domingo, 9 de agosto de 2015

Capítulo 2 - segunda parte

O meu primeiro contato com Wilhelm Reich (1897/1957) foi quando cursava a Graduação em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica (PUC), pois inúmeras vezes o seu nome era citado. Foi um médico, que muito influenciou o pensamento de sua época. A importância de Reich no pensamento filosófico dava-se como contraponto a tudo o que já havia sido pensado, pois ele atacava o comportamento não só do indivíduo, mas de toda a sociedade. Por muito tempo Reich passou por meus olhos como textos escolhidos dentro dos cursos, citações, até participar de um grupo de estudos com Plínio Marcos, apaixonado e grande estudioso de Reich. Então, tive de estuda-lo, aprofundando-me em sua obra. Apaixonei-me por Reich e então retornei a Freud, que havia estudado na Graduação.

Reich, médico psiquiatra, foi aluno de Freud e fez um estudo médico e científico sobre o organismo vivo, que ele chamou de “teoria da economia sexual”, baseado nos conceitos da psicanálise de Freud. Seu livro A Função do Orgasmo [1] é a publicação dessa pesquisa. Mais tarde, elabora sua teoria sobre a “análise do caráter”.[2] Sem resvalar demasiadamente para a psicologia, é preciso esclarecer como Freud concebe a psique humana, para então podermos definir a teoria reichiana e dele extrairmos o que realmente é relevante a este trabalho.

Segundo Freud, a vida do homem sobre a terra suplantou a sua própria condição animal e o propósito primordial da vida que é a busca do prazer, seja dominando sua própria natureza, ou controlando a natureza a sua volta, extraindo o alimento da terra e sobrevivendo a uma condição hostil. Todo o progresso empreendido ao longo de milênios fez com que o homem introjetasse seu próprio código de normas a fim de dominar a si mesmo e aos outros.[3] Do seu ego, onde reside sua consciência, sua maneira de ser, cria um superego que o controla e assim a sua consciência. Porém, esse superego também é formado de uma agressividade inata, que é internalizada, gerando conflito entre parte do ego e a consciência, gerando o sentimento de culpa e a necessidade de punição. O código de normas transforma-se em leis, a civilização se organiza em torno dessas leis, há uma renúncia extremada ao instinto produzindo uma autoridade exasperada interna e externamente. Internamente o homem produziu mais consciência, soube sublimar seu instinto e gerar cultura, no entanto o exagero de sentir-se dominador, de renunciar ao instinto e gerar mais progresso, mais civilização, levou-o a mais e mais frustração em não conseguir satisfazer sua busca primordial do prazer. A psicanálise freudiana consiste em aliviar essa tensão entre ego e superego, trazendo ao consciente os recônditos do inconsciente inatingível ao homem.

Reich constata que o inconsciente dificilmente atingido segundo Freud, se manifestava perceptivelmente através dos impulsos e sensações do meio vegetativo e de suas atitudes de caráter (a estrutura psíquica é estrutura biofísica), porém continuavam não conscientes ao próprio homem. Dentre os impulsos está a capacidade orgástica, que se constitui não somente do sentido sexual, mas na busca primitiva do prazer de estar vivo, de sentir-se integrado ao mundo e ao cosmos. O homem ao longo dos tempos foi perdendo esse contato até desembocar no mundo moderno, onde essa noção de prazer foi deturpada seja na exasperação pelo sexo, na coisificação da sensualidade, seja no desvio da sensação de prazer atrelada ao consumo. Ao substituir sua função sexual natural, o homem perdeu o contato consigo mesmo e adoeceu gravemente. A doença maior foi a repressão a que se submeteu e submete aos outros, criando uma contradição interior e gerando grande angústia. A formação do caráter, para Reich, é o conflito entre o instinto e o frustrante meio externo, gerando angústia. Para se defender, entre ele mesmo e o meio externo constrói os mecanismos de proteção do caráter.

Para o indivíduo os perigos exteriores foram diminuindo, na medida em que a civilização foi progredindo, porém com as guerras e as desigualdades sociais, a luta pela sobrevivência, hoje, se equipara aos tempos do homem primitivo. A inibição dos impulsos torna-se uma necessidade frente aos perigos e a ameaça de punição. Assim, quanto mais angústia atual se evita, mais angústia estásica se produz. Já os animais, de uma forma geral, tendem a se organizar socialmente, o que produz angústia atual, porém, salvo em casos de domesticação, não sofrem de angústia estásica.

Reich concebeu toda uma linguagem estruturada para explicar sua teoria. Para ele “estase”, que ele buscou na medicina, significa medo da excitação natural, do prazer de viver, do prazer do orgasmo, que gera angústia, angústia de orgasmo, ou mais propriamente medo da vida. Diante disso, o corpo cria uma atitude muscular, uma expressão do corpo, uma expressão de si, que foi classificada por ele em tipos, denominados “tipos caracterológicos”. Essa atitude muscular transforma-se em “couraça muscular”, modo de conduta na vida, desenvolvimento de sua própria existência. O ambiente é fator preponderante para a formação dessa couraça, porém, não se descarta o fator hereditário, sua própria história familiar e social. A couraça muscular manifesta-se nos “anéis” descritos por Reich como divisões do corpo e apresentando uma significação de ordem interior e exterior.

A respiração tem uma função primordial na vida humana, introduzir oxigênio e remover o dióxido de carbono e promover a combustão dos alimentos a fim de gerar energia para o bom funcionamento do corpo. Ela rege a absorção do ar, do alimento e das impressões que nos vêm de fora, tanto mentais como físicas. Quando a respiração é curta, temos menos oxigênio, menos energia, menos excitações vegetativas, daí mais controle, mais angústia e redução da produção de energia. A terapia reichiana se propõe a analisar o tipo de caráter, desfazer a couraça apresentada por meio dos anéis utilizando-se da respiração, permitindo assim que o indivíduo tome consciência de seu tipo, de seus medos, de seus bloqueios e travas corporais, respirando melhor e transformando seu próprio organismo.

Exponho aqui os tipos caracterológicos reichianos, pois eles mostram proximidade com personagens teatrais e suas contradições:
1. Caráter aristocrático – sem autocontrole extremado, um sentimento de inferioridade manifestado pela própria altivez, comportamento sádico.
2. Caráter histérico – tem uma conduta sexual evidente, demonstrada por meio de uma agilidade corporal, porém pode ter uma passividade e angústia, mostradas numa mudança de conduta inesperada. Nas mulheres coqueteria, nos homens cortesia excessiva e brandura.
3. Caráter compulsivo – tem uma preocupação pedante por ordem, não é afeito às mudanças, pode ser um bom funcionário, mas péssimo estadista, talvez um homem de ciência, é rígido e controlado, com freio afetivo, mostra-se superficial e minucioso. Tem avarícia, compaixão e sentimento de culpa.
4. Caráter fálico-narcisista – dizem os terapeutas ser este o caráter do ator! É arrogante, vigoroso, dominador, e tem porte atlético. Possui uma atitude defensiva escondendo tendências femininas, é agressivo aos outros. São atletas, aviadores, soldados, engenheiros, alcoólatras e toxicômanos.
5. Caráter masoquista – tem uma sensação crônica de sofrimento, tendência à compulsão e a torturar os outros, a lamentar-se, por isso tem auto menosprezo. Porém é refinado, tem ideias de grandeza, mas possui disposição à angústia e uma alta tensão interna.[4]

Os tipos descritos por Reich servem não somente como análise e leitura corporal, como também para composição de um personagem, na criação e na análise para atores, enriquecendo sua composição.

