segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Hans Staden no país da antropofagia

 
TRECHOS CRÍTICA - O ESTADO DE SÃO PAULO – POR SÉRGIO VIOTTI – 20/06/1971
O título Hans Staden no país da antropofagia é enganoso, pois o público, apesar da publicidade dizer tratar-se de uma comédia musical (se bem que seja, na verdade, uma comédia com músicas), poderia imaginar tratar-se de algo bem mais sério do que a realidade comprova. Outro título poderia ser Hans Staden – as experiências sexuais de um luterano em Pindorama. Sem ser nada ofensivo, ele revelaria abertamente a natureza da comédia que Francisco Pereira da Silva escreveu inspirado muito mais naquilo que Staden não deixou documentado, do que na preciosa obra sobre os silvícolas brasileiros no século XVI.
Se pouca coisa é conhecida da vida de Staden, menos ainda sabemos nós a seu respeito. Sou da geração que leu, na infância, as suas peripécias recontadas por Monteiro Lobato, mas nunca tive ocasião de sequer folhear o relato de suas aventuras quatrocentonas (foi aprisionado pelos Tupinambás em 1554!) publicadas com um dos mais longos e deliciosos títulos de que se tem notícia: “Descrição verdadeira de um país de selvagens nus, ferozes e canibais, situado no novo mundo América, desconhecido na terra de Hessen antes e depois do nascimento de Cristo, até que, há dois anos, Hans Staden de Homberg, em Hessen, por sua própria experiência, os conheceu e agora publica, aumentada e melhorada diligentemente pela segunda vez”. Assim, o meu contato com o Hans Staden de Francisco Pereira da Silva foi tão virginal quanto era (em parte) o próprio Staden que se viu envolvido em peripécias e malandrices profundamente contrárias à rigidez de sua formação luterana.
Isto já deve deixar perceber que o nosso Staden é visto mais ou menos pelo prisma daquele caipira ingênuo do filme Uma certa casa em Chicago, não deixando de ser menos divertido por causa disto. Aliás, toda a angulação histórica do seu contato com o Brasil é propositadamente distorcida para nos dar a impressão de que o contato entre colonizadores e silvícolas colonizados era o de um eterno festival proibitivo com sabor picante do que era, antigamente, publicado em inglês, entre capas verdes, por recatadas firmas editoras suíças.
Assim sendo, este Hans Staden visto pela Olympia Press pode ser uma surpresa para os historiadores, e um deleite para os incautos. Usando o adjetivo gozação com respeito positivo, não hesito em aplicá-lo à comédia de Pereira da Silva. Diz o autor que a escreveu em 66, antecipando-se assim ao irromper do tropicalismo entre nós. É, sem a menor dúvida, uma visão tropicalista de um episódio histórico e a montagem procura, de ponta a ponta, sublinhar esta característica (...).
Osmar Rodrigues Cruz não hesitou em aplicar à sua direção solturas e irreverências divertidas. E se há momentos em que a brincadeira fica hesitante é porque a própria estrutura da peça não o ajuda a avançar com a piada colorida. Mas tudo somado é um espetáculo visualmente rico, cheio de humor bem brasileiro, que talvez abra caminho para que voltemos para incidentes históricos e os transformemos em gostosas gargalhadas vividas em um teatro.  
 
 
      

