domingo, 17 de março de 2013

CAPRICHOS DO AMOR E DO ACASO







Trechos de crítica
O Estado de S. Paulo – por Décio de Almeida Prado – 15/11/1964
Representar Marivaux em português – não cremos que a ideia tenha alguma vez ocorrido a qualquer de nossas companhias amadoras ou mesmo profissionais. Marivaux com sua fina e sutil dialética do amor, com seus engenhosos “distinguo” sentimentais, liga-se de tal modo ao século XVIII francês que não o imaginamos em outra língua. O Teatro Popular do Sesi ousou fazer a experiência – e não nos desiludiu. Não diremos que se trata de uma revelação: nem a cenografia de Clovis Garcia nem a direção de Osmar Rodrigues Cruz desejam renovar, oferecer uma versão inesperada e perturbadora de uma fisionomia já definida artisticamente. Mas ambos são homens de teatro competentes e de bom senso, que sabem o que estão fazendo, jamais se permitindo a liberdade de passar a terreno em que não possam pisar com toda a segurança.[...]. A peça inclui assim o público na contradança, ao fazer os personagens assumirem no palco a posição de atores ou de espectadores, introduzindo várias representações menores dentro da grande representação que nos é oferecida. Poderíamos imaginar o mesmo enredo em ritmo de “commedia dell’arte”, com uma troca frenética de máscaras entre os atores, não fosse a gravidade, sobre a aparente despreocupação, com que Marivaux trata estas frágeis questões de amor. Fez bem a Aliança Francesa ao acolher no seu agradabilíssimo teatro da Rua General Jardim este espetáculo que não desmerece a cultura de seu país. E melhor ainda andou o Sesi, continuando a prestigiar o “Teatro Popular” que sob a criteriosa direção de Osmar Rodrigues Cruz, vai se firmando cada dia mais dentro do panorama do teatro paulista. Sesi, ninguém ignora, significa Serviço Social da Indústria. Mas ao oferecer gratuitamente a dezenas de milhares de pessoas espetáculos como Caprichos do Amor e do Acaso, está indo além do muito que o seu nome promete, prestando um inestimável serviço social – e cultural – a toda a cidade de São Paulo.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

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segunda-feira, 4 de março de 2013

NOITES BRANCAS



Foto Sérgio Eluf Bertha Zemel e Odlavas Petti














Trechos de Crítica 
O Estado de S. Paulo – por Décio de Almeida Prado – 06/03/1964
Três adaptações quase sucessivas, duas cinematográficas (a russa e a de Visconti) e esta teatral, vem demonstrar que a velha e romântica novela de Dostoiévski ainda tem alguma coisa a revelar ao espectador moderno, ainda que seja, simplesmente, trazer aos seus ouvidos ecos de uma melodia outrora familiar e agora já quase esquecida. Noites Brancas, com efeito, é uma história paradigmática, exemplar, fundindo numa ação simples toda uma série de mitos populares do romantismo em sua face que poderíamos chamar de angélica, em oposição à satânica: o jovem sonhador, solitário e incompreendido, a revelação súbita do amor através da mulher que é a sua alma gêmea, a efusão sentimental, a esperança da felicidade e a separação trágica – o encontro perfeito dera-se demasiado tarde. Tudo parece emanar da magia de algumas noites de primavera, como se as próprias personagens fossem produto do devaneio e o romance de amor não passasse de uma dessas imagens fugidias da felicidade que fabricamos para nós mesmos, sabendo embora que não podem ter qualquer correspondência no mundo real. É uma fantasia típica da adolescência, um sonhar acordado – mas nem por isso menos significativa ou cativante. A encenação do Teatro Popular do Sesi, estreada anteontem no Teatro Maria Della Costa, fica a meio caminho entre o amadorismo, de onde o grupo provém e o profissionalismo, para o qual se dirige. Daí, paradoxalmente, boa parte do seu inegável encanto. Fosse outra a história, menos baseada na força da imaginação, e talvez exigíssemos, do texto e do espetáculo, maior dose de técnica artesanal. Mas o faz-de-conta deste Dostoiévski quase lírico casa-se bem com o caráter por vezes primitivo da encenação, no bom sentido em que a palavra é empregada em pintura, de obra que se comunica a nós pela simplicidade e ingenuidade de tom. Tanto a adaptação de Bertha Zemel como a direção de Osmar Rodrigues Cruz tiveram a sabedoria de não desejarem ser espertas demais, criando uma atmosfera de inocência humana e artística que, sem nos levar a uma realização estética acabada, faz o suficiente para que possamos compreender e sentir o sabor da novela [...]. Cenário de Clovis Garcia, aproveitando com inteligência as soluções mais atuais do teatro moderno.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