Após a análise dos tipos, os anéis reichianos serão preponderantes para a percepção de como devem ser trabalhadas as tensões, bem como a leitura de onde se forma a couraça muscular e onde ela está alojada. São eles: o anel visual envolvendo a respiração, ou seja, todas as impressões que nos vem de fora; o anel oral que trata da comunicação e da empatia; o anel cervical que mostra a direção e o tamanho do horizonte da pessoa; o anel peitoral que é a expressão das emoções; o anel diafragmático significando o medo e a ansiedade; o anel abdominal onde se aloja a coragem; e o anel pélvico que é a vitalidade do corpo.  

Embora o processo ao qual Plínio Marcos nos submeteu fosse ao contexto de um grupo de estudo místico, os exercícios eram, ao contrário, para nos fazer conscientes do corpo e presentes no nosso tempo e espaço. Pelos próprios princípios políticos e racionais de Plínio e de Reich, nosso grupo deveria ter “os pés no chão” quanto à abordagem mística, não deixando assim, que ultrapassasse o limite do mundo real. A respiração que fazíamos, proposta nos exercícios reichianos, nos colocava em contato com nosso mais profundo inconsciente, num efeito catártico. No contexto corporal a respiração nos trazia mais conscientes de nossas tensões e doenças. Mais tarde fui descobrir que havia passado por todos os exercícios de respiração de Reich com certo sucesso, o que me valeu como conhecimento aprofundado da sua teoria. Foi então que busquei a psicóloga e psicoterapeuta especialista em Reich Eliana Isola Rodrigues Silva, que foi quem me incentivou a pesquisar os exercícios voltados ao ator. Ela já atestava uma proximidade do processo de formação do ator e os exercícios de respiração, haja vista a liberação do processo criativo e o desbloqueio corporal que esses exercícios trazem. Então, fui à busca da terapia reichiana, a fim de me submeter e integrar um grupo terapêutico, após participar de um encontro da associação reichiana. A prática dos exercícios corporais e respiratórios foi intensa e meu objetivo era vivenciar, experienciar, mas também observar. Com o auxílio da terapeuta coordenadora pude discutir a técnica e assimilar melhor a técnica corporal, já que a respiração eu já dominara. Foi também na troca de impressões com a colega de curso e amiga, a atriz Cleide Queiroz, que meu interesse em Reich cresceu. Cleide sempre contava do uso das técnicas de Reich no teatro na década de sessenta, quando “da preocupação em se trabalhar o corpo do ator, da transição de um teatro de intervenção, revolucionário, para um teatro de interação com o público através do toque”.[5]  

Os exercícios reichianos provocavam uma alta e rápida tomada de consciência, incomparável com outras terapias as quais já me havia submetido. O corpo tinha de se mexer, exprimir-se, movimentar-se, porém sem tirar os pés do chão, sem sair do lugar, com os pés paralelos, abertos a uma distância um do outro, confortavelmente e que possibilitasse o equilíbrio do corpo. De olhos fechados, o corpo em movimento, a respiração consistia em inspirar de uma só vez, expirar em duas vezes, sendo a segunda como se empurrasse o ar dos pulmões para fora. Isso, segundo Reich, possibilitava a restauração do organismo, visto que quando respiramos no nosso dia a dia não expiramos suficientemente deixando que se acumulem toxinas e tensões que se transformarão em enfermidades das mais comuns às mais graves. Organicamente isso causa uma maior oxigenação do sangue e do cérebro consequentemente, ocasionando no início tontura e a expressão de fortes sentimentos, com o tempo alívio e sentimentos de prazer. Tomar consciência do corpo e de suas tensões, da respiração e das sensações que emergiam não foi um trabalho fácil, exigiu um estado de alerta, ao mesmo tempo em que propiciava a sensação de liberação das tensões. Acontece uma energização do organismo, todas as dores cessam, toda ansiedade desaparece, a mente fica completamente livre. Corpo e mente se “despoluem”, ao mesmo tempo em que se abastecem. Reich descreve que essa sensação é a mesma do orgasmo e que o orgasmo é o contato com a energia mais pura e primitiva do cosmos – a orgone, a energia da vida. A finalidade da terapia reichiana em si é a análise do caráter a fim de liberar afetos, primeiramente a cólera e a angústia que são mecanismos de defesa, dissolvendo as atitudes e produzindo novas reações no sistema nervoso.

Ao experienciar os exercícios de Reich pude perceber a importância do trabalho corporal para o ator. As mudanças ocorridas nos espetáculos seguintes foram perceptíveis e então me embrenhei mais e mais no desenvolvimento da consciência corporal do ator.

A abordagem do trabalho com o corpo do ator sempre foi equivocada. Quando iniciei no teatro, uma atriz deveria saber impostar a voz e ter perfeita dicção aprendendo canto lírico, assim como para a expressividade e preparo corporal deveria aprender dança moderna e expressão corporal que pouquíssimas professoras de dança sabiam dar como a mestra René Gumiel. É óbvio que todo o sistema utilizado deriva da dança, pois o teatro vem dela e carrega acentuadamente os meios de expressão da dança. Por isso, antes de um ator ser bailarino também, deve investir o seu tempo no seu preparo corporal e aqui vão inclusas voz e dicção, ou seja, trabalho com texto. O intelecto e as emoções são matérias do dia a dia do ator, que ele vai colhendo, observando e absorvendo. Laban ressalta que o trabalho corporal e o domínio do movimento são importantes para qualquer um, seja ator ou dançarino, pessoa comum ou cantor. Para ele corpo e mente pode produzir o que quiser, e é o pensamento que cria o movimento, “lê e reproduz o comportamento das pessoas através da memória do movimento real”.[6] Assim como para Klauss Vianna a consciência corporal é uma técnica a ser aprendida e desenvolvida, ela não é dada. Klauss, certamente, tenha tomado de Reich o desbloqueio corporal por meio da respiração e da consciência das articulações que são as responsáveis pelo movimento e pelo gesto.

A criança apreende o mundo por meio da imitação e se expressa por meio dos gestos durante muito tempo. Somente depois de conseguir armazenar o suficiente de impressões sensoriais, mentais emocionais é que se dá a expressão verbal. Se a história é processo, a história de cada um também é processo, um processo evolutivo, descoberto por Charles Darwin (1809/1882) não só em relação aos animais e plantas, como também em relação aos seres humanos que são parte da natureza. Ele estudou profundamente as emoções e suas expressões dos homens e dos animais dividindo-as em movimentos úteis, objetivos que executamos todos os dias e ações reflexas inconscientes. Os movimentos expressam sentimentos, guardam significados que se traduzem em gestos, individualizados e aprendidos.[7] O gesto, como já vimos, é o primeiro ato de comunicação do ser humano, ele aprende por imitação os seus significados exteriores, porém elabora, simultaneamente, o seu próprio conjunto de gestos para se expressar. Durante muito tempo ele se comunica com os outros por meio dos gestos. Como forma de melhor esclarecer o conteúdo do pensamento de Darwin, fiz esse resumo referente às observações de Darwin dos homens e dos animais e suas emoções e manifestações físicas:

GOZO – manifesta vontade de dançar, bater palmas, bater com os pés no chão. Um sorriso passa ao riso, é um sentimento de prazer, não é um ato reflexo. “O riso que oprime o peito”.
ALEGRIA – retrata uma pessoa de bom humor, traz a retração para cima dos extremos da boca, a tensão acelera a circulação, os olhos brilham, o rosto é mais colorido, sentimentos afetuosos mais expansivos, todo o rosto é arqueado para cima.
AMOR E SENTIMENTOS TERNOS – há o desejo de contato com a pessoa amada, entre mãe e filho, pois é hereditário. Beijo cordial, simpatia e afeto.
PIEDADE – manifestação de alçar o rosto para o céu, voltando os olhos para o alto, postura humilde, de joelhos, braços elevados, mãos juntas, pensamento absorto.
REFLEXÃO – mostra no rosto o franzir as sobrancelhas (músculo da reflexão) como expressão de obstáculo encontrado na fruição dos pensamentos, se manifestam desde a infância.
MEDITAÇÃO – é distração, o olhar mira o vazio, a reflexão vem acompanhada com o gesto de colocar a mão no rosto, na boca, na barba. Esses gestos são observados também em macacos.
MAU-HUMOR – no rosto aparece o franzir de sobrancelhas, depressão das extremidades da boca, lábio inferior para fora, contração dos músculos piramidais do nariz.
ENFADO – há elevação dos ombros, este ato se dá desde a infância até a idade madura.
DECISÃO – há oclusão enérgica da boca, cerrar a boca, parar de respirar.
ÓDIO – manifesta-se como rigidez geral na atitude.
FUROR – aparece um rubor da pele do rosto.
CÓLERA – aparece o franzir as sobrancelhas, olhos brilhantes, bem abertos, dilatação das cavidades nasais, retração lateral dos lábios mostrando um pouco os dentes, como se ameaçasse o adversário de mordê-lo.
INDIGNAÇÃO – há respiração acelerada, boca cerrada, posição de desafio e ataque, os pés apoiados solidamente no chão, peito comprimido, cabeça se levanta; furor, cólera e indignação têm expressões iguais no mundo inteiro.
No ar de desafio mostra o dente canino de um lado como o cão, ocorre também no mau-humor.
DESDÉM E DESPREZO – há alternância e diferenciação, elevação do nariz e do lábio superior (relinchar e expirar), impressão de odor desagradável, enrolar várias vezes um objeto com as mãos.
DESGOSTO – o desprezo e o desgosto ao extremo são igual à repulsão, o que não agrada ao gosto, aos sentidos está ligada ao odor e à alimentação, a boca abre diversas vezes como se fosse vomitar, o que significa repugnância.
CULPABILIDADE – há olhares furtivos, de um lado ao outro, também ocorre na astúcia.
ORGULHO – apresenta rigidez corporal, “inchaço”, dentes cerrados.
IMPOTÊNCIA E PACIÊNCIA – encolhimento dos ombros (não posso fazer nada), sobrancelhas se levantam, braços dobrados, mãos e boca abertas.
AFIRMAÇÃO E NEGAÇÃO – há censura, mover lado a lado a cabeça.
SURPRESA – sobrancelhas levantadas, olhos abertos, boca também, lábios salientes, atenção súbita muito próxima ao terror, mãos acima da cabeça ou na altura do rosto.
ADMIRAÇÃO – há surpresa, prazer e aprovação.
TERROR – eriçamento dos cabelos, dilatação das pupilas, contração dos músculos cutâneos (parte lateral do colo até a clavícula e até a orelha é o músculo do espanto).
HORROR - é também precedido de surpresa – boca aberta, sobrancelhas levantadas, coração disparado, peito levantado, suor frio. Grito de horror, grande sofrimento, tortura, agonia, os braços se lançam para frente.

O sistema Delsarte (François Delsarte 1811/1871) se baseia nesses princípios darwianos, estudando o gesto do ponto de vista do movimento fisiológico, onde “o corpo é o instrumento, o ser o instrumentista e a ação principal é a ação muscular”.[8] O seu sistema é descrito minuciosamente por A. Giraudet, amplamente exemplificado por ilustrações, sendo ele famoso por agrupar regras e sistemas para a mímica. Sabe-se que a França tem forte tradição no campo da expressão corporal, haja vista a continuidade de Decroux, Barrault e Lecoq, seja na pesquisa, no ensino ou na atuação.
 
Decroux, responsável pela expressão corporal do Vieux-Colombier ressalta que devemos escutar nosso “texto interior”, nossos sentimentos, nossos pensamentos e nosso corpo, pois a mímica é a arte do silêncio. Para Barrault, que sempre foi preocupado com o trabalho corporal do ator, há três elementos da linguagem corporal: a atitude, o gesto e a indicação. O gesto é uma frase carregada de significados que são elaborados na atitude que se tem diante do personagem. [9]

Yoshi Oida chama a atenção em seu livro ao descrever que no Ocidente não é usual o trabalho com o corpo e confessa desconhecer o que seja improvisação, assim que integra a companhia de Peter Brook. Porque o teatro oriental é todo ele baseado em “códigos” e “formas”, e cada papel tem o seu código (katá) que é aprendido com um mestre. Esses códigos são predominantemente corporais.[10] A identidade de Oida com o trabalho de Brook se faz porque para ambos transmitir verdades, enquanto atores é ter o corpo em prontidão e como instrumento de uma inteligência rápida. A improvisação, para ele, é uma técnica “difícil e precisa”, contrariamente ao que se entende como um exercício de espontaneidade pressupõe treinamento e fundamentalmente “senso de humor”.[11] Para Eugenio Barba, que também trabalha com atores do mundo todo, não se trabalha o corpo, mas a energia desse corpo deve-se negar a atitude usual, se permitir utilizar outra ação, outro modo. Essa é a essência da sua teoria do corpo dilatado que pressupõe mente dilatada, uma mudança de consciência que permite “superar a inércia e a monotonia da repetição”.[12]

O método da Commedia dell’Arte, segundo Anton Giulio Bragaglia (1890/1960) na introdução do livro de Andréa Perrucci, é da “improvisação predisposta”, não se origina dos primeiros histriões etruscos vindos a Roma, mas do próprio temperamento italiano. Do trabalho na praça pública, do impulso e da necessidade da ocasião, o improviso é a raiz do verdadeiro teatro popular. O teatro, para ele, é para se fazer, não para se falar e se funda na prática. Nesse primeiro tratado para o ator feito por um ator-professor, Perrucci descreve a divisão entre representar com um texto previamente ensaiado (rappresentare premeditato) e representar improvisando (rappresentare all’improvviso). A primeira torna-se mais fácil, pois há a segurança da total preparação do texto, da voz, da memória, do gesto e das ações. Os atributos da representação improvisada são que ela é sempre feita através da comédia, é difícil e perigosa, pressupõe o domínio da arte retórica, pois se tem de dar conta do texto como se fosse um poeta, ter habilidade de criar uma grande variedade de personagens. São necessários também o domínio do idioma e da linguagem, uma aguçada imaginação e o encadeamento e domínio perfeitos dos sentimentos a serem expressos. Tudo isso somente é possível, porque se cria um roteiro (soggetto) do que o ator fará e são marcados os truques também pré-armados (lazzi).[13]

A ênfase está na ação dos personagens, o grande exercício é construir um encadeamento de ações com determinadas atitudes que guardam emoções, para poder surgir gestos e movimentos. Por isso, os personagens da Commedia dell’Arte são classificados por meio do que fazem, mais do que suas definições emocionais, são tipos definidos por suas ações.

Chaplin além de ter sido ator de cinema, também foi de teatro e pode servir de exemplo como domínio da expressão corporal, da disponibilidade corporal, do domínio da improvisação, como meio de criação do ator. Todos os seus filmes, mesmo aqueles com falas, mostram claramente sua técnica aguçada do palhaço e do acrobata que foi do bufão irreverente, do mímico, do comediante e do ator. O Vagabundo (The Tramp – 1915) foi o sexto filme de Chaplin e o primeiro a apresentar o personagem de Carlitos caracterizado pela dignidade e nobreza de caráter. Porém, dos filmes de Chaplin, talvez, o mais simples deles – Carlitos Noctâmbulo (One A. M. - 1916) retrate fielmente o domínio corporal e o tempo de comédia do personagem Carlitos. O cenário é de uma casa e Carlitos, sozinho, entra bêbado de madrugada, tem dificuldades para entrar em casa, para subir a escada, para se servir do último gole de bebida e para deitar-se. Com ações simples e cotidianas, ele enriquece a cena transformando-as em batalhas a serem vencidas, alterando o significado de cada simples ato, pelos imprevistos que acontecem e das acrobacias feitas por ele em estilo circense.