sábado, 4 de janeiro de 2014

A MORENINHA

DIÁRIO DE SÃO PAULO - COLUNA DE ALBERTO D’AVERSA – 17/01/1969
“A Moreninha” (1)
Um jovem amigo meu, desses que fazem questão de praticar a revolução permanente, cuja faixa de alimentos mentais oscila monotonamente entre Sartre-Brecht-Marcuse e alguns produtos caseiros, cuja ação verbal explode durante a atividade gastronômica da classe em restaurantes de metafísica tristeza, agrediu-me, na rua, com uma rajada de perguntas:
-       “Você gostou da “Moreninha?” 
No momento não compreendi, disse distraído:
-       “Qual moreninha?”
-       “A de Osmar.”
-       “Problema dele.”
-       “E seu também e de toda essa crítica caduca e vendida que escreve de teatro.”
Eu poderia ter retificado e entrado na zona das recíprocas xingações; não valia a pena; preferi deixar o meu jovem amigo na ilusão que crítico teatral é venal, corrupto e corruptível na secreta esperança de vir a ter, depois de vários anos de impoluta profissão, concretas propostas monetárias, ou, em casos de compreensíveis pudores da parte empresarial, ofertas de carros ou casas de campos com piscina.
Continuou:
-       “Você viu teatro mais alienado (aparte: notei que esse adjetivo vem sendo usado em proporção direta da alienação de quem o pronuncia; fecho a parêntese) desta “Moreninha”? Nós estamos na face oculta da terra, somos vegetais beócios, o homem está dando voltas ao redor da lua, temos os “Soyuz 4 e 5”, aí, no céu e nós, aqui, estamos fazendo a “Moreninha”, pô!”
-       “Fala com Zé, ele sabe.”
-       “Que Zé?”
-       “Celso.”
-       “Mas o diretor é Osmar.
-       “Mas Celso, que faz Galileu, está na obrigação de ficar na base de lançamento dos foguetes, Osmar pode ficar em órbita. Acontece porém o contrário, não acha?”
-       “Acho nada porque não compreendo.”
Fui obrigado então a fazer um discurso extenso cuja síntese era, mais ou menos, esta:
“Uma sociedade teatral, como qualquer outra sociedade, vive e atua sobre planos diferenciados onde as convenções (ver Eliott – “Civilização e Cultura”) são feitas para serem respeitadas até pelos anti-convencionais que, como é sabido, destruindo uma convenção, automaticamente, criam um novo acordo. Ora, ninguém pode exigir um só tipo de teatro assim como não pode exigir um só tipo de consumo: deve existir um teatro de vanguarda e até um teatro de retaguarda com todos os estágios intermediários: o verdadeiramente importante é que cada um cumpra bem o seu papel, que a vigarice não seja hábito: que o teatro que afirma ser político-social não seja fascista e burguês, que o de vanguarda não seja remastigação de experiências européias de há trinta ou mais anos, que o de comédia saiba fazer rir e assim por diante. Desonesto é prometer champanha e oferecer Coca-cola.
Osmar Rodrigues Cruz, Silveira e Petraglia nos prometeram um musical extraído de “A Moreninha” de Joaquim e, milagre!, nos deram “A Moreninha” de Joaquim: nestes momentos em que o teatro político virou hermético, covarde e oportunista, o de vanguarda renunciou totalmente à inteligência e o melodramático perdeu o conhecimento das regras do jogo e tornou-se um produto híbrido e insulso, produções como esta “Moreninha” consolam pela honestidade das intenções e a eficácia da realização. (cont.)
Uma moreninha necessária (2)
Entre todas as disciplinas parece que a sociologia foi a que herdou o incomodo patrimônio das frases feitas e das convenções arqueológicas condenando regras inevitáveis a frases de folhinhas. Quem não escutou: - cada país tem o governo que merece - ?.. ou, o teatro, o cinema, o futebol, a metalúrgica que merece? etc. – A obviedade da constatação berra altíssimo com voz impostada por dona Maria José de Carvalho: milagre seria, logicamente, o contrário.
Há anos que estamos pregando da necessidade de um teatro comercial dignitosamente realizado, limpamente produzido e sãmente administrado; em todas as artes existe uma produção que faz parte da retórica mais que da poética da mesma arte; no Brasil os produtos da primeira categoria são, por condicionamento histórico, mais numerosos e aceitos que os da segunda, por um Drummond ou um Guimarães Rosa quantos Jorge Amado e Zé Mauro Vasconcelos; por um Vila Lobos e um Santoro quantos Vandré e Tom Jobim: o novo Torquemada poderia fazer uma infinita lista de cassações. Todos compreendem essas evidentes constatações, todos menos a gente de teatro e de cinema. Atualmente qualquer filme nacional de uma certa ambição é feito não mais em função do público mas em função dos vários festivais; qualquer produção de teatro não é mais feita (como queriam Aristóteles e B. Brecht para divertir e produzir prazer) mas para ficar na história do espetáculo mundial; os nossos diretores trabalham agora somente em função da eternidade ou da intemporalidade histórica; montar uma comédia de Abílio, por exemplo, ou de L. C. Muniz é crime de imbecilidade, opera-se somente visando uma internacionalidade vistosa e improdutiva. Todos estão esquecendo Araraquara.
Osmar Rodrigues Cruz é, até agora, o único diretor que, como Paulo Autran, conhece o público ao qual se dirige; conhecimento não determinado por irresistível vocação à mediocridade (como já foi dito) – seu anterior repertório confirma o contrário – mas pelo contato diário com uma massa que vai ao teatro exigindo determinadas satisfações.
Cansei de dizer, mas não é demais repetir: teatro é antes civilização de espetáculo e depois de textos: vale mais um “Milagre de Annie Sullivan” otimamente representado que um “Galileu Galilei” de equívocas significações, vale mais uma “Moreninha” que entretém que um Shakespeare anestésico e soporífero.
Produções como esta “Moreninha” são necessárias por criar as condições de inevitável presença de um público, de educação teatral, de didatismo mínimo e indispensável; se não existem espectadores os gênios não podem fazer os Brecht de moda, as elites desaparecem, o engano não convence mais.
E depois, quem pode afirmar que o produto comercial seja um produto fácil? Esqueceram as direções de “4 em um quarto”, “Os inimigos” e, por exemplo, a recente de “Tudo no jardim”? (continua porque me diverte)
Uma moreninha chamada Marília (3)
Quem nesta “Moreninha“ do Joaquim, adaptada por Miroel Silveira, musicada por Cláudio Petraglia e dirigida por Osmar R. Cruz, espera ver e escutar palavras, situações e ações sobre:
a)     táticas das guerrilhas na América Latina;
b)    posição de Nixon a respeito da Aliança para o Progresso;
c)     o Vietnã como ponto de conflito ou de equilíbrio entre as grandes potências mundiais;
d)    problemas da U.N.E. e da C.B.D.;
e)     reforma agrária;
f)     incesto;
g)    personagens que exercem antropofagia física ou moral;
h)     posição do intelectual brasileiro frente ao Ato Institucional nº 5;
i)      ...e preocupações parecidas...
É melhor que não vá ao Teatro Anchieta porque poderia sair levemente decepcionado.
Quem, pelo contrário, quer passar duas horas de extrema amabilidade, de gostoso divertimento e de repousante descanso, pode ir sem susto porque, além do prometido, poderá encontrar coisas inesperadas de agradável surpresa...
(...) Depois de tudo o que escrevi sobre esse espetáculo acho que, de parte minha, seria retórica burrice louvar a exata e fantástica direção de Osmar Rodrigues Cruz.