O nascimento do Teatro Popular do Sesi (TPS)

Foto de Sérgio Eluf e Cenografia de Clovis Garcia





Trechos de Crítica – A Nação – por Clovis Garcia – 28/09/1963
O Teatro Experimental do Sesi, sob a direção de Osmar Cruz, vem, de forma continuada, realizando um trabalho de divulgação do teatro como forma de culturização dos trabalhadores. As peças escolhidas procuram um equilíbrio entre o nível artístico e a sua acessibilidade por parte de um público que não está habituado ao espetáculo teatral. É uma forma de teatro popular que, se não é comprometido, pelo menos se utiliza honestamente desse meio de expressão artística como força de democratizar a cultura. Agora, com a locação do Teatro Maria Della Costa por um longo prazo, Osmar Cruz pretende desenvolver suas atividades, ampliando sua experiência. E, para essa nova fase, escolheu a peça de Antônio Callado, Cidade Assassinada, escrita para concurso do IV Centenário de São Paulo. A figura histórica de João Ramalho, cercada de lendas e as lutas pelo predomínio no planalto entre a vila fundada por esse desbravador, a antiga Santo André da Borda do Campo e o novo povoado erigido pelos jesuítas em torno do Colégio de São Paulo, são elementos de marcada teatralidade, atingindo mesmo o nível da tragédia, no sentido clássico. Antônio Callado compreendeu essa importância do tema, dando à sua peça um sentido épico e, alterando o fato histórico, fez João Ramalho morrer juntamente com sua vila, para ser respeitada a dimensão trágica. A peça existe em função do personagem central, opondo sua vontade contra tudo e contra todos, até ser destruído pela força do destino. Nesse sentido, Cidade Assassinada atinge o nível clássico da tragédia. O que lhe tira uma força maior é a indecisão entre o épico e o lírico, a intenção de quebrar a tensão com cenas poético-românticas, que resultam numa certa descontinuidade no impacto trágico. Essa descontinuidade mais se acentuou na encenação de Osmar Cruz, que não contava com atores capazes de sustentar as cenas líricas num tom elevado. A concepção geral do espetáculo, porém, está acertada e não temos dúvida de que, com um elenco de maior força dramática, o trabalho do diretor obteria um melhor resultado. Assim mesmo, deve ser louvado o efeito épico conseguido nas cenas centrais, inclusive no segundo quadro do terceiro ato, cuja dramaticidade beira o melodrama, que a habilidade do diretor, auxiliada pelo principal interprete, conseguiu evitar. [...]. Um espetáculo semiprofissional mas que atinge, pelos valores da peça, pela concepção do diretor e pela interpretação do principal ator, um nível superior a muito espetáculo profissional que se apresenta por aí, com muita pretensão.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)







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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A BEATA MARIA DO EGITO




