domingo, 31 de março de 2013

O AVARENTO

João José Pompeo - Foto: Fredi Klemann


























Trecho de crítica 
Jornal da Tarde – por Sábato Magaldi – 17/01/1966

Muito bem levado Avarento não cobra ingresso.

[...]. O importante trabalho do Teatro Popular do Sesi é que ele oferece espetáculos aos industriários sem concessões à vulgaridade e ao mau gosto. Muita gente ainda pensa que, para interessar aos trabalhadores, não se deve sair da chanchada ou do melodrama. Osmar Rodrigues Cruz, diretor do Grupo, acreditou que poderia proporcionar valor educativo. A fonte escolhida foi a certa: os clássicos, que souberam reunir popularidade e grande arte. Com esse espírito, começou no sábado, no Teatro Maria Della Costa, a carreira de O Avarento, peça de Molière (1622-1673).

[...]. O cenário de Clovis Garcia, baseado em gravuras antigas e plasticamente bonito, poderia retratar melhor uma casa de avarento. Os figurinos de Odilon Nogueira não foram imaginados com o mesmo gosto.


(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)





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sábado, 23 de março de 2013

A SAPATEIRA PRODIGIOSA

Nize Silva




Trechos de crítica 
O Estado de S. Paulo – por Décio de Almeida Prado – 20/06/1965

Continua o Teatro Popular do Sesi na admirável missão a que se voltou. Oferecer ao público as melhores peças do repertório universal, sem nada pedir em troca. Depois de Dostoiévski, Marivaux. Depois de Marivaux, García Lorca – e sempre gratuitamente. Seríamos quase levados a concluir contra a evidência dos fatos: “too good to be true”. A Sapateira Prodigiosa, entretanto, sem desmerecer, baixa de nível em relação a Caprichos do Amor. Não só por culpa dos atores ou da direção, mas do próprio passar dos anos, de Yerma e Bodas de Sangue até A Casa de Bernarda Alba. De qualquer forma, não é difícil reconhecer nesta obra de juventude os grandes temas de todo o seu teatro: o texto, que é de um Lorca ainda imaturo tecnicamente, sem a maestria que foi adquirindo da mulher só, abandonada pelo marido ou solteira, sem proteção todo-poderosa do homem, indispensável material e espiritualmente nas sociedades patriarcais; os desencontros entre marido e mulher; a frivolidade e volubilidade femininas; a honra conjugal, encarada como um valor absoluto; a bisbilhotice típica da vida provinciana (e o próprio Lorca deve ter sentido em torno de sua vida particular com esse coro babujento dos vizinhos que retratou de modo tão cruel nesta sua “farsa violenta”); o choque entre o impulso vital, que leva a “zapaterrilla” a cantar, a namoriscar, a rir, sem ver nisso nada de mal, e as exigências de uma moral particularmente severa no que diz respeito às relações entre os dois sexos. A imagem final que nos fica é a mesma das outras peças: a imagem de uma Espanha dilacerada entre a sensualidade e o puritanismo, ambos igualmente aguçados e dominadores. A maneira da peça é de uma lenda popular, como essas histórias contadas por cegos nas feiras, meio, aliás, de que se serve o “zapatero” para averiguar a fidelidade de sua “zapatera”. Não falta ao enredo, como se vê, nem mesmo o estratagema mais comum em tais narrativas: o marido que volta disfarçado para pôr à prova a honestidade da mulher, injustamente suspeitada. A história da peça é um pouco de uma megera não domada: o homem descobre que a felicidade conjugal consiste afinal em fechar os ouvidos aos mexericos, aceitando a esposa tal como é, agreste e amorosa, leviana e honrada. Ora este enredo propositadamente ingênuo, quase de teatro de títere, não se completa no palco sem uma qualidade esquiva: a poesia. [...]. A direção de Osmar Rodrigues Cruz parece-nos falhar em dois pontos importantes: na compreensão do papel principal e na conjunção do texto com a dança, no final do primeiro ato. Não há dúvida de que a música, o canto, o bailado, podem ser incorporados com vantagem à peça mas seria preciso que houvesse realmente integração dramática e não simples justaposição, como aconteceu. Bonitos o cenário de Clovis Garcia e os figurinos de Campello Neto, dando, em conjunto, aquela sensação extraordinária, ao mesmo tempo de simplicidade e de riqueza de colorido, que é a tonalidade exata para o teatro de García Lorca. O espetáculo que ocupa o Teatro Maria Della Costa, está de resto muito bem cuidado materialmente, podendo ser apresentado, perante qualquer público.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)




