sábado, 22 de março de 2014

PEQUENOS ASSASSINATOS

REFERÊNCIAS SOBRE A PEÇA – 16/02/1972
“Um grito de alerta”
“Pequenos Assassinatos” é, sem dúvida, um grito de alerta. Jules Feiffer não pretendeu, com esta peça, dar uma solução ao problema da violência, entretanto, nenhum autor norte americano se aprofundou tanto nos paradoxos da classe média americana, no que se refere ao assunto.
A peça é uma sátira, não porque Feiffer encare o problema como fato humorístico, o que aliás não é, mas porque ele usa a sátira para que o público possa melhor criticar os acontecimentos. O riso é a melhor forma de participação. Como ele próprio diz: “a classe média americana está  enlouquecendo tradicionalmente, pois não consegue sair do labirinto da violência.” Por isso, ele a apresenta através de uma família tradicional e pacífica, que, ao abrir-se o pano, já está, sem perceber, sob a pressão da máquina da violência. Com ela poderemos ver o que irá acontecer se todos, em todos os lugares, não tomarem consciência da necessidade de que a razão e o bom senso dominem o mundo.
A violência, um mal que destrói a sociedade, não nasce com o homem, e não existe por si, a não ser quando a praticamos sob múltiplas maneiras. A violência é fenômeno social, como é a justiça, a política, a economia e não é muito difícil falar nela numa época que conheceu Auschwitz, Hiroshima, Biafra e o Vietnann.
O fato de vivermos ambientados num clima cotidiano de violência, levou-nos ao absurdo de que as perspectivas de uma guerra atômica não nos horrorizam mais.
A história não está regida por deuses ou pela fatalidade, ela, para nosso mal ou nosso bem, é escrita pela nossa própria ação, quer como indivíduos quer como coletividade. Se a verdade tem demonstrado que a violência, debaixo de suas várias formas, não pode ser eliminada da existência social, total ou parcialmente, a única atitude racional consiste em compreender as circunstâncias pelas quais ela se produz e fazermos todos os esforços que estejam ao nosso alcance, para dominá-la. Caso contrário vai acontecer o mesmo que aos seus personagens da peça, na visão final de Feiffer, onde ele nos dá a imagem da agressão já instalada de ambos os lados e o resultado disso é tão nítido que podemos chegar a seguinte conclusão: a violência está destruindo a sociedade, e o que faltou, ao mundo contemporâneo e industrializado, foi um pouco da visão trágica da existência para ter evitado essa explosão violenta que Feiffer retrata tão fielmente.
A família desta peça enlouquece porque não tem condições de sobrevivência. Até determinado instante ela tenta se manter pacífica, resiste a ponto de tornar o seu “habitat” numa fortaleza. Motivada por mais uma série de fatores agressivos perde a razão  e entra no jogo como todos que a cercam, felizes e satisfeitos, alienados.
Os personagens são todos vítimas de uma maneira ou de outra: são, violentamente, envolvidos pelo sistema desumano da vida urbana. A visão final não é uma lição, uma vingança, ou um revide. É sim, um alerta. Não podemos terminar nos destruindo uns aos outros como nos filmes “FAR WEST”. O que é preciso, isso sim, é dar um basta, colocar o raciocínio para funcionar e procurar a gênese da violência, para não sermos alcançados tal como o final da peça. Agride-se porque a moda é agredir, isso é a conclusão da peça de Jules Feiffer. A comédia diverte, mas os tiros incomodam. Indiscutivelmente a peça foi escrita procurando demonstrar que há urgência de soluções para que não haja o caos, e que a vida moderna é uma luta constante pela sobrevivência, o que é tão bem retratado nesta fala da peça: “Eu divido meu dia em etapas. Cem mil etapas. Me levanto de manhã e penso, OK, nenhum atirador furtivo conseguiu me pegar antes do café. Vamos ver se eu consigo dar minha caminhada matinal sem ser castrado. OK, terminei minha caminhada, vamos ver se consigo chegar em casa sem que um tijolo, jogado do último andar do edifício, caia na minha cabeça. OK, estou seguro no hall, vamos ver se eu consigo subir no elevador sem me enfiarem uma faca no lombo. OK, consegui chegar no meu andar, vamos ver agora se, ao abrir a porta, não encontro assaltantes no corredor, OK, já estou no corredor, vamos ver agora se abro a porta e não encontro toda a família esquartejada no living. Cidade amaldiçoada!”
JULES FEIFFER É TALVEZ UM DOS MAIS CONHECIDOS HUMORISTAS AMERICANOS, E SEUS DESENHOS SÃO CONHECIDOS EM TODO MUNDO. Escreveu sua primeira novela “Harry, the rat with women” em 1963. Depois escreveu três peças de teatro: “God Bless“, “The White House Murder Case” e Little Murders”(Pequenos Assassinatos) e seu último trabalho foi roteiro original do filme “Carnal Knowledge” com Mike Nichols, grande sucesso nos Estados Unidos e Europa e que virá ao Brasil com o título de “Ânsia de Amar”. Alguém perguntou a Feiffer porquê ele tinha se dedicado também a escrever peças teatrais e roteiros cinematográficos, já que fazia tanto sucesso com seus cartoons, disse ele – “Primeiro, os cartoons tinham um público relativamente restrito, e segundo os cartoons começaram a ser irrestritamente aceitos pelo grande público, que pensei que estava sendo mal entendido, e então eu me dediquei a formas nas quais poderia ser melhor compreendido, diminuindo assim meu público. Não me peçam para explicar isto.” (ORC)