 
 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Noites Brancas no Grupo União

TRECHOS CRÍTICA - JORNAL DA TARDE – POR SÁBATO MAGALDI – 14/11/1968

Depois de uma peça violenta, outra montagem, boa, desta vez, poesia e amor.
Delicadeza, ternura, sensibilidade definem Noites Brancas, o novo espetáculo do Grupo União no Teatro Itália. Sob todos os aspectos, a adaptação cênica da novela de Dostoiévski está no polo oposto de Navalha na Carne, montagem inaugural do conjunto. Mais uma oportunidade para ver que tudo tem o seu lugar, desde que feito com rigor e propósito honesto.
Noites Brancas não é ainda o Dostoiévski de Os Demônios e Os Irmãos Karamazov. Parece uma balada, diante da composição sinfônica dos grandes romances. O leitor ou a platéia sentem de imediato, porém, a presença do ficcionista que sabe penetrar no mundo subterrâneo e extrair das personagens as notas mais íntimas e profundas. Uma poesia melancólica banha todo diálogo de Nastenka e Wladimir, os seres solitários que num momento se encontram, se reconhecem e quase se aproximam, para logo depois tomarem caminhos diferentes. Edgard Gurgel Aranha soube preservar a atmosfera do original e ao mesmo tempo deu-lhe credibilidade cênica, pondo em flash-back a narrativa de Nastenka sobre os seus encontros com Stepan. A peça não adquire total autonomia na linguagem do palco, mas falta ao espectador como um sofrido poema dramático.
A tarefa de Osmar Rodrigues Cruz, na encenação, foi mais a de assegurar fidelidade ao espírito da obra e fazer que desempenho e luz mantivessem o indispensável clima poético. Suas marcações são simples e espontâneas, como convém ao espetáculo, e pode-se afirmar que ele muito acertadamente desapareceu atrás dos atores.

(...) Seria Noites Brancas uma encenação romântica e por isso fora da realidade atual? Ou essa reivindicação de poesia, em meio às dissonâncias do mundo de hoje, guarda um encanto secreto e tem o dom de comover-nos? A resposta afirmativa à segunda pergunta parece a verdadeira.



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sábado, 30 de novembro de 2013

Censura: alguém se lembra ou já ouviu falar?