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domingo, 17 de março de 2013

CAPRICHOS DO AMOR E DO ACASO







Trechos de crítica
O Estado de S. Paulo – por Décio de Almeida Prado – 15/11/1964
Representar Marivaux em português – não cremos que a ideia tenha alguma vez ocorrido a qualquer de nossas companhias amadoras ou mesmo profissionais. Marivaux com sua fina e sutil dialética do amor, com seus engenhosos “distinguo” sentimentais, liga-se de tal modo ao século XVIII francês que não o imaginamos em outra língua. O Teatro Popular do Sesi ousou fazer a experiência – e não nos desiludiu. Não diremos que se trata de uma revelação: nem a cenografia de Clovis Garcia nem a direção de Osmar Rodrigues Cruz desejam renovar, oferecer uma versão inesperada e perturbadora de uma fisionomia já definida artisticamente. Mas ambos são homens de teatro competentes e de bom senso, que sabem o que estão fazendo, jamais se permitindo a liberdade de passar a terreno em que não possam pisar com toda a segurança.[...]. A peça inclui assim o público na contradança, ao fazer os personagens assumirem no palco a posição de atores ou de espectadores, introduzindo várias representações menores dentro da grande representação que nos é oferecida. Poderíamos imaginar o mesmo enredo em ritmo de “commedia dell’arte”, com uma troca frenética de máscaras entre os atores, não fosse a gravidade, sobre a aparente despreocupação, com que Marivaux trata estas frágeis questões de amor. Fez bem a Aliança Francesa ao acolher no seu agradabilíssimo teatro da Rua General Jardim este espetáculo que não desmerece a cultura de seu país. E melhor ainda andou o Sesi, continuando a prestigiar o “Teatro Popular” que sob a criteriosa direção de Osmar Rodrigues Cruz, vai se firmando cada dia mais dentro do panorama do teatro paulista. Sesi, ninguém ignora, significa Serviço Social da Indústria. Mas ao oferecer gratuitamente a dezenas de milhares de pessoas espetáculos como Caprichos do Amor e do Acaso, está indo além do muito que o seu nome promete, prestando um inestimável serviço social – e cultural – a toda a cidade de São Paulo.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

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segunda-feira, 4 de março de 2013

NOITES BRANCAS



Foto Sérgio Eluf Bertha Zemel e Odlavas Petti














Trechos de Crítica 
O Estado de S. Paulo – por Décio de Almeida Prado – 06/03/1964
Três adaptações quase sucessivas, duas cinematográficas (a russa e a de Visconti) e esta teatral, vem demonstrar que a velha e romântica novela de Dostoiévski ainda tem alguma coisa a revelar ao espectador moderno, ainda que seja, simplesmente, trazer aos seus ouvidos ecos de uma melodia outrora familiar e agora já quase esquecida. Noites Brancas, com efeito, é uma história paradigmática, exemplar, fundindo numa ação simples toda uma série de mitos populares do romantismo em sua face que poderíamos chamar de angélica, em oposição à satânica: o jovem sonhador, solitário e incompreendido, a revelação súbita do amor através da mulher que é a sua alma gêmea, a efusão sentimental, a esperança da felicidade e a separação trágica – o encontro perfeito dera-se demasiado tarde. Tudo parece emanar da magia de algumas noites de primavera, como se as próprias personagens fossem produto do devaneio e o romance de amor não passasse de uma dessas imagens fugidias da felicidade que fabricamos para nós mesmos, sabendo embora que não podem ter qualquer correspondência no mundo real. É uma fantasia típica da adolescência, um sonhar acordado – mas nem por isso menos significativa ou cativante. A encenação do Teatro Popular do Sesi, estreada anteontem no Teatro Maria Della Costa, fica a meio caminho entre o amadorismo, de onde o grupo provém e o profissionalismo, para o qual se dirige. Daí, paradoxalmente, boa parte do seu inegável encanto. Fosse outra a história, menos baseada na força da imaginação, e talvez exigíssemos, do texto e do espetáculo, maior dose de técnica artesanal. Mas o faz-de-conta deste Dostoiévski quase lírico casa-se bem com o caráter por vezes primitivo da encenação, no bom sentido em que a palavra é empregada em pintura, de obra que se comunica a nós pela simplicidade e ingenuidade de tom. Tanto a adaptação de Bertha Zemel como a direção de Osmar Rodrigues Cruz tiveram a sabedoria de não desejarem ser espertas demais, criando uma atmosfera de inocência humana e artística que, sem nos levar a uma realização estética acabada, faz o suficiente para que possamos compreender e sentir o sabor da novela [...]. Cenário de Clovis Garcia, aproveitando com inteligência as soluções mais atuais do teatro moderno.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