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Somente no século XIX e XX é que o riso toma seu lugar como gênero no Brasil e não como designação aristotélica oposta à tragédia. Sendo preferência da arte popular, ele sempre foi considerado menor, pouco elaborado, afeito a atores “menores”, como se a tarefa de fazer rir fosse muito fácil. A arte de fazer graça é privilégio de poucos, é de atores que possuem um desprendimento tal que se permitem, sem pudor, tornarem-se ridículos, risíveis e engraçados.

É errado afirmar que após os “autos” de Anchieta, 1565, não houve teatro até a “Casa da Ópera” em 1767 no Rio de Janeiro. Tivemos nosso teatro colonial, seja cenicamente, seja literariamente. Talvez por não fazer parte do Rio de Janeiro, mas sim da Bahia e de Pernambuco, esse teatro tenha sido esquecido.
       
Nossa herança brasileira é cômica, segundo Sussekind e Martins Pena é o consolidador definitivo. A comédia com Pena, com sua “maneira”, seu estilo genuinamente brasileiro, retratando a roça e a cidade em diálogos precisos, inaugura a comédia de costumes.[14]

Existem várias versões para a origem da comédia, porém a mais cômica é a descrita por Leone de’Sommi: os camponeses de Atenas foram os primeiros a representar comédias, pois eram “ultrajados por seus superiores”, então andavam em grupo pelas esquinas falando mal dos governantes. O povo gostou e começou a frequentar esses lugares para ouvir falar mal dos outros.[15] Estamos até hoje fazendo sucesso ao falar mal dos outros e gostando de fazer comédias.


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[1] REICH, Wilhelm. A função do orgasmo. SP, Brasiliense, 16ª ed., 1990
[2] REICH, Wilhelm. Analisis del caracter. Buenos Aires, Ed. Paidós, 1965
[3] Ver FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Coleção Os pensadores, SP, Abril Cultural, 1978
[4] REICH, Wilhelm. Analisis del caracter. Buenos Aires, Ed. Paidós,1965, pgs. 193 a 219
[5] Esse estilo foi marcado pelo Grupo Rito do Amor Selvagem. Entrevista concedida em 11/10/2003.
[6] LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. SP, Ed. Summus, 1978, pgs. 131 e 36
[7] DARWIN, Carlos R.. La expresión de las emociones en el hombre y en los
    animales. 2 volumes, Valencia, F. Sempere y Cia Editores, s/d, pg. 36

[8] GIRAUDET, A.. Mimique, Physionomie et Gestes. Paris, Librairies-Imprimeries
     Reunis, 1895, pg. 11

[9] BARRAULT, Jean-Louis. Nouvelles Réflexions sur le théâtre. Paris, Flamarion, 1959, pg. 74
[10] OIDA, Yoshi. O ator invisível. SP, Beca Produções Culturais, 2001, pg. 112
[11] BROOK, Peter. O ponto de mudança. RJ, Civilização Brasileira, 1994, pg. 148
[12] BARBA, Eugenio. Il corpo dilatato. Roma, La Goliardica Editrice Universitaria di Roma,
    1985, pg. 19

[13] PERRUCCI, Andréa. Dell’arte rappresentativa premeditata ed all’improvviso.
    Firenze, Edizione Sansoni Antiquariato, 1961, pgs 111 e 112

[14] MENDONÇA, Carlos Sussekind de . História do Teatro Brasileiro, RJ, Mendonça Machado e Cia, 1926, pgs. 227 e 235
[15] SOMMI, Leone de’. (Org. J. Guinsburg) Um judeu no teatro da renascença
     italiana. SP, Ed. Perspectiva, 1989, pgs, 64 e 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Capítulo 2 - primeira parte


As bases para minha proposta


As bases para minha proposta foram encontradas na busca e estudo constante e no meu exercício como atriz no Teatro Popular do Sesi (TPS), companhia estável em São Paulo, ao longo de vinte anos ininterruptos. A atuação numa companhia estável permite que se pesquise e se experimente toda uma gama de técnicas e estimula o estudo e o aprofundamento da profissão de atriz, propiciando, com isso, uma análise constante. Em meus estudos buscava uma pré-preparação para o ator, algo que o estruturasse para esse trabalho diário e repetitivo, fazendo com que ele não se tornasse mecânico, mesmo depois de dois anos de representação de um mesmo personagem. A observação e constatação de que nos moldes do TPS quase todos os atores se deixavam levar pela mecanização fez com que eu aprofundasse a minha busca. 

A teoria de Stanislávski foi sempre o alvo preferido de modificações tanto de diretores como também de professores, sendo fracionada ou reduzida, tornou-se a base de todo curso de preparação de atores e foi a formação da grande maioria dos atores brasileiros. Não se questiona aqui o mérito ou demérito das interpretações, porque algumas foram feitas adaptando-se ao objetivo a ser alcançado ou visando o enquadramento à cultura na qual a teoria iria se desenvolver. O assim chamado “método” Stanislávski constitui-se de um sistema fechado para a formação do ator que diretamente irá criar o seu personagem, ou seja, um papel determinado, por isso é chamado originariamente de sistema. Porque, a criação de um personagem pressupõe uma montagem, dentro de uma peça determinada obedecendo a uma linha dada por um diretor. Foi inclusive desse modo que Stanislávski criou o sistema, dentro de um teatro com um elenco e com textos de Tchekov. Acredito que nunca tenha havido um sistema tão eficiente para o ator, tão completo e tão rico que consiga abranger o físico, o emocional e o intelectual do ator. A abordagem brasileira do sistema, porém, foi sempre focada mais na análise da psicologia do personagem, no aspecto emocional do papel e assim quase todos os atores aprenderam a representar, aliando a intuição e improvisação natas do ator brasileiro. Nossa adaptação brasileira, embora seja eficaz, esqueceu-se de que Stanislávski deixou-nos um sistema completo que privilegia o desenvolvimento global do ator.

Em sua teoria há o termo muito utilizado de “viver o papel” que para nós sempre foi tomado como encarnar o personagem. Na sua raiz o significado de tal expressão é acreditar, vivenciar, experimentar uma nova forma de expressão que é o personagem, não ter medo de tomar o corpo como alicerce para a representação. Utilizar-se da imaginação, construir um propósito para a ação, que é o cerne da atuação, por meio do “se” que cria hipóteses para o personagem. A concentração da atenção na criação e antes de tudo no mundo a sua volta é o verdadeiro material do ator. As “ações físicas” que dentro de circunstâncias dadas exercem influência na emoção adquirindo significados novos e não ao contrário. Fazer uso da memória das emoções como acessório e não como regra única.

Como um sistema extremamente organizado, existem as “bandeiras” levantadas por Stanislávski que são:

A “psicotécnica” – que é o estado interior criador envolvendo o sentido de verdade, a memória afetiva, a atenção, a imaginação, as unidades da peça e os objetivos. O super objetivo que é a perspectiva do personagem dentro da peça e o seu propósito final. É ter lógica e coerência de sentimentos para uma boa caracterização interior.