REPORTAGEM -  FOLHA DE SÃO PAULO – 12/02/1968
Teatros cerram hoje suas portas em repúdio à censura.
A classe teatral de São Paulo, em reunião que se prolongou até a madrugada de hoje, decidiu paralisar totalmente suas atividades, até amanhã, e concentrar-se nas imediações do Teatro Municipal, em protesto contra as últimas determinações da censura federal. A medida foi tomada em solidariedade aos artistas do Rio de Janeiro, que adotaram atitude semelhante em repúdio aos cortes impostos pela censura no texto de “Um Bonde Chamado Desejo”, peça de Tenessee Willians que a atriz Maria Fernanda estava apresentando em Brasília, e à proibição da peça “Senhora da Boca do Lixo”, de Jorge Andrade, em todo território nacional.
A concentração no Municipal terá início às 14 horas de hoje, com Procópio Ferreira à frente, e prosseguirá até a meia-noite de amanhã. Com a greve de artistas, estará suspensa, amanhã, a apresentação dos seguintes espetáculos: “Lisístrata” (Ruth Escobar); “Deus lhe Pague” (TBC); “O Homem do Princípio ao Fim” (Bela Vista); “Navalha na Carne” (Oficina);”O Olho Azul da Falecida” (Cacilda Becker); “Sérgio Ricardo na Praça do Povo” (Arena); “Dois na Gangorra” (Aliança Francesa) e “O Milagre de Annie Sullivan” (SESI).    

REPORTAGEM - DIÁRIO DE SÃO PAULO – 20/02/1968
No último sábado, os artistas da Guanabara mantiveram-se em assembléia até as 4 horas da madrugada. O motivo era o mesmo da semana passada: cobrar as promessas feitas pelo ministro Gama e Silva. Tonia está através de um “slogan”, convidando o público a também participar do movimento, passando um telegrama ao ministro ou então ao presidente da República. Como sabemos, além das proibições que já são do conhecimento de todos, o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” foi proibido no Maranhão e a Censura ameaça retirar do cartaz o espetáculo “Roda Viva”. Mas o problema mais grave que o teatro enfrenta no momento não é somente com proibições mas principalmente com a centralização da Censura Federal. Os censores não dão a mínima e os empresários ficam sem ação. Fernando Torres já gastou um dinheirão com telefonemas para Brasília e não consegue resolver nada sobre o problema da peça “A Volta ao Lar”. Provavelmente irão repetir-se os mesmos casos de “O Sonho Americano” e “Dois na Gangorra”, que no dia da estréia, ainda não haviam chegado de Brasília. Aliás, consta que esta semana ainda o ministro Gama e Silva, antes de mais nada, iria baixar um decreto, transformando a Censura Federal em estadual. Isto é, cada Estado teria sua Censura, sem depender de Brasília.

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domingo, 17 de novembro de 2013

DOIS NA GANGORRA

OUTRAS DIREÇÕES

Iniciamos hoje as direções de espetáculos realizadas por Osmar Rodrigues Cruz, paralelas às direções do TPS. 


Consta do programa da peça:
“Os atores discutem a direção e a controvertida personalidade do diretor” (por Juca e Lilian)
Osmar escapa ao padrão convencional do moderno diretor de teatro. Não constatamos durante os ensaios ataques de histeria, manifestações de impotência intelectual ou desfalecimento em face da incompreensão dos seus dirigidos.
Habituados muitas vezes a tratar com artistas-geniais-geniosos, ficamos um pouco sem graça ao constatar que o nosso diretor não passa de uma criatura apenas normal. E o incrível é que ele tinha certeza sobre o que queria. Tinha uma idéia clara quanto à peça, quanto às personagens e quanto ao que pretendia transmitir.
Isso não quer dizer que essa idéia seja correta, apenas que ele atingiu o seu (dele) objetivo.
Só uma coisa não compreendemos na sua normal personalidade. Sempre nos pareceu corriqueiro que seres humanos tivessem o direito de suspender momentaneamente seus afazeres para tomar sua refeição diária, mitigar a sede com um mísero copo d’água ou “ir lá fora” enfim. Mas Osmar acha que não. E sempre que isto acontece e é de se esperar que isto aconteça aos animais superiores  –  na cabeça dele se desencadeia um complexo de culpa de caráter nitidamente patológico, só aplacado pelo regime de trabalho escravo a que ele nos submeteu a fim de anestesiar seus remordimentos.
Como nosso diretor chorasse na platéia a cada ensaio de cenas dramáticas, desenvolvemos uma dúvida em nosso espírito; ou já havíamos atingido um bom nível de atuação a ponto de provocar lágrimas, ou essas manifestações se deviam à sua excessiva sensibilidade.
Nem uma coisa nem outra: simplesmente desvio do cepto e uso indiscriminado de um desentupidor nasal do qual ele jamais se separa.
Apesar de tudo somos de boa constituição física. Sobrevivemos às suas enxaquecas, à sua mania de feitor de senzala, à sua tara pela perfeição, às suas fungadelas, ao seu espírito de gozador incorrigível e bem humorado. Saímos vivos do empreendimento e tocados pela sua amizade e gentileza.
Há controvérsias, mas gente boa tá aí.                                                                    