DECLARAÇÃO (em entrevista) ÚLTIMA HORA - 11/02/1972 
“O filme “Little Murders” exibido recentemente em São Paulo mostra a violência reinante de nossa época, onde os personagens são lineares. Na peça eu pretendo colocar mais humor negro, mais sarcasmo, mostrar mais o problema da violência. Quero deixar bem claro, ao contrário do filme, que a família representa uma classe social, a média, que está enlouquecendo aos poucos, porque é a única que não se manifesta. Sua única preocupação é a sobrevivência. Eu não quero a mensagem olho por olho, dente por dente, mas sim que a peça seja um grito de alerta. O problema é todo mundo tomar consciência do que está acontecendo a nossa volta ou então vamos acabar mesmo, um atirando no outro, para matar. Estou confiante na montagem por se tratar de um problema atualíssimo.”

ENTREVISTA - ÚLTIMA HORA - COLUNA RONDA - A OSWALDO MENDES - 24/03/1972 
“A VIOLÊNCIA ESTÁ AÍ “
Muita gente se diverte com as manchetes sensacionalistas dos jornais “especializados” em crimes, lê com gosto as revistas do gênero, procuram filmes onde a violência impera. E tudo isso lhe parece coisa do outro planeta. Mas, segundo Osmar Rodrigues Cruz, diretor de Pequenos Assassinatos, esse é o perigo, a nossa convivência com a violência, e é esse o foco atingido pela peça de Jules Feiffer: - “Pequenos Assassinatos” mostra o perigo de caminharmos para a violência, individual e coletiva, em tudo. Veja a televisão: de dez programas, seis são filmes que têm mortes, crimes, assassinatos. Para se mostrar que o crime não compensa, usa-se de tantos recursos que acabam tornando o crime simpático. E o pior de tudo isso, o homem se acostumar à violência.
Há quem goste de ficar discutindo se a violência é instintiva no homem ou é fruto do meio onde se vive. Para Osmar a discussão está encerrada, porque ele é dos que definem a violência como resultado de um contexto social, e isso tentará deixar claro no seu espetáculo: - É difícil falar desse problema. Mas se a violência não tem cura, como muitos apregoam, haverá pelo menos um meio de se eliminar um pouco daquilo que a gente vê por aí. Eu procurei não fazer um espetáculo óbvio, querendo tornar claras, coisas que o texto já explicita bem. É um espetáculo realista, apesar do autor usar uma série de elementos que dão a sensação do absurdo.
Pequenos Assassinatos é o retrato da vida de uma família pacífica, respeitadora das instituições, mas que é levada à violência, que se torna um esporte. Depois da morte da filha, a família entra num processo neurótico ainda maior, fecha-se em casa colocando trancas nas portas (para Osmar Rodrigues Cruz, esta é a visão do futuro, formulada pelo autor): - Faço sentir no espetáculo, que a violência vem sempre de fora. Todos na peça são pacíficos e se agridem uns aos outros. A apatia do genro, por exemplo, é também uma forma de violência, e a maior que conheço: a violência do sujeito que se aliena, a violência da não participação.
Osmar Rodrigues Cruz fala ainda do próximo cartaz do Teatro Oficina: - As personagens de “Pequenos Assassinatos” são traçadas dentro de um clima de humor crítico que poucas vezes se vê no teatro. O filme que se fez, baseado na peça e que muita gente assistiu, não era suficientemente engraçado para despertar o espírito crítico do espectador. Por isso acredito que o conteúdo crítico da peça é maior que o do filme.