O nascimento do Teatro Popular do Sesi (TPS)

Foto de Sérgio Eluf e Cenografia de Clovis Garcia





Trechos de Crítica – A Nação – por Clovis Garcia – 28/09/1963
O Teatro Experimental do Sesi, sob a direção de Osmar Cruz, vem, de forma continuada, realizando um trabalho de divulgação do teatro como forma de culturização dos trabalhadores. As peças escolhidas procuram um equilíbrio entre o nível artístico e a sua acessibilidade por parte de um público que não está habituado ao espetáculo teatral. É uma forma de teatro popular que, se não é comprometido, pelo menos se utiliza honestamente desse meio de expressão artística como força de democratizar a cultura. Agora, com a locação do Teatro Maria Della Costa por um longo prazo, Osmar Cruz pretende desenvolver suas atividades, ampliando sua experiência. E, para essa nova fase, escolheu a peça de Antônio Callado, Cidade Assassinada, escrita para concurso do IV Centenário de São Paulo. A figura histórica de João Ramalho, cercada de lendas e as lutas pelo predomínio no planalto entre a vila fundada por esse desbravador, a antiga Santo André da Borda do Campo e o novo povoado erigido pelos jesuítas em torno do Colégio de São Paulo, são elementos de marcada teatralidade, atingindo mesmo o nível da tragédia, no sentido clássico. Antônio Callado compreendeu essa importância do tema, dando à sua peça um sentido épico e, alterando o fato histórico, fez João Ramalho morrer juntamente com sua vila, para ser respeitada a dimensão trágica. A peça existe em função do personagem central, opondo sua vontade contra tudo e contra todos, até ser destruído pela força do destino. Nesse sentido, Cidade Assassinada atinge o nível clássico da tragédia. O que lhe tira uma força maior é a indecisão entre o épico e o lírico, a intenção de quebrar a tensão com cenas poético-românticas, que resultam numa certa descontinuidade no impacto trágico. Essa descontinuidade mais se acentuou na encenação de Osmar Cruz, que não contava com atores capazes de sustentar as cenas líricas num tom elevado. A concepção geral do espetáculo, porém, está acertada e não temos dúvida de que, com um elenco de maior força dramática, o trabalho do diretor obteria um melhor resultado. Assim mesmo, deve ser louvado o efeito épico conseguido nas cenas centrais, inclusive no segundo quadro do terceiro ato, cuja dramaticidade beira o melodrama, que a habilidade do diretor, auxiliada pelo principal interprete, conseguiu evitar. [...]. Um espetáculo semiprofissional mas que atinge, pelos valores da peça, pela concepção do diretor e pela interpretação do principal ator, um nível superior a muito espetáculo profissional que se apresenta por aí, com muita pretensão.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)







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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A BEATA MARIA DO EGITO