“Por questões de modéstia Juca prefere falar de Lilian e calar sobre si mesmo”
Que ela tinha saído de um lugar muito estranho eu percebi logo nos primeiros ensaios: com a maior naturalidade do mundo a moça dizia “trancar” no lugar de “prender”, “infante” no lugar de “moleque”, “taça” no lugar de “copo”, “umbral” e não “batente”; até – se não me engano – ela andou usando “ânfora” no lugar de “litro”. Foi quando eu soube que ela tinha nascido nas querências de Porto Alegre e tudo se esclareceu para mim. A despeito das dificuldades iniciais de comunicação sua língua é por demais exótica para as minhas limitações linguísticas – tem sido uma beleza trabalhar com ela. Pelo menos até aqui. Só conhecia Lilian de palco: “Onde canta o sabiá”, “Noite de Iguana”, “Toda donzela tem um pai que é uma fera”, “Mary, Mary” e finalmente “Quem tem medo de Virgínia Woolf” com Cacilda e Walmor, e cheguei a conclusão, pois lhe deram o “Saci” de melhor atriz coadjuvante em “Virgínia Woolf”.
A gaúcha é muito fechada, evita falar sobre si, sobre sua vida e seu ofício, mas a saca-rolha e talho de foice fui arrancando umas lascas do seu início de carreira : Diz que começou em 56 em Porto Alegre, fazendo “À margem da vida” no Teatro Universitário, direção de Abujamra. Devia ser gozado ver ela recitando Tennessee Williams lá na língua dela. Começou levantando prêmio “O Negrinho do Pastoreio”. Bom, um prêmio gaúcho. “O Pai” de Strindberg, “A Bilha Quebrada” de Kleist foram outras peças que ela andou fazendo lá pelo Sul. Por volta de 63 Walmor e Cacilda levaram a Porto Alegre “Em moeda corrente do País” e “Oscar”; e para realizar um bom intercâmbio cultural entre metrópole e província trouxeram Lilian na bagagem. (Intercâmbio aliás altamente desvantajoso para a província nesse caso)
“Lemmerites”- É um apelido que eu botei nela para desbastar um pouco as consoantes de Lemmertz – também ataca de cinema. “Corpo ardente” de Walter Hugo Khouri que ela filmou durante a carreira de Virgínia Woolf lhe deu o prêmio de melhor coadjuvante pelo I.N.C., donde se conclui que ela tem a mania de começar esnobando. Defeito de criação? Sei lá acho que esnobismo de gaúcho, só isso. Depois veio “As Cariocas” de Fernando de Barros. E agora anda dublando seu papel em “As Amorosas” de Khouri, que logo estará pelos cinemas daqui e do mundo. É minha boa parceira de “Buraco”; jogamos cientificamente e fazemos uma dupla absolutamente invencível. Só perdemos mesmo quando os azares da sorte se tornam azares de fato.
Tem uma filhinha por demais boneca e linda – a Júlia, Juju para todos – de quem ela se despede às noites fazendo binóculo com as mãos, olhando-se ambas nos olhos e dando-se os “beijinhos tradicionais”. Uma ternura!
Lemerites fila cigarros “Consul” e chupa compulsivamente umas bolinhas de mentol, na razão de um milhão por dia, um verdadeiro inferno. É do signo dos gêmeos, toma café sem açúcar, penteia os cabelos de dois em dois minutos, come uma tonelada de rocambole por dia e fala pelos cotovelos na sua língua. Mantém com ferocidade usos e costumes da província de onde veio e resiste com igual ferocidade às benéficas influências da civilização paulista.

