domingo, 14 de julho de 2013

O SANTO MILAGROSO


 
Luiz Parreiras e Nize Silva
Foto: Silvestre Silva




Trecho de crítica – O Estado de S. Paulo
por Ilka Marinho Zanotto – 8/4/1981

Teatro retorna a sua função quase esquecida: divertir

[...]. No TPS, Osmar Rodrigues Cruz, afirma-se como diretor preciso e criativo que explodiu em O Poeta da Vila, confirmou-se em A Falecida e agora dá ao texto de Lauro César Muniz, o tratamento definitivo, ultrapassando de tal maneira as encenações anteriores que é como se somente hoje o verdadeiro Santo Milagroso houvesse vindo à luz. Não há réplica, movimento, intenção (primeira ou segunda), ação ou reação dessa história trepidantemente concebida que não seja explorada até a sua máxima potencialidade. Tudo é forte, fluente e veraz no texto de Lauro César e no espetáculo de Osmar Cruz. Tão vivo e contundente como são perenes os mecanismos de mistificação habilmente explorados por alguns em detrimento de muitos e tão inteligente e bem-humoradamente descritos pelo autor. O fascínio maior do espetáculo decorre da contraposição eficaz de um clima idílico criado a partir da pacatez sonhada de uma vida interiorana perdida nos confins dos tempos e dos lugares, e do movimento acelerado das ambições de todos os naipes que impulsionam a trama.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)






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sexta-feira, 5 de julho de 2013

A FALECIDA




Primeira maquete do cenário de Flávio Império








Parte do elenco com Nelson Rodrigues, em destaque Nize Silva e Osmar



Trecho de crítica – Jornal da Tarde
por Sábato Magaldi – 26/7/1979

O teatro de Nelson Rodrigues, no melhor estilo. Admirável.

[...]. A Falecida é, sem dúvida, a melhor encenação de Osmar Rodrigues Cruz. Formado na escola vinda de Jacques Copeau, segundo a qual o diretor ter por missão servir ao dramaturgo, Osmar poderia ser criticado, ao longo dos anos, por excessiva timidez. Longe de mim advogar para o encenador a audácia que às vezes beira a gratuidade. Mas é importante que o responsável pelo espetáculo que une sob a sua batuta a peça, o elenco, a cenografia e os outros elementos, imprima ao conjunto uma personalidade que não se confunde com as demais. Osmar sempre pareceu temeroso de deixar uma marca pessoal, que outros pudessem julgar como tentativa de sobrepor-se ao autor. Em A Falecida, há absoluta fidelidade ao espírito de Nelson Rodrigues e ao mesmo tempo o espetáculo flui com uma liberdade que é do diretor. Não se falseia uma intenção da obra e há uma linguagem autônoma do palco, inclusive na cena final, em que se fecha a cortina e Tuninho chora, diante dela, enquanto estão projetadas no pano as imagens do enterro de Zulmira. Um efeito do desfecho de Vestido de Noiva se reproduz aqui, sem tornar-se um pálido reflexo, mas encontrando, em termos semelhantes, o universo do dramaturgo. Sente-se, na montagem, o carinho compreensivo do encenador e sua identificação com o texto.
O TPS mostrou, em primeiro lugar, um painel histórico da dramaturgia brasileira, e se volta agora para a produção contemporânea. Não houve propósito, deliberadamente didático, mas um profundo amor pelo teatro nacional, de que, aliás, Osmar Cruz é um dos poucos e reais conhecedores. A nova fase do TPS cria obrigações sérias com a coletividade, a que a escolha de um repertório bom e consequente deve responder, depois do acerto dos nomes de Plínio Marcos e Nelson Rodrigues.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)



























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sábado, 22 de junho de 2013

TPS – O TEATRO DA PAULISTA

Entrada original do TPS

Final do espetáculo com todo elenco

Em destaque Osmar, Plínio Marcos e Procópio Ferreira




TPS – O TEATRO DA PAULISTA - ABRE SUAS PORTAS, NO PRÉDIO DA FIESP EM SÃO PAULO, COM UMA PEÇA DE PLÍNIO MARCOS EM PLENA DITADURA MILITAR NO PAÍS.