ENTREVISTA - FOLHA DE SÃO PAULO - A IBANEZ FILHO - 29/03/1972  
Quando alguém nos conta que foi assaltado, roubado, deixado nu na rua, nós não nos admiramos mais. Freqüentemente apenas comentamos de que a cidade à noite, está muito perigosa. Nem mesmo a possibilidade de uma guerra atômica consegue nos assustar. Nós a discutimos como se fosse apenas uma decisão entre outras. Estamos nos acostumando com a violência sem tomarmos consciência do absurdo da situação.

PEQUENOS ASSASSINATOS é a peça mais atual dos últimos tempos. O problema da violência é extremamente contemporâneo e apesar do Feiffer declarar que a peça trata da onda de assassinatos que assolou os Estados Unidos depois da morte de Kennedy e da guerra do Vietnam mesmo para uma pessoa que não conheça estes fatos, mas vive em uma cidade, a peça tem importância. Provavelmente aqueles acontecimentos inspiraram a peça mas ela não faz nenhuma citação explícita deles. Os personagens encaram a violência da forma mais simples possível, embora cada um tenha uma reação diferente. Isso acontece porque o Feiffer escreveu cada um representando uma atitude da burguesia. A filha é pragmática (levanta de manhã com um sorriso que procura manter durante todo o dia apesar de enfrentar situações terríveis); o fotógrafo é niilista e no decorrer da peça se transforma em anarquista que, veja bem, não é político mas uma postura perante a vida. O juiz é o protótipo do conservador enquanto que a mãe representa o sistema matriarcal norte-americano (dirige a casa, faz compras, organiza tudo, etc.) O pai, além de pragmatista, é temeroso e respeitador das instituições. E o reverendo sintetiza todas as correntes existencialistas dos Estados Unidos. O filho é totalmente desajustado como certa parte da juventude classe-média dos EUA. Todos os personagens são cruéis, como é cruel o próprio Feiffer. Por exemplo, o fotógrafo destrói a instituição casamento com sua atitude e diz que a cerimônia foi bonita mas um pouco adocicada. O juiz por sua vez, quando faz a apologia de Deus, mostra um Deus terrível, castigador, que atormentava sua mãe e na verdade seu objetivo alcança um final totalmente diverso: se Deus é tão terrível, terá sentido pedir a sua ajuda?
(in Osmar Rodrigues Cruz - Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)




sexta-feira, 7 de março de 2014

É HOJE


A FALECIDA SENHORA SUA MÃE
"Eu fiz também uma peça no circo da Natália Timberg, mais ou menos por essa época, eu não me lembro a data precisa e nem possuo nenhum registro em jornal, crítica ou programa da peça. O que eu me lembro é que a Natália e o marido fizeram um circo e queriam um espetáculo, um circo bonito, conseguiram patrocínio. Eu estava fazendo “Noites Brancas”, viajando com o Jovelti Arcangelo e a Arlete Montenegro, então convidei os dois para fazer a “A Falecida Senhora Sua Mãe” de George Feydau, uma peça muito engraçada, que não precisava pagar o “avaloir”, então montamos lá no circo, mas a montagem não saiu boa, pois ensaiamos pouco, a peça exigia pessoal de comédia mesmo, e não foi ninguém, também era longe o circo, ficava na periferia. A ideia do circo era para popularizar o teatro, tinha um palco, era bem instalado, mas precisava de dinheiro e não tinha. Ia o pessoal da vizinhança e era uma “baixaria” danada na plateia. Depois que a peça saiu, não soube mais o que aconteceu com o circo." (ORC)
 