Crítica – Diário de São Paulo – por Oscar Nimitz – 04/07/1961
A Beata Maria do Egito personagem principal da peça do mesmo nome escrita por Rachel de Queiroz, aparece como uma das figuras mais curiosas da nossa dramaturgia. Vinda do seio do povo, é autêntica como ele. O teatro brasileiro atravessa no momento uma fase em que se dá grande ênfase ao “popular”. Emprega-se essas palavras com várias acepções. É popular, no sentido de saborosa observação do povo, o teatro de Suassuna. É popular o teatro de Abílio Pereira de Almeida, que há pouco, na peça Em Moeda Corrente do País mostrou-se capaz de interessar o público por uma situação dramática. São populares, no sentido político, as experiências do Teatro de Arena, culminando com a peça A Semente. Popular, no sentido mais genuíno, é esta Beata, surgindo vestida de freira, e ao mesmo tempo que solta frases piedosas e ergue as mãos em prece, arregimenta peregrinos para guerrear ao lado do Padre Cícero. Misto de santa e de louca, ouvindo vozes que a aproximam de uma doente mental, atormentada pelo desejo de luta e pela pregação religiosa, a beata colhida ao vivo nas pequenas cidades cearenses, demonstra a pujança que pode ter o teatro, cujas raízes repousam de fato no quadro social brasileiro. Maria do Egito, transportada da barca e do barqueiro de Santa Maria Egipcíaca para o Nordeste, surge como a mais autêntica personagem tirada dentre os simples. Calcada na realidade, assume outras dimensões. Representa o próprio espírito do povo. A mistura de religiosidade e superstição, tão comuns em nossa gente, faz de sua pessoa. O misticismo do brasileiro transparece nos quatro únicos personagens da peça; cada um, a seu modo, enfrenta o problema do sobrenatural. O Coronel Chico Lopes, chefe político local, integra-se menos no problema: preocupa-o mais a manutenção do posto. Cabo Lucas representa o homem comum, cuja crença irrompe diante da presença da santa. O Tenente aparece como porta-voz do raciocínio e da razão, o único que procura conhecer a verdade e que, por isso mesmo, acaba sendo destruído. A Beata, famosa pelos milagres, conhecida como agitadora do povo, encarna o fanatismo e todas as consequências deste. Esta figura de mulher presta-se a uma série de análises. Do ângulo psicológico, é a menina enjeitada em casa de religiosos, crescendo sem pai e sem mãe, adotando o dever sagrado como causa única da existência. Mas Maria do Egito vai além da fiel, que assiste à missa e acredita nos mandamentos. Junto com o rosário pode usar o punhal. E fé, para ela, só a fé que envolve seu padrinho, o poderoso Padre Cícero, do Juazeiro, e os estranhos romeiros que o seguem. A Beata pertence ao quadro agitado da época, tanto político como social. Aproxima-se mais de uma combatente. Como diz o tenente em uma de suas falas, propondo admiravelmente o problema: afinal de contas, que é a jovem? Santa? Louca? Mistificadora? Ou a mistura das três? Psiquiatricamente, poderia ser uma doente, paranoide, dominada por ideias de grandeza, com mania religiosa e falta de senso crítico e moral. Entrega-se ao tenente apaixonado antepondo ao corpo aquilo que julga ser a fé, na esperança que a libertem para cumprir a missão. Seu procedimento revela perda das proporções reais dos acontecimentos. Mas ao lado da bem-aventurada ou doida, Maria do Egito é mulher; para o Tenente, só a mulher de tranças compridas, perturbadora, que lhe concede uma noite e depois, misteriosamente, recusa-se a admitir o amor. Acima de tudo, com esta obra Rachel de Queiroz compõe um esplêndido estudo sobre a mentalidade popular, focalizando o prisma religioso com inusitada grandeza e poético vigor. A peça funciona dramaticamente; e é preciso realçar a linguagem, cuidada, literária e ao mesmo tempo, compreensível e coerente. Os diálogos provam que se pode usar a língua corretamente, sem perder o senso popular e as características teatrais. Merece louvou a iniciativa do diretor Osmar Rodrigues Cruz que escolheu a peça para o Teatro Experimental do Sesi. Dentro do nível amador, o espetáculo em si é bastante bom. Salientam-se Wanda Orsi como a Beata, embora lhe falte a transcendência que deve ter o papel; e a sinceridade interpretativa de Ednei Giovenazzi, que apresenta qualidades de ator.

(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)

Wanda Orsi e Ednei Giovenazzi

















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domingo, 3 de fevereiro de 2013