A “técnica exterior” – que consiste no relaxamento dos músculos, treinamento expressivo do corpo, desenvolvimento da plasticidade, treinamento da voz e fala e do ritmo externo ou tempo. É ter lógica e coerência nas ações físicas para uma boa caracterização exterior.[1]   

Boleslavski, aluno de Stanislávski, condensou com muita propriedade o sistema de seu professor e baseia-se em cinco princípios retratados em seis lições: a concentração, a memória da emoção, a ação dramática, a observação e o ritmo. Numa linguagem simples expõe uma proposta de iniciação para o ator.[2] Já Michael Chekhov expõe mais detalhadamente o processo interior do ator através de exercícios.[3] Stela Adler adaptou o sistema a sua realidade, enfatizando e incorporando a importância da função social do ator.[4] Com Lee Strasberg o sistema foi formalizado e recriado como o método, fazendo grande sucesso nos Estados Unidos da América (EUA) por trazer em seu âmago o estilo naturalista de representar que serviu e serve ao cinema, assim como ao teatro, como fórmula infalível e rápida para a criação de um personagem.[5]

Em nenhum momento, em nenhum dos textos de Stanislávski, ou de seus discípulos e alunos mais próximos, encontra-se menção para atirar-se ao personagem, deixar-se levar por ele. Encontra-se sim um roteiro minucioso e cuidadoso para a preparação e criação do ator, no qual são trabalhados organicamente a emoção, a ação e o pensamento. Portanto, conclui-se que o sistema requer, para compreendê-lo inteiramente, um alicerce intelectual, um conhecimento profundo de psicologia e de literatura dramática, embora, por outro lado, seja simples exatamente pelo fato de ser um sistema em que tudo é interligado. Um sistema deve ser respeitado e estudado em todas as suas partes, pois a sua fragmentação padece de ser interpretada como a parte significando o todo.

 

Iniciei no teatro fazendo teatro, trabalhei com grandes atores e atrizes e um grande diretor (Osmar Rodrigues Cruz), os quais foram meus mestres, mesmo aqueles que me ensinaram como não fazer teatro; enfim o palco foi minha escola. Para não ficar em desvantagem tive de estudar as grandes técnicas e a minha base foi também o sistema de Stanislávski, pois todos representavam pelo método. Acredito que como todos os atores assimilei o método pelo seu aspecto psicológico e a memória das emoções tornou-se mágica para mim, usei e abusei dela indo buscar situações, às vezes extremamente profundas para recriar no palco. Era um suicídio psicológico, uma dilaceração cruel e masoquista, mas que surtia um resultado extremamente satisfatório. Por vezes, ficava coletando imagens, na rua, nas revistas, na televisão, que se relacionavam com o meu papel, num processo maníaco. Eu encarnava o personagem literalmente, todos gostavam muito! Porém, um dia adoeci por isso. Sempre representei os personagens de crianças e adolescentes, ingressei no teatro com dezessete anos e sempre tive um tipo magro e de estatura baixa. Esse processo de criação mergulhado na pesquisa da memória foi muito eficiente porque tinha próxima de mim uma infância e adolescência rica em conflitos. Quando representei crianças, como o Juquinha de O Noviço de Martins Pena, era como se aquela felicidade infantil, leveza e traquinagens se introjetassem. Em O Poeta da Vila e Seus Amores de Plínio Marcos aquela Lindaura menina apaixonada por Noel Rosa foi um mergulho incrível na pré-adolescência e toda essa loucura surtiu tanto resultado que ganhei mais falas do autor! Até chegar à também pré-adolescente Ritinha de Onde Canta o Sabiá de Gastão Tojeiro. Bem, eu já completara trinta e três anos, os meus vinte anos já haviam passado sem percebê-los e eu achava um grande desafio fazer essa “moleca” no palco. Sempre tive uma grande preocupação com a preparação corporal, quanto a isso não era problema. Então, fiz um mergulho ainda mais profundo na minha memória, nos tempos de colégio, dos namoricos, observando as adolescentes na rua, seu comportamento irrequieto, seus hormônios em ebulição. Três meses de trabalho delicioso na criação de Ritinha, de repente constatei que há dois meses não menstruava, meus seios estavam pequenos, meu quadril afinara, para alegria do figurinista que não tinha de esconder nada nos “vestidinhos” da Ritinha. Meu corpo já não era o de uma mulher de trinta e três anos. Fui ao médico e ele constatou as alterações físicas visíveis e, através de exames, constatou alterações internas, mas nada patológico. Diante disso, não me prescreveu nenhuma medicação e pediu-me que aguardasse mais um mês. Como estava em vésperas de estréia achei ótimo não ter de ingerir nenhuma medicação e aproveitei para entregar o convite para ele, grande apreciador das montagens do TPS. Após a estréia retornei ao consultório e ele estupefato disse-me que havia encontrado a causa para o meu “distúrbio”. Quando me viu no palco ele não acreditou que eu fosse a mesma mulher que ele sempre via, eu era “realmente” a Ritinha! Nesse momento ele se lembrou de casos de gravidez psicológica em que existem reações físicas e associou ao meu caso no sentido contrário. De tanto me preocupar em criar com verdade, de ser o personagem, enfim, de encarnar a Ritinha, eu havia mandado uma mensagem ao cérebro de interrupção e regressão do processo natural do corpo adulto, pois pré-adolescentes da época da peça não menstruavam! Fiquei estupefata, já havia lido sobre casos assim, mas não acreditava que tudo aquilo estivesse acontecendo comigo. Como ele havia me indicado uma conversa com um especialista, fui buscar um amigo, médico-psiquiatra que fora meu colega na Filosofia. Ele confirmou a opinião do médico, inquiriu-me sobre o meu processo de criação, e como ele havia assistido ao espetáculo, aconselhou-me a buscar o caminho de volta no meu inconsciente reafirmando a condição real e presente. Esse era um caso de identificação profunda, quase uma transferência de personalidade, no jargão freudiano, no meu caso um início de uma patologia que se centra na idéia de não querer ser adulto, de voltar a ser criança. Fiquei muito assustada com o que havia feito, questionei-me quanto ao meu talento, me perdi em pensamentos, mas fiz o que ele mandara e curei-me!

Após a observação em mim mesma dos danos obtidos por uma identificação exacerbada com o personagem, bem como de uma leitura errônea do método, comecei a observar os outros atores e aqueles que padeciam e já padeceram desse mal. No teatro os casos eram sempre contados com glória e certo orgulho pelo personagem ter se incorporado tão bem e dos resultados no palco, sem sequer tomar conhecimento do restante da representação! Na televisão, onde essa vivência do personagem é atrelada ao sucesso imediato, é mais evidente o dano que isso faz ao ator/atriz, tornando-o quase uma cópia fiel do personagem e tomando as ações deste para ele mesmo, fazendo da sua vida a vida do personagem. Quanto mais sucesso mais incorporação, mais vivência do personagem, mais confusão interior. Psicologicamente a maneira de pensamento e expressão se alteram, denotando alteração no comportamento. Se as emoções do personagem são violentas e ainda são assimiladas, por serem as mais primitivas no ser humano, mais são expressas na vida cotidiana do ator.

Portanto, a necessidade de se conhecer, de saber de seus limites, de poder discernir e saber identificar o personagem e separar-se dele, são primordiais para uma atuação saudável. Quanto mais se tem o conhecimento e o domínio de si mesmo e de sua psicologia, mais se poderá dar ao personagem, mais poderá fazer para a sua construção ser perfeita. O equilíbrio de si mesmo é que pode trazer realidade ao personagem, pois é com inteligência, emoção e intuição que se pode construí-lo, não somente procurando dentro de si mesmo o que mais se parece com o personagem e pronto. Isso é fácil, porém perigoso e danoso à saúde mental de qualquer ator/atriz, os fatos expostos todos os dias nos jornais atestam bem os resultados equivocados dessa identificação doentia.
   
Depois da tempestade fui à busca de um método que havia lido há muito tempo, porém não havia me aprofundado por não ser usado no Brasil. Fui à busca de Bertolt Brecht. Resolvi reler e estudar toda a sua obra dramatúrgica e teórica, biografias, comentaristas, aprofundando-me no seu estudo para o ator. Não que tenha renegado Stanislávski ou deixado apartado seu sistema, pelo contrário, ao estudar Brecht voltei-me a ele com outros olhos, pois Brecht o toma como base. Constatei apenas que não se pode paralisar em uma só técnica, num só sistema. Talvez esse tenha sido o meu erro e de muitos outros, mas serviu como incentivo a uma busca incessante.