 
REFERÊNCIAS SOBRE A PEÇA: É HOJE 
Uma peça para o verão
“É Hoje!...” focaliza o problema da timidez e do relacionamento das pessoas que vivem na grande metrópole. Imagine-se um rapaz tímido, difícil de se comunicar, uma moça estranha, a qual nem o nome se sabe, encontram-se por acaso. Uma vez colocados um diante do outro surge um novo elemento, o cachorrinho.
O autor, ao descrever os personagens coloca como fator fundamental a sua timidez e seu descontrole na maneira de se comportar, nas atitudes e até na voz. Acrescenta ele “percebe-se que, assim mesmo, ele tem muita chance de ser bem sucedido”.
Da mulher o autor insiste em destacar, além da sua solidão, seu medo: “medo de tudo, da cidade, dos outros, da vida...”.
Esses elementos dos caracteres dos personagens foram usados pelos atores como fatores essenciais para conseguirem criar dois personagens de carne e osso, que vivem, sofrem e amam. Procurou-se dar profundidade aos personagens, para colocá-los, em seguida, numa série de situações confusas e embaraçosas, que provocam o riso.
Desta maneira a peça é tratada com realismo e até mesmo intimismo para despertar o interesse do espectador. Se o cômico surgir, melhor, mas neste caso será naturalmente e não forçado, e surgirá da situação criada pelo autor, não será nunca sobreposta, nem forjada através de acréscimos, mais ou menos gratuitos, ao texto que o autor propõe.
A comédia leve americana é sempre um pedaço da vida, apoiada em caracteres que por serem convencionais não deixam nunca de serem reais. Se eles vivem segundo moldes criados por uma sociedade em que vivem e contra a qual são incapazes de reagirem, mesmo sendo esmagados por ela, é porque grande parte da nossa sociedade vive, realmente, segundo critérios estabelecidos e aceitos cegamente. Da revolta tímida, ou da falta de revolta pode surgir a comédia leve. (ORC)
(in Osmar Rodrigues Cruz - Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)


                                                                Na foto Lilian Lemmertz e Luís Gustavo. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Putz no Rio de Janeiro


TRECHO CRÍTICA – TRIBUNA DA IMPRENSA (RJ) – POR FLÁVIO MARINHO – 09/03/1976
Um Putz nem tão absurdo
Segundo Luigi Pirandello – autor sugerido pela leitura de Putz de Murray Schisgal – “não pode haver nenhuma verdade, já que a verdade varia de acordo com o indivíduo e as circunstâncias; não pode haver comunicação, pois as palavras enunciam o que parece ser e não o que realmente é; não pode haver sanidade pois sanidade exige estabilidade, o que não se encontra na condição humana”. Partindo desta proposta básica, parece estar a chave da maioria das respostas às questões apresentadas pelo atual cartaz da Maison de France. Pois é dentro desta perspectiva de mensagens não-definitivas, limitadas pela teoria da relatividade, que o autor monta seu texto. Onde aborda, entre outros temas, o amor, casamento, autopiedade, desespero, suicídio ou homossexualismo. Para isso, concedeu-lhe um tratamento de algum parentesco com o teatro do Absurdo que, no entanto, tem mais a ver com uma comédia humanística de nonsense à la Irmãos Marx. Dentro desta ótica, o amor, por exemplo, não chega a ser definido por Schisgal; ele prefere denunciar o mau uso e o desgaste de tal sentimento nas sociedades tecnológicas que o utilizam como desculpa para insinceridade, desejo físico ou chantagem emocional. Para Schisgal, o importante é mostrar a visão destorcida do amor – vendida em livros ou filmes baratos – que o transformou numa comodidade em vez de uma verdadeira emoção. Dessa forma, o texto se desenvolve por meio de três únicos personagens que simplesmente vão jogando suas idéias, sem se preocupar em coordená-las – e talvez por isso os três dêem a impressão de beirar a insanidade. Mas apenas a impressão, já que, relembrando Pirandello, “não pode haver sanidade, pois sanidade exige estabilidade, o que não se encontra na condição humana”. O maior mérito de Schisgal talvez esteja no fato de que mesmo abordando um tema dramático como a loucura contemporânea enlatada pela sociedade de consumo, Putz consegue se realizar como uma divertida comédia. Nela, Schisgal ironiza os lugares comuns provocados pelo desgaste do amor, goza o self made man americano, o feminismo, além das patéticas situações criadas por ele mesmo. O resultado embora algo pretensioso, senão chega a ser hilariante, pelo menos não nos conduz ao universo dos bocejos.
A competente direção de Osmar Rodrigues Cruz aproveitou o potencial humorístico dos lugares-comuns do texto e partiu para farsa rasgada. Acertou no alvo quanto ao ritmo, no tom exasperado e na limpeza  de desnecessários toques absurdos.(...)
 