A PEQUENA DA PROVÍNCIA

Cenário em dois planos de Francisco Giaccheri












Referências sobre a peça
O Teatro Experimental do Sesi inicia sua terceira temporada. Cada vez nos convencemos mais de que o teatro, quando procuramos realizá-lo bem, encontra por parte do público uma boa acolhida. Disto já tivemos prova aqui, neste mesmo local, com o Fazedor de Chuva. A experiência bem-sucedida encorajou-nos a prosseguir na jornada. O TES foi criado para aqueles que não têm oportunidade de frequentar as nossas casas de espetáculo. A estes é que o Sesi se preocupa em dar, ao lado do seu vasto campo de assistência social, uma parte recreativa e artística, com o objetivo de integrar perfeitamente o trabalhador na sociedade, para que possa desfrutar de todas as suas vantagens. Um dos recursos utilizados é o Teatro. Promovemos perto de quarenta espetáculos de teatro por mês, com grupos dramáticos localizados em comunidades industriarias, realizando aí e nos teatros municipais nossas representações. Da necessidade de criar um grupo do mais alto nível artístico, representando peças inéditas com elenco escolhido, surgiu o TES, e assim se vem orientando. Este novo espetáculo compreende uma das melhores peças do teatro moderno e um de seus maiores autores. A Pequena da Província e Clifford Odets significam para nós um passo mais sério e difícil dentro da nossa empresa. Tanto peça como autor apresentam dificuldades para sua montagem e para aqueles que a assistem. O que hoje apresentamos é um texto sério, sobre problemas humanos e emocionais que nos afligem. Odets é um autor que estrutura seus personagens de maneira subjetiva. Não se pode deixar de notar claramente a influência de Tchekhov, exercida, aliás, sobre quase todos os autores contemporâneos. A Pequena da Província sofreu essa influência, pois nela Odets demonstra seu gosto em desenhar psicologicamente os fracassos e as frustrações dos incapazes de realizar seus sonhos, como é o caso do nosso infeliz Frank Elgin. É um drama de características realísticas e poéticas, é uma história humana, que nos interessa profundamente; apesar de sua “problemática” a ação desenvolve-se com naturalidade. A peça nos convence pelos altos dotes de Odets. Talvez poucos autores demonstraram conhecer minuciosamente o mundo dos pequenos e humildes como ele. Seus personagens têm vida própria na cena, que seu talento lhe dá, através de diálogos vigorosos, dramáticos e às vezes humorísticos. O humor de Odets, pouquíssimas vezes rebuscado ou fictício, surge naturalmente do personagem. Através do amor, da liberdade de expressão e da revolta, seus tipos se transformam – numa conversão, que se assemelha, por intensidade, ao sentimento religioso – o que os leva à completa realização de si mesmos. Este é o característico do movimento de renovação da década de 30, e explica toda a importância de Odets. Ele é um autor realista no sentido moderno, isto é, de um realismo poético; portanto suas cenas devem sugerir uma realidade para formação de um ambiente que determine o desenvolvimento e compreensão da ação da peça. Assim, a situação cenográfica se resume em determinar os momentos exteriores, para facilitar a expressão interior dos personagens. O espaço normal do palco não fornece requisitos para uma montagem de todas as cenas em conjunto, e um cenário sintético ou um cenário de apenas sugestão poderiam fazer com que os personagens se sentissem muito isolados dentro do seu mundo. Por isso escolheu-se a solução da construção das cenas para que a ação material estivesse em plena relação com o mundo interior dos personagens. Parece ser esta a solução mais lógica para as peças do famoso autor. Suas obras necessitam de ambiente, que dê a impressão de que as paredes, se não falam, pelo menos escutam e sentem, e fazem-se sentir aos que dentro delas vivem. Em nenhuma das cenas, a não ser a última, sentimos um pouco de alívio. Nas outras tudo é carregado e tenso. Assim procuramos trazer ao palco todas as intenções do autor. Só nos resta saber se o trabalho, o estudo e o carinho com que nos lançamos na empreitada conseguiram alcançar esse objetivo. Essa foi sempre a finalidade do teatro e principalmente de um teatro comercial. Nossos esforços visaram respeitar e traduzir, dentro de nossas possibilidades, um autor que tanto tem feito pelo Teatro. (ORC)
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)





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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Fazedor de Chuva