Se em Stanlislávski o que domina é o naturalismo, em Brecht encontramos o realismo. Para poder entendê-lo precisamos buscar Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770/1831) e Karl Marx (1818/1883), pois sua teoria vem diretamente dos estudos de Hegel, que também influenciou Marx. Resumidamente, a dialética hegeliana tem como princípio que o homem somente reconhece o mundo material, exterior a ele, sendo acessível à sua consciência, por meio do conhecimento e assim esse mesmo mundo torna-se receptivo à sua influência. Esse mundo, o mundo material, é a realidade, o real, onde o homem sofre sua influência, apreende por meio do conhecimento e é inserido na história. O processo é sempre de mudança da realidade, mudança constante efetivada no ir e vir de conhecimento e influência, de apreensão e interferência, resultado de conflito e luta. O homem estando inserido nessa realidade, no mundo, reflete o processo e mudança desse mundo em si mesmo, através do desenvolvimento de sua consciência e é fator preponderante de mudança de si e da realidade que o rodeia. O desenvolvimento cada vez maior de sua consciência na realidade produz liberdade e o afasta da mera necessidade do meio que o rodeia. Ele pode agir nesse meio, pode influenciá-lo, pode pensá-lo e assim age dialeticamente. Foi nessa essência da dialética hegeliana que a filosofia marxista se baseou criando um sistema de pensamento e de economia.

O teatro de Brecht é um vasto campo que inclui dramaturgia, teoria e técnica para o ator, alicerçados na dialética hegeliana-marxista, portanto numa filosofia que inclui uma visão da história como processo e do homem como fator de mudança da realidade. Para tanto concebe uma técnica para o ator que pressupõe uma nova visão de mundo, o ator para Brecht tem de ser, antes de tudo, um homem consciente de seu lugar no mundo, compreendendo e conhecendo a história como processo e afeito a produzir mudanças. Sem conter no seu cerne essas prerrogativas, dificilmente ele poderá assimilar a teoria e técnica brechtianas. O teatro transforma-se em meio de mudança e transformação da sociedade, por isso a obra de Brecht é global, é mais do que um sistema no qual dramaturgia, teoria e técnica estão interligadas.

Ao conceber o seu maior texto teórico, Pequeno Organon [6], toma como base para a sua antítese a Poética de Aristóteles criando um sistema antiaristotélico onde preconiza a não identificação do ator com a platéia, rejeitando a empatia e, conseqüentemente, a identificação da platéia com o ator por meio da catarse aristotélica. Toma de Hegel o princípio do estranhamento, pois a realidade de tão conhecida torna-se desconhecida para nós. Ao buscar esse distanciamento Brecht se remete a Diderot, o qual sobrepõe a inteligência à sensibilidade, propondo que o ator não viva inteiramente o papel.[7] Brecht percebe isso e toma dele o germe que já havia da teoria do distanciamento. Muitos teóricos, diretores e atores se opuseram ao conceito de estranhamento ou distanciamento, pois viam nele uma anulação completa da emoção. Constata-se que não se trata disso, o ator pode preparar seu papel e estudar a sua psicologia, buscar as emoções do personagem, porém terá, primeiramente, de fazer uma leitura crítica e objetiva de seu personagem, situando a sua função social dentro da peça. Brecht não veio para anular, mas para acrescentar, somar à técnica do sistema. Senão seria estranho que ele buscasse em Vakhtângov, aluno de Stanislávski, muitos de seus conceitos para o ator. Vakhtângov privilegia a ação, a atuação sobre o sentimento, para ele toda a ação no palco deve ter como base o “real, imediato e concreto”, como os atores da Commedia dell’Arte que eram próximos da realidade do seu público, facilitando com isso as bases do improviso.[8] Daí a necessidade de o ator estar inserido e participante em seu meio, na sociedade em que vive, pois é dela que retira seu material para criação. Se o ator, por outro lado, toma o personagem e sua criação de forma passiva, está se alienando da sua verdadeira função que é a criação, a ação e a transformação. A alienação é a anulação da própria humanidade do homem, separando-o da natureza, não compreendendo o mundo como transitório, em constante mudança e movimento, assim como o próprio ser do homem, como a arte do ator e tudo o que faz parte desse mundo.  

Nessa atuação consciente inclui-se o “gestus” do ator e do espetáculo como um conjunto que inclui a atitude corporal, voz e expressão dentro do espetáculo. É como se o ator concebesse seu personagem de fora para dentro tomando por base o meio social deste, “citando-o” e não reproduzindo suas atitudes corporais. Sabemos que pessoas de meios sociais diferentes, pensam, sentem e agem de forma diferente, embora sejam iguais em essência. Porém, o meio social as molda de forma diversa, através do trabalho que exercem, do bairro onde moram, de tudo aquilo que fazem, muito mais do que sentem ou pensam, pois pensar e sentir, na verdade, são produtos do meio social em que vivem.

Portanto, o conhecimento profundo da natureza humana, da interioridade de si mesmo, antes até de ser ator, proposta por Stanislávski como exercício à preparação do ator, se completa ao conhecimento e consciência social de ser no mundo em Brecht. Não se percebe cisão, mas complementação, sendo alicerces seguros e confiáveis.     



[1] STANISLAVSKI, Constantin. Construção do Personagem. RJ, Civilização Brasileira, 1970, pg. 287
[2] Ver BOLELAVSKI, Richard. A arte do ator. SP, Ed. Perspectiva, 1992
[3] Ver CHEKHOV, Michael. Para o ator. SP, Ed. Martins Fontes, 1996
[4] Ver ADLER, Stella. Técnica de representação teatral. RJ, Civilização
    Brasileira, 1992

[5] Ver STRASBERG, Lee. Um sonho de paixão. RJ, Ed. Civilização Brasileira, 1990
[6] Brecht, Bertolt. Teatro dialético. RJ, Civilização Brasileira,1967, pg. 181

[7] Ver DIDEROT, Denis. Paradoxo sobre o comediante. Coleção Os
    Pensadores, SP, Ed. Abril, 1979

[8] GORCHAKOV, N.. Lecciones de regisseur Vajtangov. Buenos Aires, Editorial Quetzal, s/d, pg. 21

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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Capítulo 1 - segunda parte



O primeiro ator que rompeu com o passado da arte de representar, abrindo o caminho 

para o romantismo e o realismo foi François Joseph Talma (1763/1826). Influenciou o 

teatro inglês e francês, pois preconizava um estudo histórico do papel. No longo prefácio, 

das Memórias de Lekain, Talma enfatiza que a “linguagem teatral deve ser natural e 

verdadeira” e se “a sensibilidade fornece os objetos, a inteligência os coloca em ação”.[1] 
Lekain (Henri Louis Cain 1728/1778), nessa obra, ressalta a importância do texto, do 

idioma, da boa declamação, haja vista o lugar de destaque, em suas memórias, para o 

estudo dos textos que representava. Enquanto ator comediante, Benoit Constant Coquelin 

(1841/1909) especializou-se em representar os criados das peças de Molière, personagens 

que tem em sua estrutura elementos da Commedia dell’Arte. Segundo Cole[2], já nessa 

época, Coquelin estudava seus personagens primeiramente fazendo várias leituras da peça 

toda, localizando a sua posição no contexto da peça, historicamente, psicologicamente e 

moralmente, deduzindo daí seu aspecto físico e seu gestual.

Na França, os intelectuais ainda motivados pelos ideais iluministas e desejando uma mudança da ordem opressora fizeram a Revolução Francesa que inaugurou os princípios de cidadania burguesa. Na Inglaterra, a arte dramática passou por uma revolução, através da atuação de Garrick que foi o início do naturalismo e da iluminação a gás nos teatros. Surgiu na Dinamarca o conceito de teatro nacional cujos patronos eram ainda reis absolutistas. Na Itália, Carlo Goldoni sistematizou a Commedia dell’Arte e renovou a dramaturgia do teatro italiano.