“Vice-versa”
Juca nasceu em São Roque, é o que ele diz. Eu pensei que não nascesse gente lá. Mas vou lhe dar um crédito de confiança. Ele também me contou que quando terminou o serviço militar esteve um tanto confuso quanto ao que iria fazer. E provou isso, pois tendo cursado durante quatro anos a faculdade de direito, bandeou-se para a Escola de Arte Dramática. Claro que este curso ele completou, pois pelo jeito nasceu para isso. Pelo menos é o que indica a sua ficha técnica. Ele estreou como profissional em “A Semente” de G. Guarnieri, no Teatro Brasileiro de Comédia. Alguém deve tê-lo convidado por engano, mas ele levou o convite a sério, e não arredou o pé de lá por muito tempo. Atrapalhou em várias peças, entre as quais “As Almas Mortas” de Gogol, “A Escada” de Jorge Andrade, “A Morte do Caixeiro Viajante” de A. Müller, pela qual – milagre! – ganhou o prêmio Saci como melhor coadjuvante de 62. Acho que deveríamos investigar a atribuição desse prêmio. Mas, pensando melhor, se não fora o talento mereceria pela simpatia. Em 62 resolveu dar umas voltinhas e associou-se com Guarnieri, Paulo José, Flávio Império e  A. Boal, na direção do Teatro de Arena. No Arena fez “Eles não usam Black-tie”, “O Noviço”, “A Mandrágora”, “O Melhor Juiz o Rei” e “O Filho do Cão”. Ao tempo das duas últimas peças eu já tinha emigrado dos “pagos” comprovei que afinal de contas ele tinha futuro.
Quando vi “Depois da Queda” de A. Müller, no Teatro Maria Della Costa me convenci que afinal de contas São Roque com seus trinta mil habitantes não é de desprezar.
Ele fez no Municipal “Júlio César” de Shakespeare. Essa eu não vi, mas me disseram que ele era o melhor. E eu acredito. Porque depois desta eu assisti “O Estranho Casal” no Teatro Ruth Escobar e ele estava bom as pampas.
Em televisão ele também não é de todo mal. Senão ele não estaria na TV Tupi Canal 4 desde 64. Trabalhou na “TV de Vanguarda” em : “As Feiticeiras de Salém”, “Hamlet”, “Esta noite improvisamos” e “Em moeda corrente do País”. E meteu o nariz em inúmeras novelas “Cara Suja”, “Gutierritos”(Oba!), “A ré misteriosa”, “A Outra”, “Paixão Proibida”, “Estrelas no Chão”.
E fez até cinema! Com Person, “O caso dos irmãos Naves”.
E como ele não pára quieto andou fazendo uma série de recitais na VII Bienal de São Paulo e em mais umas trinta cidades do Interior de São Paulo e outros Estados. E também foi contratado várias vezes pela Comissão Estadual de Teatro para dar cursos e conferências em faculdades e na própria CET (Comissão Estadual de Teatro).
Afora tudo que foi dito acima ele é uma pessoa excelente. Tem uma disposição inesgotável para o trabalho. Vive gritando que a vida está sensacional. Faz um regime de carboidratos mas adora a comida. Vai toda segunda-feira visitar Mamã em São Roque, o que prova que é um rapaz de bons sentimentos. Desconfio que ele tem complexo de Édipo, mas segundo seu psicanalista esse problema não existe.

Mas...implica muito com a civilização gaúcha. Isto me irrita. Mas eu o perdôo porque ele é um moço muito bom.




BOLSA DE CINEMA E TEATRO - FOLHA DE SÃO PAULO – 03/1968 
1º - Dois na Gangorra (Aliança Francesa)
2º - Deus lhe Pague (Brasileiro de Comédia)
3º - O Homem do Princípio ao Fim (Bela Vista)
4º - Sérgio Ricardo na Praça do povo (Arena)
5º - Navalha na Carne (Oficina)
6º - O Olho Azul da Falecida (Cacilda Becker)
7º - Lisístrata, A Greve do Sexo (O Galpão)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O TPS ITINERANTE


Essa ideia de viagem, nasceu por acaso. No tempo do Paulo Correia eu tinha a intenção de fazer um grupo para viajar, mas a despesa era muito grande, o De Nigris era o presidente na época e a peça que estava em cartaz mexeu com todo mundo, era o Milagre, e ele quis levar para a Convenção da Fiesp em Campinas, só que precisava fazer um novo cenário, ele autorizou e foi o começo de tudo.
A partir daí fomos levando outras montagens, adaptamos Noites Brancas, levamos Caprichos do Amor, com outro elenco. Viajar era muito bom, eu achava muito bom e viajei bastante com o Milagre, com Noites Brancas, era cansativo, viajava de carro por quase todas as cidades do estado. Mais tarde algumas foram feitas de avião, o que era melhor, você vai para Ribeirão Preto, por exemplo, em quarenta e cinco minutos. Araçatuba, Presidente Prudente, fiz tudo por rodovia. O elenco ia de ônibus leito. Algumas fizemos por trem, as que tinham trem-leito. Bauru, por exemplo, fizemos de trem, era cansativo, porque fazíamos essas cidades aos fins de semana, em algumas de sexta a domingo, e voltávamos para São Paulo no domingo depois da sessão da noite e recomeçávamos viagem logo na quinta ou sexta, dependendo da cidade.
Em Campinas montamos a peça num auditório de um colégio, que não tinha a mínima condição, foi uma loucura, mas gostaram. Não havia ainda o Teatro Castro Mendes, havia o Municipal, mas não sei por que não foi feito lá. Mas a ideia primeira das viagens era levar as peças que fossem feitas aqui em São Paulo para o Interior. (ORC)

Como o material jornalístico dessas peças é muito escasso, optamos em citá-las dentro de sua cronologia:
O Milagre de Annie Sullivan – de William Gibson (tradução de R. Magalhães Júnior) 1969 – Sorocaba