Nize Silva e Ednei Giovenazzi
Foto: Fredi Kleemann



Crítica
Estado de São Paulo, por Décio de Almeida Prado – 02/04/1960
O que há de melhor no espetáculo apresentado durante alguns dias no Municipal pelo teatro Experimental do Sesi (e que provavelmente voltará ainda à cena) é uma certa modéstia de propósitos, uma certa proporção entre fins e meios, entre os objetivos e os resultados efetivamente alcançados. Nenhuma qualidade excepcional em nenhum setor mas uma soma altamente meritória de qualidades medianas. A peça de Richard Nash, que mereceu a honra de ser traduzida por Manuel Bandeira, desenvolve a ideia que é muito constante no moderno teatro americano: a realidade não é suportável se não a recebemos com um pouco de fantasia. Não é preciso que o fazedor de chuva faça realmente chover. Pode ser até um visionário, quase um charlatão (mas o visionário e o charlatão não estarão porventura próximos do poeta e do artista?). Para que as suas extravagantes promessas dêem frutos, basta que, em plena seca, negando a realidade, ele garanta que vai chover, levando-nos por um momento a acreditar na existência de um universo benigno e simpático aos homens. Esse é o mais difícil milagre – que a chuva venha a cair não passa afinal de mais uma prova de que Deus só ajuda aqueles que crêem porque é absurdo. Richard Nash não tem a fantasia de um Giraudoux, nem mesmo a imaginação de um William Saroyan. O seu gosto pelo extraordinário contenta-se, se pensarmos bem, com limites modestos, ajustando-se sem dificuldades às dimensões do palco. Mas revela, não há dúvida, uma certa sabedoria: a de não querer ser mais do que é. Lidando com personagens voluntariamente convencionais, fazendo tudo terminar em casamento, dá à comédia uma tonalidade rósea, de romance de mocinha, que, em vez de diminuir, realça a graça e a simplicidade da fábula que escreveu. Por seu lado, a direção de Osmar Rodrigues Cruz assenta-se sobre aqueles princípios que têm sido a salvação de inúmeros espetáculos de amadores: um texto fácil, comunicativo, à altura dos atores, uma boa distribuição de papéis e, quanto ao mais, sobretudo naturalidade. Dentro desse esquema, a representação indiscutivelmente funciona. Os cenários – de autoria de Francisco Giaccheri – estão cuidados, a marcação é exata, as personagens esboçam-se perante o público com suficiente nitidez, interpretados por Nize Pires da Silva, Ednei Giovenazzi o único desempenho em que transparece o esforço do diretor, Jorge Ferreira da Silva, Alexandre de Almeida, Francisco Curcio (talvez com possibilidades de tentar o profissional), Paulo César da Silva e Francisco Giaccheri. O Teatro Experimental do Sesi não cobra entrada. Dirigindo-se de preferência a operários e comerciários, distribui gratuitamente, com antecedência, todos os ingressos, política que, além de abarrotar o teatro, garante aos seus atores a colaboração de um público extremamente espontâneo em suas reações. Teatro popular, em suma, não no sentido heroico e revolucionário que a palavra assumiu nos últimos quarenta anos, mas no sentido tradicional, de espetáculo que se dirige ao grande público, trazendo ao convívio do palco camadas sociais ainda virgens e inexploradas pelo teatro. Dissemos ou deixamos adivinhar – que o espetáculo não contém nenhum elemento surpresa. Esquecemos um, mais do de surpresa, de genuíno espanto: o fato da peça ter sido proibida para menores de dezoito anos. Não pela censura teatral acrescente-se logo, mas pelo Juizado de Menores, que ultimamente vem se constituindo na verdadeira censura em São Paulo. Ninguém nega a esse órgão o direito e o dever de defender a infância. Mas os senhores que compõem o conselho do Juizado para tais assuntos não podem ignorar que cada cargo, cada função comporta o perigo das deformações profissionais. Se o cachimbo entorta a boca, é bem provável que o lápis vermelho crie a volúpia de cortar, de mutilar os textos alheios. A censura, propriamente dita, já tem bastante idade e bastante experiência para resistir, na maioria das vezes, a tais pruridos. Salvo algumas exceções, o seu critério tem sido o de uma louvável liberdade. Já os assessores do Juizado parecem chegar à lição com toda a paciência do cristão-novo. Não sabemos se se trata de provar autoridade, de ser mais realista do que o rei, ou de demonstrar argúcia. Lá está o texto, o inimigo, com as suas insídias, os seus embustes e emboscadas. Cabe ao censor triunfar sobre ele, desencavando-lhe as malícias ocultas, expondo à luz do sol as suas podridões encobertas e os seus intuitos malignos. No caso do Fazedor de Chuva a tarefa não foi difícil: pois não passa uma moça solteira algumas horas da noite no quarto de um rapaz? É possível imaginar maior imoralidade? É verdade que na peça eles nada fazem além de conversar e se beijar. Mas aí é que está a cilada: e as cenas entre um quadro e outro, entre o princípio e o fim da conversa, omitidos vergonhosamente pelo autor? Haverá coisa mais escabrosa do que semelhante omissão? Ora acontece que, na teoria da literatura, nós críticos, aprendemos humildemente que trecho algum pode ser compreendido fora do seu contexto, inclusive histórico. Cada escola, cada gênero, cada período tem suas regras, seus padrões. O Juizado não estaria talvez errado em suas maliciosas suposições quanto ao que se teria passado a portas fechadas, se Richard Nash fosse um dramaturgo naturalista, não vendo no homem e na mulher senão o macho e a fêmea. Mas a peça não é esse drama. Não somos nós que o afirmamos, é o autor, e no próprio programa do espetáculo, ao aconselhar o encenador: “Não se deve esquecer por um momento sequer que se trata de um romance”; “A este respeito deve haver, sem contudo fugir à realidade, uma espécie de beleza romântica nas relações entre todos os personagens”; “Se o diretor puder ver tudo isto romanticamente – como Lizzie o vê”; etc., etc. Não alegaremos, portanto, em defesa da peça, que Lizzie, na manhã seguinte à famosa noite, não hesita em aceitar a mão de outro homem, sem dar mostras de qualquer perturbação moral (que desavergonhada!, terá concluído o censor). Nem que seu pai sabia que ela lá estava, sem ver qualquer mal nisso (mas que libertino!). Não alegaremos nada, não daremos nenhuma importância a nenhum pormenor deste tipo, porque a peça, toda ela coloca-se voluntariamente em outro plano. O fazedor de chuva, se é que o Juizado não percebeu, não é propriamente um homem, que possa fazer mal às mocinhas. É um mito. É um símbolo da poesia e do lirismo, da vida plena  e confiante. É o grão de loucura necessário a todo homem. Por isso não chega a ter nome, por isso não sabemos de onde vem e para onde vai. O que Lizzie busca ao seu lado não é uma satisfação carnal mas uma satisfação psicológica profunda: ter a certeza – ou a ilusão, se quiserem – de que não é feia, de que pode ser desejada por alguém. O beijo é a prova de sua maturidade como mulher: pela primeira vez ela acredita em si mesma, em sua própria feminilidade. E por que o autor exige que ela se vá, resolutamente, ao quarto do rapaz? Porque o obstáculo a vencer é a má-fé dos outros, são os preconceitos, é o medo, a prudência e a sabedoria excessiva, tudo que nos tolhe e inibe, reduzindo-nos a uma concepção mesquinha, pobre, pouco generosa da vida e das relações humanas. Que a peça haja sido censurada e julgada exatamente por esse tipo de mentalidade seca e puritana que pretende combater – eis o maior paradoxo de todo o episódio. Parece que os milagres de compreensão, os fazedores de chuva, tão frequentes em cena, são bem mais raros aqui fora – principalmente entre os censores.

