perdendo, porque todo mundo quer ser original e com isso acaba saindo um monte de besteira. Acho complicado. Por exemplo o pessoal achava ou acha, que teatro popular é aquele feito por gente trabalhadora, com problema de trabalhador, de reivindicação política e social, acho que pode ter um pouco disso, só não pode ser feito por gente inexperiente, porque aí o público não gosta. Eu fiz teatro amador, a gente sabe, vai a família assistir, os amigos e cada coisa que acontece, eles dão risada. O teatro popular, como a gente fez no TPS, tinha um certo sentido de educar o público, tanto que criou um público que frequentava todas as peças, eles iam assistir todas. E tem gente que só foi ao teatro lá. O teatro popular no Brasil não existe. O que sobrou do TPS ainda resiste um pouco, porque fizeram peças quase todas meio populares, que atingem o público, uma ou outra peça com tema que não interessava, ou mal feita, que não atingiu ao público. Quando a peça é brasileira ou um clássico até consegue atingir, a diferença é que todo mundo quer tentar fazer teatro popular, na verdade o Plínio Marcos é que tem razão “teatro popular é aquele que dá certo”. É verdade, deu certo, é popular. Se o Juca faz uma peça com sucesso que fica dois anos em cartaz, é popular, mas não no sentido de atingir uma camada mais pobre da população. São Paulo e Rio são cidades de muita gente e com dinheiro para pagar um ingresso, a classe média alta pode, porque a classe média baixa já não tem mais condições de ir ao teatro. O governo que patrocina espetáculos cujos ingressos são pagos, que eu acho ótimo porque dá emprego para a classe teatral, é que deveria atingir a camada social mais desprovida, o que não tem ocorrido. Eles fazem uma temporada em que os ingressos são vendidos mais baratos em Kombis, coisas assim durante uma temporada, que também não resolvem o problema. Até ajuda a quem pode pagar, esperar a promoção, assim mesmo o preço dos ingressos não são muito baratos, nem nessa ocasião. O Governo é que tem condições de fazer um teatro popular. O teatro popular perdeu a vez, a falta de dinheiro, a pobreza, se não fizer como na França, o Jean Villar por exemplo, onde o Estado financiava o TNP e não só o TNP, ele financiava várias companhias, onde se podia fazer espetáculos a preço muito baixo; o Governo não financiava tudo, digamos que o teatro normal cobrava 30 Francos, ele cobrava 10 Francos, sendo que o poder aquisitivo do francês é muito mais alto, o salário mínimo lá é oito, dez vezes maior que o nosso. No Brasil os governos não se interessam. Eu trabalhei na CET e tentei fazer uma companhia do Estado, na época era o Abreu Sodré o governador e ele queria, tanto que ele chamou a Comissão para falar sobre isso, mas não de caráter popular não, ele queria uma companhia tipo Comedie Française, ele tinha essa mania, o Décio de Almeida Prado foi contra, ele era o Presidente da Comissão nessa época. Ele achava que podia ser paternalista. Eu e alguns mais nos batemos por isso, mas a maioria composta de empresários era contra, não interessava, o interesse deles era que o Estado distribuísse o dinheiro entre as companhias. E a companhia do Estado não saiu e podia ser uma companhia nos moldes do Sesi, sem cobrar ingressos que é a política mantida até agora, que servisse a todos, ricos e pobres. Num ponto o Décio tinha razão, podia virar cabide de emprego. Na França o Jean Villar que era um homem de esquerda tinha de lidar com o ministro da cultura, que era de direita, porém ele só se indispôs com o Jean Villar, quando ele fez um dos personagens que era do governo. Aqui se o cara é de esquerda e o governo é de direita não dá. A esquerda no Brasil precisa viver, então não dá, transigem, as eleições passadas se viu. O que tem acontecido no Brasil é que as pessoas mudam de ideologia e a ideologia é como sangue que corre no seu corpo, é sua cabeça, não pode mudar. Não é o caso de fazer discurso político, mesmo porque as forças revolucionárias tiram do poder quem faz esse tipo de discurso, como é o caso do Jânio Quadros, ele condecorou o Che Guevara, depois mudou. O ministro atual da reforma agrária é socialista ele é do PPS, o PCB antigo, ele falou outro dia no Opinião Nacional - “eu estou de licença do partido”, ele tirou licença do partido porque está fazendo parte de um governo reacionário, Ah! mas o FHC não é reacionário. Porra, não é reacionário, ele é aliado do PFL, que é a direita brasileira! Mas o ministro falou que continua socialista. E assim é no teatro, que é muito pior, porque as pessoas em geral não têm comprometimento nenhum com ideologia nenhuma, com convicção nenhuma, com ética nenhuma. Às vezes tem individualmente, mas também é da boca para fora. Porque no tempo da ditadura a classe teatral se reunia para fazer passeata, para fazer muitas coisas. A própria Cacilda Becker, que nunca entendeu de política, que nunca foi política, de repente participava, porque tinham pessoas que puxavam por ela, faziam-na participar. Ela era atriz, não tinha ideologia política definida, foi Presidente da CET, mas ela seguia o que as pessoas mais influentes dentro da Comissão cantavam para ela, não que ela fosse uma idiota, uma boba, não era não, ela era muito viva, tomava mais comprimidos do que eu. Ela era uma bandeira dentro do teatro, só que as pessoas usavam essa bandeira em seus interesses. Eu sempre me dei muito bem com ela. Mas ela viveu numa época muito turbulenta e como nessa época a esquerda estava esfacelada, não tomou conta, porque se a esquerda tomasse conta dela, acabava a CET, porque o Castelano era do partido do Franco Montoro, era Secretário de Governo nessa época, depois entrou o Orlando Zancaner que colocou o Jairo Arco e Flexa, eu fui embora, porque éramos contra as idéias do Zancaner que era um reacionário de primeira categoria. Mas teatro popular, ninguém se interessa, eu sei porque tentei fazer no Sesi alguma coisa, mas agora que reformaram lá, podia-se fazer muita coisa, mas não interessa a eles. O Jean Villar fazia tudo, até pic-nic, baile, ele tinha os amigos do teatro popular, que eu quis fazer no Sesi como era na época dos italianos que faziam peças, bailes, quermesses, era a Sociedade Lítero Musical, ele fazia convescotes. A política cultural do Sesc é muito superior a do Sesi. Tudo isso depende de quem entra para tomar conta para ser presidente, a mentalidade do industrial é diferente da mentalidade do comerciário, a cabeça do industrial é mais arejada do que a do comerciante, mas é também mais reacionária. Parece que a política da Federação das Indústrias com a entrada desse rapaz mudou um pouco. Ele é mais arejado e parece sério, é de família de gente séria. Para por o nome TEATRO POPULAR DO SESI já foi uma luta... (ORC 2001)