Noites Brancas – de Dostoiévski (adaptação de Edgard Gurgel Aranha) 1970 – Lindóia

O Primo da Califórnia – de Joaquim Manuel de Macedo 1972 – Bauru

O Médico à Força – de Molière (música de J.-B. Lully) 1973 – São Carlos

O Barão da Cotia – de França Júnior 1974 – Santo André

Guerras do Alecrim e da Manjerona – de Antonio José de Silva 1976

Trocas e Trapaças – de Américo Azevedo 1978

Madalena, Seduzida e Abandonada – de Ronaldo Ciambroni 1981 – Santo André

Coitado do Isidoro – de Sebastião de Almeida (João Garrucha) 1983 – Santo André

Senhora – de José de Alencar (adaptação de Sérgio Viotti) 1984

O Caso da Casa – de Machado de Assis (adaptação de José Rubens Siqueira) 1988

O Tipo Brasileiro – de França Júnior (adaptação de Cecília Macedo) 1992


OUTRAS ATIVIDADES DO TPS

O Teatro Infantil foi feito de 1969 a 1978, foram dez peças dirigidas pelo Eduardo Manuel Curado. Esse teatro deixou de ser feito com a morte dele.

Foram diversos os cursos no TPS. O primeiro teve Ruggero Jacobbi dando aula de História do Teatro e também o Flávio Rangel.
O primeiro Curso de Formação de Atores foi feito com intuito de criar o Teatro Experimental, concluído o curso os alunos que mais se destacaram passaram a fazer parte da primeira peça do Teatro Experimental, que foi A Torre em Concurso. Junto com esses alunos eu coloquei também os que faziam o curso de atores para cinema do MASP, foi daí que veio a Nize Silva, alguns alunos da Caixa Econômica que também haviam feito curso comigo lá. A seleção dos atores foi feita por teste de leitura de um texto e improvisação de uma cena. Havia 180 inscritos. A ideia de fazer o primeiro curso no Sesi nasceu da necessidade de formar gente para fazer teatro amador, pois havia gente muito ruim e no Sesi não dava para fazer com os operários.
[...]
No TPS eu fazia um curso por ano, no princípio dava para contratar professores de fora, depois eu comecei a pagar professores da casa mesmo, como o Eduardo Manuel Curado, o Francisco Medeiros. Um dos cursos, foi quando estávamos alugando os dois teatros lá no TBC, foi no Teatro de Arte que era o teatro onde ministrávamos aula. Eu montei com os alunos o Beijo no Asfalto, do Nelson Rodrigues, fez muito sucesso, nós distribuíamos convite para as pessoas que iam assistir O Noviço, que era a peça que estava em cartaz no TPS. Quando nós fomos para o teatro da Avenida Paulista fizemos outro curso e eu montei com eles O Chapéu de Sebo, do Francisco Pereira da Silva. (ORC)