Da metade para o fim do século XVIII, surgiu Gotthold Ephaim Lessing e sua obra Dramaturgia de Hamburgo, também implementou o teatro nacional na Alemanha. Surgiu um movimento reativo ao iluminismo, o Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), inspirado nas idéias do homem natural de Jean Jacques Rosseau (1712/1778), nos quais o sentimento deve suplantar a razão. Johan Wolfgang Von Goethe (1749/1832) poeta, encenador e ator, em seu romance Wilhelm Meister, sobre a vida de um ator, tece algumas considerações que se aprofundam em Rules for Actors, concebendo um sistema fechado e extremamente rígido para a atuação. Friedrich Schiller (1759/1805) em seu texto Teoria da Tragédia defende a idéia do teatro como meio de desenvolvimento e educação do homem.

Inspirado na obra de Richard Wilhelm Wagner (1813/1883), Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844/1900) escreveu O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, que contém indicações para o teatro, visto que a ópera vem do teatro. Em 1848, foi escrito o Manifesto Comunista, por Marx e Engels e, em 1867, O Capital, por Marx, que inspiraram a revolução proletária de 1917 e influenciaram o teatro também.

George II, Duque de Saxe- Meininger (1826/1914), foi o grande incentivador de um grupo de atores que levou perfeição e habilidade, talento e dedicação, na arte de representar, a toda a Europa. Era o próprio Duque quem desenhava os elaborados figurinos e cenários que tanto encantaram Stanislávski. Foram eles também os responsáveis pelo desenvolvimento da interpretação e da concepção teatral naturalista.

A “Divina Sarah” (1844/1923) como era chamada, representou os clássicos franceses com maestria, excursionou por todo o mundo, inclusive pelo Brasil, levando a arte que era a sua vida. Estudou no Conservatoire de Paris, famoso no século XIX, e foi prontamente contratada pela Comédie Française, por sua inteligência e energia. Deixou-nos um livro teórico no qual preconiza os princípios da interpretação naturalista e um estudo detalhado sobre as personagens femininas de Corneille e Racine.[3]  

Criador do Théâtre Libre, André Antoine (1858/1943) foi ator amador e diretor e se opunha ao estilo formal de representar do Conservatoire e desejava que a arte de representar fosse o estudo da verdade, da observação e da natureza. Publicou um manifesto, Le Théâtre Libre, em 1890, profundamente influenciado pelo estilo dos Meiningen, onde expõe suas idéias e conceitos acerca do ator.

Ator, diretor e grande encenador, Max Reinhardt (1873/1943) iniciou sua carreira no Teatro Municipal de Salzburg. Inspirado no exemplo grego de participação de todos os cidadãos no teatro, cria um grande festival de teatro. Foi responsável pelo verbete ator da Enciclopédia Britânica (edição de 1929) em que inicia dizendo que é pelo ator, e ninguém mais, que o teatro continua.

Jacques Copeau (1878/1949) antes de tornar-se ator, estudou na Sorbonne e foi crítico teatral na Grande Revue. Em 1913 compra um pequeno teatro na Rue du Vieux Colombier e junto a Charles Dullin (1885/1949) e Louis Jouvet fundam um teatro experimental, onde são desenvolvidos exercícios para a preparação do ator em todos os sentidos, dando-se ênfase aos exercícios corporais, a dança e a improvisação. As idéias de Gordon Craig (1872/1966), Etiènne Decroux (1898/1991), Barrault, Émile Jacques Dalcroze (1865/1950) e Antonin Artaud (1896/1948) influenciam as diretrizes do Vieux Colombier. Copeau tornou-se diretor e fez uma revolução na arte de representar quando escreveu o manifesto do Vieux Colombier, texto que expõe seu desejo de criar uma arte de qualidade com atores formados de maneira integral em bases as mais diversas, desde a ênfase no jogo de tensões de Decroux até o teatro da crueldade de Artaud com sua ação curativa, pura e simples .

 

Junto a Charles Dullin, Louis Jouvet (1887/1951) foi um dos discípulos de Copeau. Trabalhou como ator e colaborador no Vieux Colombier. Escreveu Reflexions du Comédien em 1938, porém atuou mais como diretor; seu olhar para o ator, embora tenha sido ator, é mais de um diretor. Para ele, há uma divisão clara entre ator e comediante, sendo o segundo mais completo, haja vista os atores da Commedia dell’Arte.

Aluno de Charles Dullin e parceiro de Etiènne Decroux, Jean-Louis Barrault (1910/1994) trabalhou como ator e professor no Vieux Colombier. Seu conceito de um teatro total, o teatro do silêncio e da palavra, da pantomima, da dança e do canto é exposto em seu livro Nouvelles Réflexions sur le Théâtre. Sua proposta dá grande ênfase à respiração, que para ele é a grande responsável por tudo, desde uma contração muscular, passando pela voz, transformando-se internamente em emoção e expressando-se no gesto, na atitude corporal e no movimento.[4]  

 

Em 1897, em Moscou foi criado o Teatro de Arte de Moscou por Konstantin Sergeievitch Stanislávski (1963/1938) e Vladimir Ivanovich Nemirovich-Danchenko (1858/1943). Stanislávski criou seu sistema enquanto a nata do teatro soviético estava a serviço da revolução: Vsevolod Meyerhold (1873/1940), Eugeni Vakhtângov e Aleksander Iakovlevitch Taírov (1885/1950). Porém, Stanislávski não concordava inteiramente com os preceitos e a nova ordem social, cultural e educativa para o teatro. Então Lunatchárski – Primeiro Comissário do Povo para a Educação e seu amigo pessoal promoveu uma excursão da companhia do Teatro de Arte pela Europa e América. O seu “método”, ao menos de encenação, se dissemina e se expande. Michael Chekhov (1891/1956), sobrinho de Anton, foi o primeiro a levar alguns conceitos de o “método” para os EUA por volta de 1930. Na antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) Meyerhold, segundo Cole[5], “promulga” o teatro teatral criando a bio-mecânica, influenciado pela teoria da associação de Pavlov, acreditando ser o diretor um “escultor de modelos”.

Eugene Vakhtângov (1883/1922) discípulo de Stanislávski vai inspirar Brecht (será citado em seu Diário de Trabalho), pois já preconizava os princípios do estranhamento para o ator. Foi a época da dança, da música e da iluminação no espetáculo teatral. As teorias de Adolphe Appia e Gordon Craig revolucionam a cenografia e a encenação, atingindo também a interpretação. Sigmund Freud (1856/1939) inicia a psicanálise, modificando para sempre os conceitos sobre todo o ser do homem, enquanto Isadora Duncan (1878/1927) revoluciona definitivamente a dança.

No início do século XX, Romain Rolland escreveu Le Théâtre du Peuple, herança do pensamento humanista preocupado com a criação de um teatro popular. Firmin Gémier fundou o Théâtre National Populaire (TNP), em 1920, do qual serão diretores, ao longo dos anos, Jean Vilar e Roger Planchon. Um teatro aberto gratuitamente a todas as classes sociais, com um repertório variado de clássicos a contemporâneos, essa é a ideia bem sucedida do TNP até hoje.

Erwin Piscator (1893/1966) trabalhou no Volksbühne onde foi diretor, seus conceitos de teatro épico introduziram o construtivismo na encenação e influenciaram Brecht. Formado em Ciências Naturais e Literatura, profundamente interessado no seu tempo, Bertolt Brecht (1898/1956) foi o mais completo homem de teatro de sua época; foi ator, diretor, dramaturgo, teórico, poeta e professor, além de ser o criador de uma teoria que transformou por completo a preparação do ator. Criou o estilo épico da arte de representar em oposição ao teatro aristotélico. O pensamento científico e objetivo deveria dominar e pelo efeito de distanciamento, pelo “gestus”, o ator poderia despertar seu público da alienação. Porém, esse despertar era feito também pela música, por atuações perfeitas, por montagens simples embora fossem precisas e pelo riso.