 
 
(in Osmar Rodrigues Cruz - Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

PUTZ


Eva , Tatá e Juca falam sobre Osmar, o diretor  (Programa da peça)
Osmar é o típico diretor “Sumerhill” ou seja, o diretor da liberdade sem medo. Ele nos dá a impressão de que, finalmente, pela primeira vez em nossa carreira teatral, temos a possibilidade de fazer artisticamente aquilo que muito bem entendemos. A sua presença carinhosa e paternal nunca interferiu nas verdadeiras batalhas, atritos e xingamentos que constantemente desencadeamos sobre esta ponte (aliás não entendemos como ela ainda se mantém em pé). É provável que tais conflitos tenham provocado efeitos maléficos na sua constituição psico-física, já tão trucidada por persistente hipocondria. Senão vejamos: no início dos ensaios ele se ministrava apenas 4 Cibalenas, 2 Alka-Seltzers, 3 Engovs, meio tubo de descongestionante nasal, uma ampola de Metiocolin com B-12 (aplicação endovenosa), e um comprimido de Arovit por dia. Agora na véspera da estreia, o que ele consumia de medicamentos, não consta nos manuais farmacológicos da maior drogaria da cidade. Estamos desconfiados, de que agravamos um pouco o seu estado de saúde. Como dissemos, a gente tinha a impressão de que estava fazendo o que muito bem entendia. Acontece, porém, que no exato momento em que redigimos estas despretensiosas linhas, nos assaltou o terrível pressentimento de que, pérfida e maquiavelicamente, o homem nos levou a fazer aquilo que ele muito bem entendeu! Conclusão: Somos três crianças conduzidas a esta Ponte, totalmente desamparadas. E queremos deixar bem claro, que, tudo aquilo que vier a ocorrer sobre o palco esta noite, é de inteira e total responsabilidade de Sr. Osmar Rodrigues Cruz. E nesta nossa ciranda, ele nos transmitiu essencialmente uma coisa. Como foi bom nós quatro nos encontrarmos. PUTZ!!!
 
TRECHOS CRÍTICA - JORNAL DA TARDE – POR SÁBATO MAGALDI – 21/01/1971
Putz, novo cartaz do Teatro Aliança Francesa, preenche uma função definida e sem dúvida importante: procura atrair de novo o público arredio, oferecendo-lhe um entretenimento com as necessárias garantias de agrado. Já que não há condições para romper a estrutura que regula atualmente a atividade cênica, esse é um caminho de bom senso acomodado e de eficaz luta pela sobrevivência.
(...) Murray Schisgal, o autor, havia sido mais ambicioso em dois textos anteriores, Os Dactilógrafos e O Tigre. Embora sem acrescentarem  nada ao processo da vanguarda, esses atos únicos assimilam a experiência que vai das sínteses futuristas italianas a Ionesco, encaixando-a na realidade norte-americana. O substrato é a indefectível incomunicabilidade e o desejo de comunicação, num mundo que aliena o homem. Embora estejamos cansados de peças com duas personagens, essas obras, reunidas, num espetáculo, poderiam propiciar um rendimento artístico apreciável.
Putz (Luv, no original) parece uma demissão das propostas anteriores. Schisgal barateia a vanguarda, suaviza o que provocaria atrito. Com as concessões sucessivas na trama, passa-se do absurdo ao inverossímil. E a mecânica do maldito “play-writing”, pelo forçado e pela repetição dos recursos, acaba por cansar. Dentro de todo o artificialismo da história, tranquiliza-se a plateia: o amor do primeiro matrimônio é o verdadeiro, as outras inclinações esvaziam-se no efêmero.
Uma virtude da encenação de Osmar Rodrigues Cruz está em não mistificar a peça, fazendo o que ela é. Outra se refere ao resultado que obtém do elenco. A montagem, em relação aos seus trabalhos anteriores, se mostra mais flexível, aberta, movimentando os atores com liberdade.
(...) Um bem concebido cenário de Túlio Costa ambienta a ação, numa prova de que esse gênero de peça atinge o público pelo cuidado em todos os elementos do espetáculo.
 