Trechos de reportagem – Última Hora
por Oswaldo Mendes – 26/5/1977

O TPS em casa própria
Depois de catorze anos apresentando espetáculos dentro de uma diretriz popular, em vários teatros alugados da cidade, em bairros e cidades do interior, o TPS inaugura a sua tão sonhada casa própria. Um teatro no número 1.313 da Avenida Paulista com capacidade para 453 espectadores, equipamentos modernos e tudo o mais que ofereça à nossa única companhia popular de teatro, [...].

Aprendendo com a prática
Enquanto muitas discussões são alimentadas em torno do que deve caracterizar um teatro popular – discussões que são sempre importantes e necessárias o fato é que o TPS tem preferido exercitar um conceito. Não lhe têm faltado nesses catorze anos, aplausos apaixonados e críticas severas. As críticas, muitas vezes, têm nascido de imperativos muito mais conceituais, exigindo uma postura definida ou definitiva, do sentido popular que o TPS empresta ao seu trabalho.
Mas parece também evidente que, nesses catorze anos, os espetáculos montados pelo TPS têm procurado mais é facilitar o acesso ao teatro de camadas economicamente impossibilitadas de uma frequencia maior aos veículos de formação artística e cultural. Buscando sempre um repertório que se ajustasse ao objetivo de facilitar o acesso popular, dentro de várias faixas etárias, o TPS tem, nos últimos anos, voltado sua atenção para a dramaturgia brasileira, encenando desde França Júnior a Gonçalves Dias, chegando agora ao contemporâneo Plínio Marcos.
Portanto, não parece ser o caso de se cobrar do TPS posturas formais ou conceituais. O seu trabalho tem um sentido que pode, e está sendo útil na quebra de barreiras que, faz tempo, vem impedindo que o teatro consiga falar às plateias mais amplas, e, certamente, mais carentes de informações culturais e artísticas.


O POETA DA VILA E SEUS AMORES

Trechos de crítica – O Estado de S. Paulo
por Ilka Marinho Zanotto – 30/6/1977

Uma festa digna da poesia de Noel Rosa

Para comemorar os quarenta anos da morte de Noel Rosa, Osmar Rodrigues Cruz organizou uma festa digna do Poeta da Vila: inaugurou o ultramoderno e confortável TPS, na Avenida Paulista, com um espetáculo lindo, envolvente e singelo como a própria música do compositor. [...]. O Poeta da Vila e Seus Amores, com altíssima carga de apelo popular, coloca-se como exemplo a contestação àqueles que prejulgam o gosto das plateias e inundam nossos palcos com as pornochanchadas teatrais numa imitação servil das cinematográficas e visando um êxito duvidoso de bilheteria. [...].


O Poeta da Vila agradou ao público e à maioria dos críticos, e recebeu vários prêmios no ano de 1977:

APCA – Melhor Ator – Ewerton de Castro
APCA – Menção EspecialOsmar Rodrigues Cruz, pela inauguração da sede própria do TPS na Avenida Paulista
Molière – Melhor DiretorOsmar Rodrigues Cruz
Molière – Melhor Cenógrafo – Flávio Império


“Esses prêmios foram significativos, mas os aplausos diários, esses sim, premiavam a todos os integrantes do espetáculo.
Com O Poeta da Vila em cartaz, em setembro de 1978, completamos quinze anos. A nossa meta de implantar o teatro popular, trazendo o trabalhador ao teatro, oferecendo um repertório de alto nível nacional e clássico popularizando cada vez mais o teatro brasileiro continuava e nessa luta o caminho percorrido mostrava que a peça brasileira, o clássico adaptado na sua linguagem, fazia sucesso. O repertório do TPS proporcionava a comunicação com o público popular.
Novas atividades foram sendo incluídas, contribuindo ainda mais na formação cultural e artística do trabalhador: às terças-feiras, dia de folga da companhia, oferecíamos um programa de música clássica e popular alternadamente numa semana e noutra. Foi criada uma galeria de arte, próxima ao saguão do teatro, que passou a promover exposições periódicas e o público, antes do espetáculo, tinha acesso às mostras. O público do TPS já ia espontaneamente à bilheteria do teatro retirar os ingressos para assistir às peças e às demais atividades.” (ORC)
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)