O ESTÚDIO DO TPS

Já foi dito várias vezes que o meio para aprender a representar é representar. Se isto fosse verdade, o meio para aprender a tocar uma sonata de Beethoven seria sentar-se ao piano e tocar uma sonata de Beethoven, sem antes estudar as notas e as escalas mais simples. A primeira tarefa do artista é dominar seu instrumento. No caso do pianista, o piano; no caso do ator, ele próprio. Somente depois de adquirir o domínio de si mesmo está o ator pronto para interpretar uma parte em uma peça. Representar um papel não significa aprender a marcação, as deixas, conhecer o palco e saber dar a réplica. Significa criar a vida interior do caráter delineado no texto. Isto inclui pensamentos, emoções, sensações, percepções e técnica. Somente quando o ator cria essa vida interior, esta corrente de sentimentos e comportamentos de outra pessoa, pode ele dizer que está representando e criando. Portanto o Estúdio de Atores do TPS terá um método de desenvolver e capacitar o ator a interpretar, sem ser através de fórmulas e conceitos preestabelecidos.
Sabemos que nenhum método, entretanto, pode por si só capacitar um indivíduo a tornar-se um ator. Um ator deve ter talento. Talento é uma aptidão superior, essa superioridade é um dom e não pode ser adquirida artificialmente.
Um ator de talento é o que pode expressar em termos próprios a vida interior de outro indivíduo. Ele deve ter as qualificações de todos os outros artistas, como: elevada sensibilidade, imaginação viva e a facilidade de comentar a vida através de um dado meio. O preparo do ator deve incluir, ao lado destes dons, concentração desenvolvida, observação aguda, corpo plástico, técnica vocal perfeita, além de outros conhecimentos gerais.
Enquanto o talento não pode ser transmitido em uma sala de aula,os elementos que integram a técnica, podem. O propósito do curso é esse: fornecer um método simples de adquirir essa técnica de desenvolver o talento.
A representação é um tema inesgotável. Tem toda a fascinação da arte e toda a complexidade da ciência. Assim como um indivíduo difere do outro, a representação é um assunto que contém material discutível e sempre renovado para discussão.
No método de trabalho que iremos desenvolver no Estúdio, não defenderemos regras rígidas e fixas. Certos atores podem chegar aos mesmos resultados com métodos diversos. Alguns atores podem necessitar dessas sugestões apenas em parte. Outros podem exigir ainda maiores esclarecimentos. Resumimos para o treinamento do ator um sistema seguro que visa capacitá-lo a ser um artista sincero e inspirado.
O teatro de hoje não é mais lugar de pura diversão, não mais se satisfaz em ser um derivativo, uma fuga para as realidades da vida. Hoje ele é fonte de saber e um meio de comunicação entre indivíduos e grupos de indivíduos. Conquanto o teatro tenha sido quase sempre de elite, a despeito dessa elite ele teve períodos ruidosos e populares e atualmente esse é o seu único caminho – ser popular e ao mesmo tempo educar esse público.
Para atingir a dupla finalidade do teatro atual, cada indivíduo ligado a ele não deve poupar esforços para dar o melhor de si. Não há lugar para o diletante. Participação desinteressada em uma arte de tais dimensões é sacrílega. O maior inimigo do teatro é a mediocridade.
Há necessidade de tentar colocar o teatro em bases mais científicas. Há atores ou candidatos que frequentemente desprezam sugestões que podem ser encontradas entre as páginas de um livro. O teatro exige laboriosos e inesgotáveis esforços.
Se o Estúdio de Atores conseguir dar à mente de seus frequentadores a enorme tarefa do ator e a necessidade de uma humildade e aplicação, terá servido ao propósito que foi criado. (ORC)



Fizemos também algumas Leituras Dramáticas dirigidas por Celso Ribeiro, com participação de alguns atores do TPS, apresentando os textos A Casa Fechada, de Roberto Gomes, Mimosa, de Leopoldo Fróis e Micróbio do Amor, do Bastos Tigre.
O curso, como já disse, não profissionalizava, então os interessados diminuíam. Nesse período eu fiz um exercício de improvisação sem palavras e o Alienista, do Machado de Assis, sem o personagem do alienista, os atores comentavam sobre ele, foi uma criação coletiva.
Esses cursos complementavam um “Plano” que eu fiz em 1962, 1963 das coisas que eu queria ver no teatro: Galeria de Arte e Concertos. As ideias contidas no plano foram sendo colocadas em prática aos poucos, com muito sacrifício. A última grande coisa que nós fizemos no TPS foi um plano que o Mário Amato pediu-me que fizesse de teatro infantil, mas eu criei algo melhor. Ao invés de fazer um teatro para crianças, criei os Núcleos de Artes Cênicas que funcionavam nos conjuntos do Sesi. Contratávamos professores que tinham especialidade em Artes Cênicas e em cada conjunto do Sesi havia um Núcleo de Artes Cênicas, que eu nem sei se ainda são mantidos, onde os professores davam aulas para alunos menores em idade de primeiro grau, antigo primário, que passavam praticamente o dia nos conjuntos, lá almoçavam, porque todos os conjuntos têm cozinhas. Essas aulas complementavam o curso primário com “educação artística” e no fim do ano eles montavam um espetáculo. Funcionou com sucesso. (ORC)

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domingo, 3 de novembro de 2013

EXTRA URGENTE


DOIS CASOS DE OMISSÃO DA MEMÓRIA NACIONAL


Sala Osmar Rodrigues Cruz
Lamentamos muitíssimo o ganho de causa contra a Fiesp no processo por nós movido, sobre a retirada do nome da Sala Osmar Rodrigues Cruz. Em nosso Blog encontra-se a inauguração da sala – postagem do dia 21/10/2013.




Eurico Neiva

O trabalho de pesquisa e documentação da memória nacional exige um alto grau de conhecimento e um cuidado extremo com o objeto trabalhado.
Em seu livro recém lançado, pode-se constatar um grande descuido com os verdadeiros fatos, que já se tornaram históricos sobre o nascimento da TV.
Foi muito decepcionante encontrar a biografia de Osmar Rodrigues Cruz citada na bibliografia do livro e não haver qualquer menção de Osmar, criador do teatro na TV. Em nosso Blog na postagem do dia 21/10/2012 encontram-se as informações sobre o assunto.



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