 
 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

SHOWS




Aproveito esse espaço para desculpar-me pelo Blog do Victorino que se encontra parado por problemas do Google. Assim que for sanado o problema voltaremos ao ar.
Eugenia Rodrigues Cruz
 
 
 
SHOWS
- Eu dirigi dois shows. O Hilton Viana pediu-me para dirigir um show em que ele dizia poesias e a Inezita Barroso cantava. Ensaiar show é um negócio meio esquisito, eu fazia umas marcas para interpretação dos poemas, mas a Inezita era só a posição com o violão; num dos shows eu pus uma balança e o Hilton declamava em cima de uma balança e ela começava tocando piano e cantando “Róseas flores”. Noutro espetáculo a Inezita começava  entrando pela platéia cantando uma música. Eu fiz uma iluminação, tanto que saiu uma crítica falando bem do espetáculo, do bom gosto que tinha o espetáculo. Era simples mas lotava. Eu fiz esses shows mais por amizade, porque não ganhei nada! Mas foi uma experiência, pena que não encontramos nenhuma crítica, mas o programa de Música e Poesia do Brasil está intacto.
 
 
 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Hans Staden no país da antropofagia

 
TRECHOS CRÍTICA - O ESTADO DE SÃO PAULO – POR SÉRGIO VIOTTI – 20/06/1971
O título Hans Staden no país da antropofagia é enganoso, pois o público, apesar da publicidade dizer tratar-se de uma comédia musical (se bem que seja, na verdade, uma comédia com músicas), poderia imaginar tratar-se de algo bem mais sério do que a realidade comprova. Outro título poderia ser Hans Staden – as experiências sexuais de um luterano em Pindorama. Sem ser nada ofensivo, ele revelaria abertamente a natureza da comédia que Francisco Pereira da Silva escreveu inspirado muito mais naquilo que Staden não deixou documentado, do que na preciosa obra sobre os silvícolas brasileiros no século XVI.
Se pouca coisa é conhecida da vida de Staden, menos ainda sabemos nós a seu respeito. Sou da geração que leu, na infância, as suas peripécias recontadas por Monteiro Lobato, mas nunca tive ocasião de sequer folhear o relato de suas aventuras quatrocentonas (foi aprisionado pelos Tupinambás em 1554!) publicadas com um dos mais longos e deliciosos títulos de que se tem notícia: “Descrição verdadeira de um país de selvagens nus, ferozes e canibais, situado no novo mundo América, desconhecido na terra de Hessen antes e depois do nascimento de Cristo, até que, há dois anos, Hans Staden de Homberg, em Hessen, por sua própria experiência, os conheceu e agora publica, aumentada e melhorada diligentemente pela segunda vez”. Assim, o meu contato com o Hans Staden de Francisco Pereira da Silva foi tão virginal quanto era (em parte) o próprio Staden que se viu envolvido em peripécias e malandrices profundamente contrárias à rigidez de sua formação luterana.
Isto já deve deixar perceber que o nosso Staden é visto mais ou menos pelo prisma daquele caipira ingênuo do filme Uma certa casa em Chicago, não deixando de ser menos divertido por causa disto. Aliás, toda a angulação histórica do seu contato com o Brasil é propositadamente distorcida para nos dar a impressão de que o contato entre colonizadores e silvícolas colonizados era o de um eterno festival proibitivo com sabor picante do que era, antigamente, publicado em inglês, entre capas verdes, por recatadas firmas editoras suíças.
Assim sendo, este Hans Staden visto pela Olympia Press pode ser uma surpresa para os historiadores, e um deleite para os incautos. Usando o adjetivo gozação com respeito positivo, não hesito em aplicá-lo à comédia de Pereira da Silva. Diz o autor que a escreveu em 66, antecipando-se assim ao irromper do tropicalismo entre nós. É, sem a menor dúvida, uma visão tropicalista de um episódio histórico e a montagem procura, de ponta a ponta, sublinhar esta característica (...).
Osmar Rodrigues Cruz não hesitou em aplicar à sua direção solturas e irreverências divertidas. E se há momentos em que a brincadeira fica hesitante é porque a própria estrutura da peça não o ajuda a avançar com a piada colorida. Mas tudo somado é um espetáculo visualmente rico, cheio de humor bem brasileiro, que talvez abra caminho para que voltemos para incidentes históricos e os transformemos em gostosas gargalhadas vividas em um teatro.  
 