Crítica – Diário de São Paulo – por Oscar Nimitz – 04/07/1961
A Beata Maria do Egito personagem principal da peça do mesmo nome escrita por Rachel de Queiroz, aparece como uma das figuras mais curiosas da nossa dramaturgia. Vinda do seio do povo, é autêntica como ele. O teatro brasileiro atravessa no momento uma fase em que se dá grande ênfase ao “popular”. Emprega-se essas palavras com várias acepções. É popular, no sentido de saborosa observação do povo, o teatro de Suassuna. É popular o teatro de Abílio Pereira de Almeida, que há pouco, na peça Em Moeda Corrente do País mostrou-se capaz de interessar o público por uma situação dramática. São populares, no sentido político, as experiências do Teatro de Arena, culminando com a peça A Semente. Popular, no sentido mais genuíno, é esta Beata, surgindo vestida de freira, e ao mesmo tempo que solta frases piedosas e ergue as mãos em prece, arregimenta peregrinos para guerrear ao lado do Padre Cícero. Misto de santa e de louca, ouvindo vozes que a aproximam de uma doente mental, atormentada pelo desejo de luta e pela pregação religiosa, a beata colhida ao vivo nas pequenas cidades cearenses, demonstra a pujança que pode ter o teatro, cujas raízes repousam de fato no quadro social brasileiro. Maria do Egito, transportada da barca e do barqueiro de Santa Maria Egipcíaca para o Nordeste, surge como a mais autêntica personagem tirada dentre os simples. Calcada na realidade, assume outras dimensões. Representa o próprio espírito do povo. A mistura de religiosidade e superstição, tão comuns em nossa gente, faz de sua pessoa. O misticismo do brasileiro transparece nos quatro únicos personagens da peça; cada um, a seu modo, enfrenta o problema do sobrenatural. O Coronel Chico Lopes, chefe político local, integra-se menos no problema: preocupa-o mais a manutenção do posto. Cabo Lucas representa o homem comum, cuja crença irrompe diante da presença da santa. O Tenente aparece como porta-voz do raciocínio e da razão, o único que procura conhecer a verdade e que, por isso mesmo, acaba sendo destruído. A Beata, famosa pelos milagres, conhecida como agitadora do povo, encarna o fanatismo e todas as consequências deste. Esta figura de mulher presta-se a uma série de análises. Do ângulo psicológico, é a menina enjeitada em casa de religiosos, crescendo sem pai e sem mãe, adotando o dever sagrado como causa única da existência. Mas Maria do Egito vai além da fiel, que assiste à missa e acredita nos mandamentos. Junto com o rosário pode usar o punhal. E fé, para ela, só a fé que envolve seu padrinho, o poderoso Padre Cícero, do Juazeiro, e os estranhos romeiros que o seguem. A Beata pertence ao quadro agitado da época, tanto político como social. Aproxima-se mais de uma combatente. Como diz o tenente em uma de suas falas, propondo admiravelmente o problema: afinal de contas, que é a jovem? Santa? Louca? Mistificadora? Ou a mistura das três? Psiquiatricamente, poderia ser uma doente, paranoide, dominada por ideias de grandeza, com mania religiosa e falta de senso crítico e moral. Entrega-se ao tenente apaixonado antepondo ao corpo aquilo que julga ser a fé, na esperança que a libertem para cumprir a missão. Seu procedimento revela perda das proporções reais dos acontecimentos. Mas ao lado da bem-aventurada ou doida, Maria do Egito é mulher; para o Tenente, só a mulher de tranças compridas, perturbadora, que lhe concede uma noite e depois, misteriosamente, recusa-se a admitir o amor. Acima de tudo, com esta obra Rachel de Queiroz compõe um esplêndido estudo sobre a mentalidade popular, focalizando o prisma religioso com inusitada grandeza e poético vigor. A peça funciona dramaticamente; e é preciso realçar a linguagem, cuidada, literária e ao mesmo tempo, compreensível e coerente. Os diálogos provam que se pode usar a língua corretamente, sem perder o senso popular e as características teatrais. Merece louvou a iniciativa do diretor Osmar Rodrigues Cruz que escolheu a peça para o Teatro Experimental do Sesi. Dentro do nível amador, o espetáculo em si é bastante bom. Salientam-se Wanda Orsi como a Beata, embora lhe falte a transcendência que deve ter o papel; e a sinceridade interpretativa de Ednei Giovenazzi, que apresenta qualidades de ator.