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sábado, 15 de junho de 2013

O NOVIÇO
























Trecho de crítica – Jornal da Tarde
por Sábato Magaldi – 6/2/1976

Se O Noviço que o TPS tivesse sido montado nos tempos do TBC, todo o mundo o julgaria de um exagero inconcebível. Hoje em dia é possível pensar que o espetáculo, que por coincidência está em cartaz no mesmo Teatro Brasileiro de Comédia, restabelece o fio da nossa velha farsa, e a esse título deve ser visto com outros olhos.
[...] Osmar Rodrigues Cruz fez uma leitura atual do texto, deslocando para os corredores da plateia o intérprete da personagem que em certa cena é o porta-voz do autor, no seu discurso contra os erros na escolha das profissões. na linha adotada, o espetáculo mostra um eficiente apuro profissional.
[...]. Não há dúvida de que o TPS cumpriu uma elevada missão didática, mesmo se, tendo de falar a muita gente, ele temeu não ser compreendido por meio de outros recursos.
[...]. Pelo que realizou e pelo que promete, o TPS merece todo apoio.


Trecho de crítica – Revista Veja
por Jairo Arco e Flexa – 4/2/1976

[...]. Em seus treze anos de existência, o conjunto profissional do TPS de São Paulo, responsável pela atual montagem de O Noviço, revelou-se de inestimável valia para divulgação dessa arte. Como seus espetáculos são gratuitos, permitiu a um incontável número de pessoas o primeiro contato com o teatro. Além disso, mantendo seus atores sob contrato por longos períodos, o grupo desempenha um papel decisivo no mercado de trabalho dos intérpretes. Em suas encenações, o diretor Osmar Rodrigues Cruz atém-se à saudável máxima de que aos atores convém dar liberdade em cena. Como resultado em uma comédia como O Noviço são os intérpretes mais experimentados que se sobressaem.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

LEONOR DE MENDONÇA



Trechos de crítica – Jornal da Tarde
por Sábato Magaldi – 15/10/1974

Osmar Rodrigues Cruz realiza em Leonor de Mendonça, oferecida de graça, no TBC*, sua encenação mais ousada e por isso mais eficaz artisticamente. Algumas contradições entre o tratamento que ele deu ao desempenho e a linguagem do drama de Gonçalves Dias ainda não estão resolvidas, mas a carreira do espetáculo deve encarregar-se de trazer o tom e o tempo justos.
[...]. Talvez Leonor de Mendonça não represente para o público o mesmo apelo dos cartazes anteriores do TPS. Por outro lado, é possível que a direção do elenco nunca tenha andado tão certa ao escolher, a esta altura do trabalho, a peça de Gonçalves Dias.
Leonor de Mendonça é, de longe, o melhor drama brasileiro do século XIX e um grupo de teatro popular honra a sua missão ao montá-lo para um grande público.

*TBC - Teatro Brasileiro de Comédia

Trechos de crítica – Jornal do Brasil
por Ian Michalski – 5/11/1974

Até que ponto a tragédia romântica de Gonçalves Dias pode ser considerada como matéria-prima adequada para quem se propõe, hoje em dia, a fazer teatro para um público eminentemente popular, como é o caso do TPS? A enorme fila que eu encontrei na porta do teatro, e as notícias que tive da lotação esgotada em todas as sessões, parecem insinuar uma resposta significativa, embora a gratuidade dos ingressos constitua é claro, um fator que não pode ser desprezado.
Para transmitir o conteúdo da tragédia – provavelmente a mais bela e completa de todo o acervo clássico nacional – numa linguagem capaz de ser assimilada por esse público popular, o diretor Osmar Rodrigues Cruz procurou realizar um espetáculo moderno, pelo menos sob dois aspectos importantes: os três personagens centrais foram manifestamente estudados à luz dos conceitos atuais da psicologia, e assumem um comportamento coerente com a tipologia dentro da qual foram enquadrados a partir desses conceitos; o texto está sendo dito pelos atores, na medida do possível, de uma maneira coloquial, sem dar qualquer ênfase ou arrebatamento poético, mas também sem submeter a linguagem do poeta a qualquer adaptação ou atualização.
[...]. Por mais que se possa discutir certas peculiaridades da política cultural do TPS, e mesmo a qualidade das realizações de Osmar Rodrigues Cruz (entre as quais Leonor de Mendonça é certamente uma das melhores), é impossível deixar de reconhecer o resultado que o movimento vem obtendo no seu trabalho de popularização do teatro e conquista de novas plateias. Seu último espetáculo Caiu o Ministério saiu de cartaz com casas cheias, após um ano e meio de carreira. Agora, a obra mais representativa do nosso romantismo teatral será também vista, numa encenação honesta, por milhares de pessoas que sem o TPS dificilmente encontrariam o caminho das bilheterias. Isto já justificaria a iniciativa, que está agora no seu décimo segundo ano de existência, e caminhando para acolher o seu espectador nº 3.000.000.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)