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segunda-feira, 12 de maio de 2014

VESTIDO DE NOIVA EM SÃO PAULO



Eu me lembro que no espetáculo do “Vestido de Noiva”, quando foi feito aqui no Municipal, o Oswald de Andrade assistiu a peça num camarote, ele e Tarcila do Amaral. Ao final do espetáculo foi promovido pelo Miroel um debate sobre a peça, até veio o Nelson Rodrigues, também faziam parte alguns psiquiatras e eu me lembro bem que o Nelson disse que a peça dele não tinha nada com Freud nem com nada. E começaram a discutir Freud ortodoxo, Freud não sei o que, e ele dizia: - “minha peça não tem nada a ver com isso, eu nunca estudei Freud na minha vida”. Eu achava que era mentira, mas também pode ser que não, porque o Freud pegou o Édipo Rei e criou o complexo de Édipo, que nem foi ele quem criou, foi o Sófocles. Portanto, no subconsciente o Nelson poderia ter se baseado no Freud. Mas no calor dos debates, o Oswald de Andrade “metia o pau” na peça, acho que um pouco de ódio, porque ninguém montava as peças dele. Bom, no decorrer dos debates, a coisa foi inflamando tanto, que de repente o Oswald de Andrade grita do camarote dele: - “Olha, eu acho que o Nelson Rodrigues é o inocente do Leblon”, desancou o Nelson e foi embora. Das pessoas que estavam lá, o crítico Décio, o Nicanor Miranda, nunca ninguém citou isso, quem podia falar sobre isso era o Miroel, mas ele nunca tocou nisso. Mas o Oswald arrasou o Nelson de um jeito irreverente, terrível. Eu comentei isso com o None, ele também não gostava do Nelson achava que ele era um chato. Meu convívio com ele foi ótimo, depois ele saiu do Teatro Municipal e aos poucos fui perdendo contato com o None. Eu soube da morte dele por acaso. Aquele espetáculo dos italianos acabou sendo feito na sala azul do Teatro Odeon, na Consolação, onde eu assisti, depois foram para o Municipal, era um espetáculo maravilhoso, Ettore Gianini era o diretor, era cantado, dançado, representado, o cenário, acho,  era do Gianni Ratto.