 
      

sábado, 4 de janeiro de 2014

A MORENINHA

DIÁRIO DE SÃO PAULO - COLUNA DE ALBERTO D’AVERSA – 17/01/1969
“A Moreninha” (1)
Um jovem amigo meu, desses que fazem questão de praticar a revolução permanente, cuja faixa de alimentos mentais oscila monotonamente entre Sartre-Brecht-Marcuse e alguns produtos caseiros, cuja ação verbal explode durante a atividade gastronômica da classe em restaurantes de metafísica tristeza, agrediu-me, na rua, com uma rajada de perguntas:
-       “Você gostou da “Moreninha?” 
No momento não compreendi, disse distraído:
-       “Qual moreninha?”
-       “A de Osmar.”
-       “Problema dele.”
-       “E seu também e de toda essa crítica caduca e vendida que escreve de teatro.”
Eu poderia ter retificado e entrado na zona das recíprocas xingações; não valia a pena; preferi deixar o meu jovem amigo na ilusão que crítico teatral é venal, corrupto e corruptível na secreta esperança de vir a ter, depois de vários anos de impoluta profissão, concretas propostas monetárias, ou, em casos de compreensíveis pudores da parte empresarial, ofertas de carros ou casas de campos com piscina.
Continuou:
-       “Você viu teatro mais alienado (aparte: notei que esse adjetivo vem sendo usado em proporção direta da alienação de quem o pronuncia; fecho a parêntese) desta “Moreninha”? Nós estamos na face oculta da terra, somos vegetais beócios, o homem está dando voltas ao redor da lua, temos os “Soyuz 4 e 5”, aí, no céu e nós, aqui, estamos fazendo a “Moreninha”, pô!”
-       “Fala com Zé, ele sabe.”
-       “Que Zé?”
-       “Celso.”
-       “Mas o diretor é Osmar.
-       “Mas Celso, que faz Galileu, está na obrigação de ficar na base de lançamento dos foguetes, Osmar pode ficar em órbita. Acontece porém o contrário, não acha?”
-       “Acho nada porque não compreendo.”
Fui obrigado então a fazer um discurso extenso cuja síntese era, mais ou menos, esta:
“Uma sociedade teatral, como qualquer outra sociedade, vive e atua sobre planos diferenciados onde as convenções (ver Eliott – “Civilização e Cultura”) são feitas para serem respeitadas até pelos anti-convencionais que, como é sabido, destruindo uma convenção, automaticamente, criam um novo acordo. Ora, ninguém pode exigir um só tipo de teatro assim como não pode exigir um só tipo de consumo: deve existir um teatro de vanguarda e até um teatro de retaguarda com todos os estágios intermediários: o verdadeiramente importante é que cada um cumpra bem o seu papel, que a vigarice não seja hábito: que o teatro que afirma ser político-social não seja fascista e burguês, que o de vanguarda não seja remastigação de experiências européias de há trinta ou mais anos, que o de comédia saiba fazer rir e assim por diante. Desonesto é prometer champanha e oferecer Coca-cola.
Osmar Rodrigues Cruz, Silveira e Petraglia nos prometeram um musical extraído de “A Moreninha” de Joaquim e, milagre!, nos deram “A Moreninha” de Joaquim: nestes momentos em que o teatro político virou hermético, covarde e oportunista, o de vanguarda renunciou totalmente à inteligência e o melodramático perdeu o conhecimento das regras do jogo e tornou-se um produto híbrido e insulso, produções como esta “Moreninha” consolam pela honestidade das intenções e a eficácia da realização. (cont.)
Uma moreninha necessária (2)
Entre todas as disciplinas parece que a sociologia foi a que herdou o incomodo patrimônio das frases feitas e das convenções arqueológicas condenando regras inevitáveis a frases de folhinhas. Quem não escutou: - cada país tem o governo que merece - ?.. ou, o teatro, o cinema, o futebol, a metalúrgica que merece? etc. – A obviedade da constatação berra altíssimo com voz impostada por dona Maria José de Carvalho: milagre seria, logicamente, o contrário.