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domingo, 26 de maio de 2013

CAIU O MINISTÉRIO


Elenco todo ao início do espetáculo












Trecho de crítica – O Estado de S. Paulo 
por Clovis Garcia – 18/3/1973

[...]. Um espetáculo do TPS traz à tona toda a problemática do teatro popular, a adequação das encenações a um tipo específico de público, e a dificuldade de encontrar o justo limite de concessões a um tipo específico de público desabituado ao teatro e de nível cultural limitado e até onde se pode chegar para obter a elevação desse nível. Osmar Rodrigues Cruz conhece bem o público a que se dirige e procura obter a justa medida.[...].
A escolha da peça não poderia ser mais feliz, pois está entre as melhores comédias de França Júnior. A sua estrutura cênica garante um bom rendimento, o desfile de personagens, todos numa linha intensamente satírica, mantém o interesse e a comicidade. Apesar do texto ter quase um século de existência, pois estreou em 1882, muito da crítica de costumes e da sátira política permanece válido até hoje. A liberdade adotada pelo diretor, de modernizar alguns diálogos, principalmente com a substituição de termos de gíria, torna o texto ainda bastante comunicativo para uma plateia atual.
A direção de Osmar Rodrigues Cruz enriqueceu o espetáculo com música e coreografia, o que, com a concepção geral da linha de farsa, resulta numa encenação alegre e divertida. [...]. mas todos parecem representar com alegria, como se estivessem se divertindo, o que se transmite ao espectador.


Trecho de crítica – revista Desfile
por Oswaldo Mendes – março/1973

Voltando a ocupar um teatro que sempre gozou a preferência de uma plateia tradicional, se quiserem chamar assim, o Teatro Maria Della Costa, deixando o modesto e fora-de-mão (para o público rotineiro) Teatro de Arte Israelita Brasileiro, o Teatro Popular do Sesi, em São Paulo, prepara-se para comemorar neste 73 o seu décimo ano de atividades profissionais. O diretor Osmar Rodrigues Cruz, que acumulou nesses dez anos a honra de encenar todos os espetáculos do Sesi, escolheu para a comemoração uma peça brasileira do século passado, escrita por um autor de nítidas implicações políticas (advogado e comentarista político no seu tempo): França Júnior. A comédia Caiu o Ministério uma evidente crítica aos nossos costumes políticos das últimas décadas de mil e oitocentos mantém-se ainda hoje como um dos primeiros documentos do início de uma dramaturgia voltada para uma realidade menos particular de hábitos e dramas domésticos. Essa preocupação com o social e o político deu a França Júnior uma posição de importância entre os nossos autores de teatro, e seu nome ficará obrigatoriamente incluído em qualquer história que se escreva de nossa dramaturgia. [...].

(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)





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quarta-feira, 22 de maio de 2013

TPS 10 ANOS!