Charles Spencer Chaplin (1889/1977), inglês de nascimento, trabalhou na América do Norte. Iniciou sua carreira num grupo de jovens dançarinos, sua comicidade logo fez sucesso e foi para o music hall. Em 1910, foi para os EUA, onde estreou no cinema de Hollywood, em 1913. Criador de Carlitos, seu personagem marcou um estilo de representação teatral no cinema, com sua habilidade de falar com o corpo, deixando-nos ensinamentos preciosos para a preparação corporal do ator através de seus filmes. Além de ator, foi diretor e compositor de suas trilhas musicais.

Lee Strasberg (1910/1982), que estudou no American Laboratory Theatre com seus mestres Maria Ouspenskaya (1876/1949) e Richard Boleslavski (1889/1937) (alunos de Stanislávski), trouxe definitivamente o “método” aos EUA. A palavra “método” para o sistema de Stanislávski foi por ele definido para o verbete da Enciclopédia Britânica. Criou o Actor’s Studio junto com Stella Adler (1903/1992), atriz e professora, também criadora do Group Theatre no qual desenvolveu, a partir de o “método”, um estilo próprio de preparação de atores incluindo a função social do ator às técnicas de Stanislávski. Nos EUA, sob forte influência de o “método”, dos anos 40 em diante floresceu uma dramaturgia consistente, com personagens ricamente psicologizados de autores como Eugene O’Neill, Clifford Odets e Tennessee Williams. Cuidando da reflexão e da crítica da sociedade americana, destacava-se Arthur Miller, recentemente falecido.

Inúmeras leituras foram feitas por diversos professores, diretores e atores, entretanto, assim como no Brasil, houve uma excessiva psicologização do “método”, tornando a interpretação essencialmente “naturalista”. Contudo, essa “técnica” serviu muito bem ao cinema e à televisão, instituindo o “estilo actor’s studio”, que persiste até hoje, formando atores de todo o mundo.

Os anos 60 deram ênfase a dois conceitos de teatro – o teatro experimental em contraposição aos clássicos e o teatro de criação coletiva, representado pelo Living Theater. Emerge o teatro de protesto contra a guerra novamente.


CONTEMPORANEIDADE

Jerzy Grotowski tem como base para a preparação de atores do seu Teatro Laboratório os exercícios de ritmo de Dullin, o trabalho das ações físicas de Dalcroze, o “método”, a bio-mecânica de Meyerhold e a síntese de Vakhtanghov.

Giorgio Strehler diretor e professor fundou o Piccolo Teatro di Milano junto com Paolo Grassi em 1947. O Piccolo mantém uma escola para atores e um grupo experimental, além de dois elencos fixos. Strehler foi um dos mais importantes diretores brechtianos da Europa.

Dario Fo, ator, diretor e dramaturgo mantém ativa a Commedia dell’Arte como estilo e treinamento do ator, por meio do seu grupo de trabalho, escreveu o Manual Mínimo do Ator. Neste livro foram reunidas aulas e conferências ministradas por ele.

Eugenio Barba, embora seja diretor, se destaca pela incessante pesquisa com seus atores do Odin Theatret e da International School of Theatre Antropology (ISTA). Um viajante incansável, trava diálogo relevante com as culturas dos diversos países por onde passa com seu grupo. Sua formação de consciência do ator volta-se para fora, para sua função social e transformadora da sociedade.

Com sua profusão de atores do mundo todo, Peter Brook vem trabalhando com várias técnicas no Centre International de Créations Théâtrales (CICT) e seus escritos nos remetem tanto a uma análise precisa e lógica da atuação, ao mesmo tempo em que introduz uma psicologia do ator voltada para o autoconhecimento.

Yoshi Oida, ator e professor, trabalhou com Peter Brook em sua incursão no teatro Ocidental. Em seus livros, nos relata seu percurso de um teatro de códigos oriental para um teatro de improvisação ocidental. Reafirma a questão da nacionalidade para o trabalho do ator, por isso, hoje leciona e trabalha em seu país, o Japão. Com Oida aprendemos que atuar pode ser também com simplicidade, transmite a seus alunos a observação dos gestos e a concentração de si.

BRASIL

O teatro de catequese do Padre José de Anchieta certamente formou atores e mantém vivo o gosto pelo teatro entre os padres jesuítas até hoje. Chegaram a representar as tragédias em grego. Porém, o que chama a atenção é a herança da ocupação portuguesa no Brasil que transformou o teatro numa sucursal das suas produções, fazendo com que os atores representassem com sotaque, mesmo depois da Independência. João Caetano dos Santos (1808/1863) foi um ator ainda de sotaque português, porém logo se convenceu da importância do teatro brasileiro. Aprofundou-se no estudo de François Riccoboni (filho de Lelio) que escreveu uma introdução à arte de representar nos moldes do classicismo (L’art du Théâtre). Esse estudo deu origem ao primeiro livro no Brasil para o ator, escrito por um ator, Lições Dramáticas. O ator Vasques, Francisco Correa Vasques, discípulo de João Caetano, um dos nossos mais autênticos bufões, foi um grande ator e agitador de seu tempo. Procópio Ferreira, num volume precioso, escreveu sobre sua vida O Ator Vasques. Procópio Ferreira, ator e estudioso do teatro, foi brilhante no seu tempo. Considerava o ator cômico similar ao dramático em seu livro Arte de Fazer Graça. Para ele é “ter alma de artista é ter dentro de si mesmo um despenhadeiro. É um martirizante despenhar.” [6]

Ator russo, grande intérprete, diretor e professor, Eugenio Kusnet trouxe ao Brasil o “método”, escrevendo Iniciação à Arte Dramática ou Ator e Método como um guia para o ator. Sua interpretação do método leva em conta o estilo altamente psicologizante de análise do personagem, propondo uma total identificação do ator com o papel.

São muitos os estudiosos, mestres e diretores atuais, porém a fim de não omitir nomes e cometer erros deixo de mencioná-los. Se citamos Chaplin, mas não citamos Oscarito, Mazzaropi ou Dercy, é que primeiramente enfocamos atores de teatro que foram mestres, professores. Citamos Chaplin pelo exemplo de expressão corporal que infelizmente não vemos em outros atores. Falar de Brasil também é falar de atores e professores.

Um panorama histórico da arte de representar é impossível, porém uma ordenação dos principais atores e uma pequena visada na contemporaneidade, foram os propósitos desse capítulo. Segundo Décio de Almeida Prado, a arte do ator não pode ser facilmente reduzida a palavra, pois é uma arte muito mais aprendida na prática e por isso são tão poucos os estudos a respeito do assunto, principalmente em nosso país.



[1] TALMA, F.. Mémoires de Lekain. Paris, Chez Ponthieu Libraire au Palais-Royal, 1825, pg. 31
[2] COLE Toby & CHINOY Helen Krich. Actors on Acting.New York, Crown
  Publishers, 1949, pg. 195

[3] BERNHARDT, Sarah. El arte teatral. Buenos Aires, Editorial Schapire, 1946
[4] Ver BARRAULT, Jean-Louis. Nouvelles Réflexions sur le théatre. Paris, Flamarion, 1959

[5] COLE Toby & CHINOY Helen Krich. Actors on Acting.New York, Crown
  Publishers, 1949, pg. 441

[6] FERREIRA, Procópio. Arte de Fazer Graça. RJ, Empreza Brasil Edit. Ltda, 1925, pg. 160


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