(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

Wanda Orsi e Ednei Giovenazzi

















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domingo, 3 de fevereiro de 2013

A PEQUENA DA PROVÍNCIA

Cenário em dois planos de Francisco Giaccheri












Referências sobre a peça
O Teatro Experimental do Sesi inicia sua terceira temporada. Cada vez nos convencemos mais de que o teatro, quando procuramos realizá-lo bem, encontra por parte do público uma boa acolhida. Disto já tivemos prova aqui, neste mesmo local, com o Fazedor de Chuva. A experiência bem-sucedida encorajou-nos a prosseguir na jornada. O TES foi criado para aqueles que não têm oportunidade de frequentar as nossas casas de espetáculo. A estes é que o Sesi se preocupa em dar, ao lado do seu vasto campo de assistência social, uma parte recreativa e artística, com o objetivo de integrar perfeitamente o trabalhador na sociedade, para que possa desfrutar de todas as suas vantagens. Um dos recursos utilizados é o Teatro. Promovemos perto de quarenta espetáculos de teatro por mês, com grupos dramáticos localizados em comunidades industriarias, realizando aí e nos teatros municipais nossas representações. Da necessidade de criar um grupo do mais alto nível artístico, representando peças inéditas com elenco escolhido, surgiu o TES, e assim se vem orientando. Este novo espetáculo compreende uma das melhores peças do teatro moderno e um de seus maiores autores. A Pequena da Província e Clifford Odets significam para nós um passo mais sério e difícil dentro da nossa empresa. Tanto peça como autor apresentam dificuldades para sua montagem e para aqueles que a assistem. O que hoje apresentamos é um texto sério, sobre problemas humanos e emocionais que nos afligem. Odets é um autor que estrutura seus personagens de maneira subjetiva. Não se pode deixar de notar claramente a influência de Tchekhov, exercida, aliás, sobre quase todos os autores contemporâneos. A Pequena da Província sofreu essa influência, pois nela Odets demonstra seu gosto em desenhar psicologicamente os fracassos e as frustrações dos incapazes de realizar seus sonhos, como é o caso do nosso infeliz Frank Elgin. É um drama de características realísticas e poéticas, é uma história humana, que nos interessa profundamente; apesar de sua “problemática” a ação desenvolve-se com naturalidade. A peça nos convence pelos altos dotes de Odets. Talvez poucos autores demonstraram conhecer minuciosamente o mundo dos pequenos e humildes como ele. Seus personagens têm vida própria na cena, que seu talento lhe dá, através de diálogos vigorosos, dramáticos e às vezes humorísticos. O humor de Odets, pouquíssimas vezes rebuscado ou fictício, surge naturalmente do personagem. Através do amor, da liberdade de expressão e da revolta, seus tipos se transformam – numa conversão, que se assemelha, por intensidade, ao sentimento religioso – o que os leva à completa realização de si mesmos. Este é o característico do movimento de renovação da década de 30, e explica toda a importância de Odets. Ele é um autor realista no sentido moderno, isto é, de um realismo poético; portanto suas cenas devem sugerir uma realidade para formação de um ambiente que determine o desenvolvimento e compreensão da ação da peça. Assim, a situação cenográfica se resume em determinar os momentos exteriores, para facilitar a expressão interior dos personagens. O espaço normal do palco não fornece requisitos para uma montagem de todas as cenas em conjunto, e um cenário sintético ou um cenário de apenas sugestão poderiam fazer com que os personagens se sentissem muito isolados dentro do seu mundo. Por isso escolheu-se a solução da construção das cenas para que a ação material estivesse em plena relação com o mundo interior dos personagens. Parece ser esta a solução mais lógica para as peças do famoso autor. Suas obras necessitam de ambiente, que dê a impressão de que as paredes, se não falam, pelo menos escutam e sentem, e fazem-se sentir aos que dentro delas vivem. Em nenhuma das cenas, a não ser a última, sentimos um pouco de alívio. Nas outras tudo é carregado e tenso. Assim procuramos trazer ao palco todas as intenções do autor. Só nos resta saber se o trabalho, o estudo e o carinho com que nos lançamos na empreitada conseguiram alcançar esse objetivo. Essa foi sempre a finalidade do teatro e principalmente de um teatro comercial. Nossos esforços visaram respeitar e traduzir, dentro de nossas possibilidades, um autor que tanto tem feito pelo Teatro. (ORC)
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)





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