Um sonho que virou realidade

Há dez anos, neste mesmo teatro um sonho transformou-se em realidade. Um sonho que durava, também, há quase dez anos. Esse sonho era transformar o teatro, que havia dentro do Serviço Social da Indústria, num organismo forte, irradiador de prazer e cultura, enfim um Teatro Popular para uma massa não afeita a esse tipo de manifestação.
Em fins de 1962 apareceram alguns homens de grande visão, homens fundamentalmente da indústria, mas que tinham também a responsabilidade de um Serviço Social.
Pois bem, esses senhores, hoje encabeçados pelo Sr. Theobaldo De Nigris, seus companheiros do Conselho Regional do Sesi, e a Superintendência do Sesi, acreditaram num plano, num trabalho, num ideal e transformaram o Teatro Popular do Sesi, num exemplo de como, sem visar interesses, dar ao trabalhador um pouco daquilo que ele nunca poderia ter por várias questões, principalmente por falta de hábito, de poder aquisitivo (o teatro é um divertimento caro) enfim, por uma vasta série de fatores.
Posso afirmar com a maior satisfação que o Teatro Popular do Sesi sempre mereceu desses senhores, a maior atenção, o carinho de quem vê um filho crescer. Não acredito que haja no mundo exemplos parecidos. No nosso país o caso é segundo me parece, o único.
Depois de dez anos é justo que se saiba, e principalmente, este nosso grande público, que esses senhores são os responsáveis, pois acreditaram em nós, como nós acreditamos neles.
Um dia, na história do nosso teatro, se poderá constatar que alguns senhores, respeitáveis homens de negócios, tornaram realidade um sonho, porque viram que o homem só pode acreditar na vida, no trabalho e no progresso, quando ele se instrui, adquire bons hábitos, e o Teatro é o grande meio. Eles acreditaram e com isso escreveram uma página do Teatro Paulista.
O Teatro Popular do Sesi agradece a todos os que contribuíram para o seu desenvolvimento e sua fixação, desde o humilde servidor até a mais alta administração. Isolados, os homens são uma partícula, unidos formam uma comunidade. (ORC)
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)



Entrevista 1 – Folha da Tarde – coluna “No Teatro”
por Paulo Lara – 11/7/1973

Você tem uma solução para a crise do teatro?
Osmar Rodrigues Cruz é o diretor do Teatro Popular do Sesi desde sua fundação, há dez anos. Seu trabalho de popularização de teatro tem dado significativos resultados. Suas montagens, além de ficarem muitos meses em cartaz, conseguem obter um público sempre acima dos cinquenta mil espectadores. Para provar isso, seu último trabalho encontra-se em cartaz no Maria Della Costa. É a comédia de França Júnior – Caiu o Ministério – que já ultrapassou os trinta mil espectadores e continua sempre com a lotação esgotada. Vejam o que ele tem a dizer sobre a atual crise de público que afeta a maioria dos teatros paulistas.
“A crise pela qual passa o teatro em São Paulo nunca deixou de existir, pelo menos nestes últimos anos: ora mais acentuada, ora menos. Mas, atualmente, essa crise não deixa de ser consequência de uma falta de planejamento no que diz respeito à popularização do teatro. Sendo uma arte cara para o nosso poder aquisitivo, ela deixa de fazer parte do hábito do paulistano e a elite que vai ao teatro, hoje em dia, só comparece àqueles espetáculos que lhe interessa ver. Não é como em certas capitais da Europa ou nos Estados Unidos onde o público assiste a tudo. Um teatro, como é feito aqui, quanto mais tempo passa, mais distanciado vai ficando do grande público.
“O que precisa ser feito é habituar esse público, alheio às casas de espetáculos, a comparecer. Mas como? Através de uma programação a longo prazo, pois a curto prazo tem-se tentado, pelas subvenções, temporadas populares mas que nunca atingem a vinte mil pessoas. Então, está provado que isso não tem alcance nem relevo.
“A necessidade é de se equacionar o problema da crise teatral, realisticamente, a longo prazo, e isso não se pode exigir do empresário que tem que manter uma companhia. O teatro é caro para quem vê e para quem o faz.
“Cabe então, aos poderes públicos, talvez unidos – Prefeitura, Estado e União – amparar o teatro. Uma campanha de popularização seria feita usando: 1) Um repertório nacional de linguagem popular que se comunique de imediato com a massa; 2) Subvenção ampla para que se possa cobrar um quarto do valor do ingresso atualmente; 3) Ampla promoção do teatro, das peças e elenco, junto a essa massa; 4) Paralelamente aos espetáculos, criar estímulos para que o público não veja no teatro uma arte de elite, mas uma manifestação comum: associações, exibições de filmes de peças, exposições e principalmente material didático sobre as apresentações.*
“O teatro tem que ser pedagógico e divertimento ao mesmo tempo – como diz Brecht. Não se pode esquecer nunca que, antes de tudo, ele tem que interessar, fazer o público sentir prazer em estar no teatro. O esquema apresentado pode ser feito por duas, três até seis empresas se revezando entre a Capital e o Interior. O teatro não pode ser um serviço público executado por particulares.
“Para esse esquema, claro que haveria problemas. Um deles: a quem se daria essa tarefa? Concorrência. E quem ficasse de fora resistiria? Essa pergunta foi feita, há mais de seis anos, quando, como membro da Comissão Estadual de Teatro, apresentamos ao então secretário do Governo um plano de popularização. E a resposta dada foi: “Ou se salva o teatro ou tentemos salvar meia dúzia de empresários e o teatro continuará em crise”. É o que está acontencendo. E nem precisa dizer que aquele plano não foi executado. Isso de distribuir uma quantia entre muitos nunca irá resolver esse problema.
“O Sr. Ministro da Educação, mostrou-se interessado em destinar uma soma bastante razoável para solucionar a crise. Se ela for dividida com as empresas do Rio e São Paulo, não vai adiantar nada. E o que é pior: o teatro continuará em crise, pois a solução do problema não está em “subvenção”, mas sim em “popularização”. Quando trezentas mil pessoas forem ao teatro – cinco por cento da população da Capital – não haverá necessidade de subvenções, nem crises, e todos poderão viver bem do teatro. Mas, para isso, é urgente um plano lógico no qual o repertório escolhido atenda, pelo menos inicialmente, às exigências do público. mas o espetáculo popular não pode ser vinculado à exigências estéticas de vanguarda, deve se ater a uma “comunicação” que atinja a maioria do povo”. (continua amanhã)
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)
* grifo nosso