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segunda-feira, 28 de abril de 2014

OS CHATOS BOYS

DIAS GOMES, OSWALD DE ANDRADE E O FILHO NONE

Eu estou lendo o livro do Dias Gomes, que é um autor teatral, que foi militante do Partido Comunista, tem uma peça de sucesso que depois foi feito um filme – “O Pagador de Promessa”, que foi um sucesso estrondoso, o filme ganhou a Palma de Ouro em Paris. Eu recebi o livro do Dias Gomes e junto recebi um livro sobre os Chatos Boys, que o Oswald de Andrade chamava assim, os integrantes da Revista Clima, aliás um livro maravilhoso, lembrei-me de uma pessoa que foi muito meu amigo, que era filho do Oswald de Andrade, filho dele com a Kamia, ele casou tantas vezes, era o Osvaldo de Andrade Filho, acho que era o primeiro filho dele, nós o chamávamos de None. Ele foi diretor do Teatro Municipal, depois que o Ademar saiu da Prefeitura, não me lembro quem era o prefeito, foi quando veio o “Carrocello Napolitano” para uma temporada, mas como eu tinha pedido o teatro antes, o None falou para mim – “não...não”. 

Acho que era de família, o romance do pai dele “O território humano” fala dos italianos daqui de São Paulo de uma maneira não muito agradável. – “Você não desiste do teatro, você já pagou a taxa, não vou dar para essa italianada não” ele disse. Éramos amigos de nos encontrar na Livraria Monteiro Lobato na Av. São João. Ele pintava. Um dia ele me levou na casa dele que era a casa do pai dele, acho que estava morando lá, ou estava viajando, porque ele viajava muito o Oswald de Andrade.  

Li também nesse livro que saiu dos Chato Boys, que o pai dele adorava teatro, fez um palco no porão da casa, porque as casas na Rua Martiniano de Carvalho onde ele morava tinham porões como todas as outras, tem até uma casa lá que agora é patrimônio histórico que era um cortiço, não era a casa dele, é claro. Então ele fez um palco, era uma maquete de palco, com urdimento com tudo, para ele escrever as peças dele, e o None, foi um grande amigo na época, ele me mostrou as pinturas uma vez. Ele era uma pessoa excepcional, um pouco diferente do pai, que era um pouco agressivo.

terça-feira, 15 de abril de 2014

CONVERSA DE COXIA


Quando terminamos o livro, nos deparamos com alguns relatos e conversas gravados, extremamente interessantes. Resolvemos reuni-los numa espécie de apêndice intitulado “conversa de coxia”! O título, escolhido por mim uma atriz, provocou risadas do diretor Osmar. Ora, “na coxia não se conversa”, dizia ele, e eu sempre endossava, pois o ambiente não se prestava à conversa e sim à concentração. Porém, naquela meia-luz da coxia, quem nunca trocou sussurros com outra atriz ou ator antes de entrar em cena? (ERC)



MIRIAN MUNIZ
Terminadas as peças, eu tenho que contar umas coisas. Eu estava lendo o livro da Mirian Muniz e ela conta onde nasceu, é uma coincidência incrível, pois ela nasceu no Cambuci,  na rua Baker, que ficava meia travessa de onde eu morava, que era na Lins de Vasconcelos, depois mudei para a Theodureto Souto que é paralela. Como ela é mais moça do que eu, nunca nos encontramos, mas ela frequentou o mesmo Grupo Escolar que eu frequentei e teve a mesma professora que eu tive, D. Guaraciaba, que era uma ótima professora, mas muito severa, muito brava. Achei isso muito interessante. Ela fazia teatrinho com cartolina, cobrava palito de fósforo, como eu fazia um pouco antes na garagem, ela fazia no quintal, imagine quantas vezes a gente deve ter se cruzado depois e nem sabia quem era quem (ou quem se tornaria quem). A mãe dela também a levava para assistir teatro. É, em geral todos nós começamos assim.


TEATRO DO CENTRO ACADÊMICO
Quando eu era estudante e tinha o teatro do Centro Acadêmico, fomos participar do “Hamlet” do Paschoal Carlos Magno, eu não entrei como ator, já tinha tido a experiência de os “Comediantes” que o Paschoal nos convidou, aliás o Miroel tinha convidado, mas valia por estar lá toda noite. Uma noite nós saímos, tinha dado uma boa renda e o pessoal tinha um cachezinho, era todo mundo estudante e nós fomos num restaurante ali na São João que se chamava Avenida, e encontramos o Oscarito, que estava jantando lá. O Oscarito era um cara excepcional, um bom cara, não era esnobe, foi um encontro muito interessante. O Paschoal era crítico no Rio então ele conhecia todo mundo, foi um jantar interessantíssimo.
Antes disso, eu havia conhecido o Ziembinski que era uma pessoa excepcional,  para mim, dos diretores que eu vi e conheci, ele foi o mais interessante de todos. Um homem que gostava da arte dele. Depois ele foi ficando velho, fez televisão, mas ele ensaiava direitinho, ele foi muito bom. O que ele fez com o “Vestido de Noiva” de Nelson Rodrigues fez estourourar a renovação do teatro brasileiro.