Programa do espetáculo



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domingo, 20 de janeiro de 2013

A Torre em Concurso













Crítica
Correio Paulistano – por Miroel Silveira – 28/08/1959
A Torre em Concurso
O teatro do Sesi, que há vários anos funciona utilizando diversos grupos cênicos, acaba de constituir um conjunto mais ambicioso, principalmente quanto ao repertório, o “Teatro Experimental do Sesi”, sob a direção de Osmar Rodrigues Cruz. Acabamos de assistir, no Teatro João Caetano, o espetáculo inaugural desse elenco, que apresentou a peça de Joaquim Manuel de Macedo, A Torre em Concurso. O texto, pitoresco conduzido com bastante elegância e graça em seu desenvolvimento, pede uma encenação ambiciosa em seus recursos materiais, pelo menos, coisa com que evidentemente um grupo amador, mesmo subvencionado, por uma entidade como o Sesi, não poderá contar. Assim mesmo, dentro dos limites próprios ao amadorismo, a encenação dispõe de boa qualidade material, embora utilizando cenários e trajes de aluguel. O que vale ressaltar, no entanto, não são esses aspectos exteriores que certamente melhorarão quando o Sesi puder consagrar ao elenco maior apoio financeiro. O interessante é verificar o entusiasmo dos componentes do elenco, não só entre os primeiros atores como também entre os que fazem papéis secundários e até figuração, já que o texto comporta 17 personagens e número apreciável de comparsaria, inclusive uma bandinha provinciana, que dá aos acontecimentos do vilarejo aquela ambientação auditiva tão característica e pitoresca. Não convém destacar nomes, já que se trata de um valioso trabalho de equipe, bastante uno como compreensão geral e como execução, tendo o diretor Osmar Rodrigues Cruz, ainda, obtendo boa dinamização das cenas coletivas, sempre tão difíceis de encontrarem seu ritmo exato.
(in Osmar Rodrigues Cruz Uma Vida no Teatro Hucitec 2001)


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