Há anos que estamos pregando da necessidade de um teatro comercial dignitosamente realizado, limpamente produzido e sãmente administrado; em todas as artes existe uma produção que faz parte da retórica mais que da poética da mesma arte; no Brasil os produtos da primeira categoria são, por condicionamento histórico, mais numerosos e aceitos que os da segunda, por um Drummond ou um Guimarães Rosa quantos Jorge Amado e Zé Mauro Vasconcelos; por um Vila Lobos e um Santoro quantos Vandré e Tom Jobim: o novo Torquemada poderia fazer uma infinita lista de cassações. Todos compreendem essas evidentes constatações, todos menos a gente de teatro e de cinema. Atualmente qualquer filme nacional de uma certa ambição é feito não mais em função do público mas em função dos vários festivais; qualquer produção de teatro não é mais feita (como queriam Aristóteles e B. Brecht para divertir e produzir prazer) mas para ficar na história do espetáculo mundial; os nossos diretores trabalham agora somente em função da eternidade ou da intemporalidade histórica; montar uma comédia de Abílio, por exemplo, ou de L. C. Muniz é crime de imbecilidade, opera-se somente visando uma internacionalidade vistosa e improdutiva. Todos estão esquecendo Araraquara.
Osmar Rodrigues Cruz é, até agora, o único diretor que, como Paulo Autran, conhece o público ao qual se dirige; conhecimento não determinado por irresistível vocação à mediocridade (como já foi dito) – seu anterior repertório confirma o contrário – mas pelo contato diário com uma massa que vai ao teatro exigindo determinadas satisfações.
Cansei de dizer, mas não é demais repetir: teatro é antes civilização de espetáculo e depois de textos: vale mais um “Milagre de Annie Sullivan” otimamente representado que um “Galileu Galilei” de equívocas significações, vale mais uma “Moreninha” que entretém que um Shakespeare anestésico e soporífero.
Produções como esta “Moreninha” são necessárias por criar as condições de inevitável presença de um público, de educação teatral, de didatismo mínimo e indispensável; se não existem espectadores os gênios não podem fazer os Brecht de moda, as elites desaparecem, o engano não convence mais.
E depois, quem pode afirmar que o produto comercial seja um produto fácil? Esqueceram as direções de “4 em um quarto”, “Os inimigos” e, por exemplo, a recente de “Tudo no jardim”? (continua porque me diverte)
Uma moreninha chamada Marília (3)
Quem nesta “Moreninha“ do Joaquim, adaptada por Miroel Silveira, musicada por Cláudio Petraglia e dirigida por Osmar R. Cruz, espera ver e escutar palavras, situações e ações sobre:
a)     táticas das guerrilhas na América Latina;
b)    posição de Nixon a respeito da Aliança para o Progresso;
c)     o Vietnã como ponto de conflito ou de equilíbrio entre as grandes potências mundiais;
d)    problemas da U.N.E. e da C.B.D.;
e)     reforma agrária;
f)     incesto;
g)    personagens que exercem antropofagia física ou moral;
h)     posição do intelectual brasileiro frente ao Ato Institucional nº 5;
i)      ...e preocupações parecidas...
É melhor que não vá ao Teatro Anchieta porque poderia sair levemente decepcionado.
Quem, pelo contrário, quer passar duas horas de extrema amabilidade, de gostoso divertimento e de repousante descanso, pode ir sem susto porque, além do prometido, poderá encontrar coisas inesperadas de agradável surpresa...
(...) Depois de tudo o que escrevi sobre esse espetáculo acho que, de parte minha, seria retórica burrice louvar a exata e fantástica direção de Osmar Rodrigues Cruz.