Entrevista 2 – Folha da Tarde – coluna “No Teatro”
por Paulo Lara – 12/3/1973

“É necessária uma intervenção direta no teatro”

“Aos que discordam de uma intervenção direta no teatro, temos a lembrar que a Comissão Estadual de Teatro existe há mais de vinte anos e até hoje não conseguiu solucionar os problemas da crise do teatro, justamente porque as verbas são divididas de tal maneira que, em alguns casos, nem chegam a cobrir a folha dos atores na fase de ensaios.
“Criada uma seleção de qualidade, é dar a esses uma dotação que realmente possibilite que entrem num verdadeiro esquema de popularização. Os que ficaram de fora continuarão reclamando, mas ou se resolve o problema máximo do teatro, ou os menores. E faço minhas as palavras de Jean Vilar, quando lhe foi entregue a direção do Teatro Nacional Popular em Paris: ‘Há uma certa inquietude por uma pretensa concorrência desleal com referência aos preços muito baixos cobrados por nós. Concorrência? Com quem? Não com o teatro. Ao contrário do que acontece muito frequentemente, é que em razão do preço modesto de nossas poltronas, o TNP ganha para o teatro espectadores que não têm meios de conhecê-lo. Uma vez que esses espectadores tenham adquirido o hábito de ir ao teatro, farão, sem dúvida, no futuro, um sacrifício e o teatro se beneficiará com isso‘.*
“Isso de dizer que o teatro está morto é conversa de quem não gosta de sua profissão. O teatro está tão vivo que quando o espetáculo interessa, o público briga para entrar no teatro. O que talvez esteja morta é a vontade de se violentar um pouco e ir até onde o povo espera que o teatro chegue. O estágio artístico-cultural da plateia brasileira exige espetáculos nos quais ele sinta vibrar a sua própria capacidade de entendimento, onde ele possa criticar, discutir, enfim, compreender o que vê. Depois, o teatro tem que aparentar um divertimento que não se assemelhe aos outros meios de comunicação. Só assim ele poderá interessar.
“Resumindo, o problema do teatro seria resolvido com: 1) Repertório condicionado a quem se dirige, porém variado e em evolução constante. O bom autor de teatro sempre é popular. Exemplo: Plínio Marcos e Guarnieri. 2) Artisticamente bem acabado: elenco, montagem, técnica, etc. 3) Preços mais do que acessíveis à massa. 4) Sem problemas de ordem econômica (subvencionado). 5) Popular, comunicação direta, sem falsas pretensões estéticas. 6) Não poderá nunca estar a serviço de vaidades ou ser especificamente pedagógico. Antes, tem que divertir, preencher as horas de lazer. Isso não quer dizer que culturalmente seja de baixo nível. 7) Tem que ser um serviço público, útil, necessário e sem demagogia.
“Não se pode esquecer que o consumidor vai ao teatro depois de horas de trabalho. Há necessidade de fazê-lo relaxar, sentir prazer estético, emocional, tomar conhecimento que aquelas horas foram importantes para seu bem-estar físico e psicológico: esse, podem crer, é mais um conquistado para o teatro.”

* grifo nosso
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)


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